Coração Gelado 2
10 Alinhando o Passo – Parte 3
Alec limpou o canto dos lábios com as costas da mão, deixando o corpo sem vida deslizar para a escuridão de um pequeno beco. Com um movimento preciso, desferiu uma apunhalada estratégica no pescoço do cadáver para camuflar as marcas de seus caninos. Saciado, aguçou os sentidos, permitindo que a audição o guiasse através do silêncio da noite até encontrar os ruídos suaves da escudeira. Moveu-se silenciosamente pelas sombras, aproximando-se a tempo de testemunhar o desfecho da alimentação dela. Era uma visão fascinante e inédita; acostumado a ver Renata apenas como o escudo de Aro, o vampiro assistiu, hipnotizado, à forma como ela se entregava aos próprios instintos com uma letalidade felina.
Quando a última gota de sangue deixou o corpo da mulher, Renata a soltou sem esforço na calçada deserta. A adrenalina imortal ainda corria por suas veias, expandindo seus sentidos e tornando suas feições mais selvagens. Ao erguer os olhos por cima do ombro esquerdo, percebeu a silhueta de Alec observando-a.
O magnetismo do momento e o calor do sangue fresco pareceram romper qualquer barreira de hesitação. Com a velocidade de um raio e a suavidade de uma pantera, Renata eliminou a distância entre eles, chocando-se contra o vampiro e prensando-o firmemente contra a parede de tijolos do prédio residencial. Ela colou seu corpo ao dele, segurando-o pelos ombros enquanto inclinava a cabeça milimetricamente, os lábios entreabertos perigosamente perto da jugular de Alec, como se o executor mais temido da Guarda Volturi tivesse acabado de se tornar a sua próxima presa.
Alec não recuou ou revidou; apenas sustentou a proximidade ousada da escudeira, permitindo que um sorriso de canto surgisse em seus lábios frios.
— É tão descuidada quanto um recém-criado – comentou ele, divertindo-se com a situação. O que ela faria se realmente acreditasse que estava no controle?
— Não sou eu quem tem os dentes de outro vampiro tão perto do pescoço – sussurrou ela, devolvendo a provocação em um tom rasteiro. Achava genuinamente que tinha a vantagem, sem notar que ele sequer a via como uma ameaça real.
A resposta dele, contudo, não veio em palavras. Deixando-se guiar pelo torpor febril de sua própria caçada, Alec agiu com uma rapidez devastadora. Suas mãos seguraram a cintura de Renata com firmeza, girando o corpo dela contra a estrutura de tijolos em um impacto surdo. As posições haviam se invertido; agora era ela quem estava encurralada sob o peso de sua presença esmagadora.
— Eu quase consegui – murmurou Renata, esboçando um sorriso sincero e radiante. A mão dele permanecia em sua cintura, prendendo-a ali com uma força que ela sabia ser incapaz de superar.
— Não chegou nem perto – devolveu o sorriso, os olhos brilhando com o desafio. – Sua velocidade impressiona, mas você não é forte o bastante para alguém como eu.
— Ah! Olha só para esse nariz empinado.
— Eu tenho do que me gabar, sou muito mais experiente – provocou, erguendo as sobrancelhas de uma forma que Renata considerou profundamente irritante.
— Você e Jane são realmente frutos da mesma árvore, não são? O seu ego é tão grande quanto o dela... – comentou em tom jocoso. – Sabe, eu também tenho os meus truques. Cartas que nunca joguei em Volterra e que você ainda não conhece.
Alec soltou uma risada nasalada, nitidamente descrente. Afinal, se ela possuísse habilidades assim tão formidáveis, Aro nunca a teria limitado à guarda defensiva. Afastando-se, ele quebrou o clima amigável com um comando prático:
— Vamos limpar a sua bagunça – pediu, apontando o corpo da humana com o olhar e oferecendo a ela a adaga que trazia no cinto.
— Eu posso fazer? – questionou a vampira, os olhos brilhando com expectativa. Recebeu apenas um aceno positivo de cabeça como resposta.
Renata apanhou a arma e correu em direção à sua presa, deixando escapar um riso contido de empolgação. Ela adorava a parceria que estava se desenhando ali: onde ela o guiaria pelo mundo dos sentimentos, enquanto Alec lhe daria a segurança física e o espaço necessários para que deixasse de ser uma mera coadjuvante e se tornasse a protagonista de sua própria existência.
De longe, Alec analisou as reações da vampira e buscou em sua mente a conversa que haviam tido no hotel. “Alegria”, identificou em pensamento, orgulhoso de si mesmo por ter avaliado e reconhecido sozinho uma emoção tão puramente humana.
A limpeza dos rastros em Dover foi perfeita, como todas as execuções assinadas pela Guarda Volturi. Quando Alec e Renata retornaram ao hotel, a névoa pesada que subia do Canal da Mancha já engolia os postes de luz antigos, criando a cobertura ideal. Jane e Maximilian os aguardavam no saguão escuro. Não houve perguntas sobre o atraso, o cheiro de sangue fresco que sutilmente emanava dos dois ou os despojos em libras esterlinas que os vampiros haviam coletado de suas presas.
O grupo dirigiu-se até as docas. Sabiam que não pegariam um ferry comercial; em vez disso, guiaram-se pelo cheiro de óleo diesel e maresia até os cais de carga mais afastados, onde um pescador local aceitou um maço de notas para transportá-los até a costa francesa em seu barco de arrasto. Graças à boa quantidade de dinheiro e à simpatia calculada de Maximilian, nomes não foram ditos e nenhuma pergunta foi feita.
À medida que o barco cortava as águas escuras e revoltas do Canal da Mancha, os quatro dividiram-se no convés superior, longe dos olhos dos marinheiros. Jane mantinha-se na proa, os olhos fixos no horizonte invisível, com a atenção voltada puramente para a presença de Maximilian, que se postava logo atrás dela como uma extensão de sua própria sombra.
Na popa, protegidos da maresia por uma pilha de redes de pesca, Alec e Renata observavam a costa da Inglaterra desaparecer lentamente na penumbra. O motor do barco roncava alto, vibrando sob seus pés imortais. A travessia durou algumas poucas horas de silêncio e logo as luzes começaram a pontilhar a costa francesa através da neblina.
O desembarque na praia de Calais foi rápido e silencioso. Assim que os pés imortais tocaram a areia úmida, a embarcação manobrou às pressas para retornar ao mar, com o pescador aliviado por ter se livrado daqueles passageiros de olhares suspeitos. O céu a leste começava a ganhar os primeiros tons de um cinza pálido, um aviso silencioso de que o tempo deles estava se esgotando.
Maximilian assumiu a liderança na busca por um veículo adequado. Foram necessários apenas alguns segundos para que ele arrombasse a tranca de uma van utilitária com os vidros traseiros completamente escurecidos e fizesse uma ligação direta no motor.
Jane acomodou-se no banco do passageiro com uma expressão de desdém pela escolha de seu parceiro, enquanto o camaleão tentava justificar sua estratégia de optar por um veículo capaz de se misturar facilmente ao cenário urbano. Acomodados no compartimento traseiro, Alec e Renata ouviam o tagarelar de Maximilian, achando graça em como ele se esforçava para obter a aprovação da vampira para aquela van feia.
A viagem até Paris durou pouco mais de três horas, um trajeto feito quase inteiramente sob a luz do dia que os forçava ao confinamento dentro da caçamba escura. No espaço reduzido e claustrofóbico, o mundo parecia resumido ao som da respiração simulada dos vampiros e ao cheiro característico da camuflagem do camaleão, sempre que esta era ativada.
Quando o veículo finalmente desacelerou, o som do tráfego pesado e o eco de buzinas indicaram que haviam chegado ao destino. Já conhecendo o território, Maximilian conduziu o utilitário para as entranhas de um estacionamento subterrâneo no limite do bairro de Montmartre. O ambiente era perfeito: escuro, úmido e com saídas estratégicas para becos pouco movimentados.
Ao abrirem as portas traseiras, a atmosfera de Paris os atingiu. Mesmo no subsolo, o ar trazia o aroma característico de combustível, café e a pulsação de milhões de vidas humanas caminhando poucos metros acima de suas cabeças.
Jane saltou primeiro, ajustando o casaco com um movimento seco, enquanto seus olhos vermelhos mapeavam os cantos do subsolo decadente. Maximilian desligou o motor da van e desceu logo em seguida, movendo-se com a confiança de quem já conhecia o terreno.
— Onde vamos nos abrigar? – perguntou Alec.
— Há um edifício residencial antigo logo acima de nós – respondeu Maximilian, indicando uma escadaria de serviço cinzenta e mal iluminada nos fundos do estacionamento. – O proprietário do último andar é um investidor de arte que passa os invernos no sul da Itália. O apartamento está vazio, protegido do sol e estrategicamente isolado.
O grupo moveu-se como um borrão de sombras pelas escadas, e quando alcançaram a porta de carvalho maciço no topo do prédio, Maximilian não precisou de chaves; apenas aplicou uma pressão milimétrica na fechadura, fazendo os pinos internos cederem com um estalo quase inaudível.
Eles deslizaram para dentro, e Maximilian fechou a porta às suas costas, isolando o mundo exterior.
O apartamento era tipicamente parisiense: tetos altos adornados com gesso trabalhado, assoalho de madeira escura que rangeu sutilmente sob o peso deles e janelas imensas que davam para os telhados de Montmartre. Felizmente para os fugitivos, as janelas estavam cobertas por pesadas cortinas de veludo, bloqueando quase toda a claridade do dia.
Enquanto Maximilian e Jane recolhiam-se para o cômodo principal, trocando sussurros baixos sobre os lugares para onde iriam a seguir, Alec permaneceu na sala de estar, de pé junto a uma lareira apagada. Seus olhos vagavam pelos detalhes da arquitetura humana: o papel de parede desbotado, as molduras douradas roídas pelo tempo. Teria de permanecer ali até o anoitecer e, particularmente naquele momento, o ócio forçado o irritava.
Renata aproximou-se em silêncio, desfazendo-se do casaco pesado que usara na viagem. Ela havia lido tantas histórias românticas ambientadas em Paris. Estar finalmente ali era como a realização de um sonho, como se a mera atmosfera daquela cidade fosse o suficiente para atrair o amor para si. A vampira o observou por alguns instantes, achando graça na tensão que emanava dos ombros dele.
— O sol não vai cair mais rápido só porque você está encarando a parede, Alec – comentou ela, a voz suave quebrando a monotonia do relógio de pêndulo que tiquetaqueava ao fundo.
— A noite toda viajando... E agora a espera... – ele começou, as sobrancelhas franzidas, como se isso fosse o suficiente para ela compreender sua impaciência.
— Não há muito para nos entretermos aqui, mas... – Renata deu mais um passo, parando a menos de um metro dele. Ela espalmou a mão em seu peito, empurrando-o de leve em direção a um velho divã de veludo carmim. – Sente-se. Finja, pelo menos por algumas horas, que você é o dono deste lugar e não um invasor.
Alec olhou para a mão dela em seu peito. O toque através da camisa enviou uma correnteza gelada e estranhamente vívida por seu corpo. Cedendo à sutil insistência dela, ele se sentou, mas sua postura continuava rígida; ele genuinamente não sabia como fingir aquilo.
Renata acomodou-se ao lado dele, apoiando um dos cotovelos no encosto do divã para encará-lo. Na penumbra do apartamento parisiense, os olhos escuros de Alec reluziram com um tom rubro e profundo, observando-a com uma intensidade que a fez hesitar por uma fração de segundo.
— O que os humanos fazem quando estão trancados em um lugar como este, esperando a noite? – Alec perguntou, a voz descendo um oitavo, demonstrando uma curiosidade genuína que tentava mascarar como desdém.
— Nos livros, eles conversam. Ou jogam – Renata sorriu, os dedos de sua mão livre tamborilhando no veludo do divã. – Às vezes, apenas observam um ao outro. Tentam adivinhar o que o outro está pensando.
— Isso parece um desperdício de tempo.
— É porque você nunca teve tempo para desperdiçar, Alec. Essas coisas fazem parte das convenções sociais. – Ela inclinou o corpo ligeiramente para a frente. – O que você vê quando olha para mim agora?
Alec deixou os olhos descerem para os lábios entreabertos dela e, em seguida, voltou a encará-la.
— Vejo alguém cuja luz de humanidade Aro não conseguiu apagar – respondeu ele, a voz rasteira, quase um sussurro. No mesmo instante, um fragmento de lembrança borbulhou em sua mente enevoada, fazendo o complemento escapar de sua boca no segundo seguinte: – Algo como uma estrela, queimando com sua própria luz.
Imediatamente, Alec desviou o olhar, percebendo que aquela proximidade se tornara perigosa. Não porque Renata representasse uma ameaça física, mas porque ela parecia possuir, de fato, uma habilidade oculta debaixo da manga, exatamente como sugerira no beco. Era um poder intangível que o assustava; a capacidade latente de lhe arrancar verdades indizíveis e desarmar, sem esforço, sua indiferença secular.
Renata, por sua vez, prendeu a respiração simulada, genuinamente impressionada com as palavras dele. Há muito tempo ela não era descrita daquela forma. Como fagulhas, memórias de Malta surgiram em sua mente, ela quase pôde ouvir a voz agradável de seu tio Luca chamando-a pelo antigo apelido de infância, Stilla, e um desejo avassalador de um dia revê-los apertou seu peito.
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