Mais um dia fatídico como qualquer outro. Após lutar bastante contra a preguiça e cômodo confortável da cama, quase o convidando para ainda dormir, Matthew finalmente está de pé.
Ai porcaria, eu dormi demais - espantou-se com a hora no alarme.
Matthew rapidamente colocou seu colete, o casaco jeans, calçou suas botas e por fim pegou a sua Bereta do lado esquerdo, repousado na mesa, perto do pé da sua cama. Ao visualizar toda a bagunça que estava seu quarto resolveu que ainda tinha um tempo ainda arruma-lo. Uma de suas lembranças quando ainda seus pais eram vivos e o que fazia ser diferente dos demais, agora.
Começou dobrando cuidadosamente o cobertor, até virar um perfeito quadrado, arrumou a fronha da cama que era de seu irmão até enfim o desenho do Superman ganhar forma, e por fim acomodou a almofada que era do quarto dos pais na cabeceira. Em seguida sentou na comoda ao lado, respirou e por fim desceu as primeiras lágrimas da manhã. Um Choro quieto para não incomodar Luke que ainda dormia profundamente ao lado direito. Só então, limpou o rosto com a manga da blusa, olhou pro teto e então tomou coragem para sair do quarto. Fechou a porta vagarosamente e foi até o quarto da irmã. Deu algumas batidas de leve, para acorda-la. Não atendido, bateu um pouco mais forte. Nada ainda. Então abriu a porta e a irmã não estava ali.

Ela ainda não voltou — Pensou

— Esqueceu de me levar, denovo — Suspirou

Observou o quarto por alguns segundos e então estudou todas as lembranças pregadas no espelho e algumas na parede. Um quadro emoldurando os últimos Ingressos do show do Black Sabath — Última turnê, dizia o enunciado do ingresso — E algumas fotografias da irmã, desde quando era a pequena Laura. Um passado que Matheus lembrou-se somente ali desses momentos, a qual também fazia parte deles. A Viagem na casa dos tios, a pescaria no retiro Espiritual da Igreja, a Comic Con, as saídas de final de semana, o parque de diversões da cidade, até chegar aos que pertenciam somente a Laura — As festas de fim de ano na casa do ex Namorado, os incontáveis shows de Rock que Laura não perdia uma com seus amigos, e algumas outras viagens. Matheus lamentou por não ter tido tempo de ter também esses últimos momentos.

Desceu as escadas até a cozinha. A mesa do meio, pegou um pedaço de bolo de limão que se encontrava em seu estado ainda perfeito do dia passado. Foi até a Geladeira, pegou uma garrafa de leite, um copo de plástico seu antigo do Homem-Aranha — Que agora pertencia a Luke — colocou o leite e então o achocolatado. Lembrou dos dias em que acordava cedo, antes de ir pra escola e tomava no mesmo copo o liquido e cada mordida do bolo, a época em que a falecida avó aproveitava os finais de semana para fazer os mais deliciosos bolos. Tirou a arma do coldre para verifica-la nenhuma imperfeição. Tirou a munição, examinou o gatilho e ficou pensando a quem ela pertencia antes dele — Devia ser do pai — imaginou. Terminado e novamente montada, tomou a no coldre e só então saiu para a rua onde encontrava-se o vizinho a sua espera.

Bom dia Leonard! — Falou com satisfação para o vizinho que estava a sua frente.

E como foi o dia ontem? Gostou das bolachas e daquele filme que você e nós amamos tanto..Qual o nome dele mesmo?Ah sim, é.....Aliens: O Resgate. Não é isso? Ótimo filme! — Perguntou o vizinho

Sim é um ótimo filme! — Exceto de que não foi Aliens e sim Evil Dead. Luke dormiu cedo porque estava com medo do filme. Você mais uma vez tentou dar em cima da Lorayne..e..sem sucesso. Logo em seguida comemos o bolo da tarde de ontem até altas horas, e somente então fomos dormir

Passando suavemente a mão no rosto — Eu nunca daria em cima da sua irmã, por causa da minha timidez, e também porque ela odeia minha barba — Mas sim foi Evil Dead — Comemos o bolo da tarde e tivemos uma excelente conversa e só paramos quando deram o toque da Sirene — Clareou

Matthew então sorriu para o mesmo e só então cumprimentou e abraçou o jovem. Ambos se entenderam e vários outros vizinhos também faziam o mesmo "teste". Era uma das únicas formas de saber que "eles" não se encontravam ali, e todos os dias deveriam fazer isso. Por enquanto até então, nenhum incidente. Por enquanto, pensou Matthew

— Sua irmã saiu bem mais cedo do que costume. Porque ela não voltou?

Eu não sei! Tomara que ela e os Coletores não tenham que ter saído da Vila para encontrar suprimentos — Falou abertamente a medida que caminhavam pelo quarteirão.

Fica tranquilo, não podem ir tão longe sem autorização — E mesmo que tenham saído — afirmou a Matthew — eles teriam obrigação de juntar-se aos Assaltadores e os Combatentes — Lorayne não seria tão louca.

— Boatos dizem que que o Bairro pode estar precisando de suprimentos do nosso — Ninguém sabe até quando ficaremos tão seguros dos outros - Indagou para Leonard

Ficou maluco Guri? — São só boatos, faz bastante tempo que as coisas não chegam nem perto do outro bairro — A Maioria está sendo retalhada pelo Combatentes nas grandes cidades, e suprimentos eles tem aos montes — Os cretinos ficam sempre com o melhor — Suspirou enquanto limpava um pouco do barro das botas na grama.

Matthew ajeitou o seu casaco e esfregou as mãos por conta do frio matutino, e mais uma vez encarou o chão, enquanto mentiras inundavam sua mente — Sim mas...ficar aqui cercado, isolado e quase nunca sabendo de nada que acontece no bairro — Será que estamos ainda tão seguros ainda? — Será que não tomaram mesmo o bairro? — Será que Lorayne está viva neste momento?

O vizinho sábia das dúvidas diárias de Matthew , sempre com as mesmas perguntas desde que tinha mudado para a Vila. Ele não podia culpar o garoto pelos horrores que sofreu com os outros, e por conta dos pais assassinados, mas sendo dois anos que o local não sofria nenhum ataque, já estava cansado — Caramba Matt — Olha pra min! — Nós fizemos o teste certo? — Você conseguiu responder tudo o que aconteceu ontem correto? — Eu também fiz o mesmo, todos fizeram o mesmo e a mesma coisa de sempre por dois anos, e até agora nenhuma presença dessas merdas. Todo o dia a mesma dúvida, desde que te conheci e pra que? Aqui está muito seguro e pronto. — Chega de falar sobre isso, por favor!

Por fim pararam para observar o crepúsculo do dia e ficaram alguns segundos sem se falar — Ele está certo. já era pra eu ter me acostumado aqui — pensou. Quis observar o movimento das arvores que cercavam o local por alguns segundos e imaginar que algum tempo havia muitos pássaros por ali. Subitamente fora lançado ao chão e recoberto das folhas secas das árvores. Matthew tomou um susto no inicio mas entendeu o recado de Leonard. Ficaram lutando na grama por um tempo até cansarem. Laços afetivos também eram feitos entre todos os vizinhos para diferenciar dos "outros". Quase que uma obrigação ser amigo e colega — Porém não tinha obrigação de ter uma relação amorosa, mesmo que fosse ainda mais eficaz contra eles. Você podia ser tudo, menos conhecido. Era também a única forma sobre tudo do isolamento do Gueto.

Meio já sem folego Leonard perguntou a Matthew, enquanto lutavam pelas folhas secas. — Ei garotão. Já que você tá tão animado vem ajudar aqui em casa. É a terceira vez que aquela merda de toca fitas me estraga. Malditas coisas do ano 2000 — e em seguida jogando um punhado de grama na cara do menino

Matthew também estava quase sem ar, mas devido a vantagem na idade, fora os vários cigarros consumidos diariamente por Leonard, Matthew tinha mais condições na brincadeira. Jogou o homem ao chão, e em seguida cobriu seu corpo de grama, folhas e galhos continuamente — Certo, mas hoje a noite você vai ter que cuidar do Luke

E o que você vai aprontar moleque. Não vai atrás da sua irmã sozinho, não é? — Tentava se levantar

— Claro que não! Hoje tem festa no centro não soube? — Vão escolher os novos Coletores — Se a Lorayne não voltar antes, eu quero ir. Você toma conta conta do Luke enquanto isso — Respondeu dando pequenos socos em Leonard que lutava pra ficar de pé, até mesmo respirar, enquanto Matthew cobria seu rosto de folhas, o deixando quase cego. Essas crianças tem mais força que Jovens esses dias, não é possível — Pensou Leonard.

Tudo bem! Certo — Eu desisto! — Eu cuido do MIni Skywalker — Para, caramba! — Advertiu enquanto Matthew botava-se a rir. Sua primeira risada finalmente e assim Leonard conseguiu cumprir seu dever de pelo menos por agora faze-lo esquecer do que acontece fora do Gueto

Agora me ajude a levantar — Pediu dando as mãos ao menino, e assim o fez.

O vizinho arrumou os óculos meio afrouxados, limpou o resto de folhas do moletom, arrumou o cabelo, limpou algumas outras folhas da calça, enquanto Matheus fazia o mesmo.

— Deu uma vontade louca de fazer parte dos coletores Agora? - Perguntou dando pequenos empurrões em Matthew.

— Só não quero ter que ficar por aqui hoje a noite, vendo os mesmos filmes - Devolveu duas vezes

— Certo, mas cuidado a noite — Volte antes do toque de recolher — Advertiu

— Eu não sou burro ok — Respondeu dando um último empurrão em Leonard, até chegarem a entrada.

....................

Já sabe como são as regras né. Nada de calçados dentro de casa —

Tirou as botinas quase apertados do pé na entrada e colocou o moletom no cabide do lado direto . Mesmo não estando tão frio a aquele dia, fechou a porta para o ar do ambiente não chegar a entrada pois por dentro estava mais quente que o lado de fora.

Tira essas botas logo, pendure seu casaco, e antes de ir pro quarto, como sempre cumprimente a minha mãe, por favor.

Pode deixar — respondeu com cinismo

Matthew subitamente agarrou-lhe pelo braço.- Espera!! Você fez o teste com ela?

Um grito veio da sala e alto o bastante para ecoar pela casa — Leonard!! é você seu cretino??

— Sim Mãe!! Já estou em casa! Obrigado por ainda saber meu nome — Devolveu no mesmo tom.

Matthew se perguntava se ambos disputavam quem gritava mais. Tinha quase certeza que a qualquer momento a casa iria cair com tantos deles. Alguns que davam para se escutar do seu quarto. Se divertia as vezes com isso.

— Nunca mais me faça essa pergunta novamente, entendeu?? — Sussurrou Leonard que seguio a falar abertamente com sua mãe.

MÃE, O QUE FIZEMOS ONTEM AQUI EM FRENTE DE CASA?

COMO SEMPRE NÃO DEIXANDO EU DORMIR, FICARAM TAGARELANDO O DIA TODO, A NOITE INTEIRA, DEPOIS VENDO ESSE FILME HORROROSO — E se aquele seu vizinho peste estiver ae, chame-o aqui, agora!

O que? — Pensou — Será que fomos longe demais ontem?

Leonard fez cara de "boa sorte" para Matthew , que seguiu meio assustado ao encontro da Sra Rudolph. Matthew conhecia muito bem a casa de Leonard, mas poucas vezes via sua mãe. Ela preferia isolar-se dos demais e quase não dava mais atenção ao filho. No que conhecia dela, quase sempre era o deslumbre do peso meio avançado de uma Sra na poltrona — no pouco que a conhecia era as costas dela para a entrada da sala e a poltrona, sempre para dizer Bom dia ou Boa noite. Seria a primeira vez em anos que ele fora chamado diretamente a ela. A caminho ficou pensando do porque e acompanhando o armário cheio de copos de cristais de diferentes cores, e o azulejo desalinhado do chão. Os quadros com várias fotografias nas paredes, e por fim o espelho a frente onde reparou algumas pequenas folhas secas no cabelo, e as colocou rapidamente no bolso. Já na sala, mesmo com tantas arquiteturas de quadros, vários discos em vinil acomodados na estante em frente, inúmeros livros e o carpete de Urso,, seus olhos voltaram a atenção a aquilo que o mais chamou atenção desde que passou por aquele local — O velho Winchester da Sra Rudolph. Só o tinha visto antes em alguns dos filmes que os coletores recuperavam, ou nos livros. A arma perfeita — pensou

— Bom dia, Sra...ah Sra...- Embaralhou-se nos nomes, pois não parava de se apaixonar ao Winchester — Eu juro que sei seu nome..mas sempre me esqueço de pronuncia, caramba — Falou com vergonha

Não precisa moleque. Só o verdadeiro garoto Hippie cabeludo do meu vizinho que jamais saberia pronunciar meu nome direito — Vamos, chegue mais perto.

O que ela quer? - Pensou Matthew

Ao enfim conhece-la mais de perto, reparou que ela tinha menos peso do que ele imaginava e não era idosa como Leonard dizia, mas algumas rugas passeavam em suas bochechas. Ostentava um óculos quase fundo de garrafa e um cabelo preto bem espalhado fazendo parecer o Albert Einstein e um longo vestido rosa.

— Bom dia então Sr...Sra Rudo..Rudolph — Vim ajud...ajudar o Leonard pela terceira vez com o Radio Casset - Matthew gaguejava de nervoso e sentia um forte aroma vindo do pescoço de Rudolph que se aproximava do garoto a fim de escuta-lo. O cheiro era tão forte que quase entupia suas narinas.

Pode me ajudar com isso? — Apontou para estante.

Estava tentando assistir um dos filmes antigos que os Coletores conseguiram resgatar. Pior ainda a TV de Tubo que lutava para ganhar cores.e por fim o filme que parava de vez em quando, deixando mais impaciente.

Essa porcaria de filme que não pega direito e nem essa droga televisão. Tem certeza mesmo que os Coletores não conseguiram encontrar algo menos ultrapassado? — Rugiu para as paredes e jogando o controle em seguida.

Matthew ficou assustado com a cara que Rudolph fez para jogar o controle, e o barulho fez ao ser jogado contra a parede. Ao mesmo tempo quase riu do momento.

— Desculpa Sra..Rudolph, eles tentaram recuperar de tudo mas das únicas coisas que restaram infelizmente foi nosso próprio lixo do sótão — Distanciou um pouco para fugir da loção que invadia suas narinas.

— Isso é uma completa bobagem! — Porque o Bairro não pode resolver isso? — Rugiu novamente para as paredes.

— Não podemos pegar nada do bairro, essas são regras Sra — Pelo menos ainda temos eletricid

— Não podemos nem ter cachorros e gatos, nada!- Cortou o menino — Sinto muita falta do meu SnowForam eles que também determinaram isso? Que animais não possuem lembranças? — Meu Snow sempre voltava pra casa mesmo vadiando por ae — Porque isso menino?

Matthew sentiu um pesar vindo nos olhos de Rudolph. Tentou explicar da melhor forma que podia. Lembrou dos tempos quanto morava em outro local antes do Bairro e da Vila. Os animais e os outros foram os primeiros casos.

— Gatos, cachorros..entre outros são os mais difíceis de se distinguir Sra, não podemos arriscar tanto.

Rudolph agarrou a mão do menino com os olhos meio marejados — Esse lugar ainda vai te enlouquecer menino — Breve todos ficaremos loucos — É tudo que essas coisas querem - Falou abertamente revirando os olhos pelo local, como se não fosse apenas a sala que irá deixa-los loucos.

Reparou que no braço da poltrona tinha uma almofada que lembrava um gato. Bem branca e felpuda. Rudolph passava continuamente a mão na almofada. Um remorso maior pegou Matthew, que devolveu o gesto do seu punho com a mão sobre a dela. Segundos depois, Rudolph tomou coragem para levantar-se de sua poltrona em três tentativas consecutivas, recusando a ajuda de Matthew . Quando finalmente ficou em pé, foi até a TV até, e bateu nela, até funcionar como queria.

— Droga de lugar! Droga de lugar! — e batendo desenfreadamente danificando ainda mais a imagem da TV.

Matthew pegou rapidamente o controle do chão, encaixou as pilhas em seus respectivos lugares, e foi até a função "Sintonia" e "nitidez" do aparelho. Rudolph ficou parada e o encarou com olhar de O que está fazendo?, mas o menino continuou.

Essas funções dessas Tvs de antes, eram realmente complicadas

Matthew ficou cuidadosamente revirando nas funções até finalmente a primeira imagem do filme que Rudolph tentava assistir, finalmente aparecer. Depois arrumou o filme meio mascado para a Sra. Com tudo pronto ambos comemoram o feito, mesmo a mulher sentindo um ego vindo por parte do menino.

— Onde aprendeu tudo isso? — Por fim perguntou

— Meu pai tinha uma loja para reparação de eletrodomésticos — Tinha muitos desse tipo e ele me ensinou todos eles — As Vezes eu até o ajudei.

— Onde estão seu pai agora?

Matthew nada mais respondeu. Rudolph entendeu e agradeceu ao jovem.

Obrigado por finalmente ter arrumado essa merda! Agora pode ir lá ajudar aquele patife — Fez posição para sentar-se e desta vez aceitando a ajuda de Matthew. Quando finalmente seu corpo caiu, afundou ao estofado e quase o fez ruir. Matthew apertou a língua e os lábios. Sentia que era errado rir dessa situação.

De nada! Sra...ah Rudolph, o que precisar é só me chamar. E em seguida finalmente seguiu em direção ao quarto

Não pode isso! Essa porcaria, pela terceira vez me masca essa fita. Como em nome de Deus, você foi um avanço para tecnologia? — Rugiu apara o radio.

Matthew desta vez não precisava segurar as risadas, pois sua rotina com Leonard era diferente.

— Você é realmente o filho de sua mãe! — brincou com a situação apontando para a cara de raiva de Leonard.

HA HA HA HA, estou morrendo de rir moleque — Se sobreviveu á aquela velha, vai descobrir pelo nome de meus futuros filhos como não fazer essa porcaria mascar a fita outra vez, certo?

— Sua mãe é uma pessoa legal — Ela precisava de ajuda com a TV e com o vido cassete só isso — Sentou a cama de Leonard e ficou vendo alguns quadrinhos espalhados pelo cobertor. Leonard não podia acreditar que Matthew se daria tão bem com sua mãe. Ficou surpreso e assustado ao mesmo tempo.

O que? — Que lavagem cerebral ela causou a você? — Muito estranho isso! — afirmou — Melhor eu averiguar isso depois — Tirou o colt do coldre e em seguida apontou para o alto.

Matthew por fim perguntou — Porque odeia tanto sua mãe? — Mesmo sentindo que tal pergunta poderia ruir com a amizade de ambos. Ele sabia de tudo o que passaram ante ao extermínio da terra natal deles. Foram um dos últimos Italianos vivos.

Leonard o olhou por alguns segundos, devolveu a arma ao coldre e sentou ao lado do amigo.

— Eu não a odeio — So quero que ela também saiba que aqui é seguro - Tanto quanto você precisa — Afirmou enquanto olhava para uma imagem de sua família em frente sua cama. Tinha irmãos, um pai e uma tia. Todos pegos pelos Outros.

— Ok chega! Anda logo, faz seu trabalho que faço o meu mais tarde — levou o garoto até o rádio e ficou o observando do lado

Em poucos minutos endireitou toda o rolo da fita, verificou o cassete, até por fim sair a primeira música de Eros Ramazzoti invadiu o quarto. Matthew fazia careta enquanto Leonard dançava e se embalava com a canção não se importando com as críticas e risadas. Abriu até mesmo as janelas e deixou que a música invadisse as ruas. Matthew lembrou dos tempos quando Laura deixava suas músicas favoritas quase na maior altitude o bastante para incomodar seus pais e vizinhos, mas esses ali na vila, a vista não pareciam se importar e pareciam curtir a música com ele. Por fim rendeu-se e também dançou com ele. Ficou na casa de Leonard mais tempo que pretendia.

Era quase 11 Horas da Manhã. Despediu-se do amigo e também de Rudolph. A poucos metros de casa, observou mais um pouco o quarteirão e as enormes arvores e eucaliptos que cobriam o bairro. Andou devagar para olhar a rotina dos residentes — A começar com a mulher de costas, de um longo cabelo preto quanto seu vestido, estendendo roupas e colchonetes molhados no varal com o sol pairando entre a vegetação e os céus já com poucas nuvens. Mais a frente e um pouco mais distante, em um campo aberto, um homem de pele escura, com roupas menos quentes, a não ser o gorro, ensinando seu filho a atirar, testando em garrafas de vidro. Por fim a direita, um grupo de garotos na mesma idade de Luke, também com roupas mais frescas, de diferentes cores, brincando com galhos espelhados pela continua queda das folhas de Outono. Cumprimentou os mais próximos de sua residência, alguns que limpavam as calçadas e outros que conversavam entre sí. Quando finalmente entrou em seu lar, Luke já se encontrava acordado na cozinha e fazendo a velha rotina da mexida e remexida da colher no copo de achocolatado. O pequeno olhou para Matthew com um pouco de espanto, pois além de não ve-lo se aproximar estava muito concentrado ao copo.

Onde tava maninho? -

Com o Leonard! — Já está escuro suficiente para beber? — Aproximou-se do irmão

Luke olhou mais uma vez para o copo -Acho que sim , Olha — Deu liberdade para o irmão para concluir.

OK, agora sim pode beber, mas devagar hein, se não vai perder todo o sabor do chocolate — aconselhou ao irmão

Enquanto Luke saboreava vagarosamente o liquido doce, Matheus passou as mãos em seu cabelo afastando os dos olhos. Ajeitou a toca do casaco de Urso branco, para proteger do frio que ainda invadia a casa, amarrou os cadarços da calça moletom e por fim espetou as orelhinhas do gorro, terminando com um sorriso.

— Acho que passou da nossa hora de darmos um jeito nesse ninho não acha? — Esfregou o próprio cabelo Math olhando para Luke

— Eu não quero.

— Não acha que está longo demais? — Fez uma especie de chifre na cabeça de Luke

O pequeno afastou a cabeça das mãos de Math e apertou o capuz de urso na cabeça - Eu gosto dele assim — Protestou batento quase com força o copo sobre a mesa -

— Ei relaxa!! Você quer ficar parecendo uma menina?

— E Daí? — Retrucou Luke

Matthew deu um beijo quase seco no rosto do pequeno, que em seguida limpou com a palma da mão fazendo cara de nojo. Pegou alguns biscoitos recheados no pote do armário na frente e dividiu um punhado para cada. Geralmente Matthew dava mais biscoitos para si do que para luke, mas este dia abriu um exceção. Também não estava com tanta fome devido ao último pedaço de bolo a horas atrás. Pegou uma xícara de cafe e um prato para não deixar os farelos caírem pelo chão, depois seguiram para a sala.

— Onde está a maninha?

— Ela está..trabalhando. Mais tarde vai estar em casa, está bem?

— Tá bem

— Ah e pode ser que nosso amigo vizinho fique com você essa noite, tudo bem? — O maninho vai sair por algumas horas, vai ser rapidinho.

— Ele vai trazer o Vídeo-Game?

— Não sei, talvez...Vou pedir para ele trazer tudo bem?

— Uhum — Concordou Luke com a boca cheia de biscoito.

Abriu o baú do meio da sala e entre os dois sofás, com inúmeros VHS e ficou ali por um tempo até achar o certo para assistirem. Matthew já estava enjoado de todos, cada um daqueles quase 30 filmes daquele Baú já foram vistos e revistos várias vezes, mais até que ele poderia contar. revirou as fitas e procurou o que menos fosse chato para ambos mesmo que fosse pela milésima vez.

— Hoje você quer dinossauros ou espada lazer — Perguntou para irmão apontando ambos as fitas "escolhidas"

Luke sentiu satisfação de poder sempre escolher seu filme favorito — Espada lazer — apontou

Tirou a toalha que cobria a mesa no meio e espanou um pouco da poeira da TV e do Videocassete. Fez o mesmo feito com Rudolph até enfim aparecer a imagem. Luke batia as palmas feliz.

Matthew tinha assistido a Star Wars tantas vezes que até podia falar cada fala dos personagens e até contar cada momento. Estava claramente enjoado do filme mas deixou que Luke se divertisse. O pequeno via sempre o filme como se fosse a primeira vez e vibrava com as lutas e as guerras espaciais. — Será que algum dia ele vai descobrir o porque ele tem esse nome — Pensou.

Ficaram ali por tanto tempo que nem viram a hora passar. Enquanto Luke quase colava a cara na tela da TV acompanhando seus heróis favoritos em ação, Matthew por vezes passava os olhos no relógio de parede da esquerda da sala e pensava em Lorayne. Passou os dedos entre as mãos nervoso e pensando o quanto seria útil ter um celular ou Walktack, trocaria fácil todos aqueles aparelhos por pelo menos um. Olhou para a porta e por fim voltava ao relógio. Só levantou para ir ao banheiro e finalmente preparar o almoço. Resolveu que aquele seria um bom dia para fazer uma sopa de legumes e para que Luke não recusasse comer, aproveitou o resto de carne seca e misturou ao ensopado com mais um pouco de Salsa. Para completar fez um suco de laranja com o resto da colheita de dias atrás.

Vem almoçar Padawan — Gritou Matthew da cozinha

A Principio Luke fez beiço para comida, na primeira colher de sopa colocado sua tigela, mas mudou de ideia assim que viu vários pedaços de carne flutuando em seu prato. O irmão fez o mesmo, mas comia aos poucos, pois não parava de pensar em Lorayne e por também acompanhar a Luke, caso esse se mostrasse "satisfeito" e preferisse o pote de biscoitos. Como não queria ter que zangar com luke, puxou assunto para falar dos filmes, e da noite anterior. Ficou ali até que Luke estivesse com a tigela finalmente limpa.

Por fim tirou da geladeira o suco na umidade correta e de acordo com luke, tirar o gosto ruim da boca. Como os residentes costumavam deixar as crianças brincarem no parque a poucos metros depois de sua rua, Matthew resolveu levar Luke. Quem sabe quando voltarmos ela já não estará em casa — Pensou. Trocou Luke com roupas um pouco mais frescas, pois tinha certeza que a diversão iria se cansa-lo e faze-lo suar. Aproveitou também para fazer o mesmo colocando uma blusa de maga longa vermelha — Uma de suas favoritas — e um short beje até os joelhos. Desta vez não encontrou motivos para pro o colete mas levou a Beretta.. Com todos preparados, finalmente seguiram para o parque. Trancou a porta duas vezes como Lorayne tinha ensinado e deixou a chave por baixo do vaso da samambaia na entrada. A medida que andavam pela rua, Luke pulava entre as folhas e galhos, algumas delas recolhidos pelos vizinhos espalhando várias delas. Ficou assim por alguns segundos até Matthew coloca-lo no colo para que parasse. Arrependeu-se de não estar com seu casaco pois mesmo com o sol estalando entre o Gueto, estava estranhamente frio, além de uma neblina cobrindo os morros em sua volta. Quando quase chegaram, podia se ver dezenas de crianças em escorregadores, gangorras, balanços, rolando pneus, andando de bicicleta entre muitas outras atividades fazendo Luke quase saltar do colo de Matthew.

— Ei calma rapazinho — Agarrou na cintura de Luke para que não caísse.

Quando enfim o soltou parecia um animal em cativeiro sendo liberto ao seu habitat natural. Correu primeiro para o balanço até por dar satisfeito e depois foi para o escorregador encontrar com as outras crianças.

Alto! — Gritou um dos meninos

Qual é a senha? — Afirmou uma das meninas —

Matthew ao invés de repreender as crianças preferiu observar a ação do irmão. Luke os ficou encarando com a cabeça baixa por um tempo até por fim tirar dois pedaços de biscoitos surrupiados do pote do armário e oferecer para os guardas do lugar. As crianças olharam para Luke como se fosse o novo grande dono do brinquedo. Boa malandrinho — Fez um sinal positivo para Luke com a cabeça. Luke e as crianças ficavam por horas subindo e descendo, até por fim chegar a tarde. Matthew pensou que não seria ainda a hora certa para voltar, temia que Lorayne ainda não estivesse e ficou por lá até o sol quase se por. Aproveitou que estava por lá e ficou no balanço. Ficou observando Luke quase sozinho já das incontáveis crianças de antes, mas ainda não se cansando do dia. Ficou o observando e balançando até que uma mão repousou em seu ombro pelas costas. O susto foi tão grande que Matthew sentiu seu coração quase sair pela boca.

Onde vocês estavam? Procurei por vocês por horas — Indagou Lorayne

Matthew imediatamente a abraçou aliviado mas com um pouco de revolta - Onde você estava? Ficamos esperando por horas — Porque demorou tanto? — Sabe de tudo que fiquei pensando sem saber nada de você?

Lorayne o abraçou para acalma-lo, seguido de Luke a surpreendendo por trás — Maninha —

Estávamos a procura de mantimentos para a vila — Tivemos que ir para o Bairro para termos o suficiente para esse outono — Desculpe se demorei tanto.

Após ambos entenderem a demora de Lorayne e a mesma contando sobre a rotina do Bairro, resolveram que agora seria a hora exata para casa. Estava quase escurecendo, e uma Lua se preparava para descampar por entre os céus. A emoção foi tanta que Matthew tinha esquecido das festividades do centro, e lembrou somente naquele momento.

Espera, vou chamar o Leonard para ir comigo no centro —

— Mas eu nem disse que você podia ir - Afirmou Lorayne

Matthew ficou alguns segundos paralisado sem entender — Certo, eu vou dizer para ele de que não precisa mais cuidar do Luke, para ele cuidar...de min, tudo bem? — Falou com exaltação

Laura podia acreditar que Matthew queria muito mesmo ir pro centro mas não tanto — Leonard cuidar de você? — Indagou com a mão a boca seguido de algumas risadas.

Matthew no entanto não achou nada engraçado, pensou por alguns segundos se o certo erar mesmo a irmã ter demorado para vir e ele ter tido tempo de estar no centro, mas logo reprendeu tal pensamento. Ficou tanto tempo aflito por Lorayne que não queria pensar naquilo novamente.

Posso ir no centro por favor? — Por fim falou encarando nos olhos a irmã

Lorayne passou uma mão na outra e devolveu o olhar -

— Vai estar aqui a que horas?

— As Dez. prometo!

— Antes do toque de recolher?

— Sim!

— Se ainda estiver na rua depois do toque posso te deixar do lado de fora?

— Pode — Eu vou estar com o Leonard lembra?

— Essa é a minha maior preocupação — Afirmou

— Pode deixar — Prometo que até antes das dez horas, assim que o festival acabar estarei em casa — Jurou com as mãos fazendo quase uma reza.

Lorayne olhou para o alto, soltou um suspiro, enquanto um comichão pegava e nervosismo pegava Matthew

— Certo pode ir. As dez, em ponto em casa — Se eu escutar o toque da sirene e você ainda estiver pelo centro, eu juro que vou deixar você trancado na rua — Entendeu? —

— Entendi!

Entendeu? — falou o mesmo Luke, fazendo Lorayne mais uma vez rir.

Tá ok, podem deixar, vai ser rápido. Juro - Falou olhando para os irmãos enquanto seguia para a casa de Leonard

— Pois é mocinho, parece que será somente você e eu hoje a noite — Segurou Luke no colo pela primeira vez naquele dia.

Luke apertou Lorayne forte, agarrando em seu pescoço e afastando o cabelo longo e castanho das orelhas. Ele gostava bem mais do colo da irmã, era um colo mais aconchegante e o fazia sentir-se bem mais seguro, como se fosse sua grande capa protetora. Por fim deu um beijo bem molhado em seu rosto. Lorayne entretanto deixou que fosse somente o abraço de Luke, que ficou pendurado em seu pescoço como uma preguiça e com os pés agarrados nos bolsos da frente de seu sobre tudo. Estranhou o gesto da irmã, que somente depois devolveu o abraço. Luke descansou o queixo por cima de seu ombro e sentia até que poderia dormir ali, porém o abraço de Lorayne foi o apertando, apertando até incomodar Luke. Lorayne agachou e não parava de aperta-lo como se o seu irmão fosse apenas uma almofada, para aperta-lo até quando pudesse. Começou a tremer, e estranhamente com falta de ar. Luke começou a se sacudir e contorcer no seu colo. Sentia tanta dor do abraço que parecia sentir suas costelas instalando. Não tendo outra escolha começou a dar socos nas costas da irmã até que ela o soltasse, mas ela não fazia.

— Maninha o que está fazendo? — Gritou até onde podia Luke

— Eles são horríveis Luke...Horríveis — Sussurrou em seu ouvido e não parando de aperta-lo

— Quem são horríveis? — Para! — Continuou sacudindo-se, se contorcendo e nada da irmã solta-lo — Aquele dia mudaria para sempre sua percepção sobre o colo de Lorayne

— Monstros.- demônios. — a cabeça deles Luke. — os longos braços — aqueles olhos — eles se disfarçam da gente — Apertando mais ainda Luke e sussurrando em seu ouvido. Luke não sabia do que ficava mais assustado, do abraço ou do que a irmã estava lhe contando. Nunca tinha ouvido falar dos Outros. Não sabia se dormiria aquela noite.

Luke tentava gritar e chorar, não havia ninguém na rua naquele momento. Alguns estavam já em suas casas, outros se preparando para ir ao centro. Tentou gritar mas sentia uma dor vinda do peito apertado e por fim Lorayne comprimir o rosto de Luke e apertando contra o peito.

Os outros luke..eu os vi...eu os víííií ..eu os víii — Falou até Luke morder com força o peito da irmã, até que finalmente o soltasse. Luke correu para se esconder em casa e por muito tempo ficar longe de Lorayne.

Lorayne sentou na calçada, com as mãos na cabeça, apertando forte o cabelo, como se quisesse arranca-los, e não conseguia tirar os horrores, o terror, e o pesadelo que foi se encontrar pela primeira vez com os "outros". Parecia nem perceber a dor da mordida ou o serio ferimento causado por Luke. Nem mesmo o sangue assumindo forma na sua blusa. Quando pro fim passou a mão no ferimento e viu a mão ensanguentada, Lorayne voltou. enfim veio a dor e tudo que Luke passou. Lorayne viu Matthew já quase saindo da porta da residência de Leonard, marcando com ele a hora exata para irem pro centro. Engoliu o choro e foi a frente do irmão para casa, ela precisava encontrar Luke antes de Matthew .

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.