Conversível
1 Capítulo 1
O sol entrou por uma fresta da cortina e despertou-me de meu cochilo. Alguém em minha frente deveria tê-la puxado para dormir melhor e acabou me obrigando a prestar atenção em uma aula relativamente longa sobre Jane Austen. Ajeitei-me na cadeira não esperando que algo pudesse acontecer, então acho melhor explicar agora quem sou eu.
Sou Amelia Bolton, tenho 16 anos, estudo em um colégio de elite em Bristol e moro sozinha. Digo sozinha porque meus pais nunca estão em casa e tenho que viver por conta própria. Essa parte normal, clichê e tediosa da minha vida deveria ser citada antes de dizer que meus pais têm um emprego peculiar.
Os dois trabalham para o governo e não sei ao certo seus cargos, mas os maiores segredos da coroa são confiados a eles. Não pense que isso é legal, porque traz responsabilidades até mesmo para mim, então, durante toda a minha existência eu fui instruída para situações improváveis como a que vou contar.
Depois que acordei e voltei a prestar atenção na aula de literatura, não demorou muito para que me chamassem na porta. Um rapaz alto e muito bonito surgiu e disse com voz clara e audível:
—Com licença, Tanner. Preciso falar com Amelia Bolton.
A professora acenou com a cabeça, me liberando da aula. Levantei-me tentando não mostrar a felicidade que sentia de sair dali; arrumei a saia discretamente e segui para o corredor, fechando a porta atrás de mim.
O jovem me esperava escorado nos armários e assim pude analisá-lo melhor. Ele era fisicamente perfeito; era forte e tinha um rosto esculpido que me lembrava as descrições dos personagens de livros do século XVIII. Seus olhos acinzentados pareciam ter surgido de uma tarde chuvosa, e os cabelos castanhos estavam um pouco mais comprido do que os que eu costumava ver na escola; e foi aí que eu vi a falha na história.
—Amelia, o diretor quer falar com você e me pediu para te buscar. Me siga por favor.
—Porque eu deveria?
Ele, que já tinha começado a andar, parou e olhou para mim como quem perguntava se eu tinha algum problema mental.
—O diretor está te chamando, por isso...
—Quem é você? — o interrompi e cruzei os braços.
—Sou monitor e estou fazendo meu trabalho— ele foi até mim e me segurou pelo pulso— Agora, venha comigo!
—Você não é monitor— desvencilhei-me de seu aperto— Olha seu cabelo.
—O que tem meu cabelo? — disse intrigado, como se eu tivesse o ofendido.
—É comprido demais, de acordo com o regulamento da escola. — ele me olhou curioso e eu prossegui— Tanner pode não ter percebido, mas eu sim.
—E você diz que alguém não trabalha aqui pelo corte de cabelo?
—Sim— disse procurando outro argumento para utilizar— E digo também pelo seu bronzeado. A Riverview não contrata ninguém no meio do ano letivo, então mesmo que você estivesse tomando sol em outro lugar, não teria como você vir parar aqui. E é impossível se bronzear em Bristol nessa época do ano.
—Só isso? — riu.
Percebi que aquilo não levaria em lugar algum, e se ele quisesse realmente falar comigo acharia uma maneira menos patética de fazer isso. Era quase hora da saída, então voltei na sala, peguei meus materiais e disse que tinha sido liberada mais cedo. Quando voltei, ele ainda estava lá, então resolvi dizer algumas palavras para encerrar a conversa.
—O diretor nunca contrataria você— comecei a andar rumo a saída— Você é o tipo de cara que deixaria muitas meninas daqui desorientadas.
Continuei andando achando que ele não argumentaria com isso, mas estava errada:
—Está dizendo que eu sou bonito? — disse divertido.
—Estou dando mais um motivo para provar que você está mentindo.
...
Andava pela rua procurando algum lugar para comer. Aquele rapaz da escola tinha me deixado intrigada, e por mais que quisesse me forçar a não querer vê-lo mais, eu ansiava que ele me procurasse mais uma vez. Segui pela larga avenida andando despreocupada quando meu temor, ou desejo, se realizou. Ele passava em um conversível azul claro que imediatamente me fez querer rir, mas me contive e entrei na primeira lanchonete que vi para ver se era coincidência ou não ele estar ali.
Entrei na fila e pedi o máximo de comida que conseguiria comer e logo em seguida sentei em uma cabine perto da janela. A medida que comia, ficava cada vez mais relaxada e praticamente esqueci do ocorrido quando comecei a mexer no celular. Quando menos esperava, alguém sentou à minha frente na cabine.
—Você está certa, não sou monitor— o rapaz estava usando roupas normais desta vez e comeu uma de minhas batatas de modo a me seduzir— Sou muito bonito para isso.
—Vocês californianos se acham demais— relaxei no assento.
—E vocês britânicos não? Esse sotaque de vocês é puro exibicionismo.
—O que você quer? — perguntei ríspida.
—Te ajudar e ser ajudado.
—Com o que?
—Preciso tirar você daqui primeiro, eu te explico o que é no caminho.
—Eu não vou me mover enquanto você não me explicar exatamente o que está acontecendo.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, apenas nos encarando. Eu fitava aqueles intensos olhos cinzas enquanto ele tentava desvendar meus olhos castanhos, até que chegou em um ponto em que ele não conseguiu manter a quietude.
—Por onde eu começo? — ele suspirou e espreguiçou— Bom, eu costumava trabalhar com meu pai, e ele trabalha com seus pais. Há um ano atrás eu decidi sair de lá e voltar para a Califórnia, que foi o lugar onde cresci, e viver por mim mesmo. Mas um dia meu velho me ligou e disse que eu estava em perigo e precisava te alertar, ele só não me disse o porquê. A princípio eu também não acreditei, mas quando ele me entregou o necessário para te convencer eu também me convenci.
—E o que foi que ele te deu? —perguntei ainda achando que ele não conseguiria me convencer, pois existia apenas um objeto que meus pais usavam para confirmar a identidade de alguém ou a autenticidade de algo, e aquele rapaz ainda não tinha mostrado possuí-lo.
—Ele me deu isso—disse tirando do bolso uma corrente de ouro com um pingente vermelho que eu conhecia muito bem. Ele estava dizendo a verdade— Seus pais também já tinham me contado sobre a corrente, por isso também soube que a coisa era séria.
—Porque não me mostrou isso logo? —perguntei pegando a corrente e colocando-a em meu pescoço.
—Precisava saber se você era esperta como dizem. Parabéns, você passou no teste— disse fazendo piada e roubando mais de minha comida— Agora que você já sabe e entende tudo, temos que sair daqui.
—Então vamos— disse me levantando e deixando que ele me guiasse para seu carro, sem saber para onde iria.
...
Tínhamos acabado de sair da cidade e eu ainda absorvia os fatos. Eu estava bem, vivendo tediosamente quando aparece um californiano bonito e alto dizendo que eu estou em perigo e que devo ir com ele. O pior é que tudo isso aconteceu em menos de duas horas. Meus pais sempre me alertaram que eu poderia correr perigo algum dia, mas nunca pensei que seria assim.
—Outra coisa— disse ele quebrando o gelo e me acordando do devaneio— Meu nome é Jack, muito prazer.
—O prazer é meu— me virei para ele— Eu até me apresentaria, mas sinto que você já fez alguma pesquisa sobre mim.
—Verdade, eu fiz minha pesquisa direitinho.
—Então me conte sobre você, já que você sabe sobre mim. Se vou ter que fugir com alguém devo pelo menos saber a cor favorita da pessoa.
—OK— ele riu com seus dentes muito brancos— Sou Jack Colton Brown, sou daqui de Bristol, mas morei a vida inteira em São Francisco. Tenho 25 anos, gosto de rock e punk rock, trabalho como modelo desde que parei de trabalhar com meu pai, minha comida predileta é sushi e eu sou de escorpião.
—Você é modelo? — arqueei as sobrancelhas.
—Sim. E minha cor favorita é laranja.
—Obrigada por me contar sobre você. Mas me conta, o que você fazia quando trabalhava com meus pais?
—Eu passei a vida inteira aprendendo artes marciais e auto defesa, assim como você. Então um dia me ofereceram essa oportunidade irrecusável e eu trabalhei como mestre de armas e combate até o ano passo.
—Então pelo menos um de nós sabe usar uma arma que não seja uma faca ou um canivete.
—Sim— Ele pareceu sério por um instante mas depois voltou a falar animado. E você, qual é sua cor favorita e outras coisas que o sistema não fala?
—Gosto de cinza, bolo de frutas, sou de sagitário e vou para a escola sem precisar muito.
—Fiquei sabendo que te deixaram terminar o ensino médio ano passado por causa das suas notas e você não quis. É verdade?
—Sim, e acho que não tem um dia que eu não me arrependa disso.
—Você fica tão entediada assim na escola?
—Você não imagina o quanto.
Continuamos rumo ao nada e não pensamos em parar até o anoitecer. Nós dois concordamos que era melhor andar um pouco antes de parar em alguma cidade pequena para pesquisar, traçar um plano e dormir.
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