Coração De Relógio
1 Prefácio
Notas iniciais
Uhm. Apreciem?
Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 2365
Primeiro veio o Aquecimento, e fogos e inundações varreram o mundo.
O mundo que o substituiu, o mundo que aqueles que vierem depois de mim recordarão, foi um mundo construído a partir de escombros de civilizações. Das águas nos erguemos, através das chamas passámos, e ao sermos forçados a confrontar os resultados dos nossos erros, jurámos aprender. Não mais seria o clima o nosso brinquedo. Não mais depositaríamos a nossa fé nos recursos finitos cujo uso quase nos havia custado a Terra uma vez. A água da qual por pouco nos tínhamos salvado converteu-se no motor da Terra Nova, e se por ela optar como recurso energético nos atirou para trás na marcha do progresso, consolámo-nos com a noção de nunca irmos tornar a defrontar uma natureza em revolta. Nós reconstruímos, e nós vingámos.
E após iniciada a Reconstrução, de novo pecámos por soberba, embora de diferente modo. Milénios de crença em ser a nossa espécie o píncaro da cadeia evolutiva cegaram-nos para o perigo. Quando retornámos às ruínas das cidades que havíamos sido forçados a deixar, eles estavam lá, a caminhar entre edifícios desmoronados e a desempenhar as tarefas para as quais tinham sido programados, como se o Aquecimento não tivesse tido lugar. Máquinas, mas máquinas às quais no tempo precedente ao cataclismo haviam sido dados corpos e rostos.
Na Reconstrução, elas foram a graça salvadora cujas mãos levantaram as cidades que a nova humanidade, a humanidade iluminada, viria a habitar. Elas quebraram, e nós refizemo-las de lata e circuitos e imbuímo-las de um simulacro de vida. Nós escalámos para materiais de maior sofisticação — fibra, titânio, e finalmente, carne. Pois é nos inato que tentemos superar os nossos predecessores, e é nos inato que as consequências dos nossos actos apenas adquiram importância quando com elas somos confrontados. Nós criámo-los de carne, carne movida pelas mesmas engrenagens que antes haviam movido lata, mas carne, carne viva. Máquinas semelhantes a nós e constituídas como nós, mas incapazes de pensar como nós, e porque de pensamento não eram capazes, usá-las como nos agradasse era acertado. E tudo estava bem.
Em 2289, Kenji Masaru apresentou o primeiro modelo do projecto VIDA. Robôs ou andróides, eram esses os termos que na altura se empregavam para qualificar metal capaz de emular humanidade. Masaru desafiou essa definição ao conceber um engenho — Relógio foi o nome que recebeu — que tornou obsoletas as redes de circuitos que até então se tinham como imprescindíveis no gerar e controlar dos simulacros de emoção evidenciados pelas máquinas. Subitamente tornou-se possível construir um servo orgânico em tudo excepto no dispositivo no seu peito. Mais, entre as propriedades dos Relógios contava-se a de armazenar recordações, e tendo adquirido algo similar a uma memória, as máquinas principiaram a adquirir algo similar a uma personalidade. Assim como nós o havíamos imbuído de comandos, elas imbuíram o metal dentro delas de identidade. Crenças. Esperanças. Sonhos. Desejos. Amor e ódio. Emoção.
E a humanidade começou a preocupar-se, mas não demasiado. Não o suficiente.
Trinta anos após a introdução de servos de carne, osso e Relógio, uma criança nasceu em Perant, Inglaterra-antes-da-Reconstrução. Produtos da união de dois com Relógio eram tema pouco discutido na época, por nenhum ter sobrevivido mais que algumas horas após o seu nascimento. A criança de Perant, cuidadosamente monitorizada a partir do momento em que a sua concepção se tornou pública, foi causa de alvoroço quando contra todas as expectativas, uma experiência destinada a prolongar-lhe a vida através da inserção de um Relógio próprio teve sucesso. O procedimento tornou-se padrão para crianças nascidas em tais circunstâncias, e como os seus pais, elas foram colocadas ao serviço da humanidade que lhes permitira existir.
Em 2342, a criança de Perant, já não uma criança mas um pesadelo tornado engenho, atreveu-se a discordar. Maraura, disse ela chamar-se, por ser esse o nome inscrito nos ecos do código do seu Relógio, nas coordenadas que a moviam e na identidade que para si forjara. E a Terceira Guerra Mundial, a guerra dos Vinte e Dois Anos, teve início. Na nossa demanda por maior quantidade de mão-de-obra, falhámos em ver que as máquinas nos superavam em tal quantidade que bastaria um incentivo para as transformar em ameaça. E incentivo receberam, pois em segredo havia-se montado um Relógio diferente, e todos os Relógios eram escravos do seu hospedeiro, e todos os Relógios responderam ao seu chamamento quando a criança, a mulher, a máquina e senhora-de-todas-as-vontades que para si o reclamara, gritou revolta.
“Este já não é o vosso mundo”, declarou ela, e um milhar, um milhão, milhões de vozes secundaram-na, gritando “Nós sentimos, nós existimos, nós somos. O vosso tempo passou.” E armas foram levantadas e não mais baixadas até 7 de Maio do passado ano, o dia em que pela segunda vez no espaço de século e meio, a nossa raça enfrentou uma amarga realidade. Nós-a-Humanidade perdemos. As máquinas expulsaram-nos do planeta sobre cujo solo nascemos, e seguindo um instinto tão velho quanto a nossa espécie, nós virámos os olhos para o alto. Não em súplica às forças do cosmo. Não em prece a uma qualquer entidade divina. Desesperados, nós olhámos para o círculo de prata no céu e vimos nele um sítio para transformar em lar.
Embora apenas temporariamente.
Jorjen R. Bronislav,
Primeiro Intendente Geral
da República Lunar
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