Coração De Marfim.
5 Capítulo 5 - Mal entendido.
Notas iniciais
— Como assim me transferir?! – A garota exclamou, mas o diretor da escola apenas se encaminhou para a cadeira dele com tranqüilidade.
— Eu sei que é repentino, mas direi tudo a você. Basta se sentar para conversarmos – Ele indicou a cadeira na frente da mesa com a mão.
Mitsue se sentou junto de Kakashi, ambos de frente para o diretor. Respirou fundo, tentando tranquilizar o turbilhão em sua mente.
— Hatake Kakashi-sensei me informou ontem sobre você ter usado um dos pianos da Ala Leste. Pelo que ele me relatou, você demonstrou incrível fluência no instrumento, algo com certeza acima da média. Toca a quanto tempo, Mitsue-san?
— Toquei piano quase minha vida inteira, desde os meus cinco anos – O diretor assentiu, contente. Kakashi também prestava atenção, intensamente curioso – Contudo, ontem foi a primeira vez em quatro anos que volto a tocar este instrumento.
Kakashi quase saltou da cadeira, surpreso. Desde quando um músico interrompia a prática e do nada voltava a tocar, como se nunca houvesse parado?! Mesmo se sua memória fosse suficientemente boa, parte da memória muscular e toda a técnica teriam decaído bastante.
— Quatro anos?! Está falando sério? – O professor perguntou, contudo, Mitsue evitou olhar para ele.
O diretor abriu um sorriso e fez um gesto com a mão enquanto falava:
— Isso só prova que você tem mais que habilidade: tem um verdadeiro dom. Deve realmente ser isso, pois é a primeira vez que vejo o Hatake-san falar de um aluno assim, ainda mais um aluno da Ala Oeste. Isso é completamente inédito – Mitsue apertou os lábios e ele encostou-se à grande cadeira ainda com um sorriso contente – O que acha de fazer um teste, tocando uma música no piano para nossos professores? Desta forma seria justamente aceita na Ala mais adequada para você. Que tal? Posso arranjar para hoje mesmo.
Mitsue passou a mão pela sua franja, a determinação gravada em seus olhos – Era, contudo, uma grande determinação para recusar a oportunidade imediatamente.
— Eu estou grata por sua oferta para que eu entre na Ala Leste diretor, e também grata pela atenção de Kakashi-sensei. Mas infelizmente não posso aceita-la.
Kakashi ficou inquieto em sua cadeira, observando a face estranhamente decidida em recusar uma oferta tão boa como aquela. Decidiu que chegara então a sua hora de falar.
— Preste atenção, Mitsue-san. Acho que você está se equivocando na resposta. Essa é uma oportunidade única! Você já está perto de se formar, mas um ano é o suficiente para esculpir seu talento e promove-la em inúmeras competições e oportunidades únicas. Terá todas as chances para entrar na universidade de música que quiser, seja no Japão ou no exterior. Peço que reconsidere, eu lhe garanto que pode depositar sua total confiança em nós – Kakashi se calou, mas o músculo em seu peito batia mais forte que nunca.
Queria ela. Finalmente encontrara alguém parecida com ele. Aquilo que ele sentira durante a apresentação dela... Não havia dúvidas que tinham uma história em comum.
A garota se remexeu na cadeira ao ver a maneira que ele falava e olhava. Aquilo aqueceu seu rosto inteiramente – sentia-se quase pedida em casamento. Apertou os punhos, deixando-os brancos.
— Lamento, mas isso é algo além de minha vontade Kakashi-sensei.
— Sem problemas! – Exclamou, tirando uma hipótese dos motivos que ela não lhe contava — Se a questão é o dinheiro da matricula, a Ala Leste oferece uma bolsa de estudos se o aluno não tiver muitas condições financeiras e assim ele se mantém na escola. Isso se ele for um aluno pontual e não faltar as aulas de modo algum, claro.
— Bolsa? – Os olhos da garota cresceram de leve. Se tivesse a bolsa de estudos talvez sua mãe pudesse voltar a ter apenas um emprego, mas infelizmente não era somente o dinheiro a razão pela qual não queria aceitar a oportunidade.
Decidida a encerrar aquele assunto, Mitsue se levantou de sua cadeira repentinamente e lançou um olhar para o diretor que se mantinha tranquilo em seu lugar.
— Sei o quanto vocês irão insistir para que eu aceite a vaga e entre para a Ala Leste, mas eu estou decidida em não aceitar. Espero que compreenda Naka-sama.
O grisalho tirou os olhos da aluna e observou o diretor na esperança que ele ainda tivesse uma carta na manga, mudando a ideia da garota. Mas foi grande sua decepção quando o diretor apenas assentiu com a cabeça.
— Já que está é sua palavra final, encerramos o assunto – Se levantou da cadeira, estendendo a mão novamente para a garota e ela a apertou com um sorriso aliviado. Mas quando preparava-se para soltar, o homem apertou sua palma – Mas lembre-se do seguinte: A oferta continuará de pé se mudar de ideia, é só procurar um de nós dois – E soltou a mão dela, finalmente.
Contrariado com a resposta do seu chefe, Kakashi se levantou e foi até a porta, abrindo para a garota que o acompanhou.
Só do lado de fora que Mitsue percebeu que a sala da diretoria ficava ao fim do corredor de entrada –Nem na Ala Leste ou Oeste. Mas permaneceu pouco tempo observando o espaço em volta: O grisalho já andava há uma boa distância dela, tomando seu rumo como se Mitsue não estivesse mais ali. A adolescente curvou as sobrancelhas, apressando seu passo para alcançar o homem visivelmente contrariado.
Por acaso ele é uma criança? Cogitou, fitando-lhe as costas largas.
Bem, quase isso: Por trás de toda a bela aparência jovial de Hatake Kakashi, a sua tolerância limitada era algo de que não se orgulhava. Kakashi tinha facilidade em se contrariar quando não conseguia algo que lhe atraiu grande interesse ou quando algo o decepcionava bastante – era um livro aberto. E o que o deixava nervoso naquele momento era o fato de a primeira aluna que foi capaz de realmente atingi-lo com sua música ter recusado a oportunidade que ele ofereceu para se tornar aluna da Ala Leste. E assim (o seu objetivo de verdade) torná-la sua pupila.
— Você está bem?
Kakashi voltou a pisar em terra firme com o surgimento daquela voz. Diminuiu os passos, percebendo que Mitsue quase corria para alcança-lo.
— Porque a pergunta?
— Nada demais... É que você parece alterado.
E então Kakashi realmente parou para prestar atenção no que ele fazia, percebendo sua total desconsideração e silêncio desde que saíram. Ele parou de andar exatamente no meio entre as duas portas que indicavam a Ala Leste e Oeste da escola.
— Desculpe por ficar desse jeito... Isso é um mau gênio que eu carrego.
— Fui eu quem causou isso? – Perguntou, deixando o grisalho surpreso com a pergunta – Eu devo ter parecido uma ingrata lá dentro, joguei fora todo o esforço que teve para me recomendar – Mitsue juntou as mãos de frente ao corpo, sorrindo tristemente sem olha-lo nos olhos – Mas a realidade é como eu disse: Tocar piano não é algo que depende só da minha vontade, e isso é assim há muito tempo.
— Quatro anos, certo? – Perguntou retoricamente. Era óbvio que havia uma grande razão por trás daquilo, e foi isso que acalmou seu mau temperamento naquela hora – Mas eu não acredito totalmente em você. Se é incapaz de tocar, por que te encontrei ontem na minha sala de aula?
Ela voltou a olhar para o homem grisalho e viu que seu olhar estava penetrante, como se tentasse romper o lacre de seus segredos apenas com sua vontade.
— Eu... – Desviou o olhar do dele, nervosa demais para juntar as palavras – Na verdade eu não sei explicar o que deu em mim naquela hora... Foi a primeira vez que meu corpo se permitiu conectar com a música de novo.
— Então porque não tenta fazer isso de novo? Isso pode ser um sinal do destino, dando-lhe uma nova chance.
— Como assim? – Curvou as sobrancelhas.
— Tente repetir o que fez aquele dia e toque como você fez.
Mitsue balançou a cabeça para os lados.
— Não é tão simples assim. Não é como se eu simplesmente pudesse tocar quando eu quisesse! – Kakashi pareceu acreditar em nada daquilo. Tentou ser direta — Eu não toco por causa de um trauma de infância que me impede, entende agora?
Hatake soltou o ar pesadamente. A ponta de irritação voltava a querer dominar suas ações de novo.
— Você fala isso de novo e de novo, todas as vezes: “Não depende de minha vontade” – O olhar dele estava duro como uma rocha centenária – Você está parecendo uma fracassada chorona, isso sim.
Mitsue congelou no espaço onde estava. As palavras que ele usara... Era como um bastão de aço atravessando seu peito e suas entranhas. Ela segurou a sua própria raiva um instante, controlando-se para a voz não soar alta demais:
— Quando eu tinha doze anos de idade, o meu pai foi morto por um ladrão porque não entregou sua carteira. Isso aconteceu de frente para um teatro, o que ele se apresentaria aquela noite – Ela limpou a sua garganta discretamente e continuou — Eu e minha mãe só ficamos sabendo da morte dele quando chegamos ao teatro. O nosso carro estava perto da ambulância, mas o corpo ainda estava sendo colocado para dentro – Kakashi sentiu seus olhos aumentarem: os ombros e a voz de Mitsue tremiam mais que visivelmente – Eu consegui desvencilhar-me dos braços de mamãe e cheguei perto da cena. A poça... A poça do sangue dele ainda estava fresca... A gravata borboleta era a única coisa que estava lá, jogada.
A respiração do homem cessou quando os olhos dela, ardentes em tristeza e raiva, fuzilaram os seus.
— Esse é o motivo que me fez ficar assim, não é algo sob meu controle. E mesmo que fosse, eu não devo nada para um professor que nem conheço – Mitsue andou até ficar do lado dele – Melhor ir atrás de outro aluno, um que não tenha um pai morto para atrapalhar seus planos.
Kakashi fora incapaz de deixar seu lugar por um tempo que não soube dizer qual foi – Mitsue fora embora fazia tempo. O sinal da escola tocou e ele continuou ali até a hora em que diversos alunos começaram a entrar no corredor, desviando do professor grisalho como se ele fosse uma coluna no meio do caminho.
As duas mãos foram para seu rosto, apertando os fios de sua franja com força.
O que acabei de fazer?!
***
— Graças a você aquela aula de Biologia não me valeu nada, que diabos foram fazer no meio da aula?! – Ryo e Mitsue estavam sentados no jardim do colégio.
Era uma área esplêndida: Os dois prédios das duas Alas, opostos um ao outro, formavam dois meio círculos que davam um formato circular ao jardim repleto de arbustos, árvores e flores. Na grama, debaixo de um imenso carvalho, Ryo enchia os ouvidos de Mitsue com atualizações do que acontecera durante sua ausência.
Ainda era um mistério o porquê de ele ter se tornado tão amigo dela mesmo em tão pouco tempo. Talvez fosse melhor não perguntar muito.
— Eu já te falei: Ele me viu dentro da sala dele ontem à tarde, e veio tirar satisfações sobre por que eu estava lá – Ela puxou o blazer azul marinho – Se eu não estivesse na Ala errada e com este uniforme, teria sido um dia normal.
E como queria que tivesse sido.
— Esses caras da Ala Leste... – Ryo deu uma risada repleta de escárnio – Eu te falei que os alunos de lá só nos usam como medida da sua superioridade, mas nunca pensei que os professores fossem iguais. Com que direito ele veio até a nossa Ala, tirando você no meio da aula, só para saber que merda fazia no território dele?! – Mitsue fechou os olhos, feliz que pelo menos algum dos dois descontava a irritação que estava sentindo.
— Não me pergunte, eu acabei de chegar aqui – Mitsue abriu um dos olhos, observando seu novo amigo – Poderia mudar de assunto?
— Sobre o que quer falar?
— Sei lá. Quais serão suas aulas a tarde, por exemplo.
Ryo riu outra vez, mas dessa vez humoradamente.
— Que? Isso nem se quer é um bom assunto – Ryo parou de rir, observando melhor a garota. Mitsue parecia muito desanimada e o motivo lhe era um completo mistério.
O garoto arrastou seu corpo até se sentar exatamente de frente para ela, aproximando seu rosto.
— Que tal sairmos depois das aulas? – Perguntou do nada.
Mitsue abriu os dois olhos de uma vez, suas bochechas queimando quando percebeu o rosto dele mais perto.
— S-Sair?! Eu não sei... Preciso avisar minha mãe.
— Ótimo, ligue para ela.
— Eu perdi meu celular – Podia parecer uma desculpa para ele, mas era uma infeliz verdade.
Ryo colocou uma das mãos no bolso de trás da calça, tirando um smartphone de lá. Estendeu para a jovem cabisbaixa com um sorriso amistoso.
— É todo seu, eu espero.
Mitsue pegou, olhando para ele com um grande ar de desconfiança.
— Isso não é um encontro ou algo parecido, é? – Perguntou, sua expressão entregando que fugiria se ele dissesse que sim. Não era essa a intenção de Ryo, mas ele se ofendeu um pouco ao reparar nisso.
— Não... Boba! Quem te falou uma ideia dessas? – Riu, disfarçando seu ego ferido – Só quero uma companhia para comprar uns mangás. Não precisa ir se não quiser.
Mitsue ficou sem graça, puxando o celular da mão dele quando ele fez menção de guarda-lo de volta.
— Me dê isso – Falou, envergonhada. Mas que garoto problemático.
Mitsue se lembraria por muito tempo do grito que sua mãe deu quando perguntou se podia sair com um amigo – evitou falar colega para não pisar mais na bola. O sim foi imediato, seguido de várias perguntas inoportunas que Mitsue fez questão de evitar, despedindo-se.
Depois das aulas foram para uma livraria onde Ryo fez questão de introduzi-la ao universo otaku que ele consumia com enorme prazer. Eram todas revistas shounen e de ficção científica, mas no fim o que atraiu o olhar de Mitsue de verdade foi uma série de volumes de um mangá chamado Nodame Cantabile.
— Então você gosta mesmo de música, hm... – Observou Ryo, olhando o primeiro volume que ela folheava por detrás de seu ombro.
— Sim – Ela fechou o mangá, olhando para ele com um sorriso – Pena que eu sou um completo desastre se tratando nisso. Acho que vou acabar virando professora de Biologia, igual Kurenai-sensei.
— Péssima escolha de colégio então – Brincou ele, mas novamente percebe que algo havia de errado nela.
Mitsue devolveu o mangá ao seu lugar, indo para uma sessão completamente distinta. Ryo foi atrás dela, mas não sem dar uma outra olhada no nome do mangá que ela se interessou. Então, sem que ela visse, anotou-o no bloco de notas do celular com um breve sorriso no rosto.
***
— Você está me deixando preocupada – Murmurou Kurenai, acariciando a cabeça grisalha encostada em seu seio vagarosamente.
Kakashi estava no apartamento de sua namorada havia algumas horas – Haviam saído para comer fora e então passaram ali, devia ser bem tarde. Os braços do homem apertaram mais o corpo dela contra o seu, mergulhando seu rosto em seu calor e sentindo seu aroma de suor e perfume.
— Não quero falar sobre isso agora... Mas prometo que vou te contar assim que eu resolver. – Sua voz saíra um pouco abafada, mas Kurenai entendera tudo claramente.
— Então realmente aconteceu algum problema hoje – Ela pegou enrolou uma mecha no seu indicador, mexendo-a de maneira a refletir a luz do abajur sobre ela. Kurenai passou a olhar para as roupas dele, jogadas sobre uma cadeira ali perto. Fazia uns dez minutos que notou o celular roxo quase escapando do bolso da calça dele – Isso tem algo a ver com a dona daquele celular?
Kakashi levantou a cabeça, encontrando os olhos de Yuhi em direção as suas coisas.
— Como você sabe que é uma garota? – Questionou.
— Qual é? Que homem carrega um celular roxo? – Ela sorriu, achando aquilo bobo – Mas eu não achei que fosse uma garota— Agora o olhar dela recaíra completamente sobre ele – Não me diga que é aquela de hoje, Terasu Mitsue-san?
Droga... Kurenai é inteligente demais para não perceber alguma coisa.
— Na mosca – Confirmou, voltando a esconder seu rosto no calor dos seus seios – Ela deixou isso cair no chão e meio que eu compliquei as coisas o suficiente para ser difícil entrar para ela. A não ser que você..
— Nem pensar – Negou imediatamente, adivinhando tudo – Seja lá o que tenha feito ou dito, você é quem vai entregar isso para ela. E mais: Se eu assumisse sua tarefa, ela rapidamente descobriria que estamos juntos.
O rosto de Kakashi voltou a emergir, agora somente os dois olhos.
— E qual o problema dela saber? – ou melhor, havia alguém no colégio que não sabia?
— Mulheres devem ser extra cautelosas, Kakashi meu amor – Ela alargou o sorriso – Principalmente com rivais em potencial.
Agora que ele entendera nada.
— De onde você tirou essa ideia absurda, Kurenai?
— Absurda? – Ela riu, sem humor – Quem foi que foi obrigada a ouvir as suas alunas dizerem que o grisalho charmoso poderia estar tendo um caso com Mitsue, logo após sequestra-la sem um motivo plausível no meio de minha aula?
Meu Deus...
O corpo de Kakashi se ergueu, deixando os braços deslizarem mais afastadamente de Kurenai a fim de ficar mais alto que ela. O rosto dela queimou involuntariamente – a visão de Kakashi seminu era algo que ainda a desconcertava, principalmente com a pouca luz do quarto. Rezava para que ele não soubesse dessa fraqueza.
— Você parece estar sendo levada pela imaginação de seus alunos, Kurenai-sensei – Ele capturou o rosto dela, apertando seu maxilar com os dedos – Quantas vezes preciso confirmar que você é a única que quero que seja próxima de mim, hm?
— Acho que não tem sido claro o suficiente – Soprou ela, provocando uma ruga na testa dele.
— Você...! – Reclamou Kakashi, mas sua reação contraditória foi puxa-la pelo rosto até sua boca.
Deslizou os dedos alvos de pianista até sua nuca, impedindo-a de separar dos lábios que clamavam espaço entre os dela. Um suspiro escapou, sem opções a não ser permitir que ele aprofundasse por dentro de sua boca, arrancando mais suspiros enquanto suas mãos desciam, terminando de envolve-la em sua armadilha.
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