Havia silêncio na oficina. Um silêncio que era tanto mais profundo por denotar, em vez de uma simples ausência de barulho, a ausência do barulho que enchera o espaço e ressoara pelas paredes desde há dias até há momentos atrás, altura em que todos os relógios haviam parado. Todos os relógios era quantificação que uma vez passada a qualificação, incluía relógios de parede, relógios de pêndulo, relógios de pulso espalhados às dezenas sobre secretárias e prateleiras, relógios de cuco e cronómetros, ampulhetas de várias cores e tamanhos, clepsidras, e até um gigantesco relógio de sol.

O relógio de sol ocupava o centro do espaço. Ali dentro, ele era de pouca utilidade. A divisão era mal iluminada e sem janelas, e a escotilha envidraçada no tecto não fornecera suficiente luz para que funcionasse nem no tempo em que não se encontrava coberta de musgo e verdete; luz solar teria de estar munida de facas para passar por ela.

Inserido no chão ao lado do relógio de sol havia um aro ao qual se encontrava agarrada uma mão. Puxando por ele, um alçapão abria-se para revelar a oficina sob a oficina. Esta não se parecia tanto com o local de trabalho de um relojoeiro ou morada de um lunático com uma peculiar obsessão. Ela era a oficina do Relojoeiro, e a maiúscula honorária era a diferença entre quem remexia no interior de relógios de pessoas e quem concebia Relógios para colocar no interior de pessoas. Vida, e os engenhos que a sustentavam, eram nela concebidos, nos tubos translúcidos e nas mesas de trabalho que ocupavam apenas um infinitésimo da sua real dimensão. Debaixo do alçapão existia um mundo.

Na oficina que era uma fachada para a verdadeira havia, para além do silêncio, um corpo.

Uma mão enluvada bateu na porta. A primeira pancada que deu foi suave. A segunda mais insistente. A terceira foi tão forte que empurrou a porta, que estivera encostada o tempo inteiro, e a deixou escancarada. O bico de um sapato ratado passou para dentro e foi esfregado ao encontro da carpete. O seu dono teria respirado fundo, se respirar com qualquer tipo de profundidade não fosse obrigá-lo a aspirar uma golfada do fedor que pairava no interior da divisão – óleo e suor azedo e pele apodrecida e morte. Por um feliz acaso, respirar não era uma necessidade urgente para quem acabava de entrar.

Ele era um construído, e construído era o termo politicamente correcto para alguém que era metal em mais que o Relógio no seu peito. O homem das luvas não aparentava ser a máquina que era, pois pele sintética e implantes capilares eram maravilhosas invenções. Só o seu rosto o traía, e este fazia-o somente quando a situação exigia uma expressão demasiado extravagante para a sua estreita tira de músculos faciais. Em todos os outros aspectos ele parecia normal, e parecê-lo-ia ainda que construídos não existissem em quantidade suficiente para que sê-lo fosse só uma forma diferente de normalidade.

O homem das luvas parou e avaliou o que o rodeava. Os seus olhos caíram no óbvio.

- Hanover — disse, devagar, incredulamente. Ele deu um passo para onde o Relojoeiro se encontrava prostrado. Seria difícil obter resposta dele sem recorrer a um médium e tábua ouija, mas o homem das luvas ajoelhou-se ao lado do corpo e falou-lhe como se esperasse que uma lhe fosse dada. — Hanover. Harold. Merda e Criadores e ponteiros quebrados, acorda! — Ele deu um safanão ao corpo, virando-o.

O buraco vazio no peito do Relojoeiro encheu-lhe a vista e a mente.

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Em dois mil quinhentos e trinta e dois, o mundo era Astarte e as Américas, vazio nos pólos e uma fornalha desolada sob o Equador. A colónia de Fron repousava abaixo, mas não muito abaixo, de onde outrora se encontrara o extenso e entretanto derretido panorama árctico. Em tempos uma zona perpetuamente invernal, o Aquecimento convertera-a numa região de temperaturas só ligeiramente menos cálidas que as do continente. O interior da colónia era um bocado de rocha escavado pelo degelo de glaciares e enegrecido por resíduos de vulcanismo. No seu litoral acumulavam-se fiordes e colunas basálticas, sobre os quais se empinavam cidades que pareciam querer arrastar-se tão para perto do mar quanto a terra firme lhes permitia. Por direito, metade delas deveria ter desabado rocha abaixo e desaparecido nas águas, mas de pé elas estavam, e de pé se manteriam nos séculos por vir.

Cráduma estava enraizada onde a costa encontrava o mar, espremida entre um promontório e vários penedos, à sombra de uma falésia da qual uma barragem se prolongava e entrava na água, fechando a enseada. Cráduma era meio cento de quilómetros quadrados ocupados por casas que protuberavam, como cogumelos de carvão, de cada área de solo apta a ser utilizada como local de construção. A partir do continente, era possível aceder-lhe por barco e dirigível. Para visitantes das cidades vizinhas, existiam as escadas que os Criadores haviam escavado na falésia.

O último barco vindo de para lá do Estreito a chegar a Cráduma fora o Carlada, um cargueiro de depois da Terceira Guerra, com um casco ao qual a cobertura anti incrustante dera uma tonalidade acobreada, e uma chaminé de onde jorrava fumo branco. Ele encontrava-se sentado no cais como se este lhe pertencesse, ocupando três quintos da gare com o seu volume. Normalmente eram apenas contentores o que transportava. Os poucos visitantes do continente que a cidade recebia preferiam a comodidade e rapidez do dirigível a três dias de viagem por mar.

Que mais de três passageiros se encontrassem a ser despejados sobre a doca era portanto uma anomalia. Emma Hanover não apreciava anomalias. Ela era veloz a habituar-se-lhes e a adaptar-se-lhes, mas ressentia-as por interferirem com as suas pretensões de impor ordem no dia-a-dia.

A personalidade de Emma era difícil de descrever, pela mesma razão de ser difícil descrever a chama de uma vela apagada. Descrevê-la a nível de físico era ligeiramente mais simples mas menos relevante. Se lhe fosse requisitado que o fizesse, ela franziria uma sobrancelha, levantaria a outra, e replicaria que parecesse o que parecesse, ela esperava que “apresentável” se encontrasse entre os adjectivos aplicáveis. Depois, afastar-se-ia o mais rápido e delicadamente possível. Quando esta era viva, a sua mãe dissera-lhe que aqueles que colocavam questões estúpidas deviam ser tratados com a paciência com que se trataria um doente. Emma levava o perigo de contágio muito a sério.

Para a maioria daqueles que se reuniam no pontão, o Carlada trazia contentores enviados por parentes no continente, demasiado pesados para ser viável o seu transporte por ar. Para ela, o barco trazia uma parente em si. Amelie. Amelie Marguerite Scarlett Aston Hanover-Finn. Emma desaprovava da vinda desta quase tanto como desaprovava o nome; era inadequado ter mais nomes do meio que Sua Majestade Maud, e inadequação era imperdoável. Que Amelie tivesse resolvido vir naquilo que para ela seria uma muito movimentada semana era o tufo de nata no topo do bolo. Com o casamento marcado para a quarta seguinte, a visita da rapariga seria ainda outro congestionamento de horário a acrescentar à impressionante lista deles que já possuía.

Até há dias atrás, Emma estivera abençoadamente ignorante de que em dado ponto da sua aberrantemente longa existência, o seu tio se reproduzira. Depois chegara a tarde em que regressara do trabalho na fábrica, e ela abrira a porta para encontrar um cartão no tapete da entrada. Um cartão cheio de caligrafia floreada e amabilidades açucaradas, e tão educado em tom que não encontrara um meio digno de recusar o que nele era pedido. Ela considerara ignorar que o recebera, mas Bertha, a sua caseira e ocasional confidente, apercebera-se das suas intenções e dissuadira-a.

Bertha conhecia formas de dissuadir que Emma estava quase certa de serem ilegais.

Portanto, porque ela possuía na sua folha de pagamento um osso velho extremamente duro de roer, a jovem respondera à sua recém-descoberta prima que esta estava autorizada a apresentar-se à sua porta e revolver-lhe a vida. Amelie não lhe comunicara ser essa a sua intenção, mas Emma não duvidava que mal passasse a soleira da porta, esta estaria a puxar de uma chave de fendas e a atacar o seu gerador. Outra coisa não seria de se esperar de quem fora criado por alguém que o seu pai, por admissão própria um louco moderadamente funcional, considerava ter parafusos em falta.

Emma sabia pouco de Harold Hanover e ainda menos das circunstâncias que haviam criado a brecha entre ele e o seu pai. Ela tinha só dois anos quando os seus pais haviam saído de Danebre, onde o seu tio ainda residia. Porém, o que lera e ouvira sobre ele dava-lhe a certeza de que nenhuma filha sua falharia em esquivar-se à norma, pois esquisitice era tão ou mais contagiosa que estupidez. Se Emma aprendera algo no decorrer do ano que passara, esse algo havia sido que esperar o pior era o modo mais pragmático de abordar a vida. Amelie podia ser um digno exemplo de prima. Ela não negava existir uma possibilidade de esta ser uma jovem completamente normal e aceitável, que não a faria arrepender-se amargamente de ter dito à sua futura sogra para a incluir na lista de convidados.

Mas seria sensato começar a preparar-se para o contrário.

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Amelie Marguerite Scarlett Aston Hanover-Finn encontrava-se no seu camarote, a rodopiar em frente a um espelho de corpo inteiro como um sublime, atractivo e elegante pião do desastre. A dada altura, os seus pés enredaram-se nas saias do vestido e a jovem capotou contra a cama. Um abafado “Owf!” mais tarde, ela encontrava-se novamente de pé, a rodar de braços abertos como se não tivesse caído. Amelie e o chão eram velhos amigos que se visitavam com regularidade.

- Eu. Sou. Maravilhosa! – exclamou. “Maravilhoso” era a palavra favorita dela. Amelie era alguém que encarava falta de auto-estima como sendo uma doença bizarra que atacava outras pessoas, pessoas que não ela e que não tinham a felicidade de ser tão fisicamente aprazíveis quanto ela. Parando em frente ao espelho para ajeitar o vestido, uma peça de cetim verde que requeria uma certa figura para ser envergado sem que quem o envergava parecesse um legume, ela fitou o seu reflexo.

Amelie não carecia de espelho para saber que o seu rosto seria o mais belo da sala mesmo que houvesse um baile movimentado a ter lugar nela. O candeeiro de tecto, que oscilava para trás e para diante com os movimentos do navio, espraiava uma luz que empalidecia em intensidade quando comparada à radiância dos seus olhos, mas era suficiente para salientar a suavidade da sua pele em tons de caramelo, o ondulado dos seus cabelos castanhos, a curvatura dos seus lábios e pestanas e as covinhas nas suas bochechas e queixo. Amelie encostou um dedo ao queixo em questão. Estava a chover no lado de fora do navio. Ela esperava que quem a viesse receber estivesse com um guarda-chuva, ou a água frisaria o seu cabelo. Cabelos frisados eram a cruz da sua existência.

Reconhecer quem a viera receber seria um problema confesso. As fotografias que Amelie vira do seu tio eram de antes de ele transferir o seu Relógio do corpo que este ocupara por dois séculos para um corpo de carne. Era quase certo que seria irreconhecível na sua nova forma. A sua tia, essa não surgia em foto alguma. Por despeito, suspeitava a jovem. Lucianna Meinka viera e arrebatara um dos dois irmãos para um fim do mundo do outro lado do mar, e aquele que ficara nunca lhe perdoara a ofensa. Pior, o irmão que fora trocara a perenidade do metal por uma prisão de carne e pelas amarras do matrimónio. Amelie nunca ouvira essa afirmação ser feita com menos que repulsa e ressentimento, mas imaginá-lo nunca falhara em humedecer-lhe os olhos. Para além de parecer uma em aspecto, ela tinha a alma de uma heroína romântica. No seu livro, era impossível um sacrifício feito por amor ser “O mais maldito erro que aquele imbecil cometeu desde que o seu Relógio foi activado, e isso é isso.”

Quanto à sua prima, a que respondera ao seu cartão, Amelie não tinha memória dela. A réplica que recebera havia sido curta e rígida e exprimira surpresa por ela existir, o que era ridículo. Os seus tios não podiam desconhecer a sua existência. Ela tivera três anos quando eles haviam deixado Danebre, e era quase certo que nesse tempo o tio Walt precisava de ter visitado a oficina pelo menos numa ocasião. Mais provável seria que tivessem preferido não informar a filha de que esta tinha uma prima, por temerem que isso a fosse fazer desejar retomar a comunicação com o outro lado da família. Amelie esperava que não os aborrecesse que tivesse sido ela a tomar essa iniciativa.
Mas mais importante que o perigo de não ir reconhecer os seus parentes, era o perigo de não ir estar suficientemente apresentável quando os encontrasse. Como esta descobrira tardiamente, Amelie e navios não eram a mais ideal das combinações. A sua visão de viajar de barco fora uma que pecara por ser idílica; golfinhos e peixes-voadores e tartarugas-marinhas e entardeceres passados debruçada sobre a amurada haviam marcado presença nos seus pensamentos. Que ela se encontrara debruçada sobre a amurada com frequência era facto, mas infelizmente, fizera-o maioritariamente para vomitar no oceano a sua última refeição. O seu segundo e terceiro dia de viagem haviam sido passados trancada dentro do camarote, com a cara de uma verdura de pepino e o estômago a arder como se o tivessem atravessado com um tição em brasa. As marcas do seu longo enjoo já não eram visíveis no seu rosto, mas Amelie considerava que mesmo o maravilhoso podia ser melhorado, razão pela qual seleccionou um dos chapéus alinhados sobre a cama e o espetou na sua pilha de cabelo. Se os seus tios eram como a sua prima, e a sua prima era como a resposta que esta dera, estes não apreciavam desleixo.

O que, admitia ela, podia ir ser um problema.

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Começara a chover enquanto Emma esperava no pontão. Ela correra para se ir abrigar sob um toldo. De debaixo dele, a jovem assistira ao desembarque de passageiros e marinheiros de caixotes ao ombro. De entre os primeiros, a maioria fizera por desaparecer ou chamar uma carruagem, e nenhum deles correspondia ao que ela sabia dever esperar de uma prima sua. Na doca permaneciam apenas dois funcionários da Coroa, que se encontravam espremidos um contra o outro sob um guarda-chuva. A presença deles daquele lado do Estreito era costumada, ainda que o craduense comum tratasse mandatos vindos de fora de uma eufemisticamente selectiva forma. Fron no seu todo tratava o seu estatuto de colónia como pouco mais que uma formalidade, e a Coroa tolerava esse estado das coisas enquanto problemas não fossem levantados e os impostos pagos.

Emma colocou os olhos no alto e bateu no chão com o sapato. O sol principiava a desaparecer por detrás da barragem. Acima da sua cabeça, um barulho profano encheu o céu, sendo seguido por uma forma oval que partiu as nuvens e mergulhou o cais na sombra. A rapariga soprou por entre os dentes e fez uma carranca na direcção do dirigível. As passagens do aborto de metal e gás primavam pela pontualidade, significando que deviam ser seis horas. E Amelie continuava sem marcar presença.

- Bons dias e bons ventos, Emma — disse uma voz atrás dela. Emma reconheceu-a como pertencendo à senhora Amanil, e virar-se confirmou a sua suspeita. A mulher encontrava-se parada com uma mala na mão, e ao lado dela estava parado um híbrido de pessoa e bagagem. Vê-las não a surpreendeu. Ela calculava que com o calor a chegar ao continente, Ermelinda Amanil fosse aparecer cedo ou tarde. Esta vinha com as estações, contrariando o desígnio segundo o qual a ordem natural concebera as aves migratórias e recolhendo-se em Cráduma mal a temperatura começava a subir. Emma conhecia-a porque os seus pais haviam sido visita frequente no chalé na falésia do qual esta era proprietária.

- Boa tarde, senhora Amanil – respondeu a jovem. Os seus olhos varreram o cais, ainda em busca de um rosto que pudesse pertencer à sua prima extraviada, antes de se irem deter na criatura-mala. – E o mesmo para ti, Jesha. A vossa carruagem não chegou ainda?

- O três vezes amaldiçoado cocheiro conseguiu quebrar uma roda no caminho para cá, e não teve nem a gentileza de nos oferecer guarda-chuvas. Opões-te a que nos abriguemos contigo enquanto esperámos que ele resolva o problema? — Emma não se opunha, e disse-o. Ela desviou-se para dar às duas espaço onde se encostarem e largarem as malas. Jesha pousou-as no chão, metodicamente. O seu rosto vestia a sua habitual expressão de perpétuo susto, e ela sussurrou algo ao ouvido da mãe antes de deixar os ombros descair e se encostar à parede. Jesha era, para o colocar delicadamente, peculiar. — Que te traz aqui, minha querida? O teu turno na fábrica terminou mais cedo?

- Não — disse Emma, com um simulacro de sorriso. Se lhe fosse dada uma coroa por cada “querida” que a mulher arremessara na sua direcção durante os anos em que a conhecera, ela seria a mais rica jovem de Cráduma. — Estou à espera de uma prima minha, que veio convosco no Carlada. Poderá talvez dizer-me onde ela pára? Porque já todos desembarcaram, e não vejo sinal de ninguém que se enquadre no que me foi dado a esperar. — A lista de coisas que irritavam Emma iria, se desenrolada, estender-se desde o cais até à base das falésias, mas falta de pontualidade era um dos itens que a encabeçavam. Ela não iria ao ponto de ser desagradável para com Amelie quando esta se dignasse a dar um ar da sua graça, mas fez um voto solene de a ir fuzilar com um olhar ressentido.

Algumas pessoas chamavam-lhe azeda. Emma nunca entendera porquê.

- Tens a certeza absoluta de que ela veio no navio? Porque a verdade é que não me recordo de nos termos cruzado. — A senhora Amanil tocou o queixo com um dedo. — Embora me ocorra que houve uma rapariga que passou a viagem quase inteira doente no camarote. Emily ou Amelie, ou algo do género.

- Amelie, essa é ela. — Doença. Então a outra não se atrasara por alguma razão frívola, o pior crime que era possível cometer-se nos olhos dela. A definição de “frívolo” de Emma era uma que faria um faquir em jejum abanar a cabeça com descrença, mas ela sustinha-a com maníaco e intransigente fervor. — Esperarei um pouco mais. Se ela continuar sem aparecer, irei ver se algo de errado se passa.

- E fazes bem. Ela pode ter piorado, a pobre querida. A minha Jesy também tem estado constipada, por isso deve andar por aí algum vírus. — Jesha tossiu à laia de demonstração e retomou a sua anterior expressão de desconforto amedrontado. – Mas agora que aqui estamos, os ares do mar irão tratar de resolver isso. Ficaremos durante um mês, e conto rever os teus pais enquanto aqui estiver. A querida Lucianna prometeu-me uma receita de pudim, embora suspeite que vá ter de lho relembrar. Ela deve estar tão esgotada, tendo tido um bebé numa tão avançada idade...

Claro, murmurou Emma no sossego da sua mente, após pestanejar com ar chocado. As Amanil vinham somente uma vez por ano, e a última visita delas dera-se antes da sequência de desgraças.

- A minha mãe morreu. — Vagarosamente, o sorriso educado que marcara presença no rosto da mulher desde que ela se aproximara desfez-se. Jesha tirou um momento para parecer perturbada. E Emma prosseguiu, mantendo a voz átona apesar de o tema não ser um que favorecesse a conservação de serenidade. — No entanto, julgo lembrar-me de a Bertha ter ficado com os livros de receitas dela. Posso tentar encontrar-lhe aquela que tencionava pedir, se ainda estiver interessada. Se me explicar…

- Oh, Emma. Oh, minha pobre, pobre criança. — Com um ruge-ruge de saias e um rasgo de movimento, a senhora Amanil puxou a jovem para um abraço, que esta suportou apenas por não desejar ofender. Havia uma linha de humidade a formar-se sob as pálpebras pesadamente maquilhadas da mulher. Ela sabia isso porque esta não tardou a converter-se em gota, e de seguida em enchente. Emma assistiu ao pranto com um ar distanciado que só se desfez quando as lágrimas lhe começaram a correr para o ombro. Então ela fez por afastar a outra, tão delicadamente quanto era capaz. — É quase impossível crer, era ela tão jovem…isto deve ser tão difícil para ti, e não consigo imaginar, o teu pai, o bebé…

- Eu aprecio a sua preocupação — disse Emma, pois precisava de dizer algo para preencher o espaço entre os molhados borbotos de ruído que saíam da garganta da senhora Amanil. Jesha enfiou a mão no bolso do vestido com uma genérica expressão de pesar por alguém ter morrido, retirou um lenço de dentro dele e estendeu-o à sua mãe, que lhe pegou e assoou o nariz nele com um som que era tudo excepto adequado para ser emitido em público. — E estou certa de que os meus pais também.

- Como é que algo assim foi acontecer? — Ainda havia soluços entre as palavras, mas Emma fez por o ignorar. A senhora Amanil estava a reagir como era normal reagir-se a uma novidade como a que lhe acabava de ser dada. A reagir como ela teria reagido se na altura não tivesse havido demais para ser feito e decidido, demasiadas obrigações para que luto fosse um luxo ao qual se podia dar. — Nunca se ouviu falar de um Relógio a parar tão antes da data prevista, e o teu pai costumava ser um Relojoeiro. Não imagino que não tenha havido nada a poder ser feito, além de…oh. — A mão da mulher voou para a sua boca. — Ela não…ela não tinha o teu problema, pois não? Porque nunca a ouvi referi-lo…

Emma suspirou. A sua detestação pela deformidade mecânica que tornava obsoleto o Relógio dentro do seu peito apenas conhecia rival no seu ódio pelo facto de todos estarem ao corrente de que havia algo de errado com ela. O seu Relógio mantinha-a em vida, mas aí terminava a sua utilidade. Era impossível adivinhar a hora a partir das suas batidas irregulares, assim como tentar modificar o seu funcionamento ou aceder ao seu interior. Se o espólio da biblioteca de Cráduma era fonte viável de informação, ela era a única pessoa no mundo a sofrer de semelhante anomalia.

Emma realmente, realmente não apreciava anomalias.

- Não — retorquiu. — Ela cometeu suicídio. Mesmo o mais talentoso Relojoeiro pode pouco quando o seu paciente tomou medidas que tornam impossível reanimá-lo. O meu pai encontrava-se de mãos atadas.

- Isso…- começou a senhora Amanil, mas o seu parcialmente sufocado sussurro foi abafado por um grito que se levantou na outra extremidade do cais, saído da boca de uma figurinha que se encontrava parada na doca com uma montanha de malas ao lado e um guarda-chuva seguro sobre a sua cabeça.

- HANOVER! — bradou ela novamente, sobressaltando um trio de gaivotas que a chuva e o seu outro grito haviam falhado em desalojar do mastro no qual se achavam empoleiradas. — Hanover, aqui!

- Eu não diria que ela parece muito doente — murmurou Emma, erguendo o braço e acenando à figura, que produziu um guincho com mais de algumas semelhanças com os que a sua irmã bebé costumava soltar, e começou a correr na direcção delas. — Senhora Amanil, Jesha, podem dar-me licença por um instante? Penso que a minha prima nos acaba de descobrir.

O primeiro pensamento a passar pela cabeça de Emma, quando Amelie saiu do meio da chuva torrencial, e se aproximou o suficiente para ser vista como algo outro que uma figura difusa, foi algo na linha de “Porque tem ela um queque em cima da cabeça?”. O segundo pensamento, esse ligeiramente menos coerente, foi “Arp!”. Um “Arp” que secundou com um passo dado para o lado, impedindo-se de ser levada de arrasto quando a outra derrapou e veio na sua direcção como um míssil descontrolado.

Jesha, cujos reflexos eram menos afinados, foi atingida de frente e desabou numa pilha de saias de folhos e bagagem, exemplo no qual Amelie a seguiu. Uma rajada de vento arrancou-lhe o queque da cabeça e soprou-o na cara de Emma, que o apanhou e examinou. Não um queque, então. Um chapéu. A sua prima era alguém que voluntariamente usava chapéus semelhantes a queques.

Preocupante.

- Desculpa. Peço imensas desculpas. – Amelie estava a levantar-se. Jesha continuava no chão, a exibir uma expressão confusa. Recompondo-se em tempo recorde, mas não a tempo de ultrapassar a senhora Amanil, que já estava a pescar a filha do pavimento molhado, Emma passou a sua prima em revista. A aparência desta não dizia tratar-se de uma típica menina da grande cidade. Ela gritava-o. Jesha, invejada entre as raparigas locais pela indumentária e por pouco mais, dir-se-ia uma varredora de rua quando posta ao lado daquela aparição em cetim verde. Ainda que a aparição em causa estivesse a derramar água por todos os poros, e a respingar grande parte dela para cima da senhora Amanil que, por sua vez, se estava a esforçar para permanecer graciosa.

- Olá, sou a Amelie — disse Amelie, dirigindo-se a Jesha, que se dobrou sobre o seu estômago e rebentou num ataque de tosse rouca. — Tu és aquela que me escreveu de volta, não és? A…Ellie?

- Je…Jesha – gaguejou Jesha, olhando a sua mãe como se pedisse instruções. – Nenhuma Ellie.

- Oh. Bom, a carta que recebi estava assinada por uma, mas posso ter lido mal. Afinal, ela estava escrita numa caligrafia que era um martírio para se entender. E ooh, olha, até temos malas idênticas e a condizer, não há dúvida de que somos família! – Amelie arrancou o queque das mãos de Emma e esborrachou-o em cima da cabeça sem dispensar à jovem um olhar que fosse. A sua atenção estava toda em Jesha, que tremia como se os seus pés procurassem cavar um buraco no qual se esconder, e na senhora Amanil, que se Emma podia servir de juíza, estava menos que entusiasmada com tudo aquilo. Amelie encarou-a. – Tia Lucianna. É a tia Lucianna, não é? Desta vez acertei.

- Lamento, mas não – replicou a mulher, levando o lenço aos olhos e secando os seus cantos. Tudo o que Emma conseguia pensar era “Elas vieram no mesmo barco. Elas vieram no maldito mesmo barco, e ela não é nem capaz de dizer que elas não são a sua tia e prima? O que no mundo há de errado com a cabeça dela, para além do facto evidente de esta se encontrar enfeitada com artigos de pastelaria?”. – A tua tia…oh, é demasiado horrível. Ela contar-te-á com certeza. Emma, querida, avisa o teu pai de que mal possamos, eu e a Jesy o visitaremos para lhe darmos as nossas condolências.

- Receio que tal não vá ser possível. O meu pai está em Skagard. — Os olhos da mulher aumentaram de tamanho, e a mão na qual ela segurava o lenço descaiu. O seu horror era tanto como seria próprio, mas a sua surpresa afigurar-se-ia falsa ainda que Emma não conhecesse a improbabilidade de existir quem acreditasse que Walter Hanover não acabaria num hospício mais cedo ou mais tarde. — Mas não hesite em passar por minha casa. Embora eu vá estar fora mais vezes que não, a Bertha terá todo o prazer em desencantar a receita que deseja. Tenham um excelente resto de dia, as duas. — Jesha deu-lhe um aperto de mão que era tão tremelicante e isento de vitalidade como ela mesma, e começou a recolher as malas que se haviam espalhado sob o toldo. A senhora Amanil permaneceu quieta por uns instantes, sacudindo a cabeça como se não estivesse certa do que devia dizer, até decidir desarmar a desconfortável atmosfera com um aceno na direcção de Amelie e um olhar húmido dirigido a Emma.

- Não te incomodes com a receita, querida — murmurou ela. Emma ia para replicar, mas um corpo duro colidiu com ela, deixando-a tonta e maleável o suficiente para ser puxada para outro abraço forçado. A sua voz acabou sufocada no ombro de Amelie, e quando ela sucedeu em retirar o rosto dele, as duas tinham-se ido. Eternidades mais tarde, a rapariga libertou-a e postou-se à frente dela, a sorrir.

- Emma e não Ellie, então! — declarou, com ar triunfante. — Desculpa o engano. — Emma ainda estava a refazer-se da excessivamente familiar noção de familiaridade que a outra tinha. Ela inalou; exercícios de respiração ajudavam-na quando o seu Relógio começava a acelerar em demasia, mas era raro que contribuíssem para que o seu olho esquerdo parasse de tremer e a veia na sua têmpora de pulsar.

- Não há problema. E tu és a Amelie. Amelie Marguerite Scarlett Hano…

- Amelie chega muito bem. — Emma revirou os olhos. Ela dera-se ao incómodo de decorar o nome, e que os Criadores a levassem se não seguraria com unhas e dentes a única oportunidade que teria de o utilizar sem que a sua fachada irrepreensível se quebrasse. — Respondo por Mel, também, mas só...

-...ver-Finn, a filha do tio Harold. Como está ele? Mal me recordo de quando o vi pela última vez.

- Oh, bem. Absolutamente-fantasticamente-estrondosamente bem. Só ocupado com o trabalho, e tudo mais. Trabalho, e Sua Majestade Maud, que viva muitos anos, a chatear-lhe a cabeça. — Emma piscou os olhos à descontracção com que a afirmação fora feita, embora suspeitasse que tivesse ela crescido num lugar que não Cráduma, esta não seria razão para estranhar. Harold Hanover não era apenas um Relojoeiro, e Hanover era um nome que coloria as páginas de livros de história. O seu tio era um herói a par com a Primeira Rainha e o Décimo Terceiro Pelotão. O mundo em que viviam, um mundo que o Êxodo libertara da opressão dos Criadores, devia a sua existência em grande parte aos esforços dele. Tivessem permanecido em Danebre, e a sua família seria célebre, algo que ela só o sabia por se tratar de uma das coisas que o ensino obrigatório lhe ensinara. Os seus pais não falavam no assunto, e o resto de Cráduma não estava interessado em mencioná-lo. — E os tios, estão como?

- Isso é algo que prefiro discutir em casa. Precisas de ajuda com a bagagem?

- Não, não há nece...whopst! — Na pressa de ir recolher uma mala que rolara para fora do toldo, Amelie perdeu o equilíbrio e acabou estendida ao comprido numa poça. Emma revirou os olhos e estendeu-lhe a mão para a puxar para cima. — Desculpa, desculpa, sou tão desastrada. "Descoordenação" devia ser o meu nome do meio. — Tu já tens nomes do meio de sobra, pensou ela, mas não o disse.

- Não tem importância.

- É claro que tem.

- Não, realmente, não tem importância. Leva apenas duas malas. Eu tratarei do resto.

- Oh, não será preciso, a sério, eu posso com elas todas. Só um segunwhooopss...

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O dirigível que fazia o percurso entre Cráduma, Cidade Flutuante e o resto de Astarte era uma relíquia dos primeiros anos pós-Êxodo. O homem das luvas não colocava em causa que este vira reparações nos seus três quartos de século em serviço, mas ele apreciava poder ter presente que em circunstâncias extremas, partir o vidro e saltar para fora seria possível. Embora se tratasse de um pormenor que inicialmente encarara como sendo supérfluo, ele dava graças a Sua Majestade por ter sido colocado em primeira classe. Segunda classe e balão encontravam-se acima e eram isoladas do exterior. Na parte inferior do dirigível, a sensação claustrofóbica que as paredes de metal recurvado lhe davam era menor, embora não duvidasse que estaria em pânico caso sofresse de vertigens.

- Sublime — disse o sujeito ao lado dele. O americano. O homem das luvas notara, quando ele se dirigira a um dos do grupo que o acompanhava, que todos falavam a mixórdia incompreensível de mecân própria do ocidente do mundo civilizado. Ele ignorava se o americano se lhe dirigia ou se este apenas pensava alto. Este estava fixado no chão de vidro como se nunca tivesse visto um.

O que não era tão estranho quanto isso, agora que ele parava e pensava. Na parte levantina de Astarte era comum verem-se aeróstatos com base vítrea, mas nas Américas tinham-nos banido por razões de segurança. Que alguém de lá vindo reagisse com espanto ao descobrir-se capaz de olhar para baixo e ver aquilo que o dirigível sobrevoava era até muito compreensível.

- Primeira visita? — O homem das luvas foi arrancado ao seu devaneio pela inesperada questão do americano. Este dirigiu-se-lhe de onde estava: imóvel sobre o vidro. Se olhado de determinado ângulo, dir-se-ia que o sujeito flutuava sobre os tectos de aço negro aglomerados sob o dirigível. Tectos, disse o homem das luvas para si. Significando que em breve aterrariam. Com franqueza, já não seria sem tempo. — Só o digo porque parece nervoso. Se precisar, um dos meus colegas tem tónico calmante.

- Um pensamento simpático, mas não é preciso. — Nervos estavam longe de ser o que ele sentia.

O homem das luvas atravessara o Estreito para encontrar os assim chamados parentes de Harold, embora fosse improvável que soubessem de algo. As relações existentes entre os Hanover de um lado e do outro do oceano eram parcas e esporádicas, e os irmãos - hah! — não se viam em pessoa desde que Walter se mudara. Uma contenda acerca de uma mulher, tinham-lhe dito quando inquirira sobre o motivo da separação, e de entre todas as pobres razões para colocar fim numa associação com dois séculos de idade, essa parecia-lhe ser a mais idiota. Mas Walter sempre fora um romântico, a passo que Harold…Harold tinha sempre sido Harold, e dizer isso era dizer mais que o suficiente.

O homem das luvas não pretendia deter-se longamente em Cráduma. As Hanover residentes na cidade eram duas raparigas decididamente novas demais para estarem por dentro dos assuntos de que desejava informar-se. Ele pararia pelo tempo de as informar do sucedido e seguiria viagem para a ilha de Skagard. Lá, numa sala branca do Instituto Relojoeiro, residia a sua melhor fonte de respostas. Rever Walter seria uma merda de uma experiência ainda que este não tivesse desenvolvido um infeliz pendor para atirar essa substância às paredes. Eles nunca se tinham dado, e agora que o sujeito se encontrava doido que nem um cuco, o homem das luvas preferiria tirar dentes a ferro do que falar-lhe.

Mas precisava de ser feito. Havia uma cavidade vazia na sua mente, e ele precisava de saber.

- Avise caso mude de ideias — disse o americano. Uma pequena hesitação mais tarde, este estendeu-lhe a mão. — Joshua Laertes. Aventureiro, estudioso, explorador e ex-viciado em ópio. Prazer.

- Investigador anónimo. — O homem das luvas apertou a mão e estudou o corpo ao qual esta estava agarrada. Laertes não passava a impressão de ser nenhuma das coisas que enumerara, exceptuando a terceira. Esta era apregoada por tudo na aparência dele, desde os óculos quadrados à jaqueta de mestre-escola. O que só tornava mais bizarros os seus restantes créditos. — Igualmente.

- Veio gozar o ar marítimo? — Aparentemente convencido de uma apresentação unilateral equivaler a autorização para iniciar uma conversa, Laertes apontou para baixo. — As praias daqui significam pouco, desde já aviso. Talvez em Hakon consiga encontrar um par de metros de areia, mas terá de passar a falésia para lá chegar, e a água deverá estar demasiado fria para querer entrar nela.

- Sorte minha que não tenha vindo de férias, então.

- Ah, então é um apaixonado por História. — Ao notar-se alvo de um olhar curioso, Laertes elaborou: — A única razão para quem quer que seja se dirigir aqui é ou a comida…está a ver aquela padaria ali, entalada no canto da praça? A com o tecto esverdeado? Ali fazem-se as melhores quiches deste lado do Estreito, vá por mim. E a História. Fron é rica nela, em particular esta parte dela. A barragem é uma atracção óbvia, é claro. Toneladas de pedra datando do Aquecimento, usadas na época para manter à margem a água dos degelos, e usadas nos tempos da guerra como primeira linha de defesa contra as nossas forças. Mas há mais; escave fundo, e encontrará restos de tecnologia dos Criadores. Tanques e canhões automáticos, e mais. Há até uns quantos locais com Relógios Eternos, que estavam vivos na altura e assistiram a tudo, consegue imaginar? Os contos que eles não nos poderiam contar…

- Houve sangue — disse o homem das luvas, num sussurro. A praça havia sido deixada para trás, e o dirigível principiava a sua descida para o aeródromo empinado no topo da falésia. — E corpos, e gritos, e pólvora, e cabos eléctricos caídos a crepitar nas poças. Mas sobretudo sangue. Choveu rios no dia da tomada de Fron, mas de alguma forma, as ruas continuaram vermelhas até ao anoitecer por mais que a água as lavasse. Serão essas as histórias que que lhe darão a escutar, se aqueles a quem as pedir tiverem realmente lá estado. — Ele interrompeu-se e verificou que Laertes o encarava com um ar de educada curiosidade. — E não, o valor histórico deste lugar não é a razão de eu aqui estar. História, já a vi e vivi o suficiente da última vez que cá estive. Você veio por ela, suponho?

- O que o faz pensar isso?

- Para além dessa lição em miniatura? “Gastrónomo” não fazia parte da sua lista de ocupações.

- Ah — riu-se o outro, passados momentos. Ele deu uma pancadinha no bloco de notas que espreitava do bolso das calças de flanela. — Isso é um facto. Estou a fazer uma modesta tentativa de compor uma crónica desta colónia, em particular desta cidade. — O homem das luvas olhou para além da cabeça de Laertes e do sorriso benigno que bailava nos seus lábios finos, para o grupo dele, que ocupava a fila de bancos do outro lado do círculo de vidro no chão. Ele indicou-os com o dedo.

- Precisa de tanta ajuda assim para a escrever? — comentou, num tom que nada pretendia implicar e tinha uma miríade de implicações por esse mesmo motivo.

- Ficaria surpreendido — respondeu Laertes, descontraidamente. — É na verdade um golpe de sorte que me tenha deparado consigo. Tropeçar num veterano é mais difícil do que se poderia pensar, acredite. Que me diz a juntar-se a nós para jantar, quando aterrarmos? Porque tenho de me confessar intrigado com a sua…crua perspectiva dos acontecimentos. — Indeciso entre se haveria de lançar ao sujeito um olhar incrédulo ou dar uma fungadela descrente, o homem das luvas acabou por optar pela fungadela.

- Lamento, mas não estarei disponível. Tenciono pernoitar na cidade e partir amanhã de madrugada.

- Pernoitar na cidade? — O som que Laertes fez foi quase idêntico àquele que ele acabava de emitir. — Creio que Cráduma mudou um pouco desde o seu tempo, meu amigo. Depois de dois rapazes terem caído e partido todos os ossos do corpo durante uma descida nocturna, decidiu-se que os carreiros da falésia seriam vedados depois do pôr-do-sol. Terá de esperar até de manhã se quiser descer.

- Isso é um revés inesperado — concedeu o homem das luvas, fitando o vidro que o fundo de rocha que sobrevoavam transfigurara em espelho. O seu reflexo devolveu-lhe a mirada. Ele moveu os olhos para lá dele, e fê-los parar onde a falésia se unia à barragem. — Mas confio que me conseguirei arranjar.

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- Então isto é Cráduma — disse Amelie. Cráduma como os olhos dela a viam era casinhas pitorescas de três andares, tão juntas que se quisesse atravessar a cidade andando sobre os tectos seria capaz de o fazer sem colocar os pés no chão uma vez que fosse. Cráduma era pedra preta e cinza, telhados cobertos de chapa que parecia ter sido vertida sobre eles como cera de vela, e os “clang, clang, clank” característicos de uma cidade senciente. Tubos em tons de bronze saíam das casas, enroscando-se em torno delas como uma multitude de braços. Carruagens — para seu divertimento e consternação, ali preferiam-se carruagens a automotores — passavam de minuto em minuto, o que tomou como sinal de se tratar de hora de ponta. — Parece-me muito…acolhedora. — Mas Danebre era decididamente melhor.

- Cráduma – concordou Emma, sem sorrir. A sua prima insistira em levar-lhe parte das malas, apesar das suas garantias de que o que lhe faltava em coordenação motora ela compensava em força braçal. Amelie não estava certa daquilo que sentia por Emma. Esta fora, desde a sua chegada e durante todo o caminho, infalivelmente educada e prestável. Mas seria pedir demais que a outra se mostrasse maiscalorosa? — Lar de rochedos, gaivotas e labregos, onde há pouco que se faça para além de pescar e partir pedra. Temos duas festas anuais, Celebração do Êxodo e Sacrifício ao Mar, que contrariamente ao rumor que parece correr no continente, não envolve deitar Relógios à água. As pessoas daqui são gente que em tempos idos, agitaria tochas e forquilhas junto à muralha do castelo ao primeiro sinal de aumento de impostos. Obviamente, tal não é exequível nos tempos que correm; Sua Majestade encontra-se demasiado longe. Funcionámos com base numa política de “Cada um tem a sua vida”, e ainda numa de “Se partes, pagas”. Procura manter isso em mente, quando fores ser desastrada em presença de gente ou presença de posses de gente.

- E eu não apanhei um terço disso tudo! — exclamou Amelie, alegremente.

- Chegaste a tempo do Dia do Êxodo — continuou Emma, como se ela não tivesse falado. Esta andava como uma máquina, sem variar o passo e sem permitir que obstáculos a empecilhassem, detendo-se somente para prestar uma atenção simbólica ao que a rodeava ou para retribuir cumprimentos quando um lhe era dirigido. Clac, clac, clac, faziam as solas das botas dela na calçada. Amelie pensou em perguntar-lhe se ela era um construído; não era como se houvesse algo de errado nisso, mas muito seria esclarecido se existisse mais metal na sua prima para lá de um Relógio. Embora construídos se tivessem tornado raridades nas décadas mais recentes, em que gente nascida e não construída era a norma, o número deles continuava a ser elevado. Que simplesmente olhar alguém não bastasse para avaliar do que a pessoa era feita não demoveu Amelie de encarar a prima com interesse estudioso.

— É tradição haver fogo-de-artifício — continuou Emma. Amelie anuiu.

- Fogos-de-artifício são maravilhosos! — disse, efusivamente. — Mas não celebramos isso em Danebre. Sempre me disseram ser de mau gosto comemorar a expulsão dos Criadores. Insistir em propagar o ódio não promove tolerância e é intolerante e é desagradável. Mas, fogo-de-artifício! Ena!

Emma fitou-a como se ela acabasse afirmar que o seu Relógio tinha forma de torradeira.

- Sabes — disse a rapariga, metendo por uma via secundária e fazendo Amelie quase estatelar-se no chão na pressa de a seguir — assim que entrarmos, irei apresentar-te à Bertha, a minha caseira. Estou certa de que ela adorará escutar as tuas opiniões relativamente aos Criadores e ao que lhes foi feito. Ela tomou parte na Terceira Guerra, tal como o meu pai e o tio Harold. Talvez queira partilhar contigo histórias que ainda não tenhas ouvido dele. Sabe alguém que aquela mulher adora tagarelar.

- Oh, o teu tio nunca falou da guerra comigo. E ainda bem, porque deve ter sido desagradável. Mas irei na mesma adorar conversar com ela, porque partilhar opiniões é uma das minhas coisas favoritas.

-…certo. — Emma parou de repente, em frente de uma casa e uma porta. Amelie avançou um passo e quase tropeçou no degrau. Não tinha a certeza, mas parecia-lhe que a outra revirara os olhos. Esta subiu o trio de degraus que conduzia à porta e remexeu debaixo do tapete até encontrar uma chave, que enfiou no buraco e rodou. A porta escancarou-se com um ruído de "crinnnchh”. — A Bertha cozinha e toma conta da Luce. Até ires embora, as tarefas excedentes serão divididas entre nós duas.

- Quem é a Luce? — Emma fez uma careta de limão fora de época.

- A minha irmã mais nova — replicou, e gesticulou-lhe que entrasse.

Amelie piscou para ajustar os olhos à luminosidade, ou falta dela, no interior da casa. Do lado de fora estivera nublado, mas dentro dela o ambiente também não primava pela ambiência. Tábuas estalaram quando as pisou, e ela inspirou uma dose de mofo que se fosse veneno, teria abatido um cavalo. Era como andar para dentro de uma tumba, mas não disse isso a Emma, que continuava a falar, aparentemente alheia ao facto de que o seu discurso se convertera em monólogo.

— A casa tem uma casa de banho apenas, e o limite de permanência dentro dela é quinze minutos por pessoa se houver fila. Se a Bertha te oferecer biscoitos, sorri e aceita. Se ela te oferecer chá, recusa educadamente. Pela tua saúde, recusa. O teu quarto é no sótão. Há uma clarabóia que podes abrir se quiseres deixar entrar mais luz, mas sugiro que trates de a olear primeiro, ou terás problemas em fechá-la. Há também uma lareira, e lenha na cave que podes levar para cima quando fizer frio demais. A que se encontra no caixote está seca e não encherá de fumo a casa inteira se a usares. A Bertha ocupa o quarto das visitas na maioria das noites. Estás proibida de lá entrar, assim como no meu, no da Luce e no dos meus pais. Refeições são feitas em conjunto às sete, uma e seis horas. Falta, e…

- Emma - interrompeu Amelie, que apanhara uma frase em cada três — é maravilhoso saber tudo isso, mas estou cansada e ensopada. Posso primeiro tomar um duche, instalar-me, dizer olá a toda a gente, e só depois aprender as regras da casa? Por favorzinho com cereja em cima?

Emma tinha ar de quem queria contestar. Ela acabou por não o fazer.

- Claro — respondeu, encolhendo os ombros. — Que queres fazer primeiro?

- O duche, se os teus pais não se forem zangar por não me ir apresentar de imediato.

- A minha mãe morreu há um ano atrás. O meu pai está num hospício. Eles não quererão saber.

- Oh. Oh….- Após tentar e não suceder em fazer mais que boquear como um peixe, Amelie calou-se.

- A casa de banho fica ao fundo do corredor do segundo andar — prosseguiu Emma, como se da sua boca não tivesse acabado de sair que a sua mãe se encontrava morta e o seu pai presumivelmente louco. — Hoje jantaremos mais tarde, mas não poderei comparecer porque tenho um compromisso. Se te acontecer teres um problema, dúvida ou pergunta, fala com a Bertha. Penso que isso é tudo.

- Certo — disse Amelie, atrapalhada, mas antes de se lembrar de algo para acrescentar, Emma girou nos calcanhares e afastou-se na direcção oposta, marchando dentro de casa como marchara na rua.

Pela aparência, aquela não ia ser a mais fantástica das visitas.

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Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco entrançou o cabelo e prendeu-o com um gancho, impedindo-o assim de se meter no caminho quando as suas mãos puxaram, às cegas, a máscara de tecido sobre a sua cabeça. Ela recolheu os óculos de visão nocturna que deixara sobre o rochedo atrás de si, ajeitou-os no lugar e desprendeu o colar em redor do seu pescoço. Dele pendia uma aranha alada de bronze, e dentro do pendente havia um comunicador que por o Creaturarum depender de mobilidade como um recém-nascido de Relógio, era o seu único meio de contactar os outros mais frequentemente que não.

O Creaturarum não tinha residência fixa. Os seus membros dispersavam-se das Américas a Astarte, alguns operando em segredo, outros em pequenos bandos, obedientes às ordens que através dos comunicadores recebiam e unidos pelo comum objectivo de vingar quem os criara. Raros eram os agentes que recebiam a honra de conhecer aqueles de quem as ordens eram provenientes, e por isso, se por nada mais, Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco estava grata.

- Dez minutos atrasada. — Ela não os ouvira aproximar-se, embora supusesse fazer sentido que assim fosse. Dissimulação, discrição e agir sorrateiramente eram artes que não dominava, mas eram muitos os agentes que nelas se especializavam. Interrogando-se quanto tempo a teriam observado antes de decidirem revelar a sua presença, Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco alcançou a mala que tinha consigo e encarou a quadra de figuras que se libertava da sombra. — Eu e a Quatro temos um compromisso, e ficarei extremamente ressentido se a tua demora colocar em causa a nossa pontualidade, agente.

- Lamento. — Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco inclinou a cabeça. O seu Relógio quase falhara um tique, e ela deitou à única mulher do grupo um olhar que era afortunado os seus óculos ocultarem. Quatro, dissera o que se lhe dirigira. Números tinham pouca importância para lá de servirem de identificação, mas a maioria dos agentes não demorava a descobrir que ser subserviente àqueles cujo número era inferior a cem constituía uma útil dica de sobrevivência. A Elite, chamavam-lhes. Aquilo que agentes saídos de fresco das academias aspiravam ser capazes o suficiente para se tornarem, antes de terem semelhantes delírios expurgados à força das suas mentes. — Ma…mas eu consegui. Os planos.

- Os planos são inúteis sem o Relógio — disse o que se lhe dirigira. Trocar números não era obrigatório. Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco não sonharia exigir os dos três homens que não eram Quatro, mas intrigava-a qual o do seu interlocutor seria. Que ele estivesse a tomar a palavra fazia-a supor que a autoridade dele fosse superior à da mulher, e a deferência com que esta se afastou do caminho para lhe dar passagem corroborava essa hipótese. — Mas recuperá-lo não era tarefa tua, creio. Confio que os problemas que a extracção deu ao teu grupo foram resolvidos satisfatoriamente?

- O…o Relojoeiro tinha…tinha-os num cofre em Achinoque. Bem-guardado. Lei, agentes da Coroa e…

- Não foi essa a minha pergunta. - Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco sentiu frios dedos de medo apertar-lhe a garganta e ameaçar estrangulá-la. Involuntariamente, ela começou a raspar a luva na sua mão esquerda. A parte da mão visível através dos buracos que nela cavou cintilou em tons de prata. Quem quer que fosse o agente que lhe falava, aquele não era um tom de voz que pretendia dar-lhe motivo para usar novamente. Aos tropeções, ela completou o que começara a dizer.

- Onde Achinoque cost…umava estar existe agora uma cratera. Nenhuma m…mensagem saiu.

- Perfeito — murmurou ele. Sem aviso, a mala foi-lhe arrancada das mãos. Os dedos do outro passaram sobre a superfície metálica, quase numa carícia. Quando esses mesmos dedos puxaram pelos fechos, eles recusaram abrir-se. Ele virou-se para ela, e a sua irritação e impaciência eram visíveis, embora o rosto dele se encontrasse tão coberto como o seu. — A combinação?

- Dois, seis, cinco, cinco — respondeu Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco, sabendo que um olhar incrédulo lhe estava a ser apontado de detrás dos óculos do outro. Ela encolheu os ombros. Se adivinhassem a combinação por saberem o seu número, estaria perdida de qualquer dos modos, e tratava-se de uma simples de memorizar. Contudo, os fechos teimaram em não ceder, mesmo quando ele girou as rodas da fechadura nas posições correctas. Com um suspiro de irritação, o agente pousou a mala e afastou-se uns passos dela, ao mesmo tempo que fazia aparecer uma pistola. Um tiro silenciado mais tarde, a fechadura foi obliterada e um dos lados da mala saltou para cima, revelando o seu recheio.

- Agente…- disse Quatro, manifestando-se pela primeira vez ao dar com a ausência de papel dentro da mala e o Relógio que a ocupava. -…explica isto.

- Eu…eu…eles estavam ali, eu nunca vi…eu não…

- Silêncio! - Um dos outros agentes estava a alcançar a sua própria arma. Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco sabia o que se seguiria. O Creaturarum tinha uma bárbara política para com falhanços. Acabar-se eventualmente executado por um erro minúsculo era uma noção com que cada agente menos que perfeito crescia, mas seria agradável ter tido mais tempo…- Obviamente, houve aqui uma falha.

- S…sim. — Ela fechou os olhos, inalando e expirando. Um clic fez-se ouvir, próximo do seu ouvido.

- Um momento. — Se lhe restavam dúvidas de ser o porta-voz do grupo o seu líder, dissipadas estas terminavam de ser. Cautelosamente, hesitantemente, ela entreabriu um olho, mas as atenções não se centravam nela. O outro encontrava-se inteiramente focado no Relógio, no qual pegara e que apertava de encontro ao peito com reverente gravidade. A sua cabeça encontrava-se inclinada como se numa prece, como se escutasse sussurros vindos do interior do metal. Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco vira o mesmo ser feito várias vezes em baptismos; era norma, uma tradição datando do tempo da Primeira Rainha, um Leitor interpretar as ondas de código de Relógios de recém-nascidos e atribuir-lhes nomes que soassem vagamente como o que por ele era ouvido. — Ela encurtou o nosso trabalho pela metade, parece-me. Recuperar os planos ainda é vital, mas estou certo de que saberá o que foi feito deles.

- Eu…- Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco abriu a boca, descobriu que nada além de um justificadamente incrédulo “Estão a poupar-me?!” sairia dela, e tornou a fechá-la para só a reabrir após recuperar o seu autodomínio e decidir que efectivamente, acreditava saber o que acontecera. — Até quando tenho?

- Até ao Dia do Êxodo. E, agente? — Ela tremeu. — Se possível, recupera-os sem estardalhaço.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.