Conúbio
1 Estranhos conhecidos

Daenerys Targaryen
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Ali estava ela. Os pés afundando naquele ponto fofo de areia amarelada, de costas para o infinito cinzento daquele oceano gelado. E, pensou: caso se movesse dois passos para a direita e empinasse um pouco o queixo, então para onde quer que olhasse, tanto quanto a vista fosse capaz de alcançar... tudo que veria seriam dragões. Suas formas representadas nos mais diversos tamanhos, esculpidas em rocha negra quase até a perfeição. Do alto, suas torres se projetavam, dragões prestes a levantar voo. Sombras ameaçadoras em contraste com o céu nublado, formando mais do que apenas detalhes na estrutura imponente da fortaleza vulcânica. Eles eram a própria estrutura.
Na face do vulcão, o Castelo de Pedra do Dragão fundado há 500 anos pelos Targaryen e construído por meio de técnicas Valirianas extinguidas desde A Perdição, era rodeado por muralhas de pedra negra. E, como deve ter sido desde o princípio, jazia imponente.
Diante dela, Daenerys sabia que se tencionasse deixar a orla, aqueles imensos portões formados por pequenos dragões, imediatamente se abririam, expondo o grupo restante de seus Imaculados que não haviam marchado para Rochedo Casterly. Sempre dispostos a servi-la, sempre em busca de ser úteis em alguma coisa. E Daenerys os amava. Amava aqueles filhos sem Mãe como se fossem parte dela. No entanto, aquela completa devoção por vezes, também a entristecia.
A vida na maioria das vezes, a entristecia. Mesmo agora que estava, finalmente, em casa.
Casa. Minha Casa.
Pretendia repetir aquelas duas palavrinhas curtas quantas vezes fosse necessário. Até que se tornassem verdadeiras. Até que o som delas, saindo de sua boca ao referir-se a si mesma, se transformasse também em algo conhecido.
Um estranho conhecido. Como tudo o mais ali parecia ser.
Supusera que sua chegada, sempre tão vivida em sua mente, fosse amenizar ao menos um pouco daquele sentimento de urgência que constantemente movimentava seus dias e tornava suas noites insones. Parecendo se tratar, na maior parte do tempo, de uma busca interminável por quem ela deveria ser. Em quem deveria se tornar. E sobre quais seriam os caminhos que a fariam chegar até lá.
Escolhas são como escadas. Repetiu a si mesma, mais uma vez. O problema é que nem sempre levam até onde realmente deseja-se estar.
E se de repente você preferisse ter permanecido no meio do caminho, estabelecendo-se por ali, sem precisar chegar ao topo?
Acontece que no caso de Daenerys Targaryen, esta escolha não lhe pertencia.
Nem nunca pertenceu.
Seu sobrenome, sua historia sangrenta, o próprio poder do seu sangue lhe transferia um peso que ela carregava desde que nasceu. E esse peso, era a única coisa familiar em toda a sua vida.
Eu sou Khaleesi. Esposa de Khal Drogo, Mãe do Príncipe que cavalgará o mundo.
Não mais. Nunca só isso.
E aquilo a atormentava. Doía como as beiradas latejantes de uma ferida. Pois, talvez, quisesse ser. Se tudo o mais não estivesse diferente agora. Se, os mortos, para a vida pudessem retornar.
Então, talvez, eu também tivesse... — considerou ela, recordando de todos aqueles que já se foram, antepassados e demais conquistadores, e das histórias que conhecia sobre eles. — Muito mais problemas agora. Problemas diferentes. — Concluiu, exibindo nos lábios a sombra de um sorriso indolente.
Vindo do alto, um súbito estrondo cortou o céu. Interrompendo seu fluxo melancólico de pensamentos e enviando vibrações que atravessaram até mesmo o solo, ressoando abaixo de seus pés..
— Drogon! Rhaegal! Viserion! — repreendeu ela, já sabendo do que se tratava antes mesmo de poder vislumbrar, através das nuvens pesadas, o contorno de suas formas aladas.
Seus Dragões cresciam.
Cresciam agora, com mais vigor do que nunca. E com eles, seu senso de aventura aumentava. Sua animosidade diante da ociosidade refletindo-se em forma de som, de atrito, rebeldia.
Acidentes estavam se tornando frequentes. Mas o que podia fazer? Ser a Mãe dos Dragões não lhe possibilitava a condição impossível de domestica-los. E nem queria. A natureza selvagem deles a fascinava. Naquele mundo de conflitos e dualidade, seus Dragões eram pilares, existindo exatamente como deviam ser. Em breve, sabia ela, estariam todos suficientemente ocupados para deixar de lado qualquer atrito consequente do enfado.
Foi neste instante que Danny notou a presença de Varys, avançando em sua direção com visível dificuldade. O eunuco segurava as vestes cor-de-pergaminho acima dos tornozelos, numa tentativa falha de evitar que esbarrassem na areia. Usava chinelos de couro marfim tão pequenos, que mesmo à metros de distancia, podiam evidenciar seus pés inchados se projetando por entre as tiras apertadas, num desagradável tom de purpura-rosado bastante semelhante a expressāo sofrida que trazia no rosto. Diante disso, A Mai reprimiu um sorriso, imaginando que portos cheios de areia podiam mesmo ser um empecilho, se tratando do Mestre dos Sussurros e suas tão costumeiras habilidades sorrateiras. Ele certamente, estava contado com algum grau de desvantagem ao pratica-las por aqui.
Por fim, desviando a atenção do arrastar continuo de seu conselheiro, Daenerys passou a encarar seus próprios pés descalços. Quando podia, gostava de mante-los assim. Sentir o contato poroso da areia fina por entre os dedos nus, a dinâmica geográfica que estava abaixo deles. Tais detalhes a faziam lembrar da infância. De tempos remotos em que, nas vezes que conseguia desenvencilhar-se de Viserys, costumava correr solta por entre vielas apinhadas de gente, sons, aromas e cores diferentes memorizando-os.. antes de tornar a deixá-los. Sentindo cada partezinha apressada de sí deliciada por aquele breve senso de liberdade. Mesmo que ilusória. Mesmo que consciente, de ter o irmão em seu encalço. E não apenas ele.
Desde aquela época, ainda que sob a proteção precária de Viserys, nada nunca fora suficiente para livra-los completamente da mira de perseguidores. Viver assim, sob a ameaça incessante de uma penca regular de inimigos, não somente os havia impossibilitado de criar raízes, como também impedira os últimos Targaryen de manter qualquer senso digno de existência. Sempre correndo de uma ponta à outra de cada lugar, Daenerys crescera precedendo partidas. Habituada a mudar. Correra e correra até que, finalmente, aqui chegara. O lugar onde era suposto que tudo isso terminaria.
— As criaturas, minha Rainha, parecem continuamente mais agitadas. — o tom amaciado de Varys se fez, trazendo-a de volta ao presente com um pequeno, porém potente, solavanco. — Receio que anseiem pelo momento em que estarão juntas no campo de batalha.
— Os Dragões — corrigiu Danny, falhando em não pestanejar ao contemplar sua face corada. — Estão se preparando para isso. Por que há de sentir qualquer receio neste sentido, Lorde Varys?
— Não é por mim mesmo que sustento receios, vossa Graça. Sabe disso.
Danny assentiu em silencio, distraída, enquanto seus olhos violetas esquadrinhavam a área externa do Castelo.
— Onde está Tyrion? — questionou.
— Nas masmorras, junto do irmão. — Informou-lhe o Eunuco, soando pesaroso ao desafundar novamente os pés da areia.
Como suposto. Refletiu Danny, reprimindo um novo suspiro.
Desde a batalha, quando as tropas Lannister foram quase completamente exterminadas eJaime o Regicida capturado como prisioneiro, que sua Mão parecia ter passado a experienciar certos.. conflitos interiores.
Em seu íntimo, Daenerys já previra aquele pequeno distúrbio. Soubera desde o principio, ao elege-lo como Mão, que as mesmas qualidades que o tornavam digno desta posição também poderiam, em determinado momento do futuro, resultar numa contradição. E o momento chegou. Por conta da sua origem. A mesma origem que fizera de Tyrion Lannister tão útil e fascinante, mas que agora o emergia em camadas sombrias de dualidade. Camadas semelhantes as que, no passado, quase foram responsáveis por consumir Danny também.
Por um mísero instante, algo lhe reluziu nas extremidades da visão. Uma memória vivída que ainda cintilava dourado e cheirava sutilmente a carne queimada. Fazendo Danny recordar, daquele riso cínico de Viserys que nunca mais ouviria.. e como passara a se sentir tão ilimitada, desde então.. apego fraternal ilusório. Um erro humano, e nem por isso menos ultrajante, do qual somente se é possível escapar com um pesado golpe de realidade.
Escolhas exigiam ser feitas. Pois, ainda que em contextos diferentes, se tratava de um preço de sangue que ela mesma já tivera que pagar.
E acreditava, sinceramente, que Tyrion faria o mesmo.
Notava nele, muito de si mesma. Ambos partilhavam do mesmo intenso desejo de fazer as coisas de uma maneira diferente, uma maneira melhor. Ela sentia que Tyrion a seguiria até os confins do mundo, caso isso significasse conquistar nele qualquer senso definitivo de mudança. Embora, também soubesse que o nível de devoção do Lannister estava diretamente ligado à extensão de seu poder como Rainha.
E o poder exige sacrifícios.
Disso, o passado a fizera aprender bastante bem, atando suas asas com firmeza a um senso duro e realista. Agora, seria a vez de Tyrion inteirar-se do custo exigido por certos princípios. Das consequências que costumam estar sempre entrelaçadas ao alcançar de grandes objetivos. Isso o faria forte. Ou acabaria com ele. Mais uma vez, escolhas exigiam ser feitas.
E Danny daria-lhe tempo para fazer isso.
Um tempo livre de recriminações, pois ainda confiava nele. Apenas não permitiria que um possível julgamento comprometido do homem que elegera como Mão, continuasse a afetar suas estratégias de guerra.
Guerra é guerra.
Também já aprendera isso. Da pior forma possível.
— E na ausência da Mão julguei necessário tratar sobre alguns assuntos de relativa importância. Perdoe-me, minha Rainha, se estou sendo inconveniente. — Caso prefira, podemos discuti-los mais tarde.
— De modo algum, Lord Varys. Diga-me logo o que fez se esforçar tanto para chegar até aqui, quase achei que a areia fosse leva-lo ao chão. — Danny lhe lançou um olhar risonho, que o Mestre dos Sussurros não retribuiu. — Eu valorizo esse tipo de tenacidade. Mas deve se lembrar de requisitar calçados novos ao próximo Mercador que atracar na ilha. Amputações decorrentes da falta de fluxo sanguíneo, não é um mal que meus conselheiros devem tolerar.
— Fico honrado por sua preocupação, Mãe dos Dragões. Embora tema que minha presença traga assuntos mais sérios e igualmente não tão agradáveis.- Varys alisou a lateral das vestes, aparentando nervosismo. — Seu Khalasar esteve outra vez saqueando. Foram as terras mais ao sul, desta vez. Meus passarinhos correm por Westeros, trazendo noticias de revolta e desordem por parte de Senhores e Septoes. Já nos aprofundamos sobre isso.. minha Rainha. Se busca encontrar lealdade e novas alianças, devemos moldar o modo como é vista. E ter uma horda de selv..
— Varys, saberia dizer qual é a dimensão desta fortaleza? O quanto dela é rocha, o quanto dela é sólo passível de fertilizar? — questionou Danny, interrompendo-o. Diante da negativa do Eunuco, prosseguiu — E até onde determina que se estende o meu domínio?
— É uma ilha de proporções limitadas, Vossa Graça. Mas, caso esteja referindo-se a dificuldade de estadia de seus homens, o conselho já abordou o tema e chegamos a conclusão de que a frota remanescente seria útil em abrig..
— Engana-se, outra vez. — ela lhe disse, numa voz suave. — O conselho vem se reunindo com frequência. E com frequência nossas reuniões tem sido feitas na Câmara da mesa pintada. Diga-me, conselheiro, o que vê lá?
O Mestre dos Sussuros hesitou, lhe dedicando um olhar demorado, enquanto um pequeno vinco oleoso se formava entre suas sobrancelhas franzidas.
— Receio não compreender a que ponto almeja chegar com isso, minha senhora. — admitiu ele.
Daenerys aprumou os ombros estreitos, levantando o queixo fino. Seus olhos violetas refletiam o cinza do oceano gelado atrás deles e naquele instante, mesmo descalça como estava e tão pequena quanto parecia parada em meio a toda aquela vastidão de água e rocha, nada poderia ofusca-la. A Targaryen reluzia em força.
— Destacando-se em grandes proporções sob a mesa principal da Câmara Varys, temos o mapa de Westeros, projetado pelo próprio Aegon, meu antepassado, durante a guerra da Conquista. O que sucedeu o feito de Aegon e suas Irmãs gerou, como bem sabe, a versão aprimorada da Westeros que temos hoje. Um continente organizado, ricamente construído em seus portos e capitais mesmo que atualmente infectado, pelas garras do Usurpador. Aegon poderia ter modificado essa terra, como bem quisesse e também as gerações de Targaryen que o sucederam. No entanto, a ordem foi mantida. E ao longo da nossa nossa dinastia, mantiveram-se as terras de cada um dos Senhores de cada Casa Ancestral, perpetuando-se a ordem e a justiça. Eras se passaram desde então, mas a réplica da Westeros que Aegon criou permanece intocada. Cada pedaço de terra, destinada a cada casa e clã. Vivendo, colhendo, o que lhe és de direito. Assim como eu. A herdeira da Casa que fundou tudo isto. E ai reside meu direito, Varys, é exatamente aqui onde pretendo chegar. — Danny respirou fundo, fitando o horizonte. — O meu domínio abrange Westeros. Toda ela. Todos os seus 7 reinos. Portanto, não se trata de saques. Mas de justa retomada. E a menos que dobrem seus joelhos a mim, eles cairão.
O Mestre dos Sussurros a encarou entre um misto de estupefação e ceticismo que repercutiu silenciosamente por vários segundos. Por fim, quando prontificou-se a falar, as papadas de seu pescoço robusto tremiam.
— Os ataques são planejados? Mas.. Mas.. minha Senhora?! Supus, assim como deixaste claro, que este era um tempo de aguardo, de resoluções acerca do nosso próximo passo.. Cersei restringiu-se aos limites de PortoReal, seus vassalos antes juramentados passaram a debater internamente sobre um novo reposicionamento.. assim como a venho informando, Minha Rainha.. Não há sentindo em enviar parte de seu exército em missão solo à novas terras, incitando a selvageria, o medo..
— Varys, não seja tolo, meus homens precisam comer. Essa fortaleza, por mais bela que seja, não nos fornece uma fonte infindável de alimento. Os grupos enviados não avançam mais do que o necessário, nem tem se prolongado por qualquer período considerável de tempo.
— São medidas duvidosas, Minha Senhora. Sobretudo, por terem sido decididas em sigilo. Ainda nos restam lotes alimentícios suficientes para saciar a todos durante ao menos, mais três ciclos lunares. Sacrificar o bem estar do pov..
— Não há ameaça para aqueles que colaborarem pacificamente. Varys. Exijo apenas uma entrega parcial de alimentos, não faz parte de meus anseios condenar meu próprio povo a fome. — disse-lhe, com escárnio. — Seu falecido Rei Usurpador costumava rotular esta pratica como imposto.
— Robert costumava cometer muitos erros e enganos, Majestade. Mas, jamais enviaria um bando de selvagens roubar o sustento da boca de simples aldeões.
Danny sentiu o sangue agitar-se em suas veias.
— Tem razão, Varys. O Usurpador jamais faria algo tão desprezível, seus conselheiros é que eram encarregados de fazer isso por ele. — Lord Varys virou o rosto, evitando seu olhar tão rapidamente como se tivesse sido estapeado. — Não estamos roubando. E de qualquer forma, não de onde se faça falta. São Senhores e Septoes, Varys! Atolados até o pescoço em ouro e corrupção. Todo o reino sabe. Esquecesse disso? Ou sua memória tem falhado até mesmo acerca dos sussurros de seus passarinhos?
— Minha memória permanece forte, minha senhora, assim como também fazem os passarinhos. Assim como o remorso que de tempos em tempos me abate.. e apenas ameniza-se quando relembro da sinceridade de minhas convicções. Tudo que já fiz, Mãe dos Dragões, sempre foi e sempre será, pelo bem do povo. E é por eles que, respeitosamente, devo insistir em debater sobre a instabilidade de suas ações recentes. Este é meu papel, como seu conselheiro, até que decida pelo contrário, Majestade.
Estrondo. Corpos se chocando por detrás das nuvens pesadas. Uma enorme asa negra fez-se ver, para em seguida desaparecer, tão breve quanto o tempo.
Ágeis e Poderosos
Seja como eles
A Mãe dos Dragões suspirou, exaurida de discussões. Em seguida, arqueou-lhe uma sobrancelha inquisitiva. Sua opinião sobre o mestre dos sussurros era parcialmente tão boa quanto ruim. E Varys sabia bem disso.
É verdade que ele havia sido a aranha que cercara também a outros reis. E, que diante de suas ruínas, em nada fora afetado. No entanto, nele, Daenerys também conseguia notar o vislumbre de certos princípios que considerava essenciais. Princípios que envolviam unicamente, a sincera preocupação que o Eunuco parecia nutrir em relação ao povo. E que também o tornavam necessário em suas pretensões de um Reino justo e pacifico.
Contudo, o que Danny menos desejava naquele momento era mais uma série de discussões, flagelos cotidianos que nunca pareciam ter fim. Ali, na areia de sua Casa ancestral, gostaria apenas de se permitir, um segundo que fosse, apenas existir. Sem nada nem ninguém, além disso.
Parecia impossível. Por fim, após um suspiro resoluto, assentiu.
— Se me permite dizer, minha Rainha, com apenas um dragão a maior parte dos exércitos Lannister e Tarly foi exterminada. Dois grandes exércitos. Aqueles campos nunca mais serão os mesmos e nem as historias que contarão...
— O mundo ficou tempo demais sem contemplar o verdadeiro fogo de um dragão, Varys. Chegou o momento de começarem a escrever novas histórias. — Interrompeu-o, sem mais paciência para represarias.
— De fogo e sangue, minha senhora?
— Se preciso for, sim.
Foi a vez de Varys suspirar. Unindo as mãos por debaixo das mangas largas e longas, num costume que Daenerys percebera ser típico dele.
— Não eram arados de plantação, se é isso que o incomoda. O plantio dos camponeses não foi afetado, e nem pretendo que um dia seja. — continuou ela, diante de sua oposição critica.
— O povo já conheceu muito sofrimento, minha Rainha. — insistiu em objetar o eunuco, com seus olhos castanhos de um tom conhaque, muito sérios. — Muito sangue por todo Westeros, já foi derramado. Toda a colheita presente nas carroças foi queimada durante a batalha. Ao invés de tê-las tido queimado, poderia as ter enviado para a ilha, Majestade, se pretendia então seguir esse novo conceito de retomada selvagem pelo qual optou, ainda que sem mencionar tais planos ao seu conselho. Preocupa-me seu senso impulsivo, Minha Senhora. A existência dos Conselheiros é exclusivamente reservada a aconselha-la. Penso que juntos, poderíamos encontrar formas melhores de evitar futuros danos...
— Ao longo dos Últimos anos Varys, participaste da queda de quantos exércitos enquanto servia aos Lannister? Quantos homens, famílias e Casas inteiras... Quantas vezes já consentiu com danos maiores e mais terríveis do que esses, aos quais se refere? — questionou ela, falhando ao tentar conter a irritação que fervilhava ao aproximar-se dele.
— Mas minh..
— Não preciso que me diga; eu já sei. Estamos numa guerra Lorde Varys. E por tentar evitar os efeitos colaterais de uma guerra, seguindo a opinião de meus conselheiros, é que perdi dois exércitos aliados e praticamente todas as vidas pertencentes a eles. Tal erro não se repetirá! Talvez, as consequências de opor-se a um Targaryen tenham caido no esquecimento de alguns. Farei questão de relembrar a cada um deles! Meus Dragões lutarão. E Dragões queimam, Lord Varys. Fazendo arder em pirar seus opositores. — Daenerys sorriu, mas não sem frieza. — E eu tratarei meus inimigos da mesma forma inclemente com que costumam agir. Essa parece ser uma moeda de troca que eles entendem, e valorizam mais do que o ouro.
— Por favor, minha Rainha, rogo-lhe que não me entenda mal. O único Lannister por quem nutro qualquer amizade, hoje a serve como Mão..
— Isto é irrelevante. — sentenciara, numa voz que soava como um chicote. — Nem mesmo Tyrion ousaria constestar minhas decisões, estando despido de iniciativas realmente consistentes para ampara-las. Esse é o trabalho do conselho, Varys, caso anos de inépcia o tenham feito esquecer.
Dando às costas ao Eunuco, Daenerys deixou a praia. Um espaço de observação e devaneios, refazendo seus passos na areia. Mexas tão louras que eram de um tom platinado de branco haviam desprendido de sua trança apertada. Os fios agora dançavam soltos em torno de seu rosto, agitados pelo vento frio que vinha do norte.
Como ele ousava censura-la? Como ousava indicar que.. Danny suspirou mais uma vez. Estava cansada. Isso não tornava as coisas mais fáceis. Desde que desembarcara, cada decisão que tomara parecia gerar o dobro de criticas, o dobro de dúvidas que a condenavam a viver sob uma sombra espessa e persistente de atritos e desconfianças suficientes para enfurecer até o mais terno dos seres. Essa terra, parecia contaminar as pessoas. Dissimulando o mais nobre dos objetivos. Endurecendo as pessoas como os blocos de gelo ao norte.
Adapte-se ao frio. Aconselhou-se, obstinada. Assemelhe-se a ele, aos costumes desta terra dura, desta gente gelada. Ou aqui, nada conquistara.
Contudo, quando já estava próxima o suficiente da formação de rochas vulcânicas que cederiam lugar aos portões da Fortaleza, virou-se novamente para Varys. Por um segundo contemplou sua face triste, o olhar distante que parecia tão incerto como ela por vezes, se sentia. Permitiu-se então refletir, sobre como seria uma vida em que debates como aquele não fossem necessários todo santo dia. Uma vida na qual, as palavras seriam livres de peso. E pequenas escolhas, despojadas do poder de mudar destinos inteiros. Em seguida, percebeu que não. Aquilo, ainda era uma impossibilidade. Pois em parte alguma de Westeros, existia uma vida assim.
Uma vida de Paz.
O reino estava doente. Pessoas morriam precocemente pelos mais diferentes motivos. Embora jamais deixassem de lutar, sem paz, sem descanso, sem nunca estarem enfim, livres daquela existência de dor e miséria. Simplesmente..
Livres
E era por isso, que Danny estava ali. E por isso, faria o que fosse necessário.
— Lord Varys, valorizo sua presença aqui. — disse-lhe Danny, sabendo que sua voz seria levada até ele pelo vento. — Peço apenas que tente se lembrar do nosso verdadeiro propósito. E ele não será conquistado facilmente, nada até aqui foi. Eu sou um dragão, e agirei como tal.
— Minha Rainha — respondeu ele, após se curvar com um insólito sorriso a repuxar-lhe os lábios finos — Disso, eu jamais poderia esquecer.
E foi então que ela o sentiu antes que pudesse vê-lo. Como acontecia entre eles, desde o princípio.
A conexão era espontânea. Infindável.
Sua forma gigantesca pousou atrás dela e, com as palavras de Olenna Tyrell na cabeça, Daenerys montou em seu Dragão segurando com firmeza nos espinhos grossos de Drogo.
Ela mal pareceu perceber o quanto aquilo, montar em seu dragão, assumir sua posição, havia se tornado natural. Quase instintivo. E, enquanto Drogo os impulsionava para cima e aos poucos ganhavam altitude, seus outros dois filhos se juntaram a eles.
Eis algo que aquele mesmo horizonte havia passado eras sem prestigiar.
Então, eles voaram. E enquanto voavam, faziam historia.
''Nas grandes batalhas da vida, o primeiro passo para a vitória é o desejo de vencer.'' Mahatma Gandhi
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