Coração Indomável
26 Onde Há Fumaça, Há Fogo

JACOB
Passei a noite patrulhando com Seth, Quil e Embry. Depois de horas vagando pela floresta, decidimos fazer uma pausa para descansar na clareira.
"Vamos acampar por aqui como nos velhos tempos." Pedi para eles montarem uma fogueira, enquanto eu sumia por um minuto.
"O que você tá fazendo, cara?" Eles ficaram bastante surpresos quando reapareci trazendo comigo uma mochila com garrafas de cerveja e marshmallows para assar no fogo.
"Isso é sério?" Eles pareciam meio descrentes, porém logo se entusiasmaram.
"É por isso que o Jacob é o nosso melhor líder." Quil puxava o meu saco enquanto abria uma das garrafas e rapidamente bebericava um pouco da bebida.
"Nossa, eu sinto falta de sermos os três mosqueteiros", enfatizei fazendo Embry e Quil trocaram olhares em reconhecimento.
"E eu sou o quê nesse grupo? O D'Artagnan?", o comentário de Seth nos fez rir.
Como não tínhamos espadas, erguemos as nossas garrafas de cerveja e brindamos. A noite já havia caído e tinha um grande luar iluminando o céu. Passamos a beber e assar nossos marshmallows enquanto contávamos piadas, ou reclamávamos por não ter vampiros para caçar.
"Olha só pra vocês, reclamando da falta de ação e não sabem a loucura que é trabalhar na delegacia de Forks." Seth havia se tornado policial como o seu pai e o seu padrasto. "Às vezes, cai uns casos horríveis nas nossas mãos. É quando me dou conta que os monstros não nascem do nosso mundo sobrenatural. Os monstros reais, já existem no mundo dos humanos." Nós paramos para pensar sobre o que ele havia desabafado. E o mais perturbador de tudo, era constatar que o filho de Sue tinha razão.
"Se você tiver precisando de alguma ajuda..." Embry ficou empolgado com a sua nova ideia. "Vamos nos tornar os justiceiros de Forks e caçar uns bandidos comuns!"
"O Charlie ia gostar dessa ideia."
"Já que tá faltando sanguessuga pra gente caçar... por que não chamamos os Cullen?", Embry sugeriu com sarcasmo.
"Eu desmembraria com muito prazer cada pedaço do Emmett, aquele vampiro petulante."
"Quil, você tá parecendo um psicopata." Seth fingiu estar em choque. "Talvez, eu deveria prendê-los por conspirarem contra aquela pobre família."
"O Sargento, você disse Pobre Família?!", indaguei sarcástico. "Eles tão mais para Podres de Ricos."
Se não fôssemos imunes ao álcool, poderíamos dizer que cada bobagem que saía das nossas bocas era tudo culpa da cerveja.
"Mas sabem por que anda um tédio por aqui? Porque tá faltando a Leah...", aquela afirmação de Embry, me pegou totalmente desprevenido. "Ela agitava esse grupo e era verdadeiramente a beleza do bando." Ele olhou para mim. "Desculpe, Jacob... sei que você não gosta..."
"Tá tudo bem." Desviei meu olhar para a fogueira.
Nos últimos anos, Leah Clearwater se tornou um assunto proibido dentro do bando. Eles evitavam falar sobre ela quando eu estava por perto, porque isto sempre gerava brigas.
"Eu também sinto muito falta dela", admiti com o coração apertado de saudade.
Uma década havia se passado e, mesmo assim, não houve um dia ou minuto da minha vida que eu não pensasse nela, se ela estava bem e feliz longe daqui. E, ao mesmo tempo sentia medo de descobrir que Leah conheceu alguém, se apaixonou e que agora até tivesse filhos. A simples ideia disso era assustadora.
O que me confortava era que se Leah tivesse realmente com alguém, Seth ou Sue já teriam soltado a língua.
"Mas e aí, Seth... você tem notícia da sua irmã? Ela não tem vontade de voltar pra La Push?", Quil perguntou e aguçou a minha própria curiosidade.
"Ela parece feliz, conseguiu concluir a faculdade de Medicina e agora é uma médica que trabalha atendendo a população mais humilde e ajuda tribos indígenas. E..." Seth parou fazendo um suspense. "Resolvi investigar as ligações dela e as suas mensagens."
"E conseguiu descobrir alguma coisa?" Isso me animou.
"Eu acho que a Leah está em alguma região da América do Sul."
"Por que você acha isso?"
"Instinto policial." Seth agora parecia um pouco presunçoso. "Ah, da última vez que falei com ela... Leah prometeu que um dia vai voltar... quando concluir a sua missão."
"Que missão?!", Quil e Embry perguntaram em uníssono.
"Ela não me disse."
Agora eu havia ficado muito intrigado.
***/ /***
"Jacob... Jacob... Jacob!" Despertei meio desorientado, ouvindo o meu nome ser chamado, desesperadamente. "Jacob... Jacob... Jacob!" Era uma voz feminina.
Olhei a minha volta percebendo que os garotos continuavam dormindo imperturbáveis e a fogueira já havia se apagado. Por algum motivo estranho, senti um pressentimento ruim e me embrenhei sozinho pela floresta.
De repente vi muita fumaça que se espalhou por todo o lugar. O cheiro era forte, sufocante, quase impossível de respirar e havia muito calor. Nesse momento, vislumbrei animais selvagens tentando fugir, parei para tentar ajudar uma onça-pintada que havia ficado presa por um enorme tronco de árvore. Ela pulou sobre mim e me arranhou antes de desaparecer pela mata que estava em chamas.
O estranho é que comecei a reparar que aqueles animais e a vegetação ao meu redor pareciam muito diferentes da floresta que existia em Washington. No meio desse caos, ainda ouvi gritos assustadores e agoniantes.
"Meu Deus, o que foi que aconteceu aqui?" Tropecei em vários cadáveres humanos que foram deixados pelo caminho.
"Jacob... Jacob!" Naquele momento, reconheci a quem a voz feminina pertencia.
"Leah! Cadê você?! Me diz onde você está?", passei a gritar o seu nome o mais alto possível. "Leah!" Até que a avistei.
Leah agora estava com seus cabelos mais longos, seu olhar feroz e uma postura de guerreira. Logo, ela se transforma na Loba cinza e passa a lutar ferozmente contra cinco sanguessugas malditos e a luta é brutal. Tentei ajudá-la, mas meus esforços se tornam em vão quando mãos ríspidas me arrastam para longe dela.
"Me soltem! Eles vão matá-la!", continuo a gritar, angustiado. "Leah!"
"Jake, se acalma!" Nessa hora abro os meus olhos e me deparo com três rostos com expressões igualmente chocadas e confusas. "Não há nenhum incêndio aqui e nem sanguessuga."
"Mas, eles estavam aqui... lutando contra ela", desabafo ainda sob efeito daquela alucinação.
"Ela quem?", Seth me pergunta.
"A Leah! Ela tava lutando sozinha contra... contra..." Eu estou ofegante. Posso sentir o meu peito subir e descer e meu coração bater desenfreado pela adrenalina e pelo próprio medo. "Eu a vi e ela tava bem aqui. E..." De repente paro e me dou conta de uma coisa muito terrível. "Eles vestiam um manto preto", falei fracamente ao me lembrar de um quadro que havia visto na casa dos Cullens. "Eles pareciam com os... os Volturi!"
"Você tá começando a me assustar." Seth começou a me dar as costas, decidido a voltar para a reserva. "Olha, você deve ter tido um pesadelo."
"Quando foi a última vez que você ou Sue falou com ela?" Joguei Seth contra um tronco de árvore e o segurei pelo colarinho de sua camisa, o impedindo de sair enquanto Quil e Embry tentavam me puxar de cima dele.
"Jake o que é isso?" Assim que Quil e Embry conseguiram me puxar para longe de Seth, um deles percebeu a marca de arranhado em meu braço. Marca perfeita de unhas de um felino enorme.
"Foi uma onça-pintada." A marca era uma das provas de que aquilo tinha sido real.
"Mas isso não faz sentido. Onde você viu uma onça?"
"Vocês conseguem sentir o cheiro de fumaça aqui também?", fiz outra pergunta. O cheiro era real, a marca da onça em meu braço era real, até a sola de meus pés que estavam em carne viva era real. Provas suficiente para pelo menos fazê-los ficar em dúvida.
"Talvez, isso seja uma mera alucinação", um deles continuou a afirmar.
"Então, me explica como eu me machuquei desse jeito?" Os três se entreolharam perplexos. É claro que as feridas logo começaram a cicatrizar.
"Isso tá muito esquisito."
"Eu vou provar que não estou ficando louco." Nesse momento, já estávamos correndo de volta para reserva.
***/ /***
Seth não conseguiu falar com a irmã, pois o telefone só dava na caixa postal. Depois decidimos ir até Sue na esperança de termos uma boa informação. Só que seu filho optou por não expor as nossas preocupações para não assustá-la. A esposa de Charlie ficou carrancuda ao revelar que fazia uns três dias que não conseguia falar com a filha. Mas, que esse tipo de demora para se comunicarem era normal. Afinal, Leah às vezes fazia algumas missões ou trabalhos longe da cidade e de conexões de internet e telefone.
Neste exato momento, meu celular tocou, na tela marcava o número de Carlisle.
"A gente tem que ir, agora!", falei praticamente usando meu tom Alfa.
Rapidamente, eu e os outros três lobos nos dirigimos até a mansão dos Cullens onde Carlisle, Emmett e Esme já nos esperava. Me sentia tenso porque não queria me cruzar nem com Nessie e nem com a Bella. Queria focar toda a minha atenção somente naquilo que importava e, por isso sabia que ambas só acabariam me atrapalhar. No entanto, por sorte nenhuma delas estava.
"Recebi uma ligação de Alice hoje de manhã que me deixou muito preocupado", disse Carlisle com seu rosto sempre inexpressivo. "Alice teve uma nova visão do futuro... Uma visão de uma guerra que, dessa vez... não poderemos impedir." Isso deixou todo mundo tenso e apreensivo.
"Achamos que ao longo desse tempo que Alice, Edward e Jasper estivessem trabalhando para os Volturi, estaríamos livres de uma guerra. Mas, só nos enganamos." A voz de Esme sempre melosa e gentil, escondia um tom de medo e incerteza.
"O que mais a Alice disse?", questionou Seth.
"Que dessa vez, será impossível impedir esta guerra", Carlislie continuou a explicar que o motivo também havia mudado, porque antes Alice previu que o confronto contra a realeza vampírica aconteceria por causa de Renesmee. "Agora a guerra será sobre uma disputa de poder entre irmãos... para ver quem terá o poder absoluto e assumirá o trono sozinho."
"Então, isso não deveria ser problema nosso. Quer dizer, se a briga é pessoal, por que deveríamos nos preocupar?", questionou Quil.
"Cara, você ainda não entendeu?", indagou Emmett. "Mesmo que a briga seja entre Aro e Caius, qualquer outro vampiro acabará ficando no meio do fogo cruzado entre eles. E eles vão nos forçar a escolher um lado."
Pelo o que os três vampiros estavam explicando, a visão de Alice mostrava que o nosso grupo teria que escolher um lado para lutar na possível guerra. E dependendo do lado que escolhêssemos, poderíamos sair derrotados, ou mortos.
"O que me preocupa é que Edward foi enviado com a Guarda Vulturi para o Brasil."
"Por que para o Brasil? O que será que eles querem?"
"Eu sei que Alice parecia com muito medo do futuro que ela viu. Um futuro onde seríamos forçados a lutar... em lados opostos." Depois de Carlisle jogar essa bomba na nossa cara, o grupo se silenciou, brevemente, refletindo sobre toda a situação caótica que, logo, enfrentaríamos.
Naquele instante, sai de perto deles e parei diante de um enorme quadro antigo, que destacava os três irmãos que dividiam a liderança dos Volturi.
"Quem é o cara de cabelos platinados?" Fiz um gesto na direção do quadro quando Carlisle veio parar ao meu lado.
"Seu nome é Caius. O irmão no centro é Aro e o do canto esquerdo é Marcus. Ambos possuem habilidades especiais que os tornam praticamente invencíveis."
"Ninguém é realmente invencível", murmurei friamente. "Todo mundo tem um ponto fraco." Algo me dizia que de todos, o mais perigoso seria Caius. Diferente dos outros vampiros que geralmente carregam no rosto uma inexpressividade de emoções, ele usava uma máscara de superioridade, frieza e elegância para esconder o seu verdadeiro Eu. Para esconder um espírito vingativo e primitivo dentro de um corpo imortal.
"Você tem que matá-lo, Leah! Mate-o... mate-o... mate-o..." Como nos meus pesadelos, a voz do maldito vampiro voltou a me assombrar. Talvez aquele pesadelo com o vampiro e a Leah era um presságio do que ia acontecer na guerra.
"Se a guarda Volturi foi para o Brasil... Então, nós também devemos ir", eu disse começando a matutar um plano.
Se eu conseguisse encontrar os Volturi, consequentemente, encontraria a Leah.
"Você tá maluco!", Emmett me censurou. "Isso é uma missão suicida."
"Emmett tem razão", Carlisle se colocou na minha frente e tentou me fazer mudar de ideia. "Precisamos de um plano primeiro. Além disso, Alice e Jasper já estão retornando para se juntar a nós. Precisamos da ajuda deles pra tomar qualquer deci..."
"Então, vocês podem esperar por eles." Eu o interrompi. "Estou partindo para o Brasil. Agora, quem vem venha comigo?"
"O que você acha que vai fazer no Brasil, Jacob?" Me virei para encarar Bella entrando na sala e nos surpreendendo.
***/ /***
Surpreendentemente, não precisei perder mais tempo discutindo com a Bella. Assim que soltei que seu marido estava no Brasil com a Guarda Volturi, ela ficou preocupada e decidiu não nos impedir. Pelo contrário, a vampira sem hesitar tomou a decisão de partir com a gente para a América do Sul. A princípio tentamos fazê-la mudar de ideia, porém foi ela que mais uma vez me surpreendeu ao nos convencer que a sua habilidade especial (que vinha aperfeiçoado nos últimos anos), seria fundamental para a nossa sobrevivência e êxito.
O pior é que Bella tinha razão. Foi graças a ela por exemplo que eu acabei conhecendo Garrett, um vampiro aventureiro que já tinha feito parte também da Guarda Volturi no passado e era também um piloto de avião. Além disso, o cara já foi um soldado que participou de duas Guerras Mundiais. Ou seja, ele tinha experiência suficiente para nos ajudar numa possível batalha.
Como prevíamos, a viagem foi rápida. Desembarcamos no Brasil, mais precisamente, no Amazonas. A partir dali nossa jornada se tornou mais complicada. O que nos ajudou a se localizar no meio daquele território estrangeira, foi o rádio que Garrett possuía que estava alertando sobre a região onde se encontrava focos de um incêndio florestal. Nesse, instante, meu lobo se tornou inquieto, então deixei que ele me guiasse e mostrasse o caminho certo.
Os três lobos e os três vampiros não tinham escolha, senão confiar em mim. Nós seguimos descendo o rio que estava bastante agitado. Não demorou muito para vermos a mata ao nosso redor em chamas. Assim como naquela visão havia fumaça se espalhando por toda a parte com a ajuda de um vento forte, assim como também podia-se ver os animais de várias espécies correndo desnorteados sem ter aonde ir.
Os gritos de pessoas pedindo socorro se tornaram fortes a cada vez mais que nos embrenhávamos pela selva. E havia o cheiro de humanos se misturando com um outro cheiro que era doce e nojento.
"Os Volturi... Eles já estão aqui", Bella confirmou o que eu já prévia.
Chegamos tarde demais. O sinal de destruição estava por toda a parte, me deparei com aqueles cadáveres que tinha visto em minha visão. Haviam sobreviventes também chorando, ou gritando, ou tentando ajudar como podiam.
"Não. Eu não vou deixá-los vencerem." Foi a última palavra a sair de meus lábios, antes de me perder por aquela terra selvagem e inóspita.
"Jake, espera!" Podia ouvir Bella e Seth seguindo logo atrás de mim, tentando me fazer parar.
Nem mesmo a fumaça intensa e pesada, quase cegando os meus olhos e sufocando meus pulmões, poderia me parar agora. Corri implacavelmente sobre quatro patas e só parei quando os malditos sanguessugas apareceram na minha linha de visão, eram dois, um brutamontes maior que Emmett e um pequeno e jovem. Abruptamente, senti algo se chocar contra mim me derrubando. Ergo meus olhos para me deparar com outro vampiro de cabelos ruivos espetados, com sua fase demoníaca e seus olhos de escarlate me encarando. Não perco meu tempo tentando confrontá-lo, pois a poucos metros de mim posso ouvir um uivo raivoso e cheio de pesar.
Imediatamente, reconheço aquele som e, logo, avisto a Lobo cinza pronta para entrar em confronto contra uma sanguessuga fêmea. Tento correr até elas, mas minhas patas são paralisadas e, de repente não consigo me mexer. Eu luto para me mover, contudo, o esforço é em vão e aquilo me causa dor. Olho para minha direita e vejo o vampiro jovem me olhando com um sorriso sádico, não consigo lutar contra o seu poder psíquico.
"Solta ele, Alec!", ouço Bella rosnar para o garoto sanguessuga. É quando ele para e se vira para encará-la e os dois entram em confronto, Embry aparece para ajudá-la.
Nesse momento, constato que Emmett, Garrett e Quil também estão numa luta complicada com os outros Volturi. Retorno a minha atenção para Leah.
"Se você ainda quer uma chance de sobreviver... sugiro que me leve até o filho bastardo de Caius!", a vampira com ar de garota mimada, continua a confrontar Leah.
"Prefiro morrer!" Leah já não está mais em forma de loba, ela grunhi caída e abatida no chão, mas não se rende.
"Desejo realizado!", a vampira enfatiza pronta para dar o golpe final.
Fale com o autor