— Alec! – Sussurram Demetri e Santiago simultaneamente, tão perplexos com sua presença que Renata sentiu suas posturas mudarem sorrateiramente, passando para algo mais defensivo e comedido, como se esperassem algum tipo de retaliação.

A vampira ergue a cabeça em direção a Alec, que se aproximava lentamente e sem demonstrar nenhum resquício de medo, quase como se estivesse se divertindo, sentindo os seus próprios instintos se acalmarem com sua presença. Ele havia prometido protegê-la e somente agora, depois de ser caçada e quase capturada, ela percebia o quanto havia acreditado naquela promessa.

Noutros tempos, Renata estaria vendo-o ao lado de Jane no grande salão, tão frio e cruel quanto sua gêmea, e sentiria medo de seus olhares se cruzarem ou de ele perceber tudo o que fazia escondido, medo de ser punida ou aprisionada pelo seu denso poder. Mas agora, fora das paredes de Volterra e longe das garras de Aro, eles pertenciam ao mesmo lado e ela finalmente conseguiu vê-lo como um igual, alguém em quem podia confiar.

Alec avançava como se nenhum vampiro no mundo pudesse derrubá-lo, com passos curtos, um pé na frente do outro, e a vampira realmente acreditou que aquilo era possível, que nenhum imortal conseguiria fazê-lo beijar o chão como ela estava fazendo.

— Você está bem? – Foi sua primeira pergunta a ela, assim que seus olhos se encontraram novamente e um apreciou a bela fisionomia do outro. Renata estava suja e com os cabelos desgrenhados pela fuga, mas a sinceridade de seus sentimentos estava estampada em seu rosto, e foi exatamente aquilo que chamou a atenção dele.

— Sim! Quero dizer… Terra não é o meu prato favorito, mas não tenho muito que reclamar, afinal, ainda estou neste mundo – comenta com certo sarcasmo, tentando inutilmente dar de ombros, já que o aperto de Santiago impedia o gesto.

Alec solta uma leve risada, abrindo seu belíssimo sorriso para ela depois de muito tempo, consequentemente chocando os Volturis ali presentes. Desde quando ele sabia rir de forma tão descontraída e despretensiosa? Tal cena fora tão bizarra que Demetri precisou sacudir levemente a cabeça para ter certeza de que não estava tendo uma miragem.

— Soltem-na! – Ordena Alec, guardando seu sorriso e encarando o líder da equipe.

— Fique fora disso, Alec! – Rosna o rastreador. – Não temos nada a tratar com você, então fique fora de nossa missão.

— Ela está comigo agora. Soltem-na de bom grado ou os obrigarei a isso! – Ameaça, enquanto a confusão desenhava pequenos vincos nas testas de Demetri e Santiago.

— Você não estava perdida, não é? – Supõe Félix, olhando para a prisioneira e sendo o primeiro a desvendar o mistério de seu trajeto. – Quando Demetri captou sua essência achamos que estava correndo em círculos, no entanto você sabia bem o que estava fazendo… Estava procurando por ele…

— Isso tudo foi algo combinado? – Questiona Santiago retoricamente, chocado.

Alec eleva os lábios num sorriso torto, o mesmo tipo de sorriso que costumava usar quando pretendia machucar alguém apenas por diversão, causando uma reação imediata em Santiago, que logo soltou um palavrão.

Os vampiros afrouxam as correntes de Renata, afinal, quem seria louco para se opor a qualquer um dos gêmeos agora? Anteriormente, as regras do clã Volturi os proibiam de se matarem, e, mesmo que uma briga surgisse e eles fossem punidos por seus poderes, eles tinham ciência de que sobreviveriam para contar suas histórias. Entretanto, agora ambos eram desgarrados, sem regras e sem limites, e qualquer um deles poderia ter a existência encerrada somente por cruzar seus caminhos.

— O que pensam que estão fazendo? Eu não mandei que a libertasse!!! – Grita Demetri irritado, tentando se aproximar para manter a escudeira no chão, mas sendo logo repelido pelo escudo de energia que ainda permanecia de pé. Ela não o deixaria se aproximar tão facilmente.

— Não seja tolo, Demetri – alerta Félix com sua voz grave, opondo-se à decisão do líder na tentativa de preservar suas segundas vidas. Seus olhos percorrem o ambiente uma e outra vez, temendo que Jane também estivesse por perto. – O poder de Jane é o mais doloroso, mas o de Alec também é letal. Não o subestime só porque não era ele a nos liderar!

— Cale-se, Félix! Como ousa se opor a uma ordem direta? – Volta-se para Alec. – Eu não dou a mínima para o fato dela ter seguido você, ou para a possibilidade de terem arquitetado tudo isso. Renata é uma traidora e voltará para a Itália comigo, por bem ou por mal – ameaça de volta. – Você pode ser um bom lutador, Alec, mas nós somos três e estamos em nítida vantagem!

— Estariam em condições normais de uma luta corpo a corpo. No entanto, você esqueceu de um detalhe crucial, Demetri: eu gosto de trapacear! – revela, erguendo a mão direita em direção ao rastreador e permitindo que o poder sob sua pele tomasse forma, saltando de seus braços como se possuíssem vida própria.

Félix foi o primeiro a ser dominado; seguido de Santiago, que libertou a escudeira e recuou alguns passos na tentativa de fugir da densa névoa de seu poder; e por último Demetri, o despreparado e arrogante líder da Guarda Volturi. Alec os domina em poucos segundos, aprisionando seus corpos e encarcerando suas consciências no ponto mais profundo de suas mentes, divertindo-se com a expressão emputecida que o rastreador esboçou pouco antes de ser tragado para a escuridão.

Renata se levanta logo depois, assim que o ruído de seus agressores desapareceu e Félix ficou estático ao seu lado. Seu primeiro movimento foi rápido, como se a qualquer momento eles pudessem voltar a se mover e a aprisionar novamente. O movimento seguinte foi cauteloso, temendo encostar na manifestação do poder de Alec e terminar como os outros.

Os Volturis pareciam bonecos de cera quando vistos naquele estado, inertes e inexpressivos, aprisionados dentro de suas próprias mentes, sem acesso a qualquer um de seus sentidos, totalmente vulneráveis.

— Você veio… – Diz Alec de repente, chamando sua atenção, olhando para o vermelho de seus olhos sem saber que tipo de cumprimento deveria dar. Um abraço? Um beijo no rosto? Um aperto de mão? Ele era tão ruim em normas sociais quanto era em relação ao amor.

— É, eu vim – confirma ela, sorrindo. – Alguém me disse que eu poderia vir em seguida e eu acreditei.

Alec reage diante de suas palavras, presenteando-a com seu segundo sorriso da noite, algo que Renata secretamente tomou como um presente de boas-vindas. Ele ficava bonito quando sorria, porque o gesto o fazia parecer mais como um vampiro normal do que como um monstro a quem devesse temer.

Ela estava felicíssima por reencontrá-lo. Depois de tanto desejar e fazer planos, a vampira finalmente estava fora do clã Volturi e poderia viver da maneira que quisesse. E, não contendo a satisfação que sentia com as circunstâncias e consigo mesma, Renata lançou-se sobre Alec num abraço apertado, rodeando seu pescoço com ambos os braços e permitindo que seu olfato aguçado sentisse mais uma vez o aroma adocicado que aprendeu a identificar como dele.

— Eu não acredito que estou finalmente fora! Isso é tão… Emocionante!

O vampiro não soube como reagir diante do súbito abraço, congelando a princípio e levando certo tempo para levantar as mãos e tocar em sua cintura. Ele sentia-se igualmente feliz, satisfeito por seu plano ter dado resultado e pela escudeira ainda o enxergar como um amigo. O abraço era agradável e reconfortante, de um jeito bem diferente de quando abraçou Jane em Volterra, e, hesitantemente, ele deslizou o toque pelas costas femininas, correspondendo ao gesto afetuoso e permitindo que seus corpos se aconchegassem um no outro.

— Temos que ir embora – sussurra Alec no ouvido da vampira, que logo desfez o abraço e o olhou com expectativa, indiretamente o questionando sobre o que fariam a seguir. – O amanhecer não vai demorar a chegar e não há um refúgio seguro para nós nesta região.

— Como vamos despistá-los? – Questiona, voltando os olhos para os corpos ainda inertes dos três Volturis e percebendo que o poder de Alec não enfraqueceu ou oscilou em nenhum momento, mesmo que as atenções dele agora estivessem sobre ela. As camadas densas de escuridão ainda ligavam o gêmeo às suas vítimas, e rastejavam sobre eles como serpentes. – Irá matá-los?

— Você quer que eu os mate?

— Bem, eu… – Hesita, lançando um último olhar para Santiago. Eles trabalharam no mesmo time por muito tempo e, apesar dos Volturis não criarem laços, ela não sabia dizer se realmente o queria morto. – Eu acho que não – responde por fim.

— Resposta correta. Apesar de a negação derivar de sua nítida hesitação, não seria prudente matá-los, isso afetaria o equilíbrio do governo vampiro – explica Alec. – Existem três regras importantes que precisa saber para seguir caminho comigo: (1) você não pode revelar sua verdadeira natureza aos humanos. Sei que parece tolo dizer o óbvio, mas eu levo isso muito a sério. (2) Sua caçada precisa ser planejada e discreta, não deve chamar a atenção das autoridades ou da mídia. Se não souber como fazer, me avise e eu a acompanharei. (3) Seu estilo de vida não pode interferir ou ameaçar interferir no governo dos Volturis. Não fazemos mais parte do clã, mas eles existem por um motivo e ainda são necessários.

— Sempre soube que a Jane não era a única inteligente da Guarda… – Elogia discretamente, ao perceber que ele tinha planejado todos os detalhes de sua nova forma de vida, enquanto ela sequer pensava no assunto.

— Você concorda com os termos?

— Sim, eu concordo.

— Então já podemos ir…

— Espera! Tem uma coisa que eu quero muito fazer – explica Renata, caminhando em direção ao corpo de Demetri e acertando seu rosto com um tapa forte.

— Acho que você pode fazer melhor do que isso – provoca Alec.

— Na virilha, talvez? – questiona, percebendo que serpentes de escuridão se afastaram da região, como se aprovassem a ideia.

— Ótima escolha – concorda o vampiro, vendo-a levantar o pé e golpear as “partes baixas” de Demetri. Aquela cena era agradável aos olhos. Era bom ver Renata agir livremente, sem o cabresto Volturi, como quando a flagrou saindo escondida do castelo.

— Ele vai sentir isso quando despertar? – questiona com expectativa, aproximando-se de Alec novamente.

— Com certeza. E não fará ideia de quem o bateu.

— O que faremos agora?

— Vamos nadar – explica, segurando a mão feminina e correndo em direção ao penhasco.

Sem entender nada, Renata não ofereceu resistência, apenas seguiu o fluxo do vampiro sem qualquer questionamento, correndo para a beira da falésia. Seus sentidos vampíricos captaram o som das ondas batendo no paredão e o cheiro salgado do oceano, pouco antes de seus pés baterem contra a pedra fria e de seu corpo saltar para o vazio.

As densas fumaças de Alec retrocederam no momento em que seu corpo deixou de pisar naquele solo, libertando seus reféns, como animais de estimação seguindo o seu dono, até que estivessem devidamente seguras sob sua pele pálida.

A sensação era indescritível. Seus cabelos se tornaram um caos, cada pedacinho de sua pele exposta sentia a resistência do ar, e um sorriso involuntário desenhou seu belo rosto. E pouco antes de atingirem a água, suas mãos se soltaram das de Alec, que abraçou os joelhos e deixou-se ser engolido pelo oceano.

A água os envolve como uma segunda pele, revigorante, apagando por um momento qualquer pensamento de suas mentes. Renata fez menção de emergir, mas parou quando sentiu a aproximação de seu protetor, que tocou seu cotovelo e fez uma negativa com a cabeça. Ele aponta em uma direção e começa a nadar, fazendo-a compreender que suas fugas seriam debaixo d'água para que se suas essências fossem levadas pelo oceano e Demetri não pudesse captá-las.

E quando emergiu, muitos metros depois, Renata sorriu instintivamente, sentindo uma nova energia correr por suas veias, comprovando que realmente havia mais no mundo além das regras rígidas e das expectativas sufocantes.

Pouco tempo depois, os vampiros chegaram a Fan Bay Deep Shelter. A presença de Renata ao lado de Alec causou igual espanto em Maximilian e Jane, pois, apesar de conhecerem a possibilidade de sua chegada, eles não acreditavam que realmente aconteceria.

— Você realmente está aqui! – exclama o camaleão, dando voz a sua surpresa.

— Sim – confirma com recato, visto que parte de sua animação se desvaneceu diante de Jane. Renata sentiu-se burra de repente, por não considerar que ao se unir a Alec, também estaria se unindo a sua gêmea. Eles eram inseparáveis, mas, diferente do irmão, Jane ainda a assustava grandemente.

— Demetri está por perto – declara Alec sem rodeios, mudando o curso da conversa. Ele sabia que a irmã compreenderia o conteúdo de sua mensagem somente de olhar em seus olhos.

— Então vamos partir – alerta ela, encarando Renata por mais alguns segundos antes de girar em seus calcanhares e induzir todos a se moverem. Agora eles não eram um trio, mas um pequeno grupo, e Jane ainda não sabia o que pensar sobre aquilo.

Notas finais
Cheguei na parte em que estava com bloqueio. É uma transição de fases da história, por isso estou com certa dificuldade para desenvolver essa parte. Porém, aos pouquinhos está saindo. Agradeço a todos pela paciência ♥