Conúbio

6 A Filha da Tormenta


Notas iniciais
Leitores! ♥ Som do cap: https://www.youtube.com/watch?v=tUE5AOceuNs

Jon Snow
○○○

— Neste ritmo meu Rei, estaremos em breve retornando para o Norte! – Exclamou Sor Davos, sorrindo com aprovação.

Fazia um dia frio. Não aos padrões gélidos com que Jon estava acostumado mas, ainda assim, frio.
Absorto em pensamentos, ele observava o trabalho repetitivo dos homens que entravam e saiam da caverna de Obsidiana carregando nos braços fartas pilhas do minério para, em seguida, deposita-las no interior cada vez mais cheio das carroças que lotavam o terreno de frente a entrada da gruta.

— Não parece tão satisfeito como imaginei que ficaria, Jon. – constatou o Cavaleiro das Cebolas, após alguns minutos de um silêncio pesado.

Franzindo o cenho, o Nortenho apertou por entre os dedos calejados as folhas trazidas pelo corvo que, naquela mesma manhã, fora enviado a ele da Cidadela de VilaVelha. E com um ultimo suspiro resignado, tipico de quem não se sente muito confortável em expressar suas próprias ruminaçoes interiores, disse:

— Estou pensando Sor Davos que, apesar de tremendamente úteis, as descobertas de Sam sobre o Vidro Dragão não nos livram de outro problema maior. É bastante improvável que, a esta altura, encontremos algum armeiro disposto a desembarcar em Pedra do Dragão á encargo de nos prestar seus serviços. E se não dispomos de um armeiro...
— Não dispomos, também, de quem possa forjar as laminas. – Concluiu Sor Davos, encontrando o cerne da questão.
— Exato. – confirmou Jon, de modo soturno

A Westeros de antigamente era uma terra povoada por ferreiros e armeiros de renome, cujas mãos hábeis, sempre estavam preparadas para receber numerosas encomendas. No entanto, a Westeros de hoje, se tornara um continente devastado por sucessivas guerras, onde, os poucos homens capazes de fazer uma boa forja ou haviam migrado para terras estrangeiras no ímpeto de proteger suas famílias ou, se tornado acréscimos ao número sangrento de corpos deixados nos campos de batalha.
Era realmente inacreditável que ante tantos obstáculos pudesse um dilema tão absurdo, a carência de um par de mãos capazes, atrapalhar seus planos. Justamente agora que estavam tão próximos do fim.

É mais do que inacreditável Pensava ele com armagor É inaceitável.

— Partiremos então, apenas com o cru do minério. E chegando em Winterfell, encarregaremos o armeiro de lá com a forja. – sugeriu Davos, mansamente, ja bastante consciente do atual estado de espírito do companheiro.

— Winterfel no momento dispõe somente do Ferreiro dos Mormont. E o mesmo já deve ter muito trabalho a fazer Sor Davos, visto que é encarregado das encomendas de todo o Norte. — explicou Jon, ríspido em frustaçao.
— Ora, basta incumbi-lo de tornar prioridade a produção das espadas de Vidro de Dragão, meu Rei.
— Delegar ao homem mais este grande encargo, acabaria por sobrecarrega-lo. E em consequência disso, teríamos o prazo de entrega das espadas estendido por meses. — Meses demais — E não temos todo esse tempo, Sor. Simplesmente não temos.

Foi a vez do Cavaleiro das Cebolas suspirar, a expressão grave, os olhos brilhando de forma concentrada enquanto revirava seu cérebro astucioso em busca de alguma solução.

— Se o problema é a ausência de alguem capaz de efetuar a forja conforme o método que instruem os livros, então Majestade, talvez eu saiba de um homem que possa fazê-lo.
— Pelos Deuses, Davos Seaworth, por que não disse antes? – Indagou o Nortenho, tomado pelo alivio.
— Pois ao convoca-lo meu Rei, estaremos em vias de entrar no cerne de outra dificuldade. – Davos respirou fundo – O jovem em questão, encontra-se atualmente em Porto Real.
— De quem se trata, Sor?
— Gendry. Bastardo de Robert. Bom rapaz, um ferreiro muito talentoso.
Jon arqueou as sobrancelhas em espanto.
— Bem, se há a possibilidade de que ele aceite vir até Pedra do Dragão, chame-o o quanto antes.
— Certamente, meu Rei. Entretanto, não seria prudente enviar um corvo a ele. Acredito que as sentinelas de Cersei possam estar rastreando as mensagens que chegam na capital. O jovem também compartilha de certos.. atritos com os Lannister. Caso exposto, corre o risco de perder a vida.
— Entendo. – disse Jon, absorto. — Neste caso, parece que temos alguns assuntos a tratar com a Rainha.

Subitamente, o Nortenho virou-se e seguiu com passadas duras em direção a entrada do castelo, a capa lhe farfalhando as costas, o maxilar retesado em obstinação.

— Jon, espere! – chamou Sor Davos, perplexo, enquanto apressava-se para acompanha-lo — Meu Rei, não deve estar realmente cogitando partir para a capital? Jon! É uma sentença de morte.

O Nortenho parou de frente as gárgulas da entrada, aguardando que Davos o alcançasse.

— Precisamos buscar o ferreiro. — observou, sem ressalvas.
— Sim, mas deve haver uma maneira mais sensat..
— Não há. A grande guerra se aproxima, Sor Davos. Então é necessário que façamos isso o mais breve possível. Não temos tempo a perder.

Diante da genuinidade daquelas palavras e da urgência com que foram ditas, Sor Davos pareceu não ter mais nada a pronunciar. Ambos seguiram pela imensa escadaria de pedra, diminuindo o passo conforme se aproximavam do topo.
Jon ergueu os olhos para o céu que permanecia pesado e cinzento, vislumbrando uma sutil movimentação ao leste. Uma macha escura. Drogon. Que daquela distancia não parecia maior do que uma ave de rapina, voando em círculos no alto.

Daenerys esta na ilha Constatou, já bastante consciente do suave frenesi que se iniciara nun ponto entre o seu estomago e abdômen, ao prosseguir rumo ao castelo.

Ao longo da última semana, raramente encontrara a Mãe dos Dragões em momentos mais substanciais do que meros vislumbres a distância.
Daenerys passava os dias quase constantemente ocupada, e enquanto Jon trabalhava nas minas, ela podia ser vista pelos céus de Pedra do Dragão aplicando aos seus três Dragões o que chamava de ''treinamento’’. Geralmente, treinavam sobre o oceano, no entanto, nas vezes em que se aproximavam o suficiente da gruta sob o vulcão, os quatro se tornavam uma distração muitíssimo fascinante, tanto para os seus homens quanto para os dela.
Jon Snow não sabia exatamente o que pensar disso. Na verdade, se tratando de Daenerys, não achava sensato pensar em coisa alguma. Contudo, nas vezes em que, irrefreavelmente o fazia, não conseguia ter olhos para mais nada que não fosse a mulher destemida e determinada que saltava e mudava de um dragão para o outro, gritando de forma tao indômita quanto o próprio vento.

Quando alcançaram o final da escadaria, a poucos metros de onde os Dothraki montavam guarda, Jon desembainhou Garralonga. Nada de armas perante à Rainha. E mesmo um tanto relutante em entrega-la, pois considerava sua espada uma extensão do próprio braço, o Rei do Norte ali se sujeitava a fazê-lo. Assim era a lei.
Ao adentrarem no interior lúgubre da fortaleza, Varys veio recebe-los.

— Rei do Norte – saudou-o com uma mensura exagerada.
— Solicito uma reunião com a Rainha. – Declarou Jon, sem rodeios.

Detestava aquele homem cuja presença indiferente testemunhara a execução de seu Pai. O tempo de convivência que tiveram, nas vezes em que Jon não pudera evitar, servira apenas para lhe confirmar o que posteriormente já supunha saber. Podia percebe-lo agora, sua forma pálida e roliça, superficialmente inofensiva, e ver Varys pelo que realmente era; um carniceiro, sempre ao redor de um novo líder, do poder de quem pudesse se beneficiar.
Jon Snow buscava se manter além de julgamentos, além de toda aquela insanidade sobre tronos. Entretanto, já vivera o suficiente para ser capaz de distinguir a diferença entre Homens e homens, e o problema daquele eunuco, residia em não ser nenhum deles.

— Comunicarei a Rainha. – Enunciou a Aranha, deixando a câmara com uma última curvatura.

Jon e Sor Davos se entreolharam.

— Acredita mesmo que seja uma boa ideia, meu Rei? – Questionou o Cavaleiro das Cebolas, com a sombra de um sorriso indeciso transparecendo na face.
— É necessário. — repetiu, mais ansioso do que admitiria estar.

Então eles adentraram na câmara de teto abobadado.



Na sala do trono da Fortaleza de Pedra do Dragão, o Rei do Norte retribuía com tenacidade o olhar impetuoso da Targaryen.
Era inegável e, talvez, até mesmo impressionante, como sua postura mudava, como tudo nela mudava, quando cercada da corte.
Naquele pôr do sol, Jon, irrefutavelmente, sentira que ela o vira e que também se permitira ser vista, da mesma maneira.Abaixo das superfícies, mesmo que brevemente.
E em seu amago, acreditava que houvera certo tipo de.. entendimento entre os dois.
No entanto, ali estava ela.
Arrogante. Imponente. Inalcançável.
Erguendo-se acima dele no trono, de forma austera e absurdamente exasperante. Exatamente como estava quando a conhecera da primeira vez.

— Permita-me repetir suas intenções, pois não estou certa de que as entendi muito bem. – A voz da Rainha ecoou na sala do trono, vibrante de cinismo — Espera que eu os autorize a deixar a ilha, e consinta que sigam diretamente para as mãos da maior inimiga de que disponho em todo os sete reinos? Você perdeu a cabeça, Jon Snow?

— Com todo respeito, vossa Graça, mas eu não preciso da sua autorização. Considero que após todas essas semanas de permanência na ilha, tenha tornado-se bastante claro que não pretendo fazer oposição ao seu reinado. Sendo assim, do mesmo modo que confiei em você para estar aqui, peço que confie em mim, quando digo que vou retornar.

Jon encarou a Mãe dos Dragões com intensidade.
Confie em mim
Estavam há cerca de uma hora debatendo sobre o plano, os detalhes do plano, a urgência do plano, a necessidade do plano, as motivações do plano... E Jon sentia que estava prestes a mandar tudo para os sete infernos e retornar sozinho para o Norte, que era o seu lugar.
Daenerys, além de se mostrar irredutível, parecia ver o que eles precisavam fazer através de um revoltante filtro de suspeita. Como se, de alguma forma, pudessem estar planejando trai-la a favor de Cersei o que, definitivamente, era um dos maiores absurdos que Jon já estivera certo de imaginar. Sequer existia tempo para traições. O Inverno havia chegado.

— Se é de um Ferreiro que necessitam – disse ela, após alguns minutos de uma análise fria – Basta que escolham uma região de Essos e ordenarei que tragam um ferreiro até vocês. Talvez, o melhor ferreiro.

Controladora e Prepotente. Jon Snow sentiu seu sangue esquentar. Daenerys estreitou os olhos para ele.

— Majestade – começou a dizer, num tom que considerava firme e equilibrado – Simplesmente não há motivo para tamanho exagero. Insist..

— Eu vou.

A voz determinada, apesar de tremula de Theon Greyjoy, fez todos se virarem para o príncipe das Ilhas de Ferro.
Com um misto de pena e desgosto enchendo-lhe o peito, Jon encarou a sombra do homem que um dia considerara quase um irmão.

— Eu vou. – repetiu ele. – Devo aos Stark mais do que posso expressar.. se houver algo que eu possa fazer para ajudar, para.. para tentar me redimir..

Sor Davos ao seu lado, trocou o peso dos pés de maneira desconfortável, e então interrompeu Theon.

— Neste caso, seria melhor que eu fosse sozinho. Pois um homem que se sente em dívida não age sob a cautela.

Daenerys levantou-se do trono. Jon encarou Theon até que o mesmo abaixasse a cabeça. Seu momento ira chegar, infanticida. Ira chegar.

— Está decidido. – Pronunciou ela com vigor — Sor Davos tem minha permissão para sair de Pedra do Dragão e retornar com o ferreiro.

Em seguida, e com um último olhar de vulupia e desafio em sua direção, Daenerys os dispensou da reunião deixando a sala do trono antes que o Nortenho pudesse ter a chance de contestá-la.

Jon Snow suspirou em frustração.

○ ○ ○

Já no lado de fora da fortaleza, Jon remoía os acontecimentos anteriores, sentindo-se consternado por tanto diálogo e quase nenhum avanço.

— Lamento dizer meu Rei, mas, de fato, não é apto para essa missão. Sua aparência é inconfundível mesmo á metros de distância, quase um reflexo do seu Pai, a antiga Mão. Qualquer pessoa seria capaz de reconhece-lo, e na iminência de algo vir a dar errado, eu não poderia ajudá-lo. Sou uma completa negação com espadas.

Jon assentiu com um grunhido, seu semblante fechado numa carranca. Sor Davos lançou-lhe um olhar zombeteiro.

— O Rei do Norte é mais necessário aqui, do que se arriscando em linhas inimigas. Afinal, creio que estará em boas mãos. – e riu asperamente, diante do constrangimento de Nortenho. — Ah, Jon, como pôde imaginar que ela o deixaria escapar tão facilmente?
— Não preciso da aprovação dela.
— Precisa, sim. Se deseja mesmo retornar para o Norte armado de Obsidiana.

Jon Snow dirigiu a ele um olhar fulminante, ao qual o homem se limitou a retribuir com um dar de ombros bem humorado.
Enquanto retornavam para as minas de Vidro de Dragão, seus pensamentos, mesmo que contra sua vontade, giravam em torno de Targaryen.
Via-se agora obrigado a reconhecer que, não mais, partilhavam somente de uma relação diplomática. De algum modo, as coisas haviam transposto esse limite e evoluído para algo além de seus planos. E os seus planos, definitivamente, não incluíam a possibilidade de ter qualquer envolvimento maior com quem quer que fosse.
E que fosse Daenerys Targaryen a Filha da Tormenta, tornava tudo ainda mais complicado.
Ela gostava de força-lo a ceder. Ele gostava de vê-la tentar.
Jon Snow respirou fundo.
Maior do que qualquer outra coisa, no entanto, era a percepção de que o mal estava à espreita. Não podia deixar-se desfocar do seu propósito central. Do motivo pelo qual estava ali. Não tinha tempo a perder.
E principalmente, Jon sabia como o amor podia doer.
Cabelos vermelhos como o fogo e um sorriso tão afiado quanto uma adaga, dançaram diante de seus olhos. Amor. Dor. Luto.
Por que Diabos arriscaria-se a passar por tal infortúnio novamente?
A vida sempre fora dura com ele. Não tinha a pretensão de acreditar que, em meio a aqueles tempos difíceis, uma possível paixão de verão tornaria as coisas diferentes.
Obrigou-se a afastar Daenerys da mente, enquanto seguia para junto de seus homens na gruta.
Aquele era o seu dever, ali estava sua honra. Pois no final das contas, como tivera que da morte retornar para perceber, nada mais havia lhe restado.
Tinha trabalho a fazer.

''No começo só havia o vazio,
Transbordando com infinitas possibilidades
Das quais, uma delas, era você.'' William Aentz

Notas finais
Quem gostou, se gostou, por favor, comente. Comentarios estimulam não apenas a vontade de continuar postando, como também a criatividade do autor.