Coração De Neve

4 Capítulo 4 - O Acampamento


Notas iniciais
Não tive paciência para que o Eric absorvesse tanta informação de maneira lenta, então ele foi mais Esperto e evitou cansar sua mente com tanta coisa.

Meu corpo parecia estar dilacerado em pedaços. Por incrível que pareça eu estava vivo e deitado em uma macia cama. Aos poucos fui retomando consciência e tentando de certa forma, entender onde eu estava. Era uma espécie de enfermaria e só então me dei conta de que uma espécie de calor estava percorrendo meu corpo e aliviando dores, ferimentos e machucados. Quero o nome desse remédio tão milagroso que aplicaram em mim, pois me pode ser bastante útil se levar em conta os últimos acontecimentos em minha vida. Tentei me levantar e foi fácil, meu corpo estava inteiro e logo estava de pé. Não havia mais ninguém no ambiente, então quase me rastejei até a porta. Fiquei maravilhado com o que vi.

Dezenas de pessoas, com peitorais e elmos, alguns com uma espécie de fardamento laranja e outros com roupas normais, desfilavam por uma enorme área de campos verdejantes e com muitas árvores. Arcos, Espadas, Escudos e entre outras coisas eram fáceis de ser vistas ali, além de alguns seres que acho que são monstros. Sim, aqui estou em no que deve ser o tal Acampamento Meio-sangue, o lugar seguro para pessoas “como eu”. Quando eu ia dar o primeiro passo para sair e explorar a área, alguém me interrompeu.

– Você não deve sair ainda, está em processo de recuperação. – Falou um gentil jovem de cabelo liso, levemente despenteado e olhos claros. – Ah, sou o Charles, filho de Héstia. E não se pergunte como ela tem filhos, certas coisas é melhor deixar em off. – seu sorriso era radiante e sua expressão otimista quase me fez pensar: Nossa, quero ele como amigo pra me animar quando for preciso.

– Quanto tempo eu fiquei desacordado? – perguntei após ter uma sensação de que o meu relógio biológico estava desordenado.

– Quase três dias. – ele respondeu um pouco lento, acho que estava calculando. — A Chris, que por sinal já fizemos até amizade, já tem uma grande luta na arena hoje, ao cair da noite.

– Espera, ela está bem? – questionei demonstrando mais preocupação do que eu achava sentir. Acho que tenho certo apreço por aquela garota que ainda era uma estranha pra mim.

– Sim sim. – ele respondeu. Antigamente eu me irritava com pessoas que respondiam repetidamente. – Ela não teve ferimentos, pois parece que seu corpo protegeu ela.

– Ótimo, mas e a outra garota? — eu perguntei por educação dessa vez.

– Dianna? – ele sorriu bastante. – Aquela é sinônimo de problema. Não duvido nada que ela mate a Chris hoje na arena.

Eita, o tal duelo entre elas na Arena. Passo praticamente três dias desacordado e perco toda a festa e já acordo em tal momento decisivo. Pedi ao Charles para me guiar pelo Acampamento e ele atendeu meu pedido. Mostrou-me as ares de treino, Campo de vôlei, as plantações de morango, os Chalés para cada Deus ( algo um pouco difícil de aceitar ainda, tipo, que eles existem) e por último a Casa Grande. Segundo ele, esse é o local onde o diretor do Acampamento fica, um tal de Quíron, o cen... Fiquei boquiaberto quando o vi. Não tinha como não notar que ele ao invés de pernas, possui uma imensa bunda de cavalo. Mas claro, se monstros, deuses, semideuses existem, por que não Centauros? Claro, é muito fácil aceitar que essas coisas existem e não, eu não estou ficando louco. Muito massa conviver com tais pensamentos.

– Muito bem vindo, semideus. – ele me cumprimentou cordialmente. Suas palavras demonstravam lealdade, confiança e um tom que gerava certa paz interior, me remetia a uma proteção.

– Eu prometo que estou tentando digerir tantos fatos, mas por que eu? – tentei ser sensato pelo menos uma vez.

– Meu jovem, isso não se escolhe pelo tipo de pessoa. Seu pai, que ainda não sabemos quem é, desceu à terra e deve ter se encantado pela sua mãe, fazendo assim o seu nascimento. – ele respondia como se isso fosse super natural hoje em dia. – Você já passou por coisas muito perigosas, algumas que nem se lembra. Agora você terá treinamento e estará seguro junto a pessoas como você.

Novamente esse tom de “pessoas como você”. Eu devo estar mesmo em um hospício e estou até tendo alucinações com essas coisas que não deveriam existir. Quíron mandou eu ir caminhar mais um pouco, Charles iria me acompanhar. Ele me agarrou pelo braço e saiu me puxando para o alto da colina. Sim, o Acampamento fica em Long Island, segundo o Filho de Héstia. Estamos em uma colina, que é protegida por um Pinheiro, que gera uma barreira mágica em toda a extensão do Acampamento. Os mortais, como são chamados as pessoas comuns, não podem nem entrar e nem enxergar o Acampamento, acho que foi isso que o Charles me disse, parei de prestar atenção quando vi um Dragão na sombra do Pinheiro. Nem perguntei mais nada, tava começando ficar fácil aceitar que tudo é possível de existir agora, até mesmo dragões.

– Quem é aquele ali de armadura? – perguntei ao Charles ao perceber que havia um rapaz corpulento, ao lado do Dragão. Nesse momento o rapaz percebeu nossa aproximação e nos fuzilou com o olhar. Será que a maioria do povo desse Acampamento, tem olhares famintos?

– Ih, não encara, não encara. Passa longe dele. – o Charles parecia realmente preocupado e pela primeira vez estava com um ar sério, sem estar com seu largo sorriso aberto. – Jacob, Filho de Ares. Ele é muito pior que a Dianna, não tente contato nenhum, nem ocular.

Não consegui, por alguma razão magnética eu não consegui tirar os olhos desse garoto. Charles saiu me puxando para mais longe dali. Ele me mandou sentar e só então tirei o olho do tal Jacob. Olhei então em nossa volta. O Acampamento era lindo dali de cima da colina. O Lago, a floresta, a praia... Parecia um lugar perfeito, se não fosse os outros fatores, como por exemplo a existência de monstros. Tentei disfarçar e mesmo distante, eu ainda olhava para o Filho de Ares. Ainda bem, ele já havia desviado sua atenção de nós e eu perguntei então ao Charles, o que ele tava fazendo ali com uma armadura. Ele me respondeu que ele estava encarregado da patrulha da fronteira hoje, que mesmo existindo a barreira de proteção, monstros vem tentar nos atacar constantemente.

Espera, eu disse “nós”? Ta vendo? Eu já estou pensando no coletivo e me enquadrando oficialmente no “pessoas como eu”. O sol começou a se por e logo estaria de noite. Lembrei que seria então o horário da luta da Chris na Arena e depois que eu despertei, eu ainda não tinha visto-a. Descemos então, na direção dos Chalés. Como eu ainda não havia sido reclamado, ato de ser aceito e determinado por um Deus, eu teria que ficar no chalé dos Indeterminados. Esse chalé era também, o chalé dos Filhos de Hermes, o Deus Mensageiro do Olimpo. Quando me deparei com o local, fiquei sem expressão e confesso que quase me jogo no lago para morrer afogado. O lugar era pequeno e haviam muitas crianças e jovens. E quando eu digo muitas, eu ainda estou sendo generoso. O lugar estava abarrotado de pessoas e tive que me encaixar ali. Misteriosamente haviam pertences meus ali e algumas roupas. Não vou tentar nem bolar uma linha de pensamento, sobre como minhas coisas vieram parar aqui.

Depois de um banho tomado e estar com roupas limpas e cheirosas, me reuni novamente ao Charles e ele me levou até a Arena. A noite estava começando a cair e de longe, reconheci a única pessoa que eu podia confiar ( e não sei por que isso, afinal nem somos amigos direito) nesse lugar: A Chris. Corri até ela e fui surpreendido com um abraço. Pelo pouco que conhecia dela e pela sua personalidade meio isolada, depressiva, roqueira, sei lá classificar isso, mas diria que esse abraço era algo realmente raro. Ela forçou um sorriso e dessa vez pareceu verdadeiro. Ela estava com os cabelos despenteados, mas agora estava com roupas novas, ainda em tons negros e com os olhos pintados. Estava com um colar de caveira e com sua adaga de lâmina negra, que nem era mais tão assustadora para mim. Ela parecia confiante e acho que ela pode vencer a Dianna, se bem que aquela lá é bem assustadora de verdade.

– Nunca mais me dê um susto desses. – ela fez questão de falar bem pausadamente, como se eu fosse ou surdo ou lerdo demais para entender. – E ah, obrigado por ter amortecido a minha batida.

– Não por isso. – eu realmente não poderia exigir agradecimentos, não depois de tudo que aconteceu. Acabamos sorrindo juntos nesse momento. – Eu... Eu to torcendo por você. – falei um pouco tímido.

– Acredito nisso, de verdade. – ela realmente tava sendo sincero e pude sentir isso. – Acho que a única pessoa que posso chamar de amigo é você, mesmo mal te conhecendo e com as circunstâncias dos últimos dias.

Estava na hora, o sinal foi dado e a Arena foi aberta. Por um lado, Dianna estava deslumbrante, com uma espécie de roupa bondage e um chicote cheio de espinhos em mãos. Chris entrou logo em seguida e perto da arma da outra garota, ela realmente parecia não ter a menor chance com uma adaga. Ouvi alguns garotos sussurrando e descobri que a Dianna é filha de Perséfone. Foi então que decidi descobrir de quem a Chris era filha, algo que eu ainda não sabia. Aproximei-me da grade e gritei.

– Chris, quem é seu parente divino?

Ela virou para trás e me lançou um sorriso amarelo. Pela primeira vez eu vi um olhar feroz nela e aquelas chamas de antes.

– Hades! – ela respondeu com convicção.