Controle
1 A vida passou diante de meus olhos.
Notas iniciais
É sempre assim. Você imagina que não vai ser um daqueles que fica viciado, que abre mão de qualquer coisa por aquele pequeno prazer momentâneo. Todos pensam que são diferentes.
Eu tinha quatorze anos, tinha uma namorada, daquelas de Ensino Fundamental, nada sério, mas ficávamos juntos. Talvez ela fosse minha namorada apenas para dizer às amigas que tinha um namorado, a maioria apenas imaginava como era ficar com alguém, no começo da Nona série pelo menos, era assim. Nunca descobri se ela realmente gostava de mim, mas me lembro de como ela tinha um cabelo arrumado e como ela olhava de lado para as pessoas, de um jeito gentil e meigo, não sei quais as melhores palavras para explicar, mas isso não vem ao caso. Naquele ano, um grupo de reprovados veio para meu colégio, como se uma escola com objetivos pedagógicos relacionados tanto a intelectualidade quanto ao ser humano na sociedade(ou seja, tentavam fazer o trabalho que os pais não conseguiam). Eram mais velhos, pareciam ser mais bacanas, sempre agindo como superiores, pelo menos era assim que eu os via no começo, mas então, eles começaram a me chamar para sair com eles, soa imaturo, eu sei, mas realmente fiquei louco para ir. Me sentir parte de um grupo mais rebelde, queria pelo menos ter uma experiência como aquela. Fiz amizade com os caras.
"A gente vai fumar." lembro-me de um deles, o mais alto, avisando "Se não curte, não vai."
No começo, é claro que eu não queria, sabia que era errado, quem na minha idade já não teria pelo menos alguma noção básica daquilo? Nas primeiras vezes, inventava alguma desculpa, daquelas bem velhas como "Minha mãe quer que eu vá na festa de um primo chato" ou "Tenho médico, desculpa.". Eu ficava sozinho em casa, entediado, por sinal, a namorada costumava sair com as amigas, e eu nunca cogitei bancar o namorado que ficava pedindo atenção vinte e quatro horas, talvez se eu fosse um desses eu não estaria onde estou agora.
Durante três meses, resisti a todas as possibilidades de acabar em uma dessas rodas de fumo, mas cheguei a um ponto do tédio em que qualquer tipo de socialização passou a me agradar.
A primeira tragada que dei foi horrível, senti vontade de chorar, sabia que era errado, sabia que não devia estar fazendo aquilo, mas minha necessidade de "amigos" parecia ser maior naquele momento. Eu odiava estar naquele lugar, mas ao mesmo tempo, me aliviava não estar sozinho. Fingia não sentir nada, isso me ajudou a me livrar de muitas coisas mais tarde, o cheiro e os olhos vermelhos foram escondidos por um banho e uma escovada de dente(multiplicada quatro vezes e elevada ao quadrado, foi bem difícil parar de cheirar mal, isso sem falar da água sanitária que gastei com as roupas) e uma desculpa esfarrapada de ter passado muito tempo jogando videogame. Conseguia esconder com facilidade de meus pais o que eu andava fazendo, eles nunca paravam em casa. Hoje, acho que só entrei nisso por atenção.
Quando chegamos na metade do ano, comecei a pegar gosto por aquilo, eu pensava que poderia parar, pensava que tinha total controle sobre mim mesmo. Não tinha.
Numa noite, minha namorada estava em minha casa, estávamos no meu quarto, conversando sobre um assunto qualquer, ela estava tensa, parecia estar preocupada, como se tivesse algo importante e difícil de se explicar. Notei aquilo no momento em que ela apertou os punhos em seu colo. "Seus pais não notam porque não estão por perto, mas eu sei que você está fumando, não me meto com esse tipo de coisa, se você quiser continuar comigo, ou para, ou terminamos aqui." ela foi direta naquele momento. Fiquei olhando fixamente para a gaveta onde escondia a maconha, ficava junto às meias, num saquinho bem fechado, não conseguia parar de olhar, ela telefonou para o pai ir buscá-la e me disse que eu teria o tempo de ida de seu pai até minha casa para decidir.
Naquela noite, fumei mais do que nunca.
Naquela noite, realmente gostei de fumar.
Perdi minha namorada.
Tudo por um pequeno prazer.
Um prazer do qual eu perdi o controle.
No ano seguinte, eu já estava indo para o crack, uma outra garota apareceu em minha vida, não para ser uma namorada, eu não queria mais aquele tipo de coisa, mas alguém com quem eu desabafava, alguém para confiar, alguém para dizer que eu já não era a mesma pessoa de antes. Ela me ouvia, mas não me dizia o que fazer. Ela me fazia tentar ver o que eu estava fazendo comigo mesmo.. Acabei afastando ela. Aquela garota odiava o que eu fazia, mas me perdoava, era como se eu fosse a Fera e ela a Bela, mas eu precisava de um tipo diferente de amor, um amor onde eu teria de permitir que alguém me abrisse o coração.
Aquela garota morreu num acidente de carro no mesmo dia em que me disse que chorava toda noite por saber o que eu estava fazendo comigo mesmo. Não foi culpa de ninguém o acidente. Apenas aconteceu. Ela apenas morreu.
Então eu fumei.
Então eu bebi.
Então meus pais descobriram o que eu andava fazendo.
Então eu fugi.
Fui para bem longe.
Onde ninguém era alguém.
Onde eu me perdi completamente.
Apesar de tudo isso, eu ainda achava que poderia para quando eu quisesse.
O caminho que decidi seguir foi relembrado em minha mente nesse exato instante. Hoje, acho que tenho vinte anos, não tenho certeza. Já provei de tudo um pouco, não existe um alguém para me deter, os que poderiam estão longe demais. Acho que tenho um filho por aí, mas acho que ele não me conhece. É melhor assim para ele. Não precisará ter vergonha do pai. Porque ele é um viciado, um viciado que perdeu o coração.
Neste momento, minha vida se passa diante de meus olhos.
Estou tendo uma overdose. Eu sei que dessa eu não passo. Sei que vou morrer aqui, acho que já estava morto desde a primeira tragada que dei. Acho que ela sabia disso.
Me disseram que ela não sentiu dor quando morreu. Dizem que foi rápido, morreu na hora. Acho melhor assim, ela não merecia sofrer.
Seja lá para onde eu for depois de morto, espero que ela possa me receber e cuidar de mim. Acho que fui longe demais. Acho que preciso mudar.
Tive uma overdose.
Meu fim finalmente acabou.
Desde a primeira tragada, estava condenado.
Agora, estou morto.
Nunca tive controle, não depois que comecei a gostar daquilo.
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