Conversível
2 Capítulo 2
Encarava o notebook que estava a minha frente como se as respostas fossem surgir em sua tela. Após dirigirmos sem rumo por um bom tempo, finalmente paramos em um motel de beira da estrada. Jack foi pegar algumas coisas no carro e me deixou encarregada de começar a pesquisar para que assim pudéssemos traçar um plano.
O único problema é que eu não sabia por onde começar, mas exatamente no momento em que me senti mais inútil, Jack entrou pela porta e deixou duas mochilas em cima da mesa que eu estava usando.
—Conseguiu alguma coisa? — Perguntou ele, tirando a jaqueta e jogando-a em um lugar qualquer.
—Nada. Não sei nem por onde começar— admiti derrotada.
—Então vejo que vamos ter que fazer isso junto, o que não será tão ruim assim— disse piscando com um olho.
Não conseguia saber se ele agia dessa forma apenas comigo ou se era apenas o jeito dele, mas toda aquela pretensão começava a formigar dentro de mim. Era como uma vontade de provocá-lo para ver até onde a situação nos levaria. Mas eu não podia fazer isso.
—Tenho que te dar uma coisa antes— ele tirou de uma das mochilas um grande envelope e, de dentro deste, tirou dois menores, me entregando um deles— Novos documentos, acho que você deve entender o porquê.
—Sim, mas Amber Barryman? — perguntei ao analisar os documentos que estavam no envelope que ele me entregou— Eu não pareço ter 21 anos, alguém vai perceber que é falso.
—Claro que não, eles são perfeitos— disse novamente fazendo aquela cara de quem estava ofendido, espremendo seus belos olhos— e eu fiz o favor de colocar 21. Pelo menos assim a gente pode sair para beber nos Estados Unidos.
—E porque vamos para lá?
—Mais difícil nos acharem lá do que nessa ilha, não é mesmo?
—Provavelmente.
—E outra coisa— ele me jogou a outra mochila— Minha irmã esqueceu no meu carro, então pode usar, vai ver que tem alguma coisa aí dentro que seja útil.
—OK, mas acho que agora temos coisas mais importantes para fazer.
—Sim, mas se você quiser a gente pode continuar a não fazer nada mais um pouco, ou até mesmo fazer alguma coisa mais divertida— olhou para mim com malícia.
—Melhor acabarmos com isso logo.
—Você é quem manda.
Ele pegou uma cadeira e sentou-se ao meu lado, seu cheiro era muito bom e o aroma me lembrava de algo. Naquele momento eu senti cada vez mais suscetível a parar tudo e ir fazer algo mais divertido, mas não podia. Jack puxou uma impressora portátil de dentro da mochila e conectou ao notebook, e assim que fez isso começamos a nos encarar, tentando saber por onde começar.
—Acho que temos que procurar alguma ligação entre nós, que não seja apenas nossos pais— falou me olhando nos olhos.
—Então temos que começar por uma lista de tudo o que temos em comum e reduzir a busca só por aqueles que demonstram interesse no que temos.
—Exato. Mas como creio que eles têm acesso apenas ao que o governo diz, então vou pegar nossas fichas e filtrar a busca apenas para os pontos em comum.
—Certo.
Com rapidez ele conseguiu nos localizar nos arquivos e começou a fazer a busca. Não demorou muito para que tivéssemos os resultados, até porque não tínhamos tantas coisas em comum.
—Então vamos começar por aqui— Jack se levantou com as folhas impressas de nossos perfis e prendeu com alfinetes de marcação em uma parede. Ele parou para grifar o que tínhamos em comum e encarou a parede de modo confuso. Sua expressão séria me desconcentrou por alguns segundos, mas logo me recompus.
—Além do emprego dos nossos pais, as únicas coisas que temos em comum é um grupo de escotismo e o tipo sanguíneo— falei.
—Talvez estejam atrás de nós por causa de biscoitos de escoteiro.
—Claro que não. E não é biscoito, é bolacha.
—Na embalagem está escrito biscoito, então é biscoito. E isso era só uma brincadeira. Por acaso você não tem senso de humor?
—Eu tenho senso de humor— disse fingindo estar ofendida.
—Ainda bem, porque se você não tivesse seria realmente broxante.
—Mas então, voltando ao que interessa— eu ri— Acho que deva ser pelo nosso sangue.
—Deve ser, a pesquisa foi muito precisa. Mas é extremamente bizarro alguém estar atrás de nós por sangue.
—Não há nenhum grupo, sei lá, perigoso ou coisa parecida que goste de roubar sangue ou algo do gênero?
—Sim, existem grupos terroristas no Oriente Médio que fazem experimentos com sangue, então essa é uma hipótese.
—Então o que fazemos agora?
—Começamos a pesquisar para valer, ou protegemos todo o estoque de O- do mundo.
—Então vamos pesquisar.
...
—Argh! Eu não aguento mais isso... — disse jogando-me na cama.
—Mas a gente precisa saber quem está atrás de nós para que consigamos pensar em algo para fazer.
—Eu sei disso, mas essa história está ficando cada vez mais surreal.
Consegui escutar o suspiro de Jack do outro lado do quarto. Ele parecia abatido e cansado, mas alguma coisa dentro de mim dizia que tudo aquilo era muito suspeito para ser verdade (por mais que ele tivesse as credenciais). Ficamos nos encarando por um tempo apenas buscando respostas nos olhos um do outro, ou até quem sabe, para descansarmos de tanta pesquisa.
Havia muito para ser descoberto sobre ele, e eu estava mais curiosa a cada segundo. Era provável que também houvesse coisas a serem descobertas sobre mim, mas deveriam ser, naturalmente, menos interessante que as histórias de Jack.
Estávamos divagando de maneira incomum quando um celular começou a tocar e Jack desligou, acabando com nosso “descanso”. Ele me olhou parecendo que tinha levado um choque e gostado e disse:
—Temos que ir, não podemos ficar mais de seis horas em um lugar. E a propósito, deixe seu celular e suas coisas aqui antes de sairmos. Pegue as coisas da minha irmã, use um dos celulares descartáveis e queime seus documentos na saída. — ele pegou uma das mochilas e abriu a porta—Vou estar te esperando na loja de conveniência lá em baixo.
Quando Jack saiu eu tentei me arrumar o mais depressa possível. Abri minha bolsa e tirei de lá meus documentos, sem pensar duas vezes, joguei-os na lata de lixo e acendi um dos fósforos que estavam na mesa de cabeceira. Arremessei-o na lata e vi os papéis queimarem.
Não tinha pensado duas vezes por que sabia que se o fizesse, não teria coragem de queimar tudo, o que era praticamente o mesmo de apagar quem eu sou. Não podendo me dar o luxo de entristecer, abri mochila da irmã de Jack e vesti algumas roupas. Não pude me livrar dos coturnos que usava, pois não tinha outro sapato para usar.
Recolhi algumas coisas de dentro da minha bolsa e joguei dentro da mochila, poderia precisar delas em algum momento, e assim que terminei de arrumar o resto das coisas que Jack havia bagunçado, saí do quarto para encontra-lo.
...
Quando o vi, ele estava escorado no balcão prestando atenção no telejornal. Atenção que se voltou para mim quando percebeu que eu já estava pronta.
—Bem melhor assim— disse terminando de tomar um refrigerante— Quer alguma coisa antes de ir, Amber?
—Não quero nada, obrigada... Qual seu nome mesmo?
—Caleb. E não se esqueça dos detalhes, OK?
—OK— Disse assentindo com a cabeça.
Quando viramos para sair dali, quatro homens entraram na loja de conveniência. Jack me puxou pelo braço, de maneira que ficamos atrás de uma estante próxima a porta. Entendi o motivo quando os homens sacaram armas e começaram e um deles começou a falar.
—Algum de vocês viu um casal, Amelia e Jack? Estamos procurando eles e, seria bem mais agradável se vocês fossem prestativos.
Quando escutei aquelas palavras eu não tinha mais dúvidas de que eu estava sendo perseguida e, eu precisava dar um jeito na situação.
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