Controlados
1 O segredo
Notas iniciais
Um ano antes.
Era uma noite fria, típica das madrugadas de Toronto. Os ossos de Carl doíam mais a cada passo. Enquanto observava as pedras desgastadas da rua, ouviu um "psiu" vindo de um beco. Conferiu a hora em seu relógio folheado a ouro. Uma hora da manhã. Respirou fundo, sentindo o vento gelado em suas cavidades nasais, foi quando avistou Leslie no final do beco.
Costumavam dizer que Carl tinha uma aparência agradável, olhos castanhos e um cabelo cor de palha, embora estivesse um pouco acima do peso. Ao contrário de Leslie, que tinha uma aparência medonha. Não que fosse feia, mas a garota tinha olhos cinzentos e penetrantes, cabelos negros na altura dos ombros, magra com um pouco mais de um metro e sessenta.
-Já estava na hora.-Começou Leslie, impaciente.
Carl conhecia Leslie desde a infância e já havia presenciado episódios de atos terríveis propositais da garota, como quando eles eram crianças e Leslie invejava os cabelos louros, lisos e enormes da irmã, Susana. No meio da noite, Leslie subiu na árvore que ligava a casa dos dois, bateu duas vezes na janela e, quando ele acordou, pediu de modo indelicado, uma tesoura. Querendo dormir, ele tirou da terceira gaveta da escrivaninha uma tesoura e entregou para a garota. No outro dia, acordou em meio a gritos vindo da casa de Leslie. Sua mãe, Sra. Molie entrou no quarto e começou a relatar melancolicamente que no meio da noite, alguém havia cortado o cabelo de Susana na nuca. Aterrorizado, ele abriu a terceira gaveta de sua escrivaninha de madeira, e a tesoura estava lá. Atormentado e confuso, Carl tentou pensar que havia sido um sonho. Um sonho estranho que Leslie pedira uma tesoura a ele.
Nos dias que se passaram, ele observou todo dia da sua janela, Leslie abraçando a irmã e dizendo que o cabelo dela continuava lindo mesmo na nuca. Mas Carl conhecia Leslie, podia ver o veneno em seus olhos, e nesse momento, teve a certeza de que tinha sido elaque havia cortado o cabelo da irmã. Saiu de casa e ao avistar Leslie, disse que sabia o que ela havia feito. Com um olhar cínico e maldoso, ela respondeu: "Não sei do que está falando gordinho. A propósito, diga a Sra. Molie que minha tia acabou de encontrar as mechas de cabelo de Susana no guarda-roupa de Caroline." E, por ironia do destino, Leslie odiava Caroline. A partir desse dia, Carl prometeu a si mesmo nunca mais ia se meter no caminho de Leslie.
Mas eles não tinham mais onze anos, não se tratava mais de um cabelo.
-O que você quer, Leslie?-Perguntou tentando não parecer nem grosso demais e nem delicado demais.
Leslie colocou um cigarro na boca e tirou um papel amassado no bolso, colocou o dedo indicador nos lábios, pedindo silêncio, e entregou o papel a Carl.
-O que é isso?-Carl examinou o papel amassado sem abri-lo.
Leslie revirou os olhos, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Tirou o cigarro da boca e começou a falar com sua habitual voz rouca:
-Não quero correr o risco de alguém escutar nossa conversa. Tenho um segredo, e vou confia-lo a você.-Leslie esperou por um instante mas Carl não ousou se mexer-Vamos! Abra!
Ele recuou por um momento, mas Leslie o advertiu com os olhos, com um pouco de tremedeira, Carl desenrolou o papel.Ele ficavamais aterrorizado a cada linha que lia. Até que não aguentou mais. Suas cavidades nasais pareciam estar se fechando. A boca ficou seca. Os olhos derramaram lágrimas e todos os poros do rosto seabriram. Ele desmoronou, gritando e vomitando enquanto o corpo tremia violentamente.
Leslie se abaixou, por um momento Carl achou que a garota iria ajuda-lo a se levantar, mas Leslie não era uma pessoa capaz de sentir pena. Ela levantou a mão esquerda e bofeteou o rosto de Carl, enquanto sussurrava:
-Fraco... Queria que seus pais vissem isso. Fraco! Pode gritar Carl, ninguém vai ouvir e muito menos ajudar alguém como você.
Carl fixou os olhos em Leslie, se pôs de pé diante dela e gritou:
-Monstro! Leslie, você é um monstro!
Leslie deu uma gargalhada e com um sorriso malicioso respondeu:
-Se eu sou um monstro, você é o que, Carl? Estamos no mesmo patamar. Ou já esqueceu o que fez com Molie e Jh...
Leslie nunca terminou aquela frase. Carl tampou sua boca e disse num tom firme:
-Como você ousa dizer o nome deles? Como você ousa?!
Leslie torceu a mão de Carl, talvez ele a tenha quebrado. Não importava. Leslie continuou com sua habitual voz rouca:
-Jure. Jure que não vai contar para ninguém!
-Eu... Leslie...-Os olhos de Carl pediam piedade.
-Jure! Jure pela sua vida.
-Eu...-Carl fez uma pausa e respirou fundo-Eu juro pela minha vida.
Leslie colocou mais um cigarro na boca, pegou o papel no chão e enfiou no bolso. Deuuma última examinada em Carl e saiu do beco em passos largos.
Aterrorizado pelos segredos que guardava, Carl limpou o suor da testa e se foi também.
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