Coração Gelado 2
8 Alinhando o Passo – Parte 1
Alec estava parado do lado de fora do quarto alugado, esperando que Renata saísse para finalmente se encontrarem com Jane e Maximilian. Ele olhava ao redor, vendo alguns funcionários do hotel preparando-se para o novo dia de trabalho.
Quando deixaram as falésias, o amanhecer já estava próximo e uma retirada estratégica teve de ser feita em direção ao centro de Dover, onde poderiam se lavar e se proteger até o entardecer.
Renata abriu a porta do quarto lentamente, avaliando o ambiente para ter certeza de que era seguro sair. E quando seus olhos encontraram os de Alec, ela sorriu amigavelmente. Seus cabelos estavam parcialmente presos, bem mais limpos e controlados do que estavam à beira das falésias, quando se reencontraram.
Reencontrar. Ela sentia um misto de contentamento e surpresa por finalmente tê-lo achado, percebendo o quanto havia desejado aquilo. Agora eles estavam fora de Volterra, sem perseguidores ou perigos, como tinham confabulado no passado.
— Você veio mesmo – diz Alec novamente, agora encarando o tom violeta que as lentes de contato depositavam sobre a íris dela. Mesmo com aquele disfarce, ele podia perceber que os olhos de Renata estavam tão escuros quanto os dele, e que ambos precisariam caçar em breve.
— Eu vim – confirma mais uma vez, achando graça que ele estivesse repassando aquela conversa enquanto lutava para esconder sua surpresa. – No entanto, admito que não foi uma coisa fácil. Nunca pensei no quão difícil seria sair das garras do clã, até ser a minha vez… – confessa nervosamente, lembrando-se de que escapara das mãos de Demetri por um triz. – Se não fosse por você, não teria conseguido. Não fui rápida o bastante.
— Demetri é um mestre rastreador, teria encontrado qualquer um em qualquer parte do mundo. Ele é o melhor no que faz.
— De fato – concorda ela, não sabendo se ele a estava confortando ou apenas fazendo uma análise puramente profissional da situação.
Renata encara Alec por alguns segundos, percebendo o quanto ele ficava bem em roupas casuais, parecendo mais atraente do que era com as vestes do clã. O tom de suas roupas não fugia muito do que já estava habituado a usar, ainda escuras e frias, mas os novos modelos pareciam acentuar o contorno de seus braços e a sua altura.
Ela desvia os olhos para um ponto qualquer do corredor, esboçando um sorriso torto ao constatar que ele parecia mais sexy que de costume.
— Às vezes um disfarce se faz necessário. Jane não gosta de chamar a atenção – explica Alec por impulso, chamando a atenção da escudeira para o gorro que ele lhe oferecia.
A vampira analisa os próprios trajes rapidamente, os mesmos que roubara na Inglaterra: camisa, jeans e uma jaqueta de couro; sem agasalhos ou qualquer outro item que pudesse convencer os demais de que sentia frio como uma pessoa normal. Uma vestimenta destoante para o local e a temperatura em que estavam, um nítido erro de amador.
Renata acena positivamente com a cabeça, compreendendo e fazendo uma nota mental de que precisava prestar atenção aos detalhes se quisesse viver em liberdade. E, como agradecimento, ela ergueu os braços e penteou os cabelos de Alec com os dedos, ajeitando a desordem de seus fios do jeito que mais lhe agradou.
O vampiro fecha os olhos com o gesto, apreciando a carícia e sentindo que já tinha passado por algo parecido antes. Um pequenino vislumbre de lembrança surge em sua mente, com a imagem borrada de uma mulher adulta penteando seus cabelos com os dedos – uma mulher que ele sabia ser a sua mãe.
Alec sequer se lembrava de sua voz, e aquilo o frustrava. No entanto, o vampiro compensou a lacuna de sua lembrança com uma nova e vívida recordação: a sensação das mãos de Renata passando por seus cabelos, empurrando-os para um lado e depois para o outro até que se desse por satisfeita.
— Agora está ótimo – comenta ao terminar de ajeitar o penteado dele, fazendo-o abrir os olhos e encará-la novamente.
Com um aceno de cabeça, Alec rumou em direção ao quarto de Jane e Maximilian, sendo seguido de perto pela escudeira. A porta se abriu assim que se aproximaram, pois o camaleão, ouvindo seus passos, antecipou o gesto.
Jane jazia sobre a cama, sentada com as pernas cruzadas e encostada contra a cabeceira, num ponto em que poderia ver a todos com facilidade. Maximilian se joga sobre o colchão bem à sua frente, enquanto Alec preferiu ficar em pé, ao lado da janela coberta por cortinas.
Quando entrou no cômodo, Renata vacilou por um momento, estremecendo ao sentir o olhar afiado da outra vampira sobre si. No entanto, logo seus instintos de sobrevivência a colocaram em movimento, aproximando-a do único que lhe transmitia segurança.
— Nós temos uma questão a resolver – inicia Jane assim que todos encontram seus lugares. Alec a encara com certa surpresa, porque ela nunca usava o pronome “nós” quando se tratava de resolver problemas, preferindo sempre aparecer com a resposta pronta e o plano formado. – No entanto, antes de torná-los cientes do assunto, quero saber o que você faz aqui – lança por fim, encarando Renata para que não houvesse dúvidas de que falava com ela. A escudeira recua um passo, em alerta, tão desconfiada das intenções de Jane quanto esteve de Alec na primeira vez em que conversaram.
— Por favor, Jane, eu já lhe disse… Eu prometi – interpela Alec, colocando-se entre elas numa tentativa passiva de interromper a irmã. A vampira sabia que o gêmeo jamais ficaria contra ela, mas, ainda assim, estranhou o seu comportamento pacifista, o típico agir de quem não queria vê-las brigar.
Jane o encara por longos segundos, percebendo que aquela cena parecia bastante familiar. Desde que se tornaram imortais, Alec sempre seguiu os seus planos e aderiu ao seu ponto de vista como sendo o correto, porque confiava em sua liderança. No entanto, houve um único momento de suas segundas vidas em que isso não aconteceu, um único instante em que o gêmeo não declinou de sua própria opinião, em que a discordância virou briga e a briga os deixou sem se falarem por mais de uma semana: e foi quando ele se tornou amigo de Maximilian e tentou defendê-lo.
No fim das contas, o julgamento do irmão estava certo e o dela, errado. Maximilian não era apenas alguém digno de ser defendido, como também se tornou o seu amante. E se ele estivesse certo novamente?
— Já conheço a sua versão da história, agora quero conhecer a dela – explica, percebendo que a intenção nos olhos dele não havia mudado e que ele não estava disposto a concordar com ela. Jane detestava estar naquela situação novamente; ela não queria brigar com Alec mais uma vez.
— E-eu... – gagueja Renata, vacilando diante do olhar inquisidor da vampira mais cruel que já conheceu. Seu corpo conflitava consigo mesmo: seus instintos gritavam por uma fuga, porque Jane era perigosa, má e letal; enquanto sua razão exigia que ficasse, já que Alec era a única certeza que tinha de que os Volturis permaneceriam longe.
— Desenrole a língua, escudeira! – ordena, aumentando a pressão sobre a vampira para que pudesse arrancar-lhe a verdade. Jane se levanta e avança um passo, fazendo o irmão abrir caminho com uma nítida expressão de discordância.
Renata percebe o recuo de Alec, constatando que, apesar de prometer protegê-la de seus perseguidores, ele jamais conseguiria protegê-la de Jane. Os gêmeos partilharam o mesmo ventre, o mesmo sangue, a mesma punição na fogueira e o mesmo caminho para a imortalidade; eles não eram apenas irmãos, eram uma família, e a escudeira apreciava o conceito de família.
Ela jamais exigiria que ele se colocasse contra Jane, porque também odiaria ficar contra a sua própria gente. Certas batalhas deveriam ser travadas sozinhas, no fim das contas, e a vampira percebeu que talvez precisasse conquistar o direito de fazer parte daquele grupo, precisasse conquistar o respeito de Jane.
— Eu vim para ficar! – confessa Renata, fechando as mãos em punhos para evitar que elas tremessem, fazendo a gêmea empinar levemente o nariz. – Alec me prometeu proteção e exijo que ele honre sua palavra!
— E o que mais? – incentiva Jane, sentindo que ela não havia acabado.
— Eu também quero o que você tem!
— Você quer ser nossa líder? – pergunta Maximilian com espanto, deixando claro que enfrentar Jane naquele quesito seria uma péssima ideia. Jane estreita os olhos diante da teoria, descontente.
— Não, idiota, estava falando do amor! – rebate prontamente, encarando os olhos cerrados da gêmea com hesitação. – Eu sou uma escudeira, gosto do meu papel na retaguarda e sou muito boa no que faço, mas o que eu vi você fazer em Volterra... Largar tudo e afrontar o mestre por amor a ele... Tudo isso me fez desejar o mesmo. Eu também quero ser livre para ser quem eu quiser e sentir o que eu desejar!
— Aro – diz Jane, corrigindo-a.
— O quê?
— Ele não é mais o seu mestre – explica ela, indo até a escudeira e observando-a de cima a baixo, ainda chocada com o que fora capaz de fazer. Será que ela havia se dado conta da gravidade de seu ato? – Você largou tudo e lhe concedeu dupla afronta: uma ao fugir e outra ao se unir a nós, portanto não pode mais chamá-lo de mestre... – Jane completa o círculo ao redor da vampira, estabelecendo o contato visual e percebendo um resquício de medo no fundo dos olhos vermelhos. Renata tinha ciência do que havia feito, era inteligente o bastante para isso, e aquilo a agradava. – Quão rápido o seu escudo consegue ser?
— Bem rápido, quase instantâneo!
— Mesmo se for golpeada? – questiona Jane.
Renata deita a cabeça levemente para o lado, logo sentindo a dor avassaladora do poder de Jane irradiar em seu interior, como se o seu corpo estivesse queimando e se dilacerando. Um grito doloroso ecoou de suas cordas vocais ao mesmo tempo em que seu corpo caiu de joelhos no chão. No entanto, no segundo seguinte, a dor desapareceu e a vampira sentiu o impacto da mão de Jane em seu rosto.
— Erga seu escudo, escudeira! – ordena Jane, encarando o semblante confuso de Renata, que ainda se recuperava do golpe.
— O quê?
— Ter um escudo rápido não é suficiente se não conseguir usá-lo depois de um ataque mental. Alec prometeu protegê-la, mas eu não permitirei que coloque a segunda vida dele em risco por ser um peso morto. Mostre-me o que sabe fazer!
Maximilian se aproxima de Jane, temendo que ela pudesse passar dos limites ao pressioná-la demais. Contudo, ele pouco pôde fazer quando o poder dela açoitou a mente de Renata novamente, fazendo-a grunhir e cerrar os dentes. Ela buscou aguentar o teste valentemente, mas, ainda assim, foi incapaz de evitar o segundo tapa de sua avaliadora.
— Seja mais rápida – rosnou Jane, repetindo a bateria de ataques uma e outra vez, falhando em todas elas.
— Jane, já chega – pede Maximilian, tocando levemente no ombro dela e fazendo-a estalar a língua em descontentamento.
Renata aproveita a pausa para colocar sua mente em ordem. Ela entendia o que Jane estava fazendo; entendia que um ataque mental era a única coisa capaz de atravessar o seu escudo e, por isso, precisava ser mais resistente e mais rápida.
— Faça de novo. Eu consigo! – pede ofegante, preparando-se para o ataque seguinte.
Não precisou mais do que um olhar para que o ataque fosse lançado. Renata sentiu a dor queimar em seu corpo, mais forte do que das outras vezes.
Jane, já irritada, fechou as mãos em punhos e se preparou. Entretanto, quando o ataque cessou e o soco foi desferido, ela sentiu uma onda de energia descompensar seus movimentos, fazendo seu corpo rodopiar e direcionar o punho para o rosto de Maximilian.
O camaleão cambaleia para trás, colocando a mão direita sobre o nariz e soltando um palavrão. Ele era fisicamente mais forte que Jane, mas aquilo não o impedia de sentir dor com um soco tão certeiro. E, apesar de nunca ter sentido antes, a vampira sabia que aquele era o efeito do escudo de Renata.
— Já é alguma coisa – conclui Jane, girando em seus calcanhares e voltando para a cama, deixando a raiva se esvair com um longo suspiro.
A escudeira a encara sem entender, precisando buscar em Maximilian a confirmação de que tinha conseguido algo bom. O camaleão lhe sorri, massageando o rosto com uma mão e fazendo um sinal positivo com a outra, para mostrar que tinha feito tudo certo, que conseguira a aprovação de Jane para ficar. E Alec demonstrava igual satisfação, encarando-a com semblante calmo e certo orgulho no olhar.
Perplexa, a vampira precisou de vários segundos para processar o fato de ter conseguido o consentimento de alguém como Jane. Depois de tantos anos na Guarda Volturi, observando e ouvindo coisas às escondidas, ela pensava saber o suficiente sobre todos os vampiros do clã italiano. Entretanto, Renata percebia que, longe das garras de Aro, os gêmeos eram totalmente diferentes de como sempre os viu.
— Alec! – continua Jane, desprendendo a adaga do passador de seu cinto e jogando-a para ele. – Você precisa caçar…
O vampiro pega o objeto no ar. Sabia que precisava se alimentar; podia sentir seus sentidos mais alertas e o corpo mais tenso, além de um ligeiro ardor no fundo da garganta.
— Quando anoitecer, leve a novata com você e a ensine. Ainda teremos muito trabalho com ela e não quero perder tempo com algo tão pequeno como regras de caça.
Alec concorda com a cabeça, saindo com Renata em seu encalço, enquanto Maximilian ligava a televisão num filme de terror e aumentava o volume para justificar os gritos e grunhidos que ecoaram do quarto, caso os pobres humanos tivessem ouvido algo.
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