Notas iniciais
Uma one shot curtinha sobre o Gêmeos e a relação que ele tem com si mesmo e com o Peixes.

Pequeno.

Era assim que ele se sentia.

Impotente, diante das adversidades. Minúsculo, insignificante, uma poeira suspensa no espaço.

Ele queria gritar mas faltava-lhe a força e faltava-lhe o ânimo porque toda sua voz e toda sua força foram gastas tentando conter aquelas mãos invisíveis que apertavam-lhe a garganta e tomavam-lhe o ar porque era impossível respirar e era impossível achar algo que ele há muito tinha perdido

Fôlego.

Já não tinha foco. Sentava-se na cama sem graça e encarava as paredes cinzentas do terceiro quarto da casa. Na estante de madeira, enfileiravam-se livros dos mais diversos assuntos. Escolheu um de seus preferidos e pôs-se a ler, sem muita vontade.

Não sabia quanto tempo havia passado. Em dias como aquele, o relógio parecia andar para trás. Lia a mesma frase várias vezes e nem notava. Lia a mesma frase várias vezes e nem notava. Lia a mesma frase várias vezes e nem notava.

Ele queria reagir. Não é como se ele apreciasse sentir-se daquela forma enquanto todos riam e divertiam-se na algazarra que era o jardim logo depois da chuva. Mas era difícil estar rodeado de gente e ainda assim sentir-se sozinho.

Porque a solidão, apesar do nome, nunca vinha sozinha.

Com ela vinham a nostalgia, a raiva, o medo.

Mas agora não sentia mais nada. Era um fantasma apático que vagava pela casa enorme em que morava.

Ele sempre fora um mestre dos disfarces. Mentir pra ele era tão natural quando respirar, por isso ninguém notara quando suas expressões foram falsificadas. Enquanto interagia, buscava na memória as expressões correspondentes a o que quer que que a outra parte falava e as imitava com perfeição.

Sentia-se cheio de um vazio enorme. Um vazio tão grande que um balde inteiro de bons acontecimentos não o preencheriam. Um abismo enevoado e sem sentido, onde nada, nada mesmo, era muito definido.

Batidas na porta o tiraram de seus devaneios.

“Quem é?”, perguntou, sem vontade.

“Sou eu. Abre, por favor”, disse a voz familiar atrás da porta.

Ele levantou-se da cama bagunçada e foi atender o pedido.

Peixes entrou sem pedir licença. Os cabelos mal arrumados davam-no um aspecto de quem acabara de despertar. Nas mãos, as alças dos baldes que trazia disputavam espaço entre seus dedos.

Ele pousou os objetos no chão.

“O que é isso?”, perguntou o bicolor, apontando os baldes coloridos.

“Tinta”, respondeu o azulado, sem disfarçar o tom de obviedade em sua voz.

“Pra quê?”, perguntou, um meio sorriso surgindo em seus lábios. Tal qual para uma criança, para Peixes, todas as coisas eram muito simples. Divertia-se com o modo como ele via o mundo, por trás dos olhos azuis.

Peixes apontou para cima, ao que Gêmeos apenas seguiu sua indicação. Encarou o teto branco.
Imaginou-o refletindo todas as ondas, sem absorver um único comprimento de luz, para manifestar aquela cor sem graça e sem vida. Soltou um riso fraco e amargo. Em muito assemelhava-se àquilo. Vivia sem se apegar, vivia de momentos, de flashes, de instantes. Não conseguia tanger laços mais profundos por medo se ser exposto, então vestia suas máscaras e não se deixava afetar por nenhuma del...

“Hey!”, exclamou Gêmeos, em surpresa, quando Peixes passou o pincel sujo do que parecia ser tinta verde em seu rosto. “Eu que te ensinei esse truque, e já está bem velho”, resmungou, enquanto limpava o nariz agora esverdeado.

Peixes riu.

“Não gosto de quando se isola aqui dentro. Você se fecha e não deixa ninguém te ajudar. Eu entendo isso, você quer se consertar sozinho. Mas deixa eu fazer desse um ambiente mais confortável” disse o mais baixo, abaixando-se para pegar um pincel e entregando-o para o bicolor.

Gêmeos sorriu. Peixes era único em toda a sua espécie.
Tinha uma capacidade de perdão que beirava a onibenevolência atribuída aos anjos. Sua energia era pura. Ele conseguia fazer qualquer pessoa se sentir acolhida, e enquanto encarava o imenso oceano que eram os olhos azuis do outro, o bicolor sentia as borboletas de seu estômago alçarem vôo e levarem embora quase todo o sentimento ruim que o preenchia mais cedo.

Enquanto Peixes tagarelava sobre algum evento qualquer, Gêmeos cobria com plástico a cama e os móveis. Tomou um dos baldes nas mãos, e com o pincel jogou pra cima tudo que Peixes tinha trazido.

Cor.

Notas finais
Obrigada por ter lido até aqui.
Beijos de luz ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!