Coração De Gelo

6 Capítulo 6: Último Desejo.


Notas iniciais
"Você vai me abandonar e eu nada posso fazer para impedir. Você é meu único laço, cordão umbilical, ponte entre o aqui de dentro e o lá de fora. Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória."
Caio Fernando Abreu ♥

-Eu. Vou. Morrer. Não, calma, antes de eu morrer, seu filho da puta, eu vou te matar, você me ouviu?

-Como se você pudesse.

-Puta que pariu! Porra, eu não acredito! Eu fui, basicamente, estuprado!

-Diga isso mas saiba que não era eu quem estava gemendo há umas horas atrás.

-Calado! Cale sua boca, seu filho da mãe...!-Sirius exclamou, puxando os travesseiros para si, o corpo debaixo dos lençóis brancos.-Está... Doendo... E você vai me pagar tão caro...

-Como se você estivesse em posição de fazer ameaças.

-Sua solidariedade para comigo me assusta.

-Falar direito não combina com você, volte aos palavrões.

-Vá à merda.

-Não, eu gosto daqui.

Inverno, que tinha sido expulso da cama e agora tinha apenas um dos lençóis brancos cobrindo-o da sua cintura para baixo, se levantou da cadeira onde estava sentado e foi se sentar na cama próximo ao rapaz, que tentou lhe empurrar para longe.

-O que é?! Você já quer uma segunda vez?!

-Não, eu só...-E dizendo isso, colocou uma das mãos sobre os cabelos negros do rapaz, mexendo nos mesmos, as costas de Sirius deixando de ficar tão retesadas.-Só quis mostrar um pouco de solidariedade. Se importa?

Inverno então puxou o outro mais para perto. A estação estava sentada na cama, mas com as costas encostadas na parede, e agora Sirius tinha a cabeça repousando sobre o colo do mais velho.

Como uma pintura, os lençóis brancos se confundiam com a estação, mas contrastavam com o rapaz de cabelos e olhos negros, este último mudo, sem ter exatamente uma reação exceto continuar com a cabeça no colo do outro, Inverno ainda mexendo em seus cabelos, simples, calmo, significativo.

Então Inverno virou o rosto do outro para cima, de forma que o rosto de Sirius ficasse totalmente à mostra, os olhos negros fitando os azuis profundos, as bochechas um tanto coradas.

-O que é?-Sirius perguntou, a voz tentando ser hostil embora não apresentasse resistência alguma.

-Eu sei que provavelmente você não irá me responder, ou se responder, vai me dar uma resposta negativa, mas será que se eu pedisse, quando o inverno começasse no próximo ano, você voltaria?

Sirius engoliu em seco, sem saber responder. Voltar? Mas como? Teria que vir com seu pai? Abandonar toda sua casa novamente? Abandonar seus amigos? Sua vida? Mas então...

-Pode ser.-Sirius respondeu sem pensar, mesmo se não soubesse a verdade, se voltaria ou não, ele só não queria...

-E será que você poderia me responder sinceramente?

-Estou lhe respondendo: Pode ser. Pode ser que sim, pode ser que não. Minha casa é longe daqui, para que eu volte, eu preciso...

-Entendo.-Inverno disse apenas, colocando uma das mãos sobre os lábios do rapaz.-Só queria saber disso, mais nada... Devo ir agora.

-Você... Você pode ficar, se quiser... Porra, não tô te obrigando nem nada, mas se...

-Não, eu realmente devo ir, aproveitar enquanto lá fora o sol se põe e fica mais frio.-Disse a estação, afastando então Sirius e se levantando da cama, lentamente vestindo as roupas, a mancha negra no peito parecendo centímetros maior.-Virei lhe visitar amanhã.

-Você não vem mais hoje? Que milagre é esse que vai me deixar em paz por um dia?-Sirius perguntou embora estivesse se sentindo uma daquelas prostitutas, cujo os clientes apenas tinham o que queria e iam embora.

-Virei lhe visitar amanhã, apenas isso. Espere por mim.-A estação disse, se virando então para o humano e se curvando, dando um leve beijo em sua testa que fez Sirius quase xingar, se não tivesse sido impedido pelo olhar de Inverno, um olhar triste, tão diferentes daquele frio comum, um olhar de dor.

Mas no dia seguinte, Inverno não veio, assim como nos que se seguiram. Sirius deixou a base várias vezes durante esse intervalo de tempo, indo até os domínios de Inverno, mas ele simplesmente não estava lá. Era como se ele tivesse sumido do mapa.

E quando sobravam apenas dois dias para o final daquela estação, o rapaz começou a realmente se preocupar (mesmo que não admitisse). Seu pai parecia um daqueles maníacos, paranóicos, sem parar de perguntar a Sirius quem era que estava no seu quarto dias antes, mas é claro que o rapaz não abriria a boca. Nunca.

E era isso que levava Liam a pensar mais avidamente do que nunca. Um ser, alguma coisa que tinha sangue negro, algo vivo, algo inteligente, algo que salvara seu filho de alguma forma, algo que vivia lá fora e que mantinha seu filho tão ocupado, algo que conseguia se comunicar, que conseguia falar, algo que era capaz de alterar a temperatura.

Mas o quê?

Naquela região não havia documentos falando sobre o que existia ali antes dos seres humanos, e nem falando sobre lendas e/ou monstros. Nada que sequer desse uma pista sobre o que seria aquela coisa que sangrava negro e que fazia Liam perder noites inteiras imaginando o que seria, afinal, e se fosse algo realmente grande? Uma descoberta como aquela o deixaria na história para sempre e lhe daria a vida de renomado pesquisador que sempre quis. Até se arriscou a fantasiar “criatura do gelo com sangue negro e capacidades incríveis é encontrada na Groenlândia por Liam Hildenberg”.

Pena que a última coisa que seu filho queria era tal descoberta, mas o destino não chegou a ser bom para nenhum deles.

E o que tinha que acontecer, aconteceu na antepenúltima noite para o final do inverno. Todos na Base se preparavam para dormir. Sirius estava em seu quarto fazendo alguma coisa desimportante, mas Liam estava em seu laboratório ainda estudando o sangue negro quando descobriu que as células eram terrivelmente resistentes ao frio, mas totalmente fracas ao calor, e que mesmo na temperatura ambiente de 0° graus, elas começavam a adoecer e morrer sozinhas.

Fora da Base, nada senão a neve caindo lentamente, silenciosa, um tanto triste. Luzes fortes coladas às paredes externas da Base mostravam toda a movimentação de fora num raio de até 30 metros, e além disso, apenas a escuridão da noite.

-Aquele merda do Inverno...-Sirius murmurou, deitado na cama, fitando o teto, mais especificamente o alçapão por onde Inverno costumava a entrar.-Onde será que aquele filho da mãe está...?

A Base tinha câmeras para justamente ver a movimentação externa durante a noite. Nas visitas noturnas de Inverno, este nunca se deixava ver pelas mesmas, até porque não conseguia exatamente ser visto por humanos que não quisesse, e por isso, nunca houvera nenhum problema.

Mas não naquele momento, quando sua estação estava no final e suas forças se esvaíam tão rápido assim.

Ele só queria realizar um último desejo.

Ele tinha decidido passar o resto do inverno escondido de tudo e todos, até de Sirius, mas não conseguira, e agora, teria que pagar pelas consequências.

Só um último desejo.

E, com um passo de cada vez, ele avançava pela imensidão branca, vendo mais adiante a Base e suas luzes fortes, assim como luzes vermelhas menores piscando, as câmeras alertas. Seu peito doía tanto que parecia querer lhe estrangular. Suas pernas pareciam estar congeladas, porque a medida que o inverno acabava, ele se tornava o mais próximo de um humano comum. Sua resistência ao frio diminuía consideravelmente, tanto que havia um risco de acabar morrendo congelado, até porque, ele nem sequer conseguia mais controlar a temperatura, e mesmo que estivesse ficando mais fraco em relação ao frio, ficava mais ainda em relação ao calor.

Mas avançava como se fosse um soldado sobrevivente de uma guerra, querendo apenas chegar em casa para ver sua família, embora seu corpo estivesse destroçado, tanto por dentro quanto por fora.

Porque a mancha negra tinha tomado quase todo seu abdômen até aquele momento.

E doía, doía tanto que várias vezes pensara em desistir, mas.

Mas.

Ele só tinha um último desejo.

E por isso, mesmo sabendo que poderia estragar tudo, continuou andando, incapaz de se teletransportar, incapaz de fazer qualquer coisa ou até respirar direito, apenas conseguindo andar e seguir em frente, mesmo que naquele segundo tivesse entrado no campo de luz da Base, podendo ser visto pelas câmeras.

Um alarme alto soou por toda a Base, avisando que alguma coisa estranha se aproximava. As câmeras mostraram o que era por vários monitores espalhados pelo lugar, tanto que todos os cientistas e estudiosos ali presentes conseguiram ver o que era, inclusive um Sirius que tinha saído do quarto exasperado: Um homem alto de longos cabelos brancos e vestes também brancas, parecendo muito mal.

Sirius prendeu a respiração, correndo em direção à saída da Base, sentindo que precisava fazer alguma coisa, mas então, lá fora, sendo filmado, Inverno caiu de joelhos na neve pela primeira vez tão hostil e vomitou uma enorme quantidade de sangue negro, e Liam viu isso. E sorriu. Sorriu porque aquela criatura estranha existia então, e como se sua vida dependesse disso, também correu em direção à saída para ver aquele ser com seus próprios olhos, assim como várias outras pessoas.

Sirius, empurrando e esmurrando, abriu a porta da Base, avistando Inverno ainda de joelhos na neve que caía lentamente, sem vento nem nada, apenas caía. Não conseguia pensar em nenhum xingamento, na verdade, quase não conseguia pensar.

Correu até a estação caída, erguendo o rosto do mais alto e vendo de perto aqueles olhos azuis escuros como mares congelados refletindo não dor, frieza ou nenhum sentimento negativo, apenas uma estranha felicidade, um sorriso nos lábios, os ombros curvados porque de repente tudo parecia pesar demais.

-I-Inverno!-Foi só o que conseguiu exclamar antes de ser de repente puxado para trás e afastado da estação enquanto um grupo de 10 homens faziam uma roda ao redor de Inverno, apontando armas com tranquilizantes para o suposto alvo perigoso e desconhecido.

Liam se aproximou, parando ao lado do filho, ambos fora do círculo que rodeava a estação. Sirius tentou se soltar a todo custo, mas os homens que o seguravam eram mais fortes que ele, e Liam não parecia preocupado em mandar soltar o filho, na verdade, tinha um sorriso estranho no rosto.

-Atirem, e tragam-no para dentro.-Disse.

E Inverno, que não conseguia mais fazer nada para se defender, caiu na neve, alvo dos tranquilizantes.

E quanto a Sirius, este também foi posto para dormir.

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Sirius só veio acordar horas depois. Levantou-se da cama, vendo que estava em seu quarto, e logicamente tentou sair, as memórias bastante vívidas em sua cabeça. A porta estava trancada por fora, o que o rapaz xingar mundos de raiva. Chutou a mesma, esmurrou até fazer os punhos sangrarem, mas não conseguiu abri-la.

E a cada segundo que pensava que Inverno deveria estar com seu pai ou em qualquer outro lugar quando ele estava mau daquele jeito, com aquela mancha negra enorme no peito agora... Era torturante.

Era como se Sirius fosse uma criança, e Inverno, seu mais querido brinquedo. Sirius sabia o que poderia e o que não poderia quebrá-lo, mas deixar outra criança brincar com ele e ter essa possibilidade de ter seu brinquedo quebrado... Sirius não confiava mais em ninguém quando se tratava de Inverno. Era só ele que sabia sobre a estação, sobre suas forças e fraquezas, e isso tornava o de cabelos brancos vulnerável a quem não sabia de nada.

Ficar dentro da Base, onde era mais quente do que lá fora, deveria doer para a estação, e era por isso que mesmo Sirius sabendo que dificilmente conseguiria abrir a porta, a chutava e esmurrava, sem sucesso.

O que fazer?

Sirius recuou, olhando em volta, sem conseguir pensar em nada. Inverno, Inverno, Inverno! Porra, por que ele tinha que ir até a Base?! Por que seu pai tinha que estar no meio?! Porra! Sirius voltou a xingar, derrubando as coisas do quarto no chão, terrivelmente irritado, o sentimento de impotência lhe preenchendo o peito.

Não, a pergunta não era “o que fazer”, e sim “o que ele poderia” fazer.

Calma, ele respirou fundo, voltando a olhar em volta. Embora estivesse terrivelmente nervoso e irritado, ele precisava se acalmar e pensar num jeito de tirar Inverno de dentro da Base, levá-lo para o frio, onde estaria mais a salvo.

Pelo menos até o inverno acabar.

Voltou a xingar. Querendo ou não, as opções eram ou Inverno morrer por causa daquela coisa horrível em seu peito, o sangue negro, seu interior se desfazendo em sangue, seu coração de gelo derretendo, ou ele conseguir se salvar e dormir por nove meses até acordar no inverno seguinte. Nenhuma das opções era boa, mas entre deixá-lo morrer e deixá-lo dormir, lógico que dormir era melhor.

Embora ambas significassem que Sirius não iria vê-lo por um bom tempo ou até nunca mais.

-Porra!-Sirius exclamou, chutando uma parede do quarto e vendo algo caía sobre sua cama, um pequeno monte de neve. Ergueu o olhar, vendo que o alçapão que o levava até o telhado da Base estava meio aberto, quem sabe ficando frouxo de tanto abrir. O rapaz sorriu, um tanto malicioso.

Mesmo que Inverno ficasse longe sei lá por quanto tempo, Sirius iria fazer alguma coisa, pelo menos uma última vez.

Porque ele tinha quase o mesmo desejo de Inverno também.

Notas finais
OKAY OKAY OKAY, ANTES DE MAIS NADA, ISSO FOI O QUE A MINHA BETA ME MANDOU:
"SYN, SUA VIADA, QUE DROGA DE CAPÍTULO FOI ESSE?! SE VOCÊ MATAR O INVERNO, EU MATO VOCÊ!!!!"
E EU SEI QUE ESSA FRASE DEVE TER RESUMIDO A VONTADE DE VOCÊS ME MATAREM, MAS OLHA, SE EU NÃO ESTIVER VIVA NÃO POSSO POSTAR O ÚLTIMO CAPÍTULO E NEM OS DOIS EPÍLOGOS QUE ESTÃO VINDO!
E chega de Caps Lock pqp, olha, eu sei que vocês querem mesmo me matar, E PARA EXPRESSAR A SUA RAIVA, por que não manda uma linda review cheia de purpurina (e ameaças?). Olhem pelo lado bom, os próximos chaps estão feitos, ou seja, vou estar postando uma vez por semana novamente sem atrasos (EU JURO!) e mesmo que hoje não seja sexta, bem, decidi postar mais cedo.
ENFIEM, NÃO ME MATEM! VEJO VOCÊS NA SEXTA DA PRÓXIMA SEMANA SEUS LINDOS ♥33333333 *agora vai se esconder ainda com medo de ser assassinada assim que sair de casa*