Paguei o funcionário do caixa e peguei os sorvetes de casquinha. Um de chocolate para mim e um misto para Lacan. Fez um gesto de agradecimento ao receber o sorvete, colocando-o na boca imediatamente. Continuamos andando pelo shopping, observando famílias disfuncionais com suas crias birrentas, vestindo as melhores roupas para observar artigos que não podiam comprar.

- O shopping é um lugar estranho – Disse Lacan.

- Acho que é um belo zoológico. Às vezes tenho vontade de passar o dia inteiro aqui só para ver o que posso encontrar. Outras vezes tenho medo de ficar aqui.

- Me parecem opiniões válidas. Do que quer conversar hoje?

Pensei um pouco.

- Klein.

Passamos na frente de uma loja de brinquedos, aonde um garoto olhava para um enorme urso de pelúcia.

- Melanie Klein pode ser denominada a principal representante da segunda geração de psicanalistas – Disse Lacan entre lambidas. – Ela deu grandes contribuições à psicanálise, principalmente no que se refere à análise de crianças. Ela estudou-as em sua mais tenra idade, procurando entender suas fantasias, medos e angustias. Para analisar crianças, Klein utilizou de brincadeiras lúdicas para acessar o inconsciente delas, já que a associação livre é ineficaz por motivos óbvios.

- Psicodrama também usa muito disso.

- Oh, eles adoram isso. É uma ótima técnica projetiva – Uma breve pausa. — Uma grande diferença entre ela e Freud é que, para Klein, a sexualidade não é crucial, e sim a agressividade. É algo que se repete em toda a sua teoria. Além disso, para Freud a fantasia vem da não-realização de um desejo, da frustração. Já para Klein, a fantasia se demonstra presente mesmo em momentos em que não há frustração. É um fenômeno que ela observou na clínica, em que crianças fantasiavam em momentos que não se sentiam frustradas. Essa é importância da fantasia na sua teoria.

- Ou seja, para ela a neutralidade é inacessível.

- Exato. A fantasia estaria tudo, e mesmo que jurássemos que não, que não temos nenhuma fantasia na consciência, Klein diria que ela também existe no plano inconsciente, ditando nosso funcionamento nas mais diversas formas, desde quando éramos crianças.

- É isso que ela percebeu durante as brincadeiras infantis?

- Exatamente.

Passamos por uma loja de eletrônicas. Havia um pequeno círculo de pessoas ao redor de uma televisão enorme, com a imagem mais nítida do que a realidade.

- A maior contribuição de Klein se diz respeito ao édipo precoce – Continuou. — Ela percebeu nas brincadeiras infantis ansiedade e traços edípicos que deveriam surgir apenas anos mais tarde, segundo Freud. Esse é o principal ponto de divergência dos dois. Além disso, ela também criou o conceito de posições, que procuram explicar o funcionamento psíquico de crianças na fase oral e anal.

Lacan começou a morder a casquinha.

- A primeira posição é chamada de esquizoparanóide, e ocorre até os 6 meses de idade, aproximadamente. Lembre-se que as idades são apenas uma referência teórica, e que não devem ser seguidas à risca.

“O essencial desta posição é a ideia de que o bebê vê os objetos como parciais, sem reconhece-los em sua totalidade.

- A parte “esquizo” do nome provém desta constatação, não?

- Exato! – Ele deu outra mordida na casca, sujando as bordas da boca de sorvete. – Não é algo tão difícil de imaginar que aconteça, considerando que o bebê mal consegue enxergar depois que nasce e que o mundo é algo completamente novo para ele. Saber que existem coisas “inteiras” e aonde elas começam e aonde elas terminam é algo que só será desenvolvido mais tarde.

- E a parte paranoide?

- É a parte mais divertida – Sorriu. – Imagine assim: Uma coisinha que não enxerga, que não entende o mundo como ele se apresenta para ele e que qualquer forma de privação pode significar morte. Imagine agora algo que o alimente, que o dê calor e que satisfaça todas as suas necessidades.

- O seio bom.

- Sim, é assim que chamamos esse objeto que o bebê vê como parcial, não integrado à mãe. Agora, se este mesmo seio não o alimentar, não o satisfazer, ou seja, o frustrar, ele o considerará como sendo o seio mau.

Pensei por um momento.

- É algo inevitável, não é? Não é possível satisfazer totalmente... Qualquer coisa.

- É o que se é esperado. É o que caracteriza o humano. E é saudável que assim ocorra – Ele deu com os ombros. – Excessos de satisfações podem ser tão prejudiciais quanto a falta delas. Não vai querer encontrar alguém que não costuma se frustrar. Ah, não, espero que não.

Continuamos caminhando.

- A ideia da posição esquizoparanóide é essa dicotomia: O bom e o mau separados, nunca juntos. A criança introjeta o que lhe é bom, proveniente do seio bom. Isso pode ser visto quando, muitas vezes, a criança começa a chupar o próprio dedo, fantasiando que está com o seio bom. E projeta o que é mau de dentro dela, de sua própria pulsão de morte, no seio mau, no seio que frustra. Ela se vingará deste seio sempre que possível; tentará destruí-lo, arranhando, mordendo, lançando ataques de fezes na mãe, tendo as mais incríveis fantasias em relação a ele... Pois teme que o seio mau a perseguirá e a destruirá.

- A parte paranoide do nome – Constatei.

Lacan confirmou com a cabeça.

- É estranho pensar que um bebê que não consegue... Bem, nada sozinho, que não reconhece o mundo, possa pensar em coisas tão... Complexas, se posso dizer assim.

- A resposta está nas suas próprias dúvidas, caro companheiro. Pois veja: se o bebê não tem condições para lidar com a realidade objetiva, ele o fará através da realidade subjetiva. Ela lida com o mundo através de suas fantasias, que são terríveis nesta época.

“Klein foi muito sagaz em notar isso. Ela percebeu a existência de um ego muito primitivo, capaz de elaborar mecanismos de defesa para suportar a realidade, e que também é dividido... Esquizo. É um ego fragmentado que tende à integração, possuidor de mecanismos tais como a divisão, projeção, introjeção, negação e idealização.

- Por que fantasias terríveis?

- Porque o bebê possui um superego poderosíssimo, formado antes mesmo do ego primitivo. Não é um superego formado pela realidade, veja bem. É um superego formado por fantasias psicóticas e persecutórias, por isso tanto medo, por isso tanta ansiedade, por isso o nome paranóide.

- Bebês são assustadores.

- Muito – Ele mastigou o último pedaço de seu sorvete. Eu estava na metade do meu. – Mas entendeu o que quis dizer?

- Sim, acho que sim. Bebês vivem a realidade através da fantasia, que chegam a níveis psicóticos. Superego poderosíssimo, já que o bebê não tem noção da realidade. Um ego primitivo e esquizo, fragmentado, e que tende a se integrar, repleto de mecanismos de defesas. Édipo precoce, a necessidade de introjetar as coisas boas do seio bom, e a necessidade de projetar, expulsar as coisas más dentro de si no seio mau e tentar destruí-lo, pois teme que este seio mau tentará destruí-lo. Esqueci alguma coisa?

- Acho que não.

- Ótimo. E a segunda posição?

- A posição depressiva.

- Céus... Klein parecia ser uma mulher muito amargurada. Tudo nela é meio... Violento.

- Em alguns sentidos, sim – Admitiu. – Ela vivenciou várias perdas ao longo da sua vida, e sua teoria reflete isso de alguma forma. Mas tudo o que ela defendeu faz sentido, ainda assim.

Concordei enquanto tomava meu sorvete.

- A posição depressiva ocorreria entre os 6 meses até os 2 anos e meio de idade. Novamente, as idades são estimativas teóricas. Nesta posição, com o desenvolvimento cognitivo da criança e um “costume” maior com a realidade, o poder das fantasias diminui. Seu superego torna-se menos ameaçador, menos poderoso. É quando ocorre a integração do ego; a criança percebe que o seio que ela tanto amou e aquele no qual ela tanto tentou destruir e tanto temer são a mesma coisa. Assim sendo, ela fantasia que tenha destruído o seio bom durante seus ataques ao seio mau.

- Que violento.

- A posição é caracterizada principalmente pela culpa, por isso o nome de depressiva. A criança sente-se culpada pelo o que tentou fazer, e procura a reparação.

- Muita coisa nas posições parecem “reais” no mundo adulto. Já notou isso?

- Sim. Marcas esquizos são as mais comuns: direita e esquerda, bem e o mal, o feio e o belo. O mundo visto como extremos, sem a integração das extremidades. É bem interessante.

- Existem marcas infantis? No sentido de traumas.

- Sim. É muito comum ocorrer durante a amamentação. Às vezes, quando a mãe grita devido a algum ferimento no seio e o bebê se assustada, chega a ser comum que ele se recuse a tomar o leite. É um momento de descontinuidade. Isto se deve ao medo de estar introjetando o seio mau para si, por isso a rejeição. Também é comum as crianças fantasiarem com monstros que vão devorá-la, numa situação claramente persecutória. Já vi relatos de crianças que fantasiavam com lobos enormes que a devorariam caso fossem deixadas sozinhas.

Não pude deixar de sorrir.

Lacan suspirou.

- Klein gostaria muito de te conhecer – Comentou.

- Às vezes gosto de penso que sim. Até a próxima vez?

- Sim. Até.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.