Contrato de Casamento
27 Vinte e Sete
Notas iniciais
"I hold onto this pride
Because these days it's all I have"
(Better Man)
SEBASTIAN
Ouvi o clique da porta sendo fechada, julguei seguro levantar e encontrei Olivia com a cabeça apoiada nela.
— Olivia...
Fui em sua direção, mas ela esquivou.
— Sou...horrível. — disse, olhando para suas mãos.
— Lili, não...— Tentei me aproximar de novo, mas Olivia se afastou ainda mais e me olhou furiosa.
— Não...me chame assim! — ela disparou e então baixou a voz para um tom muito mais sombrio. — Não me chame assim. Não fale comigo. Não chegue perto de mim.
— Olivia, eu...
— Como você consegue? — ela falou com a voz embargada. — Você estava dormindo com ela há o quê? Menos de uma hora? E agora estava...você estava, nós estávamos...
Paralisei.
O que ela estava dizendo?
— Você não pode acreditar de verdade que eu dormiria com Julie e dois segundos viria aqui para transar com você. Não me diga que esse é o tipo de canalha que eu sou na sua mente.
Sartori riu sem humor.
— E o que foi que aconteceu aqui, Sebastian? Você tem um gêmeo do mal que dormiu com Julie enquanto você estava ao meu lado o tempo todo, foi isso?
— Eu não vim aqui esperando ou planejando que isso entre nós acontecesse, Olivia, e...
— Pois aconteceu! E eu estou me sentindo nojenta, você tem noção disso? — Ela passou a mão pelo braço como se realmente sentisse repulsa da própria pele.
Olivia andava de um lado para o outro do quarto freneticamente.
— Estou brava e com raiva porque isso não é culpa sua. — anunciou de repente. — Eu não fui forçada a nada. Eu sabia onde você estava, mas minha mente resolveu simplesmente apagar esse detalhe porque...
Ela parou e deixou os ombros caírem, derrotada.
Aquela frase nunca foi finalizada.
Depois de alguns segundos, Olivia se pronunciou
— Convivemos todos esses anos com paz e harmonia, de certa forma. Essa proximidade entre nós não deveria estar acontecendo, por isso estamos cometendo erros atrás de erros.
— Olivia, por favor...
Mas então suas próximas palavras me paralisaram.
— Esse acordo acabou, Sebastian. Tentamos do meu jeito. Tentamos do seu jeito. Nenhum funcionou. Amanhã pela manhã, eu vou dar a notícia para minha família.
OLIVIA
Levantei o olhar para encontrar Sebastian me encarando.
— É o melhor para nós dois. Não sou a mulher para você. Nem você é o homem para mim. Nem de mentira. — Dei uma risada amarga. — Como admitimos essa noite, somos o problema um do outro. E problemas precisam ser resolvidos.
— Quando pedi para você resolver o meu problema, eu estava pensando em uma maneira muito mais indecorosa. — ele ressaltou, seu tom ácido e irônico.
— Bem maduro da sua parte. Como sempre. — Virei as costas para ele e fui atrás do meu celular.
Sebastian me seguia.
— Sim, sou um exemplo de maturidade. Assim como você, querendo encerrar um contrato por causa da porra de um beijo. — Olhei embaixo da cama. Nada.
— Dois beijos. Dois. Completamente desnecessários e fora do acordo. — Olhei embaixo do meu travesseiro. Nada.
— Dois beijos consensuais e não lembro de nenhuma cláusula implicando quebra de contrato por um evento que aconteceu com o consentimento dos dois. — Olhei dentro do meu guarda-roupa. Nem sinal.
— Não me surpreende. Você também não lembrou que sua namorada estava num sono pós-sexo no quarto ao lado enquanto estávamos nos agarrando.
— Julie não é minha namorada. — Parei com as mãos a centímetros da minha caixinha de acessórios. Sua voz tinha um toque de dor ao dizer aqui, como se estivesse realmente decepcionado. Eu só não sabia se era consigo mesmo ou comigo. Ele continuou: — E não que eu ache que vai acreditar em mim, porque pelo visto ainda sou só um cretino para você mas: Eu não dormi com Julie... Não consegui.
Virei de frente para ele.
— Pensei que disse que tinha se acertado com ela.
— E eu me acertei. — Ele olhou para suas mãos. — Disse que eu iria tentar. É só que você...
Assenti com a cabeça, assimilando suas palavras.
— Sou o seu problema. — completei. Sebastian ainda não me encarava.
— Não posso fazer um acordo desses com Julie. Não seria justo. Ela criaria esperanças demais. Quando chegássemos ao fim...
— Ela ficaria arrasada.
Ficamos em silêncio.
Avistei meu celular ao lado do notebook e me estiquei para pegar.
— Não quebre o acordo. — Sebastian levantou a cabeça para me encarar. — Faltam menos de uma semana e meia para isso acabar. — Ele fez uma pausa. — Todo mundo vai ficar extremamente decepcionado.
Claro, essa era a questão.
Eu era a Rainha Má sem coração pensando em meus próprios conflitos internos, enquanto Sebastian estava pensando no bem comum.
Claro.
— Vou analisar. — falei, digitando no celular. Preciso...de algumas horas.
— Não vou conseguir fazer isso sem você, Olivia.
Seu tom era quase uma súplica e me fez paralisar por alguns instantes. Quando ergui minha cabeça, nossos olhos se encontraram.
Ferrante ainda estava sem camisa — marcas finas vermelhas, minhas marcas, por todo seu torso, estavam quase desaparecendo —, mas eu não conseguia parar de tentar decifrar seus olhos.
Parte de mim procurava por algo que eu não queria admitir.
Eu era o problema dele. E ele era o meu.
O que havia acontecido minutos atrás não era real.
Aquele noivado não era real.
Não poderia ser.
Sebastian deu um passo em minha direção, sem tirar os olhos dos meus e eu recuei, cruzando os braços.
— Se formos continuar, — pigarreei — Vamos seguir o contrato da maneira mais simples e formal possível. Nosso objetivo é a vaga a qual só seremos elegíveis se estivermos casados. Colocar nossa família no meio disso foi um erro. Um erro meu e peço desculpas por isso.
Peguei meu casaco.
— Para onde você vai? — Sebastian perguntou.
— Patty precisa de ajuda. — Balancei o celular.
— São uma e meia da madrugada, Sartori.
— Ela dorme tarde. — Peguei a chave da minha moto. — Vou tentar esquecer essa noite. Faça o mesmo.
•
O único barulho que se ouvia no quarto de Patricia era o seu lápis riscando o papel.
Quer dizer, eu havia falado bastante assim que apareci em sua porta dos fundos, mas já tinha uns trinta minutos que não se ouvia nada além de Patty trabalhando.
Minha amiga tinha ouvido tudo o que havia acontecido naquela noite nos mínimos detalhes e não interrompeu uma só vez.
O que me deixava agradecida e preocupada ao mesmo tempo.
Agradecida porque me abrir para as pessoas era algo muito difícil — levou muitos anos de amizade com Patty para chegarmos na cumplicidade que tínhamos hoje.
Ela sabia tanto sobre mim e minha vida que Patricia poderia ser uma parte de mim.
Meus pensamentos e minhas palavras fluíam na sua presença.
Exceto por ela, ninguém conseguia arrancar facilmente nada do que se passava pela minha cabeça.
Quase ninguém, minha mente fez questão de me lembrar, mas eu empurrei o pensamento para longe.
Eu me sentia compreendida embora muitas vezes levasse um sermão. Sua honestidade era um tapa na cara que, na maioria das vezes, eu merecia tomar.
O que me levava ao preocupada.
Se Patty não havia dito nada durante todo meu relato — e durante os últimos 30 minutos — queria dizer que ela tinha muito a dizer e provavelmente só estava criando forças.
Naquela noite, minha amiga estava começando um novo projeto que haviam encomendado com ela. Sempre começava seus esboços e medidas de madrugada.
Eu ainda ficava pasma como ela não acordava no outro dia parecendo um panda.
O som do lápis parou e Pattie rodou a cadeira para me encarar.
— Pois é dona Olivia...
Dei um muxoxo, enquanto abraçava meus joelhos, encostada na cabeceira de sua cama.
— Nem vem com esse "pois é"...
Ela deu de ombros.
— Infelizmente para você, é o único que eu tenho. — Patty deslizou as rodinhas da cadeira pelo chão até parar ao meu lado. — O que eu faço com você, hein?
— Me dê muito amor? — retruquei tentativamente e ela riu.
— Eu juro que queria te bater, sabia? Uma surra, uns bons tapas na cara, com a esperança de você voltar para a realidade.
Patricia não estava errada. Eu mesma queria me dar uns tapas.
— Por mais que me doa e surpreenda dizer algo assim, Sebastian Ferrante saiu da nossa lista de ódio mortal, podemos admitir pelo menos isso?
— É tudo tão estranho, Patty. Estamos aqui há alguns dias, poucos dias, mas Sebastian não é o que eu esperava. Quer dizer, ele ainda é irritante para cacete, é só que...
Patricia inclinou a cabeça.
— Ele está ganhando você. — Antes que eu pudesse retrucar, ela continuou: — Não exatamente de um jeito romântico. Você está conhecendo-o melhor e está vendo que ele não é de todo mal assim. Há quanto tempo não se aproximava de verdade de um cara? Você saía para "primeiros encontros", mas nunca passava disso.
Continuei abraçada com meus joelhos enquanto minha amiga falava.
— Não quis se abrir de verdade para mais ninguém depois de Max.
— Minha situação com Sebastian é diferente. Eu...nós não temos nenhum interesse a mais um no outro. Admito que gosto da companhia dele mais do que imaginaria, mas não tem segundas intenções nisso.
Patty deu um sorriso de canto e eu sabia que tinha falado alguma merda.
— "Não temos nenhum interesse a mais um no outro" quantos minutos se passaram mesmo desde que vocês estavam se pegando no seu quarto? Realmente nenhum interesse. Principalmente se considerarmos que é a segunda vez que isso acontece e...
— Chega! — cortei. — Chega! Eu já entendi. O que quero dizer é que isso é atração e atração não significa muita coisa, eu posso sentir por qualquer pessoa aleatória. Hunter, por exemplo, é atraente para mim.
Patricia arqueou uma sobrancelha:
— Não como Sebastian.
Não como Sebastian, minha mente concordou, mas eu nunca daria esse gostinho para Patty, embora claramente ela já soubesse daquilo sem eu precisar dizer em voz alta.
Soltei um grunhido de frustração.
— Olha, eu vou falar aqui como uma pessoa de fora que conhece você, mas não sabe nada sobre o Ferrante: vocês têm esse acordo de noivado e casamento. Precisam encenar para toda uma cidade e suas famílias que estão juntos. Você, na maioria das vezes, faz um bom papel, mas Sebastian é completamente excelente nisso.
Dei de ombros:
— Ele disse que já fez acordos do tipo "namoro de mentira" antes.
— Ok, mas confie em mim, tem coisas que não conseguimos fingir nem se tentarmos muito. São gestos e ações involuntárias do nosso corpo. Ou ele convenceu muito bem a mente dele que vocês estão juntos de verdade ou ele está gostando de você. Se não já gostava há algum tempo.
Soltei uma risada sarcástica.
— Acho que sua mente está muito cansada de todas essas medidas e esboços. Ela não está funcionando direito. — Apontei para minha própria cabeça. — Primeiro que não tem nenhuma maneira de Sebastian sentir algo por mim, é o mais básico. Não tem como ele "gostar" de mim há mais tempo do que o início desse contrato, é inconcebível. E o mais importante, ele ama outra mulher.
— Ele te disse isso? — Patricia pressionou.
— Não exatamente.
— Então você presumiu isso enquanto ele te beijava contra a parede ou enquanto ele te segurava sobre ele?
Senti meu rosto esquentar.
— Nenhuma dessas ocasiões significaram nada. Foram...impulsos.
— Então você está aqui, com uma expressão de que o seu mundo não faz mais o mínimo sentido, por causa de um impulso que não significou nada?
Apenas encarei Patricia e então:
— Eu não sei, tá legal? Eu não sei.
— Por que se recusa a enxergar a possibilidade de que Sebastian pode gostar de você?
Soltei um riso sem humor.
— Por favor, Patty, nós duas sabemos que eu não sou a pessoa mais fácil de lidar. Nem a mais simpática. Nem a mais agradável de estar perto.
— Foi isso que Max fez você acreditar? — ela me olhou com uma expressão de pena. — Realmente? Você é teimosa e sua família inteira também é. Isso não impediu seus pais de ficarem juntos, nem sua irmã de se casar, ou seus irmãos de encontrarem alguém. Por Deus, PJ é insuportável no sentido mais insuportável da palavra e ainda assim qualquer garota daqui daria tudo para ficar com ele.
— Ele é homem. Sabemos que, principalmente nessa cidade, o peso é muito mais diferente para mulheres.
Patricia estalou a língua:
— Nesses poucos dias que você ficou aqui, quase metade da cidade te chamou para cumprimentar, ou para ajudar em alguma coisa. Dúvido que se esforçariam se não fosse uma pessoa simpática.
— Eles só querem colher fofocas.
— Do jeito que elas correm pela cidade, eles nem precisariam chegar nem perto de você. — Patty suspirou. — Você acha que se não fosse agradável, Sebastian teria aceitado esse contrato? Que ele conseguiria agir tão natural ao seu lado? Acha que se ele te odiasse ou desprezasse ficaria tão preocupado em achar você naquele dia? Ou que ia fazer de tudo para te ouvir?
Desviei o olhar.
— Ele é diferente do que eu pensava só isso. — murmurei.
— E ele te vê de um jeito diferente do que você pensava também. Olha, Oli, você parece se esquecer constantemente que o contrato de vocês é sobre uma encenação em público. Quando outras pessoas estão presentes. Sebastian não tem nenhuma necessidade nem obrigação de agir do jeito que age quando estão apenas vocês dois e isso eu estou falando só pelo o que você me conta.
Patricia levantou da cadeira e veio sentar ao meu lado na cama.
Apoiei a cabeça no seu ombro.
— Sebastian disse para você que não está namorando com Julie, que eles não dormiram juntos. Se ele realmente estivesse louco para ficar com ela, não acha que Ferrante estaria mais do que ansioso por essa noite? Por que ele ficaria incomodado com você passando um tempo com Hunter, se a mulher por quem ele é supostamente apaixonado estava dormindo a uma porta de distância? Por que ele por fim consegue um tempo com a "garota da vida dele" e no fim da noite é você quem ele acaba beijando?
Ela deslizava os dedos pelo meu cabelo e eu sentia meu coração bater cada vez mais forte com cada palavra.
— Sei que você gosta de ajudar os outros a ficarem juntos, mas por que é tão difícil de acreditar que você pode ser uma escolha real para alguém?
Porque quando achei que eu era a escolha de alguém, descobri que era apenas conveniência.
E o que seria mais conveniente para esse contrato do que Sebastian se apaixonando por mim?
— Conclua esse contrato do jeito que achar melhor, Oli, mas não deixe que a chance de ser feliz com alguém seja descartada por causa de inseguranças e dúvidas para as quais você só terá resposta se arriscando. Não existe amor sem riscos, eu te garanto.
SEBASTIAN
Eu estava em um sono leve quando meu celular apitou.
Noivinha
O acordo ainda está de pé.
Vejo você mais tarde.
Respirei fundo e apaguei a resposta diversas vezes antes de finalmente mandar.
Eu
Está tudo bem?
Olivia não respondeu.
E apesar de saber que ela conhecia aquela cidade de olhos fechados, não pude deixar de imaginar que ela poderia estar jogada em alguma sarjeta, sangrando enquanto esperava um resgaste.
Está bem, minha mente era dramática demais, mas eu não conseguia evitar.
Rolei diversas vezes na cama, sem conseguir pregar os olhos.
O cheiro suave dela estava em toda parte. Nos lençóis, nos travesseiros, no próprio ar do quarto.
Eu ainda conseguia ouvir o gemido que saiu de sua boca enquanto nos beijávamos. Conseguia sentir a sensação dos seus dedos puxando os fios do meu cabelo — ali estava uma coisa que eu não sabia que gostava tanto.
Eu não havia mentido.
Olivia era o meu problema e cada minuto que passávamos juntos tornava ela ainda mais.
Ela estava correta, até certo ponto.
Na empresa nós tínhamos um limite de distância impessoal que precisávamos manter em nome da harmonia e do profissionalismo. E não creio que alguma vez um de nós tenhamos sequer pensado em cruzar essa linha.
Agora, com esse acordo, eu estava conhecendo um lado de Olivia que nunca achei que existia e, como num feitiço, esse lado me chamava para conhecê-la cada vez mais.
Sartori se abria aos poucos e ao mesmo tempo que eu achava surpreendente, eu julgava que era pouco e queria mais.
Queria saber mais sobre ela, sobre sua vida, sobre seus pensamentos...sobre seus sentimentos...
Era inútil ignorar que cada migalha que eu conseguia obter me levava a querer mais, cavar mais fundo, desbravar partes mais ocultas.
Receio que ela estivesse, de certa forma, fazendo o mesmo comigo. Abrindo lugares que eu achei que estavam trancados para sempre. Lugares que eu não sabia que existiam.
Desistir daquele contrato seria um alívio e uma maldição.
Alívio porque pararia qualquer espiral de destruição que estivesse prestes a acontecer na vida de nós dois.
Maldição porque eu não fazia ideia de como voltaríamos a agir como estranhos nos corredores da empresa.
Alívio porque eu finalmente voltaria à minha vida vazia, sem preocupações e com o sono em dia.
Maldição porque eu sabia que dia após dia Sartori ocupava um espaço maior na minha vida e eu duvidava que seria um espaço que fosse se preenchesse tão facilmente quando ela se fosse.
Eu estava ferrado.
Completamente ferrado.
Honesto.
Eu precisava ser honesto, foi o que Hunter disse...
Precisava...
Precisava tirar Olivia da minha cabeça.
Precisava... quebrar o coração de Julie de novo.
•
O café da manhã foi tenso mesmo após eu explicar que Olivia tinha ido fazer uma visita de emergência para a melhor amiga.
Pedro me olhava como se o pão com manteiga não se comparasse com o gosto da minha pele quando ele me trucidasse.
Para melhorar, Julie estava sentada do meu lado, de ótimo humor enquanto sua mão acariciava minha coxa sob a mesa.
Hunter me olhava com uma sobrancelha permanentemente arqueada.
Sério, Olivia me devia uma por aquela manhã. Ela poderia muito bem ter me jogado aos lobos da maneira mais literal possível e ainda seria mais tolerável.
O senhor Sartori me convidou — talvez seja melhor dizer convocou — para um passeio pela propriedade, com a desculpa de vermos o melhor lugar para a cerimônia ser realizada.
Eu estava bem feliz em poder dizer que a cerimônia iria, de fato, ser realizada.
Não creio que aquele homem seria muito benevolente se eu tivesse lhe dado a notícia de que eu e sua filha estávamos cancelando tudo.
Se ele já não tinha muita afeição por mim, aquilo seria tão bom quanto assinar seu decreto de ódio definitivo por Sebastian Ferrante.
O lobo em pele de cordeiro que se infiltrou em sua família e...eu precisava de outras analogias que não envolvessem lobos.
— Dormiu bem? — Pedro puxou assunto enquanto caminhávamos pelo campo.
— Poderia ter dormido melhor.
O que não era mentira.
Minha noite de sono se resumiu a ficar ansioso com a possibilidade do acordo ser quebrado, então aliviado quando Olivia disse que tudo se manteria igual — ou quase isso —, e depois preocupado para saber se estava tudo bem com ela, culpado por machucar Julie —ainda que ela não soubesse naquele exato momento —, pensando em como contar a ela que levou pouco mais de vinte e quatro horas para perceber novamente que eu não era o cara certo e nunca seria.
Não quando no intervalo daquilo tudo minha mente voltava sempre à sensação de outra mulher sobre mim, suas mãos percorrendo meu corpo. Seu beijo me deixando completamente à sua mercê.
Olivia Sartori.
A mesma Olivia que achava que eu seria canalha o suficiente para dormir com alguém e depois ir atrás dela.
Parecia uma piada de mal gosto.
Eu entendia que tínhamos concepções muito equivocadas um do outro, mas achei que aqueles dias tinham feito alguma diferença na forma como ela me via.
Pelo visto, eu ainda era o mesmo moleque inconsequente e irresponsável, que não se importava com os sentimentos de ninguém.
Pedro parou de andar e me olhou.
Quase entrei em pânico divagando que, se fosse possível alguém ler mentes, certamente seria meu sogro de mentira.
Ele meio que confirmou minha teoria ao dizer:
— Creio que você e minha filha brigaram.
— Nós não...quer dizer... — Pedro apenas me encarou. — Foi apenas uma discussão sem importância.
Eu esperava que para meu próprio bem e o de Olivia, nossa briga não tivesse passado pelas paredes do quarto ou estávamos muito ferrados.
— Claro. — o homem respondeu sem muita convicção. — O casamento relâmpago ainda está de pé, então?
Não mordi sua isca para me irritar e assenti com a cabeça:
— Aham. Totalmente de pé. Sinto muito, senhor Sartori. — Dei um sorriso zombeteiro de canto e, para minha enorme e eterna surpresa, ele retribuiu.
— Que bom. Pela sua expressão de desolação no café da manhã, tive receio que estivesse tudo acabado entre vocês.
— Não estou desol...Quer dizer, não gosto de brigar com sua filha.
Pedro me olhou de canto.
— Achei que já estaria acostumado a essa altura. Toda vez que ouvíamos seu nome aqui em casa era devido a alguma discussão que vocês dois tiveram.
O pai de Olivia estava claramente me provocando, mas eu não me deixaria levar.
— Aquilo era trabalho. Isso é diferente.
Ouvi ao longe um barulho de moto e antes que eu pudesse processar, meu corpo já tinha se virado num sobressalto para ver se era Olivia chegando.
Senti meus ombros relaxarem involuntariamente quando notei que era mesmo ela.
Mal tinha percebido que Pedro Sartori também tinha parado de andar e me observava com curiosidade no olhar e um sorrisinho quase imperceptível.
De fato, aquilo era muito diferente.
OLIVIA
Desci da moto observando as duas figuras se afastarem cada vez mais em direção à fazenda.
Sebastian e meu pai.
Se os dois estavam juntos, não deveria ser coisa boa, mas eu estava cansada demais para pensar sobre o assunto.
Depois da minha conversa com Patty, nós fomos dormir. Ou pelo menos, ela foi dormir/desmaiar ao meu lado.
Eu fiquei acordada por muitas horas, encarando o teto, repassando aquela noite como um filme em minha cabeça.
A voz Hunter insistia em repetir a mesma coisa de novo e de novo:
"No fundo você sabe, que não sou eu quem você queria que realmente estivesse aqui."
E então o meu lapso no quarto com Sebastian começava a ser exibido em alta resolução.
Havia sido tudo tão rápido e inesperado, mas ainda assim minha mente conseguiu capturar detalhes bem específicos de todos os momentos.
Como o jeito suave que sua mão percorria o meu corpo enquanto minha boca estava grudada na sua. O som baixo que saiu da sua boca, enquanto nossas línguas se tocavam.
— Oli! — Liz simplesmente apareceu do meu lado, quase me matando de susto. — Onde você estava?
Desviei o olhar da direção de onde Sebastian continuava andando e forcei um sorriso para minha irmã.
— Estava na casa de Patrícia, ela teve uma emergência com umas encomendas.
Eliza estreitou os olhos e eu segurei o seu olhar.
— Ok, você mente com uma facilidade impressionante, mas graças a Deus, meu cunhado não tem um talento tão bom quanto seu e passou a manhã inteira moribundo. — ela comentou inclinando a cabeça com um biquinho. — Se ele fez algo de errado, Sebastian claramente está arrependido.
Estalei a língua.
— Não foi culpa só dele... — Tirei o capacete, ajeitando meu cabelo que deveria estar uma bagunça. — Nós dois...nós...fizemos uma merda.
Eliza passou um braço pelo meu ombro enquanto andávamos até a entrada da casa.
— Você ficou enfurecida e descontou no garoto. — Não era uma pergunta, mas eu confirmei balançando a cabeça.
— Acho que exagerei um pouco e fiz algumas suposições nada legais. É só que... — Suspirei. — Nós dois erramos, como eu disse, mas eu não soube reagir bem e coloquei tudo em suas costas.
— Imagino que não precise se preocupar. Sebastian é tão apaixonado por você, Oli. Todo mundo consegue ver isso, de verdade. — Dei uma risada nervosa. — Ei! É sério! Além disso, ele te conhece há cinco anos, sabe como você reage quando as coisas não saem como planejado.
Bufei, mas não adiantava rebater. Era um dos meus muitos defeitos.
Estávamos prestes a passar pela porta quando Liz me soltou e se pôs no meu caminho.
Um sorriso amarelo estava no seu rosto.
— Oh-oh. Esse sorriso nunca significa algo bom.
— Falando em planejar coisas, foi por isso que fui atrás de você quando ouvi o barulho da moto.
— O que houve, Liz? — Eu comecei a ficar preocupada com o olhar de pena em seu rosto.
— Por favor, não surta, mas os Fontana vão jantar aqui essa noite.
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