“Criatura patética, desprovida de orgulho e dignidade. Sua existência efêmera é uma benção muito superior a seus méritos. Uma barata teria direito a mais.” Kalidian como sempre não aliviava.

“ Esse sujeito carece de uma amplitude de seus horizontes, sua mente está se fechando a um conceito tão pequeno quanto o buraco de uma agulha e tão forte quanto um bebê.” Ouvir Celestiel concordando era raro o que significava que o caso do homem era sério.

Eu o observava atentamente: ombros caídos, olhos fitando o chão e punhos cerrados. Sinceramente não queria estar aqui, mas agora não há mais volta.

“ Não.” Disse Kalidian confirmando.

“ Compromissos são a base dos vínculos humanos por uma boa razão, Viktor.” — completou Celestiel.

Respirou fundo e olhei para o homem sentado a minha frente. Seu estado emocional era tão evidente que quase podia ver uma aura de cor escura o circundar como uma névoa medonha. Estávamos sentados em cadeiras de plástico de propaganda nos fundos de um bar pequeno com aquele característico cheiro de cerveja velha e urina. Como ainda era dia estava fechado, o dono era um conhecido meu que me permitia usar esse espaço por que... bem... algumas coisas aconteceram e ele acredita que me deve.

— Então Kaio — engoli seco — você foi abandonado por sua namorada.

Kalidian soltou uma risada sarcástica enquanto Celestiel balançou a cabeça na negativa. As mãos dele cerraram mais em punho.

— Ela me traiu — disse ele em um tom baixo carregado de ódio e tristeza — um amigo me mandou um vídeo de uma festa onde ela estava com outro cara. Quando discutimos sobre isso e eu mostrei o vídeo dizendo que mentiu para mim dizendo que estava em casa... ela... ela... jogou na minha cara que eu era um corno de merda que não prestava para nada e era minha culpa ela buscar outros caras.

Olhei a fisionomia de Kaio. Um homem de 32 anos com aspecto que podemos considerar “rechonchudo” ele estaria no que chamamos de sobrepeso, era um homem trabalhador, vigia noturno de uma empresa e nos fins de semana fazia bico de segurança. Muito tímido que sempre teve problemas para se relacionar. Sua fraqueza mental era refletida em seu comportamento, sua postura e falta de disciplina. Não quero arriscar dizer que ele teve problemas de afeto quando criança ou sofreu com bullying por que seria raso demais. Se eu fosse fazer uma síntese diria que a mente do homem é uma massa de modelar a qual tomou uma forma amórfica baseada num conceito “agradar todo mundo”. Como é impossível e os conflitos surgem Kaio desmorona.

“ Ele me dá nojo” disse Kalidian “a mulher merece uma recompensa no céu por conseguir trepar com essa coisa feia.”

“ Como sempre usando esse vocabulário chulo e desnecessário. Poderia guardar suas opiniões para você? Isso é trabalho.” Repreendeu Celestiel.

As ignorei e respirei fundo.

— Kaio, você não está triste por que ela te traiu ou por que disse coisas desagradáveis. Nesse momento sua ex namorada não está aqui então sua atual tristeza é um reflexo de sua memória. Um estado de loucura que o prende a memórias. Você está perfeitamente bem.

Ele ergue a cabeça me olhando de maneira confusa.

— Seu ódio e tristeza é uma memória de uma ilusão. Você não amava sua mulher, você amava um conceito de segurança e prazer que ela personificava em sua cabeça. Escuta, na maioria das vezes nós vivemos no mundo real e no mundo fictício. É mundo de miragens onde formulamos conceitos, ideias e rótulos e os impregnamos em coisas e pessoas do mundo real. Contudo, como o nome diz são miragens. A realidade logo as dissipa e é de onde surge o que chamamos de tristeza ou raiva. Esses sentimentos nascem da quebra da ilusão que fizemos em nossa cabeça.

Kaio balançou a cabeça na negativa.

— Não é ilusão! Ela disse que me amava!

Kalidian riu com vigor e Celestiel suspirou em desânimo pela atitude do vigia.

— Palavras são ilusões, Kaio. Palavras são um meio de comunicação que usamos para interagir uns com os outros em sociedade e elas não tem peso factual. Um homem falar que pagará uma dívida não gera um fato e sim uma promessa, uma promessa é um termo frágil que somente existe no futuro. Uma esperança, um termo mental. Você não foi pago, ganhou apenas palavras de que seria pago. E quando a promessa é quebrada? O que realmente foi quebrado, Kaio?

Ele vacilou em sua tristeza.

— Para vivermos em sociedade e mantermos uma organização em larga escala, confiança seria um dos pilares. Promessas futuras, palavras que nos ligam a eventos futuros. Mesmos as palavras que falam sobre o passado são ilusões. Se hoje alguém escrevesse um livro sobre coisas inventadas usando um contexto físico real e daqui a cem mil anos esse texto fosse encontrado e traduzido sem qualquer outra base de comparação de nossa civilização, as pessoas do presente acreditarão em parte do que está escrito ainda que seja inventado.

— Então o quê?! — sua raiva estava aumentando — não devemos acreditar em nada do que as pessoas nos digam!? Nem em promessas de amor que são mais sérias do que uma dívida de dinheiro!?

“Eca, um romancista de coração meloso” disse Kalidian.

“ Ele está absorto demais em suas próprias emoções para ver com clareza” completou Celestiel.

— Devemos acreditar no que nos digam sim — falei — é vital para vivermos em sociedade. Mas devemos crer somente enquanto mantemos a cabeça no mundo real. Sua ex namorada te fazer juras de amor é realmente mais importante do que ela mostrar isso por ações?

Sua raiva cedeu de novo e seus olhos arregalaram-se.

— Ela, no começo eu suponho, agiu e falou coisas que te fizerem se sentir bem. Ela AGIA da maneira que você queria e gostava, onde no mundo imaginário do Kaio era exatamente aquilo que você mais queria. E você, sem perceber, trocou sua percepção do mundo real pelo mundo imaginário. De repente sua ex namorada não era uma mulher de verdade que tem sentimentos controversos como todos nós, uma mulher que tem dias ruins e que se deixa levar pelo fator sexual como a maioria dos seres humanos. Outro sujeito a atraiu fisicamente, a agradou e ela cedeu por que ceder é uma possibilidade real no mundo físico. No mundo imaginário do Kaio não.

— O que está dizendo!? Que eu estar nessa fossa é culpa minha e não daquela desgraçada ser uma puta mentirosa!? — ele gritou levantando da cadeira. Kaio deveria ter 1,90 e pesar pelo menos 150 kg. Numa briga eu seria espancado.

Por isso odeio esse trabalho.

— Onde estamos?

— Hã?

Era um recurso que eu sempre usava quando a pessoa com quem conversava usava também este encontro para remodelar seu mundo imaginário. Kaio esperava que eu o fosse ajudar de alguma forma, e rotulou essa “ajuda” como algo que o vá confortar. Todos nós para quase tudo criamos versões mescladas de dois fatores: como as coisas são vs como queríamos que fossem.

— Onde estamos nesse exato momento Kaio?

— Que tipo de pergunta é essa?

— Uma pergunta que quebra seu mundo fictício. Uma das duas perguntas que você sempre deve fazer quando seu mundo imaginário o tragar para um redemoinho de emoções negativas. Então responda, por mais simples que seja, onde estamos?

— Num boteco imundo.

Cruel. João, o dono, sempre o mantém limpo o melhor que pode. Mas realmente fede o lugar.

— Exato. Num boteco. Como estar sozinho comigo conversando num boteco numa tarde de sol como essa pode deixa-lo com raiva ou triste?

— Eu estou bravo por que aquela mald-

— Ela não está aqui agora Kaio. É apenas uma memória de um evento que quebrou sua ilusão de um romance fiel. Quem está te deixando triste? Quem está sendo responsável nesse exato momento por seu sofrimento?

Ele arregalou os olhos. A névoa densa roxa que o circundava se dissipou e escutei algo como o som de um vidro se quebrando.

“ Finalmente essa forma de vida inferior despertou.” Disse Kalidian.

“ É satisfatório quando os humanos finalmente tomam o poder de suas decisões e de suas condições.” Disse Celestiel.

Kaio tombou na cadeira de plástico que quase dobrou suas pernas pelo impacto. Ele levou as mãos à cabeça. Respirei fundo, por um momento achei mesmo que ia levar um soco.

— O mundo imaginário existe de maneira sutil, muito sutil, ele invade nossa percepção e cria a ilusão em que acreditamos que o mundo real deve se curvar ao que julgamos certo e errado. Em que cenários e pessoas devem se subjugar ao que consideramos honrado e justo. Não é assim que o mundo real funciona, qualquer um com um pouco de atenção verá que que são raros os momentos em que as situações agem de acordo com nossas vontades. Para destruir o fictício basta termos noção de sua existência. O mundo é o que é. As pessoas são o que são com suas infinitas possibilidades de serem sórdidas e benevolentes.

Kaio começou a chorar e eu olhei para Kalidian e Celestiel.

“ Acabou né?”

Ambas acenaram com a cabeça.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.