4º dia de aula.

Como posso defini-lo para você? Hum... foi bem tenso. Principalmente a partir da tarde

Já começou bem estranho: manha com um leve tom de cinza, ruas vazias não sei porque, uma falha no sistema de eletricidade da escola onde tivemos que ficar sem um período de aula. Todos comemoraram, claro, e eu também. Não só por não ter aula mas também por ser uma oportunidade de conversar com o Luccas.

No dia anterior não tínhamos nos falado direito por causa da Lina e da insistência de me manter longe. Só falei com ele no intervalo, quando fomos lá para a frente da escola de novo, e foi praticamente uma discussão e não uma conversa. E glória a Deus a Lina não apareceu.

Me virei para atrás para ver Luccas encarar o dia quase-cinza pela janela. Levantei e vi que Erick tinha faltado, deixando a cadeira livre para eu sentar. Ele nem pareceu ter me percebido quando sentei na sua frente. Só me notou quando dei uma tocida forçada. Ele me olhou de canto e virou o corpo para a frente, cruzando os braços no peito e eu, virada de lado, cruzei a perna como uma dama. Percebi que ele deu uma olhada rápida na minha coxa já que desta vez eu estava de saia cós alto jeans solta e uma blusa rosa sem manga por de baixo da jaqueta jeans também, então não pude deixar de prender um risinho.

- Você de novo. Não entendeu o recado? Quer morrer? — Ele remexeu as costas no encosto da cadeira.

- Talvez, essa vida é muito louca para mim.

- Pra você? Tem certeza? — Ele e eu demos um sorriso de canto. Não sei se o meu era tão encantador quanto o dele, mas mesmo assim eu dei. O sorriso. — O que quer agora?

- Sempre quiz a mesma coisa. — cruzei os braços apoiando-os no encosto da minha cadeira que estava grudada a sua mesa.

- Respostas?

- É.

- Certo, certo...

- Não me diga que também não posso conversar com você agora?! Por acaso ela vai invadir a escola e me pegar, é?

- Quem sabe.

- Você não sabe do que ela é capaz.

- Muito menos você.

- Você acha que ela poderia vir aqui e agora se soubesse que eu estou conversando com você e tentar me matar mesmo na frente deles?

- Sim. Realmente não sei do que ela é capaz, por isso tomo o maior cuidado possível para que ninguém mais se machuque.

- Por isso fica olhando para a janela o tempo todo?

- Uhum. Para ver quando ela está ou não, para ter certeza que todos ainda me acham... louco.

- É, eu tenho certeza que todos ainda te acham maluco. Mas quando você sabe quando ela vai vir no intervalo?

- Não sei. Por isso vou sempre lá para frente. Ela afirma que precisamos de mais tempo juntos. E Agora também devem achar que você é maluca, só por estar conversando comigo. — Dei uma virada para atrás e vi que algumas pessoas nos olhavam estranho e outras comentavam sobre a gente. Voltei a encara-lo.

- Mas, vem cá, eu tenho 3 perguntas.

- Manda.

- 1º: Como assim “ninguém mais se machuque”? — Comecei com o interrogatório. Se eu tivesse um bloquinho ali, com certeza tomaria nota.

- Bem... — Ele se reacomodou na cadeira descruzando os braços e se apoiando na mesa cruzando os dedos da mão.. — É que desde que a Lina ficou com esse ciúme as pessoas que se aproximaram de mim meio que... se machucaram.

- Como...?

- Como.. A Louise, do 9º ano se lembra?

- Sim, quando quebrou o pé e o braço?

- É. Então a Lina-louca empurrou ela da escada.

- “Lina-louca”. Amei – Dei um sorriso e ele retribuiu – Então não vai me dizer que aquele episódio da peça, que ninguém soube como aconteceu, que a professora Melinda...

- Sim. Ela cortou a corda que prendia o peso e blah blah blah. Só porque a professora me deu aula particular quando precisei.

- Mas aquela faca, ela já matou alguém com aquela faca?

- Não que eu tenha visto. Ela anda com aquela faca do dia todo.

- Como assim o dia todo?!

- Ué, não eram só 3 perguntas? — E o sorriso de canto mais lindo do mundo.

- Áh! — Ele deu um riso baixo

- Ela fica o tempo todo comigo, só as vezes que dá uma sumida.

- E seus pais não se incomodam?

- Como se incomodariam, se não a veem? Bem, até contei sobre ela, mas também acharam que eu estava louco, como se fosse novidade, contei que era um mediador, mas nada mudou. Depois que minha mãe tentou me ajudar, acreditar em mim, a Lina... ela meio que deu uma prova de sua existência. Ela esfaqueou a minha mãe.

QUE?! NÃ-Não brinca! Como ela... como ela pode ter esfaqueado a mãe dele?! A própria sogra, não é?! Por que?! Por ciúme?!

- Me-me desculpa, eu não deveria...

- Não, tudo bem. Minha mãe não morreu. Só meu pai que a afastou de mim e não posso negar que concordei com a decisão dele. Era o melhor para ela.

- Nossa. Eu..eu...

- Já disse, tudo bem. — O sorriso encantador de canto dele agora parecia triste. — Ela está na casa da minha avó aproveitando que ela está doente está cuidando dela. Ah, se lembra da ultima diretora?

- A que morreu?

- É. A Lina a matou eletrocutada por que ela me deixou de suspensão. — Fiquei boquiaberta — Mais alguma pergunta?

- Ah, ah.. certo. Sim. — Falei fechando a boca e saindo do transe que os olhos dele me deixam — Eh... Lá no portão, ela disse que você também foi malcriado. Não entendi.

- Áh, é porque eu não te mantive longe de mim. — Não sabia o porque, mas fiquei bem vermelha na hora. — Próxima?

- Então quer dizer que ela pode andar por aí livremente? Tipo, os outros espíritos que vi só ficavam em um lugar.

- Você não sabe nada de mediar mesmo, né?

- Eh...Você pode me contar exatamente como ela morreu?

- Posso. — Ficamos os dois nos encarando em silêncio. Eu esperando que ele dissesse algo e ele esperando não sei o quê. A essa hora nossos rostos estavam bem próximos, assim acho que eu fiquei avermelhada, porque logo depois ele deu um sorriso de canto e se afastou cruzando novamente o braço sobre o peito, encostando na cadeira. O que me fez ficar mais vermelha por ele saber que estou envergonhada e o fez dar um sorriso maior ainda. Desviei o olhar para minha sapatilha prateada e disse:

- Anda. Fala logo.

- Você fica tão fofa com vergonha. — Advinha? Isso me fez ficar mais envergonhada

- Fala logo! — Cruzei os braços na altura dos seios.

- Certo, certo. Gosto quando fica com vergonha e não irritada. — Agora tinha ficado irritada. Olhei para ele, séria e ele sorria. Parecia se divertir com a minha desgraça.

- Desembucha!

- Tá. Você sabe que ela se cortou, melhor: você viu que ela se cortou.

- É mas por que? E por que não só os pulsos?

- Simplesmente porque ela endoidou de vez.

- Tá, disso eu sabia.

- Sabia? — Ele levantou uma sobrancelha

- Na verdade não. Mas dá pra perceber, principalmente quando você disse que ela quer que vocês voltem a namorar. A garota é um espírito, um fantasma, como uma pessoa normal namora um fantasma?!

- Também não sei. Mas o caso é que ela já gostava de mim antes de namorarmos e eu... também gostava um pouco dela, mas não tanto como ela. Esse amor dela durante o namoro foi se transformando em obsessão. Ela estava ficando maluca e me deixando maluco também! Tive que dar um fim nisso.

- Terminou com ela?

- Sim. Não tenho certeza, mas aposto que foi por isso que ela se cortou.

- O corpo todo? — Provavelmente deu um ataque de drama-psicopático de sem-ele-eu-não-posso-viver.

- É. Bem, como ela era louca, provavelmente não deve ter se contentado só com o pulso.

- E por isso fez aquele rombo na bochecha? Ela era realmente louca.

- É Louca. — Rimos. Ele voltou a olhar para a Janela com a mão no queixo e subitamente disse, sem nenhum sorriso: — Ela me irrita.

- Por que deixa ela fazer isso? Por acaso tem medo? — Dei um sorriso provocativo que o fez me olhar de canto e depois me encarar.

- Acho que sim. — Bem, eu também teria.

- Não acho que ela ta machucaria. Afinal ela ainda te ama

- Ela não sente mais a mesma coisa por mim. Isso é obsessão se lembra? Ob-ses-são.

- Tá, tá, tanto faz. Só acho que se quer que isso acabe deveria enfrenta-la.

- Você a enfrentaria? — Ele arqueou uma sobrancelha.

- Se eu fosse você, sim. — Ele voltou a olhar a janela mas sem a sua tipica mão segurando o queixo.

Na moral, já basta o portão e agora até a janela, ou o que quer que seja que ele está olhando, o traí mais do que eu?!

Não sou tão feia assim!

Quer dizer, tecnicamente ele não está olhando para o portão em si, mas... é que... Ah!

Preciso me tratar.

- Tem razão. — Disse e virou para mim sorrindo relaxado — Vou dar um jeito nisso. Hoje – Tinha ficado surpresa com a reação do garoto, mas ao mesmo tempo satisfeita, portanto sorri de volta.

Mas essa minha satisfação não durou muito.

Não tinha a minima ideia do que estava prestes a acontecer.

Hoje, não sei se me arrependo do que aconteceu, das escolhas que fiz e das ações que ele fez. Antes eu tinha ficado com um ódio mortal dele, mas agora... nada disso importa mais.

Depois dessa pequena sessão de “tira-dúvidas” conversamos aparentemente normal. Ele não olhou mais para a janela. Isso tinha me tranquilizado um pouco mais também. Tinha.

Ele me disse que tinha 17 anos, falamos sobre os acontecimentos dele com a Lina, sobre medos, gostos, livros, trocamos telefones e blah blah blah. Um assunto foi puxando outro.

Infelizmente a luz tinha voltado e com ela veio uma lista de exercícios de História. Então nossa conversa teve que parar por ali.

Na hora da saída nos despedimos e eu saí primeiro que ele para a “namorada” dele não suspeitasse de nada. Layla e a Vivian ficaram me perguntando o tempo todo como foi e sobre o que era a nossa conversa. Disse que só o estava ajudando o garoto a voltar ao normal. Tá, não era exatamente uma mentira.

Quando cheguei em casa, meus pais haviam saído para o shopping, vi no bilhete que deixaram na geladeira. Isso é baixaria. Só que o shopping mais próximo daqui é no bairro vizinho, ou seja, vai levar um bom tempo para eles voltarem.. Passei pela porta da cozinha que é em frente a escada onde subi para o meu quarto, tirei o uniforme e desci novamente. Me joguei no sofá que fica ao lado do “mini-corredor” da escada e liguei a tv. O sinal estava estranho por causa que tinha começado a chover.

Estava quase dormecendo. Não passava nada de bom em nenhum canal e para melhorar vi uma luz forte caindo do lado de fora da casa e em seguida ouvi um barulho assustador e bem alto. Estava começando uma tempestade de raios.

Que ótimo.

A tv saiu totalmente do ar, mas em compensação o telefone tocou. Seria melhor se tivesse vindo com uma notícia... boa, mas não. Veio com uma notícia tecnicamente péssima e acompanhado de uma voz deliciosamente sedutora.