Notas iniciais
Eu dedico este capítulo a Juliana Treviano. Brigada pelos comentarios.

LEAH

Jacob saiu das sombras e venho caminhando em minha direção. Eu me encolhi no chão, tentando proteger o meu corpo que estava completamente nu.

"Ei, não fica com medo. Eu vou cuidar de você, assim como você cuidou de mim."

"Saia daqui! Você chegou tarde demais", reclamei nervosa, só que o garoto me ignorou e continuou o seu caminho até mim.

Jacob me entregou um vestido e depois ficou de costas para mim. Mesmo assim me vesti apressadamente, sem tirar os olhos dele.

"Eu sinto muito. Gostaria que não houvesse dor. Eu sei como é a sensação." Jacob se vira para mim e nossos olhos se cruzaram. "Tenho certeza que o tio Harry se transformou numa linda estrela cintilante ao lado da minha mãe, a nossa Estrela Guia." Ele me deu seu sorriso iluminado, era o mesmo sorriso de Sarah.

De repente me vi olhando para o céu em busca de algum sinal, entretanto aquela noite estava sem estrelas. Foi quando senti seus braços fortes me puxarem num abraço apertado. Eu não tive força de lutar contra ele, pois estava tão cansada.

"Shhh... Vai ficar tudo bem." Jake passou suas mãos pelos meus cabelos e me disse palavras reconfortantes. "Eu estou aqui e eu sempre vou estar. Não importa o que aconteça." Fechei meus olhos e deixei que ele me consolasse com o seu toque e carinho.

Em algum momento, eu adormeci em seus braços e dormi um sono sem sonhos.

Quem me dera eu pudesse ter ficado perdida naquele momento na floresta, sem dor, tristeza, ódio e incertezas. Entretanto, o amanhã chegou e eu me vi presa a uma realidade cruel e sobrenatural, sem chance de escape.

Vi meus planos e sonhos serem destruídos num piscar de olhos, vítimas de uma maldita magia estúpida. Contudo, fui obrigada a encarar a realidade nua e crua. Isso pode parecer clichê, mas era a minha realidade.

Agora havia um animal vivendo dentro de mim que eu não podia renegar. A loba invencível que me fez, por um instante, experimentar a sensação de estar livre e ser indomável, agora era o que também me mantinha presa aqui.

Eu escutava atentamente tudo o que eles diziam, tentando processar todas as informações: As lendas eram reais. Os jovens da tribo possuem em seu sangue o gene lupino que só entra em ação quando vampiros começam a aparecer em nossas terras.

Leah Clearwater agora fazia parte de uma alcateia de lobos que agiam como os Protetores de La Push. E eu era a única fêmea da matilha.

Eu comecei a rir porque era tudo muito surreal e até ridículo. Os anciões, obviamente, não gostaram da minha atitude para com suas crenças e magias.

"Isso tudo é ridículo! Eu estou predestinada a ficar presa aqui, com um bando de garotos, tentando proteger La Push de uma ameaça vampírica?", bufei irritada.

"Leah, você é especial. Tem o poder correndo em suas veias. Você precisa vê-la como um dom e não uma maldição", disse Velho Quil em seu tom ponderado.

"Isso é muito sério, a ameaça é real e as mortes estão acontecendo de verdade. Jovens com sonhos iguais aos seus, tiveram suas vidas arrancadas brutalmente", continuou a explicar Billy se aproximando de mim e pegando minha mão. "Filha, eu sei que isso tudo é difícil, mas você não está sozinha." Desviei meu olhar para os garotos da matilha que estavam ali em silêncio.

Eles eram apenas adolescentes que, repentinamente, foram obrigados a amadurecerem. Eles se desenvolveram muito rápido, como um surto de crescimento frenético. Mas não era algo só físico, era muito mais profundo, emocional e, talvez... espiritual também.

Cada um tinha uma expressão diferente: Jake, Embry e Quil tinham um sorriso simpático, Jared parecia frustrado e desconfortável, Paul tem sua habitual postura petulante e Seth...

Era difícil olhar para o meu irmão, ele só tem 14 anos, é só um menino cheio de sonhos e hoje o seu olhar estava triste. Ele me deu um sorriso fraco que eu não consegui retribuir.

"Seu pai foi uma das vítimas", Paul resolveu me revelar.

"O quê?" Eu senti meu corpo tremer enquanto Seth rosnou furioso.

"Paul, fique quieto! Eles ainda não estão prontos." Mas, Sam o interrompeu, tentando agir como o líder do grupo.

"Não, eu quero saber!", Seth retrucou todo agitado. "Nós temos o direito de saber o que aconteceu com o meu... pai." Meu irmão começou a tremer. Eu também já estava a ponto de explodir.

"Acalme-se, Seth!" Jacob resolveu interferir. "Você tem razão. Vocês tem o direito de saber." Ele travou seu olhar em Sam. "Harry sofreu um ataque cardíaco, causado por uma vampira. Mas, nós vamos pegá-la. Podemos fazer isso juntos", afirmou tentando nos encorajar.

"Não! Eles ainda não estão prontos. Isso não vai se tornar uma vingança pessoal", Sam discordou, olhando para mim. Só de ouvir a voz dele, meu sangue ferveu. "Lee-Lee, eu sei que vocês estão sofrendo, mas..."

"Para de me chamar assim!", esbravejei. "Nunca mais me chame assim!"

"Se controle!" Ele deu a ordem Alfa, me fazendo sentir como uma fera domada e a sensação é horrível.

"Não me toque!" Eu olhei para meu ex-noivo com ódio, antes que ele tentasse alguma aproximação.

"Eu sinto muito." Sam pareceu ter ficado magoado. "Eu só quero que você entenda... que não sou seu inimigo. Nenhum de nós é. E você vai precisar aprender a se controlar, ou..."

"Pra não machucar ninguém... como você machucou a Emily?" Eu o interrompi, sabendo que havia atingido um nervo. "Nossa, coitada da Emily com aquela cicatriz feia na cara!" Sei que estava sendo muito cruel.

"Pare! Você não sabe nada!" Imediatamente, seu corpo enrijeceu e seu olhar ficou sombrio. "Eu nunca quis machucá-la. Eu a amo!"

"EU A AMO." Quando ouvi aquelas palavras, senti uma dor me queimando por dentro. A dor da traição.

"Sam, vai ver a Emily. Você só vai piorar as coisas aqui." Velho Quil teve que intervir. Ao simples nome dela e a expressão de Sam se suavizou.

Sabe como eu me senti olhando para ele agora? Como uma pessoa insignificante. O que mais doeu é que, talvez, aquele cara nunca tenha me amado. Suas promessas foram falsas, assim como seus beijos e seus toques. E isso dói tanto.

Depois de toda a palestra sobre lobos e vampiros e etc... nós voltamos para casa em silêncio.

Estar em casa era mais difícil, porque cada canto desse lugar me fazia se lembrar de Harry. Quando eu fechava os olhos, ainda podia ouvir sua voz, ou sua risada contagiante. E ainda tinha o Seth que era a cara do pai. Enfim, agora só ficou as lembranças e a saudade.

Após toda aquela noite que quase parecia sem fim, fui tomar um banho demorado. Deixei a água fria cair sobre minha pele febril, enquanto minha mente viajava para os últimos acontecimentos.

Agora sou uma loba cinza, meu corpo mudou e minhas emoções estão em constante conflito. Sinto-me sendo arrastada para esse abismo negro que virou a minha vida agora.

Quando olho para o meu reflexo no espelho, não consigo mais me reconhecer, os olhos não possuem o mesmo brilho, os lábios não possuem mais os traços de um sorriso. Agora sou uma nova garota com cabelos curtos na altura do queixo, um corpo mais resistente. Por fora ainda pareço bonita e sedutora, mas por dentro me sinto vazia.

"Droga!" Frustrada eu dou um soco no espelho o fazendo trincar e quebrar.

Agora o espelho criou uma imagem distorcida do meu rosto que me faz se lembrar de Emily e sua cicatriz.

Dizem que toda vez que Sam olha para Emily, ele sente culpa e sofre por ela. Mas, e enquanto a minha cicatriz, aquela que carrego no coração? Será que o Alfa também pode sentir a minha dor?




***/ /***



As próximas semanas passei a fazer patrulha com a matilha. A situação era bem desconfortável. Bom, eu aprendi que tenho que me controlar para não explodir nas minha roupas, ou vou ficar sem nenhuma. E preciso cuidar para não me expor na frente dos caras, afinal, sou a única fêmea do bando e isso é tão bizarro.

A melhor coisa de ser um lobo é a velocidade que nos dá aquela sensação de liberdade. Seth na sua segunda vez já estava todo animado, correndo como um filhote que está aprendendo a andar pela primeira vez. Foi divertido e isto até me fez sorrir, por um minuto. Até que me vi presa na mente de Sam que estava pensando em Emily.

"Eu amo tudo em você, Emily... Até a sua cicatriz." Uma imagem vem em sua mente. Ela estava chorando e ele beijou as suas lágrimas. Isso me perturbou muito.

"Eu amo tudo em você, Lee-Lee... Até os seus defeitos." A memória piscou em minha mente e eu não consegui escondê-la.

Essa era a parte mais difícil de ser um lobo — a ligação telepática.

Estar presa na mente de cada um deles era horrível. Até certo ponto, eu tentava bloquear, mas o Alfa não gostava porque os lobos tinham que estar constantemente conectados.

Mas no fundo eu achava que era apenas uma forma de Sam me controlar.

"Pare com isso!", gritei quando já estávamos na forma humana e devidamente vestidos. Tentei seguir o meu rumo e ficar longe dele.

"Leah!" Entretanto, Sam usou o seu poder de Alfa, me obrigando a parar e ouvi-lo. "Eu sinto muito que as coisas tenham ficado meio complicadas. Você pode achar que eu quero lhe causar dor, mas..."

"Mas o quê, Sam? Nada que você me disser vai mudar as coisas entre nós. Eu quero esquecer você!", o confrontei sem pestanejar. "Eu quero apagar você da minha mente e do meu coração."

Abruptamente, ele me puxou para seus braços e me beijou. Eu tentei lutar contra Sam, mas sem sucesso. Logo, sua língua invadiu minha boca, desesperadamente. Queria ser mais forte e resistir, porém acabei o correspondendo com um beijo intenso. Minhas mãos subiram para seu pescoço, colando nossos corpos.

Só por um momento, ficamos ali presos nos braços um do outro. Até que, inesperadamente, o beijo é interrompido. Quando olhei para Sam eu vi a sua dor.

"Sam, o quê você tem?" Eu tentei me aproximar dele.

"Não se aproxime... ou só vai causar mais dor." Ele estava chorando. "Eu tentei lutar contra isso, Leah... Mas, quanto mais eu luto, mais me machuco e machuco a Emily."

Então, eu entendi. O imprinting era mais forte e é inquebrável.

"Eu não posso lutar contra o imprinting. Isso... isso quase custou a vida dela. E, eu também não posso... te arrastar junto comigo nisso."

"Certo. Então, tá esperando o quê? Volte para Emily, Sam." Meu tom é irônico.

"Eu sinto muito, Leah." Ele me deu as costas e correu para vila.

Eu fiquei lá sozinha, perdida em pensamento, sentindo a dor da rejeição. Rejeição que se transformou em fúria. Então, voltei para a floresta, tirei minhas roupas e deixei a magia me dominar. Logo, minha mente é invadida por Jared e Paul.

"Ai droga!" Eu tinha esquecido deles.

Entretanto, não houve tempo para discussões. Paul havia rastreado uma vampira. Eu disparei na direção deles, corri mais do que minhas patas pudessem aguentar, estava determinada a ir até o fim do mundo para caçá-la.

Eu iria fazê-la pagar por tirar meu pai de mim e queria sentir o prazer de arrancar a cabeça dela.

"Eu estou quase lá. Eu vou trazê-la pra você, Leah", Paul disse decidido.

O lobo prata escuro se preparou e saltou para cima dela, só que Paul acabou se chocando contra outro vampiro. Os desgraçados dos Cullen cruzaram nosso caminho e, no fim das contas, a maldita sanguessuga, fugiu.

Consequentemente, Paul se estranhou com o vampiro grandalhão. Só não se confrontaram por causa do maldito tratado.

"Eles não fazem as coisas direito e nós é que temos que limpar a sujeira deles."

"O que você quer dizer com isto?", inquiri confusa.

"O Cullen, o namoradinho da Bella, matou o parceiro da sanguessuga. E agora ela quer se vingar", dessa vez foi Jared quem me respondeu.

"A sanguessuga ruiva quer matar a Bella: É tipo um parceiro por um parceiro", Paul continuou a me explicar.

Naquela mesma noite, o Alfa reuniu todos os lobos. Ele estava irritado com os tais vampiros vegetarianos. No fundo, todos nós gostaríamos que não houvesse tratado nenhum, pois independentemente de matarem ou não pessoas, os Cullen continuam sendo nossos inimigos. Por culpa deles os protetores tiveram que ressurgir. Sem eles por perto as coisas seriam normais.

Os vampiros não são apenas seres sem almas, são seres extremamente egoístas. Enquanto, eles fingem ser normais se misturando com os humanos, nós somos obrigados a nos esconder, como se fôssemos assassinos ou algo do tipo.

Isso é tão injusto!

Os lobos começaram a discutir qual seria o próximo passo com relação aos Cullen e a vampira. Eu ficava tentando absorver as informações importantes, até que o clima se tornou mais tenso. A discussão tomou um outro rumo.

O Alfa e o Black estavam discutindo sobre Bella. Jacob estava furioso. Ele queria arranjar uma forma de quebrar o tratado.

"Nós não podemos passar por cima dos nossos antepassados." O Alfa deixou isso bem claro para todos.

"Eles vão transformá-la em um ser imortal. Tem que haver uma forma de impedir isso?", Jacob rosnou furioso.

"É muito simples, vamos jogá-la do penhasco de novo... Quem sabe, assim, ela reencontre seu cérebro", o comentário sarcástico de Paul fez os garotos rirem, com exceção de Black.

"Você não sabe qual foi a sensação de vê-la quase morrer nos meus braços."

De repente, novas imagens são compartilhadas por sua mente. Eu vejo Jacob salvando Bella das águas tempestuosas do mar. Eu posso até sentir seu desespero e agonia, ao ver a garota quase morta.

"Eu preciso impedir que isso aconteça, de um jeito ou de outro. Eu vou fazer até o impossível se for necessário. Mas, Bella não vai se tornar uma vampira. Nós somos os Protetores. Temos que proteger as pessoas."

"O caso de Bella é diferente, Jacob. Porque ela fez a sua escolha. Se ela for transformada fora dos nossos limites, Bella já não será nossa responsabilidade... Agora, escute bem... Você está proibido de quebrar o tratado!" O lobo castanho-avermelhado se curvou diante do lobo preto. "A menos que... você se torne o Alfa. A decisão é sua, Jacob!"

Jacob saiu enfurecido pela floresta. E eu acabei o seguindo.

"Eu juro que eu não te entendo. Você tem o poder nas mãos e não o quer? Por quê?" A minha pergunta fez Jacob me olhar com o cenho fechado.

"Eu nunca quis nada disso. Eu odeio essa coisa de lobo."

Jacob estava frustrado por não ser normal e poder viver com a Bella, longe dessa coisa sobrenatural. Longe de lobos e vampiros.

"Sabe o que é mais injusto em tudo isso?"O lobo castanho-avermelhado se sentou sobre suas patas e olhou para o horizonte. "Que eu estive com a Bella no seu momento mais sombrio. Eu vi o quanto o sanguessuga estava estragando a vida dela, mesmo estando longe. Quando ela estava sofrendo, fui EU que fiz de tudo para fazê-la sorrir e a protegi, enquanto ele a abandonou aqui deixando-a desprotegida."

"Mesmo com toda a sua dedicação, a sonsa preferiu voltar para o vampiro", afirmei irritada. "Você deveria esquecer dela, ou só vai se ferir mais."

"Como se fosse simples!" Ele rugiu. "Por que você não tenta seguir os seus próprios conselhos?"

"As coisas são diferentes pra mim..." Soltei um suspiro profundo. "Como você acha que me sinto... tendo que estar perto dele quase o tempo todo. Pior ainda estar dentro da mente dele e vê-lo nos braços de outra... que não é qualquer uma..." Eu sibilei me referindo a minha prima e a ligação telepática que me prendia ao meu ex-noivo. "Como você vai esquecer de alguém que tem o poder de dominar a sua mente?!" Eu sabia que o nosso Alfa também estava nos ouvido.

Jacob me deu um olhar de pena. Eu me senti tão atormentada com isso, não queria ninguém para sentir pena de mim.

"Não me olha assim! Eu não quero a sua pena!" Me senti tão revoltada. "Quer saber? Fica aí com a suas lembranças ridículas daquela adoradora de vampiros."Saí em disparada rumo a reserva.



***/ /***



"Leah, você tem que parar de ser imprudente. Nós somos uma equipe", Jake grunhiu furioso.

"Nós conseguimos acabar com o vampiro!" Fui petulante e dei de ombros.

"Tecnicamente, foi Jake quem conseguiu matar o vampiro, porque por você, nós tínhamos perdido ele." Eu revirei os olhos com o comentário de Embry.

Eu havia acabado de voltar de uma patrulha com os dois lobos. Foi uma madrugada muito exaustiva. Como sempre Jacob e eu nos desentendemos.

"Se continuar agindo desse jeito, o Alfa vai ter que usar uma ordem em você. Então, se não quiser obedecer por bem, vai ter que obedecer por mal", Jake continuou me dando sermão.

Voltei para casa frustrada e com raiva de tudo isso. Minhas escolhas foram tiradas de mim e eu tinha que aceitar tudo numa boa.

Depois de tomar um banho rápido, me joguei na cama e deixei o sono me dominar. No dia seguinte, acordei bem na hora do almoço. Mamãe estava no hospital de Forks, onde trabalha como enfermeira e Seth deveria estar em patrulha.

Fiz um lanche rápido e comecei a organizar a casa. Com tudo em seu devido lugar, me permiti relaxar. Mas, o dia era longo e eu acabei recebendo uma visita inesperada e indesejável...

Parado em minha porta estava Emily. Eu sabia que mais cedo, ou mais tarde, iríamos ter que nos falar. Desde o funeral do meu pai, não houve mais conversas entre nós.

"Eu podia falar um instante com você? Só preciso de uma chance, Lee." Eu dei espaço para ela entrar.

Nós nos sentamos lado a lado no sofá e ficamos por um minuto em silêncio. Esperei que minha prima tomasse a iniciativa.

"Eu queria falar com você antes... mas fiquei com medo. Sei que fui covarde demais..." Com o canto do olho, eu podia perceber sua ansiedade, Emily mexia a mão nervosamente. "Sabe, eu nunca imaginei que a minha vida fosse mudar de uma forma tão repentina. Quando decidi voltar, eu tinha outros planos em mente. Voltei porque sentia a falta de casa e da família. Eu precisei ir lá fora pra descobrir que meu lugar é aqui."

"Ao lado de Sam", afirmei secamente. Percebi que ela estava me olhando, talvez, esperando que eu dissesse mais alguma coisa.

"Eu tinha planos para quando voltasse, mas nenhum deles era de me envolver romanticamente com alguém. Bem, você sabe que... eu nunca tive sorte no amor."

Emily sempre acabava se envolvendo demais nas suas relações e, no fim, quando as coisas ficavam muito sérias, os caras pulavam fora. Minha prima sempre sofreu com isso e eu sempre dizia a ela, que o cara certo iria aparecer. E, por ironia do destino, tinha que ser logo Samuel Uley.

O mais irônico de tudo é que nós três, praticamente, crescemos juntos. Meu namoro com Sam os tornou amigos. Eu nunca poderia imaginar que chegaríamos a este ponto.

"Sam ainda pensa em você. Acho que independente do imprinting, sempre vai haver aquela relação mal resolvida entre vocês. Tem uma parte dele que ama você. Que, talvez, sempre vai amar. Eu não tô reclamando, afinal, a intrusa aqui fui eu. Só quero que você entenda que nós... tentamos lutar contra isso."

"Eu sei. Já estou cansada de ouvir essa mesma ladainha."

"Eu sinto sua falta, Lee. Você deveria aparecer lá em casa com os garotos. Você é parte dessa grande família esquisita. Uma grande família que fica incompleta sem você." Eu dei um sorriso sem humor.

"Ah, que lindo! Uma enorme família feliz." Não consegui segurar o meu sarcasmo. "Minha família já está incompleta sem o meu pai. Agora tudo é diferente."

"Eu sinto falta dele também." Emily começou a chorar. "Tio Harry era uma alma boa, com um amor incondicional pela família. Ele se foi muito cedo e vai fazer uma enorme falta na nossa vida."

"E tudo isso por causa dessa coisa de... vampiros e lobos." Eu me levantei e fiquei olhando pela janela. "Eu acho que... tá na hora de você ir embora."

"Lee, eu espero que um dia você me perdoe e que a gente volte a ser amigas."

"Você me traiu, Emily!" Eu me virei e olhei bem fundo dos seus olhos. "Você deixou que essa coisa de... imprinting ficasse entre nós. O segredo era mais importante que a nossa amizade."

"Eu não podia te falar. Não era um segredo só meu. O conselho nos proíbe de..."

"Que se dane o conselho e as regras! Se você realmente fosse leal, você teria me falado." Sam deveria estar ali nos ouvindo. "Eu sinto muito, mas não espere que as coisas vão ser como eram antes." Agora minha prima me olhou com olhos lacrimejados.

"Eu nunca... nunca quis te machucar, Lee." Antes de sair ela se jogou nos meus braços.

"Tudo bem, eu sei disso. Agora volte para Sam, ele está te esperando", murmurei num tom mais calmo.

Foi difícil falar com Emily, mas foi necessário. Até senti como se um peso saísse das minhas costas.


***/ /***


Hoje era noite de fogueira. A primeira vez que Seth, Sue e eu iríamos participar como membros da matilha e do conselho. Mamãe e eu sentamos ao lado de Billy. Todo mundo já estava lá, os lobos, as impressões e os anciões.

Emily e Sam estavam sentados de frente para mim, ambos me cumprimentaram com sorrisos simpáticos. Desviei o meu olhar para o Jared que também estava com a sua imprinting.

Sinceramente, acho essa história de imprinting muito bizarra. Em partes é uma relação perfeita e para a vida toda. Uns dizem que era uma coisa de almas gêmeas, que não necessariamente precisava ser uma conexão romântica. Tem uma parte que desperta um certo fascínio e é até belo e poético, ainda assim, é algo assustador e injusto.

No imprinting eles dizem: — Você será aquilo que o outro precisa, seja como seu protetor, um amante, um amigo, ou um irmão. — Isso também me faz perceber que Emily viu em Sam o homem da sua vida, quando ela poderia tê-lo apenas como seu amigo.

Enfim, saio dos meus devaneios e vejo Seth sair correndo ao encontro de Jacob e a Isabella Swan. Eu me pergunto o que ela faz aqui. Todos a cumprimentam animadamente, como se a garota fizesse parte da família. Eu por outro lado, me sentia irritada com a sua presença. Para mim Bella era uma sonsa.

Os dois se sentaram ao lado de Sam. E o Black parecia feliz ao lado dela.

Então, chegou a hora dos anciões começarem a contar sobre as nossas lendas:

"Os Quileutes tem sido poucas pessoas desde o início. E ainda somos poucas pessoas, mas nós nunca desaparecemos. Isso é porque sempre houve mágica em nosso sangue." Billy começou a narrar a história. Sua voz era profunda, forte e imponente. "Não era a mágica de mudar de forma... isso veio depois. Primeiro nós éramos espíritos guerreiros."

Billy continuou narrando as lendas passando dos Espíritos Guerreiros para Taha Aki (O Grande Lobo) e sua batalha contra Utlapa. Enquanto isso, fui deixando-me levar pelo momento. Meus olhos focaram nas chamas alaranjadas da fogueira. E, como numa espécie de mágica, me vi sendo transportada para uma outra realidade. Como num universo alternativo...

Ao longe eu ainda ouvia a voz de Billy, porém o ambiente havia mudado, assim como as pessoas e seus trajes. Era como se eu tivesse viajado para um outro tempo, num passado muito distante...

Havia várias pessoas ali dançando em volta da fogueira. Parecia uma festa antiga indígena. Eu comecei a caminhar no meio daqueles desconhecidos que se vestiam com roupas feitas de pele de animal e tinham o rosto pintado de tinta. Eu fiquei encantada, parecia que já tinha vivido isso, como um déjà vu.

Eu continuo se misturando no meio do povo, até que eu senti alguém me puxar. Ao me virar, dou de cara com um jovem nativo, de sorriso iluminado e olhos negros cintilantes. Ele me lembrou Jacob. Seus braços desceram para minha cintura e minhas mãos ficaram em seus ombros. Ele era forte e muito bonito, tinha cabelos longos e dele só irradiava alegria.

Nós começamos a dançar no meio do povo, com nossos olhos nunca perdendo o contato visual. Estar em seus braços era como estar em casa. Era como meu lar e era aqui que eu queria ficar. Ele sussurra algo em meu ouvido, mas a única palavra que consigo entender é "Chiara."

Então, seus lábios encontram os meus. Instintivamente, fecho os meus olhos e me deixo perder na magia desse beijo. Ele tem lábios macios e gentis que fazem meu corpo ficar aquecido e meu coração bater freneticamente. Em seus braços sinto-me em paz.

Todavia, subitamente, eu sou arrastado para longe do calor de seus braços. Um frio gelado e obscuro contamina o meu corpo e atinge a minha alma. Quando abro os olhos, o sorriso iluminado e olhos negros cintilantes, são substituídos por um sorriso insano e olhos negros furiosos, que transmitem dor, amargura e um desejo de vingança.

"Você sabia que o amor pode salvar como também pode destruir?", o outro cara de postura sombria disse numa voz sinistra.

"Quem é você?", pergunto assustada.

"Você sabe quem eu sou... Basta uma palavra."

A cada batida do meu coração, eu sentia uma pontada dilacerante. Tudo começa a desfigurar em minha frente, as pessoas, o homem sombrio diante de mim, a fogueira. Tudo vai passando como um flash.

Até que vou retornando para a minha realidade, como se eu tivesse despertado de um sonho. Ainda me sentindo desnorteada, eu procuro por alguma anormalidade da cena atual, mas nada parece ser alterado. A fogueira continua a brilhar incessante, a matilha está ali em silêncio ouvindo a história narrada por Billy.

Olhei para cada um e nada parecia ter mudado. Kim está ali nos braços de Jared, Sam e Emily estão de mãos dadas. Olho para Jacob e Bella, ela colocou sua cabeça no ombro dele fazendo-o sorrir. E, naquele instante, eu me senti fora do lugar, como se não pertencesse aqui. Mesmo estando ao lado da minha mãe e de Seth, continuo me sentindo sozinha.

"Utlapa era um dos guerreiros mais fortes do chefe Taha Aki. Um homem poderoso, mas também, muito ganancioso e vingativo..."

"Utlapa." Quando Billy pronunciou aquele nome, me senti perturbada. No entanto, tentei acreditar que devo ter cochilado e meu subconsciente deve ter me arrastado para dentro daquela história bizarra.

Não suportando mais estar ali, fujo para a floresta assumindo a forma da Loba cinza. Corri sem olhar para trás, apenas me deixando ser levada pelos meus instintos e só parei ao chegar onde a luz do luar parecia reluzente, próximo a um riacho. Eu já havia estado aqui antes.

Olhei para o céu que hoje estava estrelado. Havia uma estrela em especial que piscava mais intensamente. Com certeza era Sarah, a minha Estrela-Guia.

Assim, deixo meu corpo voltar a forma humana e me deito no chão olhando para o céu, sentindo o vento frio tocar a minha pele nua. Na companhia do silêncio da floresta e das estrelas eu fecho os meus olhos. Não sei por quanto tempo, permaneço assim, até que sinto algo cobrir o meu corpo. Braços quentes e acolhedores me abraçam, ele tem um cheiro amadeirado de almíscar muito familiar.

"Então, bela adormecida, eu encontrei você." A voz rouca me lembrou Jake.

Meus olhos permaneceram fechados para não quebrar a magia e, assim, me deixo levar pela sensação de estar aquecida e segura nos seus braços.


Notas finais
Bom espero que tenham gostado. Logo, teremos mais emoções. Bjus!!!