Cor de Marte
1 Ô, Ana
Notas iniciais
"Ô, Ana,
Cê sái tão cedo
E nunca explica
Se vai de medo
Ou se vai de aflita"
Era uma daquelas manhãs cinzas de outono, olhei pela janela do meu quarto e pude ver umas folhas da árvore do vizinho rodopiando no chão.
Eram exatamente seis e quinze da manhã e eu estava extremamente atrasada para ir para o cursinho, mas não me importei, estava frio demais para fazer qualquer coisa além de dormir. Eu estava determinada à não ir ao curso nesse dia, até que a minha mãe chegou igual um furacão na porta do meu quarto.
— Anda Ana, você vai chegar atrasada.
Pensei em várias desculpas, mas nenhuma era boa o suficiente, então cedi e levantei.
Fiquei esperando o ônibus por mais tempo do que eu podia, cheguei atrasada e só pude subir no segundo tempo. Fiquei enrolando no pátio à toa até que recebi uma notificação de mensagem.
“E aí Ana, ñ vai vir para o curso hoje ñ?”
Era a Sophia, minha melhor amiga desde sempre.
“Tava a fim não, mas não arranjei nenhuma boa dsclp pra dar pra minha mãe, ent tive que vir, tô aqui esperando a segunda aula”
“Ata. Tem uma festa massa pra gnt ir hj, ta a fim?”
“Festa? Onde?”
“Na casa do Gustavo”
“Hm.. ok, vamo sim”
“Show ent”.
O Gustavo era um amigo nosso, melhor dizendo era meu amigo e peguete da Sophia, ele tinha me convidado para a festa, mas eu não estava muito a fim de ir e ficar lá de vela.
O sinal bateu e eu subi para a aula.
O dia passou se arrastando e quando deu a hora de ir embora eu praticamente pulei da cadeira e dei graças à Deus.
— Nossa, isso tudo é animação para a festa é? – A Sophia perguntou colocando a bolsa dela no ombro.
Se ela soubesse...
— Com certeza, estou super animada para ficar lá de vela pra você e o Gustavo.
Ela riu.
— Relaxa, gata, vamos arrumar alguém para você.
— Espero que sim – revirei os olhos.
Eram sete horas quando cheguei em casa. Me arrumei e fui para a porta esperar a Sophia.
Eu estava com uma saia preta com a borda bordada, uma blusa preta com a manga até o cotovelo e uma bota até o joelho também preta. Ótimo, estava a perfeita rainha das trevas, combinava com o meu humor: negro.
Em cinco minutos ela chegou.
— Mãe, estou saindo – gritei e fechei a porta depois de ouvir um “Vai com Deus” meio engrolado, ela devia estar deitada.
— Espero que essa festinha esteja pelo menos legalzinha – comentei fechando a porta do seu Up preto que ela havia ganhado no começo do ano no seu aniversário de 18 anos.
— Nossa, parece que alguém acordou com o pé esquerdo hoje – comentou enquanto virava a esquina da minha casa em direção à rodovia.
— Pois é, não estou em um dos meus melhores dias – falei colocando o cinto e apoiando minha cabeça no banco com os olhos fechados.
— Daqui a pouco isso vai melhoras, vou apresentar você a um dos amigos do Gustavo.
Suspirei sabendo que isso não poderia acabar em boa coisa. As tentativas da Sophia de me arrumar alguém nunca davam certo e nas raras vezes que parecia estar indo para frente eu percebia que o garoto era um pé no saco.
Chegamos na casa dele em menos de quinze minutos, tinham vários carros estacionados nos dois lados da rua e da esquina dava para ouvir a música.
Achamos um lugar para estacionar no final da rua e fomos andando até a casa dele. Chegamos lá e já na entrada vimos o Gustavo, estava com uma lata de cerveja na mão conversando com uns amigos. Assim que nos viu foi nos cumprimentar.
— E aí gatas – sorriu para mim e abraçou a Sophia pela cintura a beijando.
Cumprimentei outras pessoas que eu conhecia.
— Então Gustavo, cadê aquele seu amigo que a gente ia apresentar para a Ana? – perguntou quando ele a soltou.
— Ah, acho que ainda não chegou, até agora não o vi – falou dando um gole na cerveja. – Vem, vamos falar com o pessoal, assim que ele chegar eu apresento vocês dois, Ana.
Assenti e fomos para a roda de amigos onde ele estava quando chegamos. Eu conhecia todos eles, eram o pessoal da faculdade, alguns estudavam comigo, outros eram de outros cursos.
Passou um tempo e a Sophia sumiu com o Gustavo. Eu estava determinada a terminar essa noite ou com alguém ou de porre então peguei um copo e o enchi de vodka, misturei com uma batida que estava numa mesa próxima.
Me sentei no sofá e fiquei mexendo no celular, olhando as pessoas, conversando com um aqui e outro ali, mas ninguém em especial, terminei o primeiro copo e fui pegar mais, voltei para o meu lugar e continuei fazendo absolutamente nada, até que um garoto se sentou ao meu lado também com um copo idêntico ao meu, porém estava com um líquido azul e não rosa. O olhei de rabo de olho e ele era lindo, não era perfeito, mas estava quase lá. Alto, pele branca e cabelos pretos, não consegui ver a cor dos seus olhos.
— E aí – ele falou como quem não quer nada.
Senti meu rosto ficar vermelho. Será que ele viu que eu o estava observando?
— Oi – respondi.
— Tá a fim de ir lá para fora? – perguntou se virando para mim, o que não havia feito desde então.
Seus olhos eram de um castanho claro, mel.
Assenti e saímos para os fundos da casa do Gustavo, não sem antes parar para encher meu copo novamente. Tinha uma mesa de pebolim e uma churrasqueira. Algumas pessoas fumando e outras se agarrando em algum canto escuro.
— Então, o Gustavo é o que seu? – Ele perguntou se encostando na mesa de pebolim.
— Amigo – respondi dando um gole no meu copo, já era o terceiro e eu estava começando a me sentir um pouco lenta.
— Você veio com alguém?
— Sim, uma amiga – falei olhando para ele um pouco tensa com a pergunta.
Deve ter percebido, pois se virou para mim com um sorriso. Que sorriso!
— Relaxa, não sou nenhum maluco, é só que você não parece estar muito sóbria e queria saber se teria alguém para você ir embora, não parece muito seguro dirigir nesse estado – pegou uma carteira de cigarros e acendeu um. – Espero que não se importe. Aceita?
Peguei o cigarro e ficamos conversando sobre nada em especial. Até que ele era um cara legal, tinha um bom papo e um cheiro inebriante de menta, que só não era mais forte que o do cigarro, mas eu gostava.
— Acho que é melhor eu ir procurar a minha amiga, não sei que horas são – falei me desencostando da mesa e bambeando um pouco para o lado, olhei para ele e o vi girar um pouco. Me encostei novamente.
Ele riu.
— Acho que você não está muito bem, vem, vou te ajudar a procurá-la.
Tentei protestar, mas acabei desistindo, algo na minha mente anestesiada dizia que ele estava certo.
— Sabe onde ela deve estar? – ele perguntou abaixando a cabeça até meus ouvidos já que tínhamos entrado e a música estava muito alta.
Senti a mescla do cheiro de menta e cigarro e fechei os olhos absorvendo-os.
— Provavelmente com o Gustavo – respondi depois de uns segundos.
Ele assentiu e perguntou a algumas pessoas se sabiam onde ele estava, disseram que deveria estar no andar de cima.
Achei melhor me sentar no sofá enquanto ele ia procurá-lo, depois de uns minutos a Sophia apareceu, meio bagunçada e um pouco bêbada, mas ainda melhor que eu.
— Parece que você se divertiu bastante – comentei enquanto íamos para o carro.
Ela riu.
— Pode-se dizer que sim – falou enquanto arrumava os cabelos. – Sinto muito não termos encontrado o Caio.
— Que Caio? – perguntei avoada.
— O amigo do Gustavo.
— Ah, eu também, mas conheci um carinha legal – comentei abrindo a porta e me sentindo aliviada por finalmente poder sentar.
— Hum, qual era o nome dele? – perguntou interessada.
— Não lembro, acho que não trocamos essa informação – respondi me tocando que eu realmente não havia perguntado o nome do cara. Idiota.
— Nossa, parece que a coisa estava realmente boa – riu e deu a partida.
— Na verdade só ficamos conversando e bebendo.
Ela emitiu um som não muito agradável e revirou os olhos.
— Uhum, sei.
Ela ficou falando sobre o Gustavo e eu fiquei ouvindo. Chegamos na minha casa bem rápido e assim que entrei encontrei minha mãe sentada no sofá da sala.
— Chegou cedo – falou quando me viu.
— Pois é – sentei ao seu lado no sofá.
— Você está fedendo a álcool, vai tomar um banho.
Revirei os olhos e em pouco tempo adormeci, fui embalada num sono doce onde havia um cara de cabelos pretos e cheiro de menta.
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