Contrato de Casamento
21 Vinte e Um
Notas iniciais
"Maybe I just gotta wait,
Maybe this is a mistake."
(Last First Kiss)
SEBASTIAN
Como esperado, Julie me procurou depois do almoço.
Não tinha muito o que fazer ali na casa de Olivia, eram olhos demais por toda parte, o que significava testemunhas demais.
Olivia percebeu isso também e, com a desculpa de mostrar um pouco mais da cidade, ela convidou Julie e Hunter para dar uma volta pela cidade.
Depois de discutirmos por quase dez minutos sobre quem iria dirigir: Olivia alegando que não estava com paciência para ficar ditando o caminho do banco carona e eu, com o argumento mais sólido de todos, de que o carro era meu, foi decidido que Sartori dirigiria.
Fui para o banco traseiro a contragosto, mas como um gesto de rebelião enquanto Olivia rolava os olhos e Jullie ria da minha cara.
— Você deveria ficar do meu lado numa hora dessas. — Eu murmurei enquanto me sentava e ela também.
Ela bateu o ombro no meu braço.
— Eu sempre estou do seu lado e você sabe disso.
Jullie estava na minha vida há tanto tempo que era impossível imaginar um dia em que seguiríamos nossos caminhos separados.
Meus pais a adoravam e minha mãe sempre fez comentários nada sutis de como ela queria que ficássemos juntos.
Era bem parecido com a situação de Olivia e Max para dizer a verdade: o mundo inteiro desejava que ficássemos juntos.
Com a exceção de Max ser um canalha.
Analisando toda aquela situação, todos os rodeios que eu e Julie demos, eu não conseguia evitar pensar que talvez eu tivesse sido cego por todo aquele tempo. Todo mundo parecia conseguir ver aquilo: meus pais, alguns dos meus colegas e até Olivia.
Hunter, bem, eu não lembrava de sua opinião a respeito de mim e Julie com todas as letras, mas ele também nunca tinha falado nada contra.
Talvez amor fosse mesmo aquilo: aquela segurança, aquela calma, confiança, facilidade de estar juntos.
Não precisava ser uma epifania que me deixaria acordado por noites.
Não precisava arrancar o meu fôlego ou me levar aos extremos da minha sanidade.
Estabilidade, aquilo era o essencial.
Do que adiantava todas aquelas pessoas ficarem literalmente loucas por seus parceiros, se casarem e depois ver que não era nada daquilo.
Que a parceria era unilateral.
Ou pior, nunca existiu.
Do que adiantou viver num constante estado de êxtase com Eloise se ela me deixou no final?
— Por que você está tão pensativo assim? — Julie inclinou a cabeça para perto da minha e sussurrou.
Percebi que, nos últimos minutos, involuntariamente meus olhos ficaram fixos no espelho retrovisor.
Hunter e Olivia já tinham entrado em uma conversa animada.
Pisquei e voltei a olhar para Julie.
— Porque acho que estou finalmente percebendo algumas coisas.
OLIVIA
Quando olhei pelo retrovisor, Sebastian estava acariciando a lateral do rosto de Julie.
Desviei o olhar tão rápido quanto pude para não parecer uma louca espiando o momento dos outros.
Eu estava...feliz que os dois estavam se acertando. Que alguma coisa boa estava saindo daquela confusão toda.
Uma partezinha de mim dizia que eu estava feliz porque, juntando os dois, eu poderia ativamente ignorar o que quer que estivesse acontecendo comigo nos últimos dias. O que quer que estivesse consumindo minha mente.
Mas era mentira. Tinha que ser mentira.
Eu estava feliz porque...eles eram feitos um para o outro e...
Droga, eu estava olhando de novo pelo espelho retrovisor.
— Sério, tenho certeza que você vai adorar. — eu disse de repente para Hunter sobre a lojinha do pai de Patricia. — Até eu que não entendo nada de arte fico deslumbrada.
— Se você acha que vou gostar, eu não duvido. Você tem bom gosto.
Senti minhas bochechas esquentarem.
— Você é sempre assim?
— O quê? Charmoso?
Eu ri e Hunter me acompanhou.
— Eu iria dizer paquerador.
— Depende. — Ele pareceu avaliar um pouco. — Te incomoda? Eu faço em tom de brincadeira, mas posso parar ou pelo menos dar uma segurada.
Sorri pra ele genuinamente.
— De jeito nenhum. Por favor, acho puro entretenimento. — Estacionei a caminhonete de Sebastian que até que era legalzinho de dirigir.
Precisava admitir que eu estava bem animada para fazê-lo desde o dia que a vi na garagem.
— Oh, meu Deus! — Hunter exclamou olhando a fachada da loja.
Havia uma escultura em mármore nova na entrada que era certamente obra de Patricia. Simplesmente sem defeito nenhum.
— Eu disse que você iria gostar.
— Foi sua amiga que fez? — Julie perguntou do banco de trás.
— Creio que sim. O pai dela não costuma fazer objetos desse tamanho, nem em mármore. Ele prefere madeira. — Desliguei o carro e estendi a chave para Sebastian que estava atrás do meu banco.
Como o ser irritante que era, ele segurou minha mão, impedindo que eu puxasse de volta até eu bater nele.
— Você é insuportável. — Ele riu.
Quando eu estava prestes a abrir a porta, Sebastian apareceu fazendo-o primeiro.
Arqueei uma sobrancelha.
— Você parece esquecer com frequência, mas ainda temos um contrato. — Ferrante me encarou, seus olhos buscando alguma coisa em meu rosto.
Desviei o olhar:
— Vamos entrar. — anunciei, deixando Sebastian travar as portas. — Tem uma área bem aconchegante no fundo para vocês ficarem à vontade.
Hunter e Julie foram entrando e, quando arrisquei olhar para trás, vi meu falso noivo me observando, uma pequena ruga de curiosidade no meio da sua testa.
•
Patricia estava justamente nos fundos da loja. Com os cachos alaranjados apontando para todas direções, um avental sujo sobre as roupas e descalça, ela traçava um esboço sobre uma tela.
O que queria dizer que ela estava estressada.
Patricia só pintava fora do sótão da sua casa, se estivesse tentando relaxar.
Embora raramente ajudasse.
— Pelo amor de Deus, eu estava achando que finalmente seria a transportadora para levar a escultura. — Patricia disse ao me ver. — Eles estão atrasados em quase três horas. — Ela enfiou a mão no bolso da calça do folgada e surrada e tirou o seu celular, que por incrível que pareça estava impecavelmente limpo, estendendo-o. — Pode acabar com eles por mim? Meu prazo era até hoje.
Foi só então que ela notou que eu estava acompanhada.
Sebastian falava algo com Julie e Hunter estava de boca aberta observando todo o furacão que havia passado por ali e, claro, o olho do furacão, a própria Patricia.
Peguei o celular da mão dela enquanto minha amiga dizia:
— Misericórdia, Olivia, estou toda desajeitada e você traz gente com você sem avisar nada. — Ela se inclinou e murmurou. — Por que você me odeia?
Patricia era o tipo de garota que não conseguia ficar feia. Ela podia usar aqueles sacos de lixo pretos e ainda pareceria atraente.
Nem todos nós tínhamos essa sorte.
— Sebastian, Julie e...Hunter. — Pattie estalou os dedos. — Acertei? Eu apertaria as mãos de vocês e daria beijinhos como uma pessoa civilizada, mas não estou no melhor estado para isso, então sintam-se abraçados.
Todos eles riram e eu perguntei as informações sobre a ligação que faria em seu lugar.
— Pode pegar pesado: ameaças de morte, fingir que sequestrou alguém, dizer que eu estou prestes a me enforcar e afins...
Rolei os olhos, discando o número e dando as costas para eles.
— Boa tarde. — Eu cumprimentei com uma voz séria a pessoa do outro lado enquanto caminhava para um canto reservado.
Ainda assim, consegui ouvir Pattie falando com os outros: "Eu simplesmente amo quando ela faz isso."
Ao passo que Sebastian respondeu:
— Isso é porque você nunca foi alvo desse tom aterrorizante.
SEBASTIAN
A amiga de Olivia era extremamente talentosa. Sartori não tinha exagerado ao enchê-la de elogios.
Eu sabia que Hunter tinha uma obsessão escondida por arte, mas quase nunca falávamos sobre o assunto.
Aparentemente ele parecia bem animado e confortável de falar sobre isso com Olivia e Patrícia.
Depois da ligação arrasadora que Sartori fez em em nome da amiga, os entregadores apareceram em menos de meia hora para buscar a escultura.
Olivia deve ter explicado para Patricia que eu e Julie estávamos procurando um local reservado porque as duas, junto com Hunter, foram explorar o interior da loja e deixaram nós dois ali, entre cavaletes, vasos de porcelana, argila e mais uns milhares de utensílios artísticos.
— Bem, aqui estamos nós. — eu disse, puxando assunto, e Julie, que observava tudo à nossa volta, se virou para mim.
Ela usava um vestido florido e um tamanco que acrescentava minimamente em sua altura. Seus cabelos dourados estavam presos num rabo de cavalo com umas mechas escapando para emoldurar seu rosto.
— Quando foi que as coisas ficaram tão diferentes entre a gente? — Julie perguntou, mas tinha um tom de brincadeira em sua voz.
Ela não estava errada, no entanto.
As coisas tinham mesmo ficado diferentes entre nós dois depois que ficamos juntos vários anos antes.
— Não quero te puxar de novo para um buraco negro, Julie. Antes de tudo você é minha melhor amiga, não quero perder isso.
Ela inclinou a cabeça.
— E você não percebe que o nosso afastamento apenas contribuiu para chegarmos perto de perdermos um ao outro. — Julie pôs uma mão na lateral do meu rosto. — Sei que isso entre você e Olivia é apenas um acordo, mas eu acreditei. No fundo, ainda que por alguns dias, eu realmente achei que fazia sentido eu ser a última a saber e pôr seus pais.
Apesar de suas palavras, eu sabia que Julie não estava brava comigo, ela estava apenas relatando fatos e seus sentimentos.
Me sentei em um dos banquinhos, puxando-a para perto de mim até que ela parasse entre minhas pernas.
— Não queria te magoar. Ainda que fosse através de uma mentira. — Minha voz saiu baixa e suave. — Sei bem o que disse a você quando resolvi acabar com tudo.
— Eu também sei. — ela disse séria.
Não estou pronto para me envolver sério com ninguém. Não de novo. Não agora. Talvez nunca. Sinto muito, Ju. Eloise estava certa afinal.
Esse sempre foi o meu maior medo. Que Eloise tivesse razão.
— E depois disso você se dedicou intensamente à tarefa de dormir com metade da cidade. — Julie continuou. — O que mudou agora?
Julie seguro o meu rosto para que eu encarasse seus olhos azuis.
Respirei fundo e fechei os meus olhos. Não conseguiria falar se a olhasse, não me expressaria direito.
— Estou cansado de atender as expectativas de Eloise mesmo depois de anos separados. Estou cansado de provar que ela estava certa esse tempo todo. Que eu sou inconsequente e irresponsável demais para me comprometer com alguém. Eu... — Suspirei. — Eu quero tentar algo com você, Julie.
Ela inclinou sua cabeça para que nossas testas se tocassem.
— Estou esse tempo todo tentando não te magoar, quando tudo que faço é magoá-la involuntariamente cada vez mais. Agora, eu quero tentar algo diferente. — Abri os olhos e encontrei os dela brilhando para mim, esperançosos. — Quero tentar te fazer feliz.
E, naquele momento, eu realmente não achei que estava cometendo um erro.
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