Controladores dos Elementos
3 Confusões na cozinha
Notas iniciais
POV Lilian
Pego na geladeira um pote de yogurt. Morango, meu favorito. Devoro colherada por colherada, olhando pela janela e pensando. O garoto entra na cozinha e senta-se à minha frente. Não olho para ele, mas sinto que ele me avalia.
–Pode parar com isso? – digo depois de alguns minutos naquela mesma situação.
–Parar com o que?
–Parar de me olhar – Minha nova tática era: a casa é minha, não vou demonstrar medo em meu território.
–Não, estou tentando descobrir uma coisa.
Bufo. Mais alguns minutos se passam assim até que viro meu olhar para ele.
–Quem é você? – pergunto lentamente.
–Eu sou Matthew Curtis, mas não acho que isso importe para você. O que realmente importa é que fui contratado para mata-la.
Meu pior medo foi concretizado. Congelo, a colher a centímetros da boca. A cena de meu pai sendo morto passa em minha mente novamente. Seu olhar para mim, seus lábios se mexendo dizendo “Silêncio”, seu corpo caindo inerte no chão, eu tentando controlar as lágrimas, o sangue escorrendo até tocar meus pés no esconderijo, os assassinos saindo pela porta como se nada tivesse acontecido. Uma lágrima escorre por meu rosto e pouso a colher no pote.
–E por que ainda não fez isso?
–Porque tenho que leva-la para ver o chefe. Então, poderei concluir meu trabalho e ganhar minha recompensa – fala como se isso fosse algo simples.
–Por quê...?
–Porque você é e não é como eu. Seus cabelos são dessa cor naturalmente, não?
–Não – minto. Na verdade, eram sim. Nasci com cabelos de um branco puro.
–Observe – vai até a pia, enche um copo com água e vira em sua cabeça. Seus cabelos começam a ficar brancos. Enxuga a tinta que escorre em sua testa. Branco puríssimo como os meus.
–Mas como...?!
–E seus olhos, você usa lentes, não?
–Sim...
Ele remove um par de lentes verdes, revelando olhos amarelos como girassóis. Lentamente, removo as minhas também. Olho na janela e confirmo o que já esperava encontrar: olhos vermelho escuros, raiva com medo.
–Vou repetir: – digo com um tom assustador, virando para ele – quem é você?
–Sou um Controlador dos Quatro Elementos. Sou como você. Sei controlar água, ar, fogo e terra. Mas, vou lhe contar, as mulheres Controladoras são mais fortes, então, para elas não causarem problemas...
–Vocês as matam – completo baixinho.
–Exatamente. Não é exatamente algo divertido, mas... Minha mãe morreu por isso, poucos minutos depois de me ter. Sua mãe também deve ter morrido assim...
–Minha mãe morreu no parto – corto-o – Mas esse é um motivo idiota para matar alguém.
–Talvez – concorda depois de uma pausa. – Mas é o que nossos líderes mandam...
Olho para ele. Seus olhos estão cinza, preocupação.
–Então, todos os Controlados...
–Controladores — resmunga
–Tanto faz. Enfim, todos os Controladores têm olhos como os nossos – aponto para seus olhos. Ele avalia-se na janela, e franze a testa, seus olhos mais cinza.
–É. E cabelos brancos. Mas só os dos Quatro, os outros...
–Outros?
–Yep. Os Controladores da Água, os do Ar, os do Fogo e os da Terra... Cada um tem sua aparência própria. Um cara que eu conheço tem cabelo verde fluorescente, natural.
Tento descobrir se ele está brincando, mas parece que não. Ficamos em silêncio por um tempo, olhando pela janela.
–Então, quando vou conhecer seu chefe?
–Em uma semana ou mais.
–E o que vou fazer nesse meio tempo?
Matthew olha para o relógio, levanta-se e pega o chapéu de marinheiro que usava no trabalho. Pousa-o em minha cabeça e me puxa pelo cotovelo, me levantando da cadeira. Sou empurrada até meu quarto. Antes de fechar a porta, ele diz.
–Agir normalmente. Você tem 15 minutos.
16 minutos depois, estamos andando para o trabalho. Ele caminha a meu lado, observando os arredores. Não sei o motivo, mas ele não me transmitia medo. Somente uma sensação de lembrança, como se Matthew estivesse relacionado com algo que eu estava esquecendo.
–Você vai ficar me seguindo?
–Claro, não posso correr o risco de que você fuja.
Balanço a cabeça. O uniforme do Café do Rio me incomodava, dentro dele me sentia uma marinheira enlatada. Respiro fundo e abro a porta do pequeno estabelecimento. Do lado de fora, era somente um edifício de tijolos vermelhos, com uma porta de vidro e uma janela grande, uma placa com o nome pendurada acima da porta. O interior era muito melhor: paredes de mosaicos com cores vibrantes, mesas de plástico verde-água e cadeiras de cores chamativas. A bancada de metal, com seus mostruários de vidro cheios de doces deliciosos, e a máquina de café que emanava um cheiro maravilhoso ao lado da caixa registradora completavam o ambiente. Mesmo com toda aquela beleza e as comidas saborosas, o local era extremamente parado.
–Olá, Jeff – cumprimento o gerente. O homem de meia-idade era muito gentil. Tinha bigodes compridos, e o fato de ser alto e magro lhe davam uma aparência com a daqueles barbeiros de desenho. Mesmo começando a ficar grisalho e ter dores nas juntas, era um homem enérgico que não parava, e fazia de tudo para chamar a atenção para o Café.
–Olá, Lilian. Oh, e quem é esse jovem? Seu namorado? – pergunta, olhando para Matthew.
–Não, não. Ele é... Meu primo. Veio passar uns dias comigo. Seu nome é Matthew.
Eles se cumprimentam, Jeff animadamente. O gerente empurra o garoto para uma mesa e lhe oferece o cardápio.
–Gostaria de pedir algo, senhor?
Matthew arregala os olhos para a seção de doces do cardápio. Como eu era a cozinheira do lugar nesse horário, já estava vendo que ia sobrar pra mim.
–Quero esse bolo, e esse, e esse doce. Um desse também – Jeff anotava tudo rapidamente – E um café, por favor.
–Lilian! Para a cozinha, minha jovem!
–Sim, senhor! – preparo tudo sem pressa. Quando o pedido fica pronto e o entrego a Matthew, ele devora metade das coisas rapidamente. Jeff tinha saído buscar algo, e estávamos sozinhos no local. Mesmo assim, ainda não sentia medo – Credo! Come devagar! Assim você vai morrer engasgado! Parece que não come nada a meses...
–E basicamente não como mesmo – coloca um pedaço de bolo enorme na boca – Viver de pão não é muito legal. Sorte que vão me reembolsar depois – rio. O menino estava sujando o rosto cada vez mais, até parecer um palhaço – Tenho que admitir, você cozinha bem. Esses doces estão maravilhosos – engole um bolinho inteiro de uma só vez – Acabou?! Quero mais um de todos!
–Vá fazer você mesmo! – ele faz careta. Quase parecemos duas pessoas normais, tirando o fato de que um é doido e é um assassino. Controlador, humph – Espera, volto logo.
Caminho até a cozinha e pego um pote cheio de chantilly. Ele está distraído e eu caminho silenciosamente atrás dele, virando-o em sua cabeça. Ele grita e se levanta. Eu rio e corro para a dispensa, quando penso que ele parou de me seguir, abro a porta para receber farinha no rosto. Tenho um pequeno ataque de tosse enquanto o garoto ri. Pego um ovo na bancada e jogo nele. Logo começa uma guerra na cozinha, qualquer coisa ali presente tornando-se uma arma.
–Mas o que está acontecendo aqui?! – Jeff nos interrompe, assustado. Matthew e eu nos entreolhamos. Temos ovos em nossas mãos, e jogamos no pobre gerente, antes de correr por ele para fora – Fleurette, você está demitida! Não voltem mais!
Chegamos a minha casa rindo. Estamos cheios de farinha, ovos, chantilly, cobertura, frutas, legumes e até mesmo um pouco de café. É quando lembro que só há um banheiro, e a casa é minha.
–Você vai esperar lá fora enquanto tomo banho. Não quero minha casa suja!
–Só preciso de uma torneira – entra na cozinha. Observo enquanto estica a mão e aponta para a pia. Água escorre da torneira, transformando-se num fio, que logo vira uma corda grossa. Ele abaixa o braço, somente olhando para a água. Esta flutua em sua direção e o envolve, em um casulo de água. Quando volta para a pia, manchada de muitas cores, o menino está limpo – Viu? Eu disse.
–Então é verdade... Eu também posso fazer isso? – ele concorda – Então, posso fazer um último pedido antes de morrer? – ele concorda novamente, a testa franzida em desconfiança – Me ensine a fazer isso.
–Esse pedido eu posso cumprir – ele sorri. Não tinha ideia de onde estava me metendo, mas ia morrer de qualquer jeito, então...
Que o treinamento começasse.
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