Cor Escarlate

1 Os irmãos Legrand


Notas iniciais
Bem o primeiro capítulo apesar de um pouco grandinho ele não relata sobre os vampiros logo de cara, isso ficará para o segundo capítulo. Aqui traz a parte como tudo começou para a nossa personagem principal. Sem mais delongas, espero que gostem.

OS IRMÃOS LEGRAND

Paris, ano de 1910.

— Devo lhe agradecer pelo aviso, cavalheiro?

Não sei se fora meu resmungo ou minha tentativa quase inútil de limpar os sapatos na grama alta que o fizera rir, só sei que meu humor só piorara com tal feito.

— Ora essa, só me resta andar descalça.

— Eu a aconselho a não fazê-lo, é preferível o sapato sujo de esterco aos seus pequenos pés.

O maldito estava certo, apesar de que eu notara seu tom irônico ao falar de meus pés. Eles não eram nada pequenos, muito pelo contrário. Aquilo fora uma grande indelicadeza da parte dele, só eu sabia o sofrimento que era ao tentar encontrar um par de sapatos que os calçassem. Mas o que eu poderia esperar de alguém que horas atrás praticamente me empurrara do trem.

— E pensar que eu não estaria nesse estado lastimável se não fosse pelo cavalheiro... – continuei a resmungar logo que voltei a caminhar. — Que nem tem a delicadeza de esperar uma dama.

— Me chamo Daniel. – respondeu-me sem a gentileza de olhar para trás. — E ande depressa, algo me diz que este lugar não é nada agradável à noite.

E quando que um lugar totalmente deserto lhe era agradável? Estávamos caminhando durante três horas em um lugar onde não se via nada além de mato, terra e estrume. Ao passar por ali de trem parecia-me tão perto da estação. Saltamos do trem minutos depois do mesmo começar a se mover. Estava começando a pensar que estávamos perdidos.

— Maldita hora que me sentei perto do cavalheiro.

— Daniel! – avisou-me com a voz elevada, talvez pela distância em que estávamos um do outro. — E quantas vezes mais vai resmungar a mesma ladainha, mulher?

— Lilian; chamo-me Lilian. – arfei devido à exaustão. — Lilian Paterson.

— Senhorita Paterson. – voltou sua atenção para mim. — Nada disso estaria acontecendo se estivesse ouvido meu conselho.

— Da próxima vez que aconselhar alguém seja mais direto. – retruquei enquanto apressava meus passos a fim de alcança-lo. — E espere!

Para a minha surpresa o dito cujo fez o que eu pedira e parou a minha espera. Assim que o alcancei recomeçamos a caminhar. Com a proximidade pude perceber que ele era bastante alto, tinha os ombros largos e pela camisa branca notava-se que era forte. Antes usava um paletó preto que agora segurava em sua mão direita junto de uma pequena maleta de couro marrom. Isso me fizera lembrar que a maioria dos meus pertences ficara na cabine do trem. Só o que me sobrara fora uma pequena mala de mão que possuía meus documentos, alguns trocados, além do meu maior tesouro.

A tarde parecia se despedir quando nós finalmente avistamos a estação que pela minha vista parecia apenas um amontoado de concreto. Aquilo me oferecia uma sensação de euforia e tristeza. Era bom ver que não estávamos perdidos como eu pensara, mas pelo visto ia demorar mais algumas horas para que chegássemos. Só agora eu me dera conta de quão imenso era aquele lugar deserto. De certa maneira me sentia desmotivada a continuar a andar, estava com fome, com sede e mais tardar estaria com frio se não chegássemos antes do anoitecer. Olhei para meu companheiro de caminhada e não consegui distinguir o que se passava em sua cabeça. Ele ficara calado desde que me juntei ao seu lado, até mesmo eu estava em silêncio.

— Não acha que devemos descansar um pouco? Estamos andando há horas e sem nenhuma pausa. – apesar de eu ter parado, ele continuou a andar.

— Se ficarmos sua fome só vai aumentar e eu não aguento ouvir os resmungos de sua barriga.

Se me visse juraria que estava vermelha de vergonha. Era verdade que de vez em quando minha barriga reclamava por comida, mas era natural, eu estava faminta. Ele outra vez me tratava com indelicadeza, me pergunto se ele realmente é inglês como eu.

— Não tenho só fome, estou exausta. Posso distrair a fome dormindo. – disse-lhe tentando convence-lo.

— Se conseguir dormir, a noite não só traz o frio consigo como também perigo. – ouvi-o dizer e aquilo de certa forma me deixou alerta.

— Que perigo um lugar deserto poderia ter?

— Acha que somos os únicos por aqui? – ele riu da minha afirmação. — E esse estrume no seu sapato, acha que veio do além?

Meu corpo ficara tenso com aquela indagação. Eu realmente não havia pensado nisso. Aquilo era um esterco de algum animal, pelo tamanho se tratava de um grande animal provavelmente um cavalo. Além do mais pelo estado do excremento o animal passara por ali no máximo meia hora antes de nós.

— Estamos sendo vigiados? — indaguei preocupada com a possibilidade de serem os caras de preto que nos seguiam no trem.

— Acredito que não. Se estivéssemos sendo seguidos provavelmente já teriam aparecido. Eles estão a cavalo e nós a pé, além de que esse lugar é deserto como você disse, seria uma oportunidade perfeita para eles.

— Então não há perigo.

— Não diria isso. Os homens no trem sabiam que nós havíamos pulado, provavelmente mandaram homens a cavalo atrás de nós, mas por sorte ainda não nos encontraram.

— Eles devem saber que estamos indo em direção à estação, alguns deles devem ficar por lá nos esperando.

— Sim, também é possível. – sua confirmação me fizera acreditar que ele estava me ouvindo apesar de sua feição ter me parecido que estava longe.

— Então é melhor ficarmos por aqui, continuaremos pela manhã.

— Não, é melhor continuarmos agora. É nossa melhor oportunidade, esta escurecendo e fica mais difícil para eles nos encontrarem. Além do mais, eles não são estúpidos, se eles ficarem vagando pela estação até tarde os guardas irão desconfiar.

Mais uma vez ele estava certo. Então como se era de imaginar continuamos nossa jornada em direção à estação. Estava faminta e cansada demais para puxar algum assunto com Daniel, como ele se denominava. Ele também devia estar poupando suas energias ou então era quieto demais. Comecei a perceber que era sempre eu que tentava iniciar alguma conversa. Mas é bom não termos tanto contato, afinal ele era um desconhecido e que pelo que eu percebi estava fugindo de uns caras que me pareciam pertencer a máfia. Não podia tornar-me amiga de um rapaz criminoso.

A noite finalmente dera as caras, isso fora exatamente há meia hora, e só naquele momento me dera conta da escuridão que nos cobria. Estava agarrada a mão de Daniel para não perder-me dele. Sua mão era grande, áspera e parecia-me calejada. Conclui que seu trabalho dependesse bastante das mãos, o que de certa forma contradizia com sua vestimenta que lhe dava um ar de doutor. Embora eu tenha percebido desde cedo que seus cabelos medianos estava há um tempo sem o uso de shampoo. Devia ser apenas um homem humilde fantasiado de doutor para despistar os caras de preto.

— Estamos chegando. – escutei sua voz grossa ao meu lado.

A estação era muito maior agora e não me parecia apenas um concreto como anteriormente eu avistara. Começamos a descer ficando próximo aos trilhos que se seguiam até a estação. Um trem passou ao nosso lado nos clareando por um momento e fazendo arrepiar-me pela proximidade que estávamos. A fome há muito já passara; apenas o cansaço persistia, além do frio que estava começando a sentir.

— Tome. – a voz era um pouco rude, mesmo assim agradeci sua gentileza em me dar seu paletó.

Assim que chegamos próximo à estação, decidimos que eu ia primeiro para me certificar que não havia nenhum perigo. Na verdade fui eu que decidi, ele não concordou nem um pouco no inicio. Mas eu finalmente conseguira convencê-lo de algo. Disse a ele que eles mal sabiam como era meu rosto e eles estavam à procura dele e não de mim, pelo menos era nisso que eu acreditava. Entreguei-lhe o paletó e subi uma pequena escada que havia por ali. Logo que cheguei à estação, encarei o grande relógio que ficava ao centro e constatei que ainda não estava tão tarde, provavelmente eles ainda não foram embora.

A minha sorte é que o lugar estava cheio. Esbarrei-me em uma senhora de idade que sorriu para mim aceitando minhas desculpas. Olhei para os lados e só vi alguns guardas do local e pessoas que pareciam meros passageiros. Ninguém me parecia suspeito, somente eu mesma. Vi-me olhando para todos os lados, além de estar com o vestido sujo e os sapatos fedendo. Andei apressadamente em direção ao banheiro, tinha que me encarar no espelho. E ao fazê-lo fiquei surpresa com o que eu observei. Meu rosto estava sujo, os cabelos bagunçados com alguns fios molhado grudados sobre a testa devido o suor. A parte de cima do vestido estava mais claro que a parte de baixo, porém era perceptível a cor amarronzada que tomara. Não foi uma boa hora de usar uma roupa clara. Subi um pouco o vestido e notei que a meia calça estava desfiada no lado esquerdo e rasgada no direito, já o sapato...

— Pareço uma mendiga. Se eu não tivesse sentado perto dele...

Tive a sorte de encontrar uma cabine vazia ao notar que a maioria estava cheia, muitos por casais de idade, parece que os mais novos se renderam àquele pássaro grotesco de nome avião. Como pode existir tal maquina de transporte? Tudo que sobe deve descer e eu particularmente prefiro ter os pés no chão. Assim que pus os tais pés na minha cabine, enchi-a com meus pequenos pertences: duas malas grandes, e minha bolsa de mão.


— Olá, senhora, precisa de alguma ajuda? – perguntou-me um dos serviçais.

— Só quero que me mostre o lugar onde se faz as refeições. – estava faminta.

Logo o mesmo me auxiliara até o que me parecia o terceiro vagão. Assim que entrei não pude deixar de notar que eu não fui a única a ter a ideia de fazer uma refeição naquele momento. O local estava cheio, estava quase decidida a voltar para minha cabine quando me deparo com uma mesa quase vazia. Não tivera a mesma sorte com a cabine, porém só havia um homem sentado ali. Caminhei até a mesa e em seguida lhe perguntei se podia sentar-me, me surpreendi com sua negativa.

— Desculpe, estás esperando alguém?

— Sim. – respondera sem ao menos encarar-me.

— Três pessoas? – indaguei ao ver três lugares vazios.

— Sim. – podia jurar que estava mentido.

— Bem... Parece-me que vão demorar, vou sentar-me um pouco e prometo levantar-me assim que chegarem.

— A moça não sabe quando não é bem vinda. É melhor retirar-se daqui, é visto com mal gosto uma moça bem vestida e bonita como você sentar com um homem desconhecido. – pude notar seus olhos verdes me encarando.

— Então estou falando com um cavalheiro. A única coisa a qual sou comprometida é ao meu trabalho, não me prendo a mal dizeres de outros. Então não há o que se preocupar. – respondi, enfim, me sentando.

— Devia seguir o meu conselho moça, posso ser perigoso. – avisou-me após um gole de vinho que dera em sua taça.

— Não creio que um cavalheiro como você me faria algum mal, não com tantas testemunhas em volta. Não acha? – ri ao notar sua cara emburrada. — Vamos, homem, prometo que fico em silêncio só quero saber qual vinho estas a tomar, pretendo pedir uma taça para degustar.

— Espero que não se arrependa.

— Sou uma mulher de poucos arrependimentos.

Chamei um dos garçons que me servira cordialmente. Passei o tempo em silêncio como o havia prometido. Apesar disso o lugar estava cheio e ouvia-se o farfalhar das pessoas em outras mesas. Uma que me interessou bastante era uma mulher de madeixas curtas e avermelhadas, era bastante farta e seu prato justificava a sua forma física, entretanto não fora sua aparência que me chamou a atenção e sim sua voz fina e irritante que se alastrava em todo o vagão.

“Ho ho ho Cher, je voudrais plus de bonbons à table.”*

— Aquela francesa a incomoda? – indagou talvez ao ver a minha feição nada alegre.

— Uma francesa? Parece-me uma porca a guinchar.

— É inglesa não é?

— Sim e pelo visto o cavalheiro também é. Londres?

— Não sou da capital, na verdade... – percebera sua feição retesar ao encarar em direção a porta que dava acesso a outro vagão. — Temos que ir.

Mal pronunciara tais palavras e já me vi sendo agarrada por um dos braços sendo forçada a me levantar.

— O que estas fazendo? Me solta...

Ele nada disse apenas forçava-me a andar ao seu lado. Seus passos estavam tão rápido que de vez em quando ele tinha que segurar-me com força para que eu não caísse ao confundir meus pés.

— Senhor, eu irei gritar se não me soltar.

— Olhe para trás de você, moça.

Fiz o que dissera e notei que dois homens de preto estavam atrás da porta, um deles parecia ler um mero jornal enquanto o outro fumava um cigarro.

— Estão atrás de você?

— Agora estarão atrás de nós.

— De nós? Por que estariam atrás de mim?

— Falei para não sentar perto de um estranho.

Voltei a minha atenção para trás um pouco assustada com aquilo. Uma das minhas mãos estava sendo agarrada pelo estranho enquanto que a outra segurava a minha pequena bolsa da qual eu não me separava. Percebi que ele também segurava uma maleta em sua mão esquerda. Olhei ao redor e vi que ninguém reparara na forma brusca como o homem me levava, ou então simplesmente imaginavam que nós éramos um casal enfrentando uma crise. Eu veria dessa forma se não fosse comigo. Assim que ele abrira a porta do vagão, ouvi a porta da frente também ser aberta.

— Eles nos viram.

— Eles já tinham nos visto, eles só estavam esperando a hora certa.

Entendi o que dissera, aquele vagão estava lotado e eles não queriam plateia. Provavelmente eram criminosos, mas me pergunto o que esse desconhecido fez a eles.

— O que faremos agora?

— Só nos resta saltar do trem.

— O quê?

E agora eu me encontrava em uma situação lastimável. Não lhe dei ouvidos, já não havia nada a se fazer além de limpar o rosto e ajeitar os cabelos. E somente foi isso que eu fiz. Ia saindo do banheiro quando percebi que quase me esqueci de minha bolsa. Eu me mataria se isso tivesse acontecido. Logo que a peguei fui-me em direção à porta e abri.

— Ah! Desculpe-me vocês me assustaram. – foi o que eu disse após um grito que dei ao vê-los em minha frente.

— Por acaso tens algum motivo para se assustar com a polícia, senhora? – indagou o guarda mais alto e de cabelos negros.

— Não senhor policial, mas uma dama tem todo o direito de se assustar ao se deparar com dois homens parados em frente ao banheiro feminino, não acham? – retruquei sem transparecer meu nervosismo, embora eu não devesse me preocupar com a polícia ou deveria?

— Com certeza, senhora, eu e meu amigo pedimos perdão pela forma como lhe abordamos. É que a vimos entrar com tamanha pressa ao banheiro, e bem sua figura nos é bastante distinta.

— Sou uma mendiga; não estas a ver? Se quiseres me enxotar não haverá necessidade, já estava de saída.

— Então devo concluir que esta bolsa que me parece cara não lhe pertence, aliás, fala muito bem para uma mendiga. Um inglês muito bom, inclusive. – seus trejeitos debochados me irritaram, mas não podia falhar agora. Ele estava fazendo o papel de policial malvado, ele sabe que eu estava com Daniel. A polícia também estava atrás dele? Não, espera...

— Não nasci mendiga, senhor, sou apenas uma pobre inglesa que tentara fazer carreira na França. Esta bolsa é a única coisa que me restara. – se olharmos para um lado não estava a mentir.

— Você é muito boa em improvisar, senhora. Se eu e meu amigo não soubéssemos da verdade cairíamos como um patinho. Agora venha conosco.

— Agradeço pelo elogio, apesar de não poder dizer o mesmo do senhor. Fala um inglês bastante fluente para um simples guarda francês, eu sei, você poderia dizer que não é mesmo francês e arranjara um emprego na França até conseguir uma vaga em uma faculdade de engenharia ou algo semelhante. Isso acabaria com essa minha duvida, porém escolhera um disfarce de guarda e não policial. Foi um método eficaz para manter-se camuflado entre os verdadeiros guardas da estação, mas ineficaz ao me abordar. Afinal o que um simples guarda poderia saber de mim, sendo que vocês mesmo acabaram de se entregar ao dizer que sabiam dessa tal verdade. – os encarava sem titubear, fora uma isca perigosa que eu jogara, mas a policia não tinha nada a ver com aquilo, além do mais conheci Daniel no trem somente os homens de preto me viram ao seu lado.

— É bastante esperta para uma mulher. Porém de nada vai lhe adiantar sua inteligência. Pegue-a!

Fugi após acertar um chute nas partes intimas do menor. Corria embora não fazia ideia para onde ir. O mais alto vinha atrás e talvez seu grande peso fizesse com que não me alcançasse, para a minha sorte. Entretanto continuei a correr com toda a minha velocidade, sabia muito bem que aqueles dois não deveriam ser os únicos que estavam a nossa espera. E Daniel falara sério quando disse que eles também iriam atrás de mim, mas por qual motivo? E por que será que eles estão atrás dele?

— Para onde vou? – minha voz saíra como um sussurro devido ao cansaço.

Logo que parei percebi que ganhara uma grande distância a ponto do falso guarda me perder de vista. Tive a ideia de voltar até onde Daniel, mas isso poderia ser perigoso. Sair da estação não era uma boa ideia também, eles poderiam estar a nossa espera. Ia voltar na direção contrária quando me esbarrara em uma senhora novamente. Por um momento achara graça daquilo. Só então me dera conta de que a mulher de idade a minha frente era a mesma, além de perceber que seus olhos eram bastante jovens e sua boca bastante carnuda. Era um disfarce, e a mesma se revelara assim que tirara a peruca e me empurrara para um canto escuro.

— Vou te tirar daqui.

— Quem é você?

Essa fora a ultima coisa que eu lembrava-me que havia dito. Depois disso só sentira um cheiro forte e percebi que estava sendo sufocada com o auxilio de um pano branco.

...

Lembro-me de acordar sentindo uma pequena dor de cabeça. Fiquei um pouco apreensiva assim que me vi em um quarto pequeno onde havia apenas um armário velho e uma janela onde eu pude perceber que já era manhã. Levantei-me da cama e caminhei para fora do aposento, me vi em um pequeno corredor e continuei seguindo até o cômodo que eu imaginaria ser a sala, quando ouço duas vozes um pouco alteradas. Uma delas eu reconheci facilmente ser do rapaz que eu conhecera algumas horas atrás e que fora culpado por eu estar ainda na França quando deveria estar agora em um trem com destino a Inglaterra. Já a outra voz, eu só pude notar que se tratava de uma mulher e pelo pouco que ouvira percebi que não estava nem um pouco contente com a minha presença.

“Você é um irresponsável, Daniel. Como pode colocar ela no meio de tudo isso? Ela teve sorte em não ter sido pega por eles. Se eu não estivesse lá... Não sei o que seria de vocês dois.” – pude perceber um tom melancólico em sua voz quando pronunciara a última frase.

Notei que Daniel não dissera nada, imaginei que ele estivesse cabisbaixo dando razão para cada palavra que a mulher dizia. Seguiu-se um silêncio onde estavam e pouco tempo depois ouvi o som de uma batida na porta. Conclui que alguém saíra e pelo som estridente só podia ter sido a mulher raivosa.

— Está aí parada há quanto tempo? – ouvi a voz de Daniel que notara a minha presença.

— Não muito. – respondi aparecendo no recinto.

E assim que dei mais um passo, senti uma tonteira e cairia se não estivesse me segurando antes na costa da cadeira e me sentado logo após.

— Não me dou muito bem com clorofórmio. – comentei lembrando-me do incidente na estação.

— Ele salvou sua pele.

— Não havia um jeito melhor de me salvar? Sua namorada não é nada gentil. – provoquei levando minha mão à cabeça, a dor parecia aumentar.

— É minha irmã mais velha.

— Ah... – na hora eu não entendi o motivo do meu alivio ao ouvir aquela resposta, só lembro que continuei a tagarelar a fim de disfarçar tal sentimento. — Nada cavalheiro de sua parte dizer a idade de uma mulher.

— Eu não disse. – ele riu ao ver-me corar e gentilmente mudou de assunto. — Michelle me disse que você estava correndo de um guarda, ela imaginou que poderia ser um dos homens disfarçados.

— E era, mas na verdade foram dois homens que me abordaram. No inicio até achei que eles eram guardas e até pensei que você pudesse estar sendo seguido pela policia.

— E o que a faz descartar essa possibilidade?

— Não descartei essa possibilidade, eles só não me convenceram.

— Parece-me bastante esperta para apenas uma fotógrafa. – observou entregando-me minha maleta. — Aliás, as fotos são fantásticas.

— Agradeço o elogio, porém isso não ameniza o fato de ter bisbilhotado meus pertences.

— Não fiz por mal.

— Sei... – o encarei de soslaio enquanto abria minha maleta para verificar se estava tudo em ordem.

Constatei que todas as fotos estavam ali. A maioria foi fotografada em Paris, apesar de poucas terem a torre Eiffel como imagem de fundo. Sempre preferi tirar foto de pessoas a escolher fotografar pontos turísticos. As pessoas eram os verdadeiros patrimônios de sua nação. Eram elas que faziam a história acontecer. Encarei a última foto tinha a imagem de uma mulher que sorria enquanto carregava uma menina que aparentava ter menos de um ano, aquilo fez lembrar-me de casa.

— Não sou fotógrafa, isso é apenas um hobby. Vê... – disse mostrando-lhe minha câmera Polaroid. — Não é uma câmera que os profissionais costumam usar.

— O que a trouxe a Paris?

— Minhas férias. Vim para descansar e tirar umas fotos. – contei-lhe observando minhas fotos e logo após fechei a maleta e prossegui. — E você o que o trouxe?

— Minha família é francesa, eu e minha irmã viemos para cá após soubermos da morte do nosso pai. – seu semblante ficara mais duro. — Isso já faz um ano.

Falar sobre a morte de um ente querido não devia ser fácil, pude notar a tristeza em seus olhos, mas também notei que tinha raiva ao falar do falecimento de seu pai. Talvez esse assunto tivesse alguma ligação com os homens que os estavam seguindo.

— Por que eles estão atrás de mim? – o encarei a espera de sua resposta.

— Eles devem ter achado que você fosse minha irmã, você tem a mesma cor de cabelo que ela. – observou apontando para minhas madeixas.

— Entendo, mas se eles vissem meu rosto não saberiam que estavam errados?

— Perdão, mas não pude arriscar te deixando lá. – ele me disse e logo se levantou caminhando em direção à janela. — Já aconteceu antes. Eu e minha irmã costumamos nos separar para não sermos pegos. Até que uma vez eles mataram um rapaz que conversara com a minha irmã por alguns minutos.

— Ele se parecia com você?

— Nenhum pouco, foi o que minha irmã disse.

— Estamos seguros aqui? – indaguei preocupada ao ver que Daniel estaria bastante exposto ao aparecer na janela.

— Por enquanto sim. Ela voltou. – avisou voltando sua atenção à porta que segundos depois foi aberta por uma mulher de madeixas castanhas.

— O lugar está limpo. Trouxe alguns agrados aos dois. – disse jogando sobre a mesa uma sacola de pão francês e geleia. — E desculpe-me, senhora Paterson, pelo modo como salvei sua pele. – as palavras e o modo que as disse não me agradaram muito, porém eu apenas sorri e agradeci por ela salvar minha pele.

Iniciamos assim nossa refeição, pão com geleia não estava na minha lista de preferências, mas era a única coisa que tinha e eu estava faminta. Os minutos se passavam e o silêncio permanecia. A irmã de Daniel não parava de me encarar enquanto mordiscava seu pão. Ela tinha realmente a mesma cor e também o mesmo comprimento de minhas madeixas, poderíamos até ser confundidas estando de costas. Porém seus olhos eram verdes como do irmão e seus lábios mais carnudos, e o que mais me chamou a atenção foi sua postura encurvada e seu jeito grosseiro.

— Lara Paterson, não é? – indagou-me com a boca a mastigar um pedaço do pão.

— Lilian, na verdade é Lilian. E você é Michelle, irmã de Daniel.

— Michelle Legrand e Daniel Legrand. – respondeu-me meio ríspida, percebi que não lhe agradava dizer-lhe apenas os nomes.

— Desculpe-me não foi minha intenção parecer-me intima, eu realmente não sabia seus sobrenomes.

— O tolo do meu irmão não gosta do próprio nome. Mas então você é uma fotógrafa? – ela provavelmente vira as fotos, talvez fosse ela que tivesse bisbilhotado; aquilo me irritou.

— Não, é apenas um hobby. E por que estão sendo perseguidos? – indaguei percebendo seu desagrado.

— Esse é um assunto que não lhe diz respeito.

— Devo discordar de você, pelo que eu percebi estou na mesma barca que vocês. Acredito que tenho todo o direito de saber o porquê estamos sendo seguidos.

— Ela tem razão. – concordou Daniel se pronunciando pela primeira vez desde que sua irmã chegara. — Nós temos algo que eles querem.

— Tolo irmão, se for contar algo comesse pelo começo.

— Como queira... Disse-lhe que meu pai morreu há um ano, na verdade ele foi assassinado.

Meu pai se chamava Robert Legrand, muito conhecido por toda a França por sua riqueza e por seus diversos casamentos rompidos devido a sua infidelidade. Minha mãe se chamava Elizabeth Watson era uma pobre inglesa que trabalhava como uma das cozinheiras na casa de meu pai. Ela era linda e meu pai acabou se interessando por ela, na época ele era casado com Lara Legrand que era sua prima e mãe de Michelle. Minha mãe e Robert tiveram um caso e ela concebeu seu único filho antes de falecer. Eu fui criado pelo jardineiro George SEM SOBRENOME, era como o chamavam. E nesses anos todos, eu imaginei ser filho dele, e trabalhava na casa do meu pai como jardineiro seguindo os passos de meu pai George. Porém os anos foram se passando e o senhor Robert parecia mais frágil e sempre me queria por perto, um fato que eu estranhara na época. Um dia ele resolveu pagar meus estudos e foi quando eu me mudei para Inglaterra, terra onde minha mãe nasceu e onde aprendi a falar inglês fluentemente o que muitas vezes faziam as pessoas acharem que eu era inglês.

Depois de cinco anos fora, resolvi voltar para a França. Foi quando eu soube da debilidade do senhor Robert e descobri toda a verdade sobre meu pai. Ele era famoso por ser um dos homens mais ricos do país, mas ninguém sabia como ele herdara aquela grande fortuna. Uma noite antes de sua morte ele chamara Michelle e eu e nos entregou uma chave dourada, dizendo-nos que aquela chave nos guiava para a verdade. Eu e minha irmã acreditamos que se trata de algum tesouro, já que descobrimos que a chave pertence a um banco que fica na Inglaterra.

— Então esses homens estão atrás dessa chave?

— É o que acreditamos. – respondeu Daniel.

— Mas porque vocês acham que o pai de vocês foi assassinado? Ele já não estava moribundo?

— Foram encontradas marcas roxas em seu pescoço, Michelle acredita que ele morreu sendo sufocado.

Encarei Michelle, ela parecia-me bastante impassível diante de tudo que seu irmão havia me dito. Ela nada dizia, apenas continuava a mastigar mais um pedaço de pão. De vez em quando percebia que ela me encarava enquanto eu ouvia os relatos de Daniel.

— Havia algum indicio de arrombamento na casa? – perguntei no intuito de observar a reação da senhora

— Não... Você acha...

— Lilian Paterson, quem é você afinal? – questionou interrompendo o meu raciocínio.

— Sei o que está me perguntando, sou detetive e posso ajuda-los a desvendar esse caso.

Notas finais
* Tradução: Querido, eu gostaria de mais doces à mesa. ( é o que a francesa estava dizendo no flash back de Lilian)

Espero que não tenha ficado confuso o capítulo, espero que gostem. E comentários serão mais que bem-vindos.

Beijos!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.