Coração Assombrado
4 Capítulo 4
- Alô? — Peguei o telefone e me escorei no móvel onde ficava a tv.
- Oi, é o Luc. Deb?
- Luc...Luccas?! Oi! — A voz dele parecia diferente ao telefone, como a minha também deve parecer, mas continua deliciosa de se ouvir.
- É. É a Deborah, né?
- Não, não, é um cabrito... e que intimidade é essa para me chamar de Deb?
- Foi mal, ouvi suas amigas te chamando assim e...
- Tem uma grande diferença entre elas, minhas melhores amigas, e... você.
- Olha, se não fosse o meu desespero eu desligaria. Na verdade é melhor mesmo, eu nem devia ter ligado...
- Espera! Tá desesperado?! — Me desencostei animada do móvel, ele rangeu ao voltar para o lugar.
- ...Sim. Eh... é complicado explicar agora. Meu pai está aqui na sala, então... — Deu para perceber que estava sussurrando.
- Bem, aqui não tem ninguém além de mim. Se quiser pode vir para cá. — Encostei nele novamente relaxando e botando meu braço direito embaixo do esquerdo, que estava com o telefone, apoiando-o.
- Não. Não faço parte dos seus melhores amigos. Eu seria um estranho na sua casa. — Percebi o deboche.
- He-he, hilário você.
- Obrigado.
- Então não vai vir? Pensei que estava desesperado.
- Você, eim...
- O que? O que que tem? Só quero saber porque um garoto desesperado me ligaria.
- Realmente não sabe?
- Não.
- Não tem nenhuma ideiazinha? Nada?
- Hum.. deveres?
- Qual é?! Eusou um dos mais inteligentes da escola.
- Isso não quer dizer que saiba de tudo.
- É, mas sei das matérias da escola. Tá, vou te dar uma dica. Começa com Li termina com na.
- Li..O QUE?!
- Nossa, você é lerda. eim. E não precisa fazer escândalo
- Lina?! Falou com ela?!
- Falei. — Seu tom saiu de deboche novamente.
- E ela?
- É sobre isso que eu quero falar. Não posso confiar em mais ninguém, só em você. — Nossa, me senti importante. E isso raramente acontece.
- Vem pra cá agora!
- Não acho uma boa ideia.
- Por que nã... ah, a Lina. Ela está aí?
- ...Não.
- Então vem! Vai ser rápido! Você me fala o que aconteceu, eu dou conselho e você volta para casa, ela nem vai perceber!
- Muito arriscado, se ela aparecer e ter machucar...
- Eu me viro, juro! — Não devia ter jurado.
- ...Ok.
- Certo, estou te esperando, Até daqui a pouco.
Desliguei e voltei a sentar no sofá ansiosa.
Será que acabou? Que ela o deixou em paz?! Duvido! Hahaha!
Estava ansiosa demais. Estava até feliz, estranhamente feliz.
Pena que essa felicidade foi indo embora com o tempo. Se eu me lembro bem acho que o ultimo momento verdadeiramente bom da minha vida, foi quando estava na arquibancada do campo da escola vendo o jogo com as garotas. Tá, isso não vem ao caso!
Continuando a história:
Depois de alguns segundos o telefone tocou novamente.
- Alo? — Atendi.
- Oi. Vem cá... — Era ele de novo. — Onde você mora mesmo?
- Ah, desculpa! — Pelo menos eu disse sorrindo.
- Dei as informações necessárias e enquanto ele não chegava fui tomar banho ouvindo música no meu celular.
Já tinha escurecido, não pensei que ele e meus pais pudessem demorar tanto. Pelo o que ele tinha me falado, a casa dele é relativamente perto. Pelo visto não era tão perto quanto pensava. Mofei enquanto esperava sentada no sofá.
Em fim a porta.
Era ele.
Fui o empurrando para dentro sem ligar para sua cara de surpreso e suas roupas molhadas, tranquei a porta atrás de mim e fui o puxando pelo pulso até sentarmos no mesmo sofá, um de frente para o outro.
- Anda, anda! Me fala! Como foi?! — Minha 'ansifelicidade' havia voltado.
- Nada bem – Acabou a felicidade .
- O que houve? — Ele coçou a cabeça com uma cara estranha e disse:
- Bem, ela não reagiu muito bem quando tentei explicar que ela me irritava, que estava louca e já tinha passado da hora de dar o fora, e parar de me perturbar...
- O que você disse exatamente?
- … Eu disse isso.
- Sua anta, ninguém iria reagir bem a uma coisa assim.
- Sei lá, eu tentei. Como da ultima vez ela voltou para mim, apesar de ter se matado, pensei que poderia ser mais frio agora que ela entenderia melhor.
- E não fez mais nada?
- Eu tentei encara-la como você falou, sabe, tentei até machuca-la pra faze-la entender, mas aí... ela me apontou aquela desgraça de faca de cozinha. E quem sou eu para enfrentar uma louca com uma faca mais afiada que diamante? O pior é que ela não tira mais aquele sorriso psicopático da cara. Só de lembrar me dá arrepios. — Ele se estremeceu para demonstrar o que falava e eu dei um risinho.
- As vezes o amor machuca. — Falei com desdém de propósito.
- Isso, zoa mesmo! Depois ela te machuca aí, e eu vou falar pra você “Mas uma faca machuca mais.” — Abaixei a cabeça e dei um riso discreto
- Tá, ok, mas continuou falando com ela?
- Falei, falei. Disse que não aguentava mais ficar sozinho por causa dela pensando que ela iria se sentir mal, ter pena, sei lá, mas na verdade ela me olhou feio nos olhos e depois sorriu.
- Sorriu?
- É, sorriu e depois ela disse que tinha uma proposta: Ou eu fico com ela e vivo ou eu fico com os outros e morro.
Surpresa!
- Wau!
- É, eu... — Nossa conversa foi interrompida pela luz. Ou melhor: pela falta de luz.
- Ah, não. Que ótimo – Tudo, tudo escuro, mas meu olhos iam se acostumando com a escuridão com o passar do tempo, antes não conseguia ver nada, agora já posso ver apenas seu contorno. — AAAAAAH!! — Algo tinha tocado meu tornozelo e eu ouvi uma gargalhada em seguida. — Você é ridículo! — Disse enquanto botava minhas pernas para cima do sofá abraçando-as na frente dele. Dei uma olhada para cima na tentativa de ver a luz. Há-há. — O que aconteceu para a luz acabar?
- Pode ter caído um raio no poste ou deu bug no sistema de eletricidade, ué.
- É, vai ver se concerta, físico. — Ele fez uma cara estranha e arqueou uma sobrancelha.
- Bem, eu até poderia, mas não foi você que disse que eu não sabia de nada? Além do mais, você deve estar me confundindo com um eletricista. Como você chegou no 2º ano?
- He-he, idiota.
- Medrosa.
- Não sou medrosa! — Falei um segundo antes de ouvir um estrondo de um raio como se o céu fosse um espelho e o tivesse partindo no meio. Sabia que estava relampeando mas mesmo assim dei um pulo automático de susto, me desequilibrei e caí para frente me apoiando com as mãos em algo macio. A perna dele. Quando olhei para cima pude ver o sorriso dele iluminado pelo relâmpago e ter noção do quão perto nossos rostos estavam. Senti a mão dele nos meus braços. O toque dele era tão quente, queria que ele nunca mais tirasse as mãos de mim. Fiquei vermelha, com certeza, ao perceber o que tinha pensado, mas esperava que ele não tivesse notado pelo fato de estar escuro. Podia ouvir as batidas do meu coração aceleradas.
- E depois diz que não tem medo. — Fiquei de quatro em cima do sofá, encarando ele e o sorriso lindo, só um movimento de cabeças e nossos narizes se tocariam em seguida nossos lábios... meu coração nunca tinha batido tão forte e eu nunca tinha me sentido tão quente perto de alguém. Ficamos assim por um tempo antes de...
- Ela tem razão em ter medo. — Um terceira voz surgiu da escuridão. Mas era uma voz que mesmo se passando 2 anos ainda a reconhecia.
Lina estava parada com a faca reluzindo a luz de cada raio que partia o céu. Estava atrás do sofá perto do corredor. Consegui a ver por cima dos ombros de Luccas e senti um arrepio junto com outro raio.
Fale com o autor