Contrato de Casamento
29 Vinte e Nove
Notas iniciais
"And I will hold you closer
Hope your heart is strong enough."
(Through The Dark)
OLIVIA
— Desculpe, querida. Sei como fica desconfortável com Max aqui, mas a madrasta dele estava no mercado hoje de manhã e praticamente anunciou o jantar. — minha mãe explicou enquanto limpávamos a cozinha e a sala de jantar. — Como seu pai e o Raul são amigos seria rude simplesmente dizer para eles não virem.
— Não se preocupe, mãe. Não tem problema. Até demorou para eles se autoconvidarem para jantar aqui depois do anúncio do casamento. Principalmente depois de Eliane ter me visto no centro com Sebastian quando nós chegamos.
Lembrei da cena patética que fiz só para não ter que cumprimentá-la, beijando Sebastian.
Com certeza ela estava com aquele momento entalado na garganta.
— Verdade, mas tem certeza que vai ficar bem? — Minha mãe parou de passar o pano na longa mesa de madeira para me olhar. — Posso arranjar uma desculpa para você e seu noivo não estarem aqui hoje à noite.
— Não tem necessidade. Eu e Sebastian não temos nada a esconder e não tenho medo de Max. Pelo que sei, ele e Rebecca estavam bem confortáveis jantando aqui depois que tudo entre nós acabou.
Minha mãe me encarou.
— Eliza me contou. — continuei. — Vocês não precisavam ter escondido de mim. Estávamos separados, sabe?
As bochechas da minha mãe estavam coradas.
— Aquele foi o jantar mais desconfortável que já tive. Quando chamamos Raul não esperávamos que o filho apareceria, muito menos com Rebecca. Fazia semanas que ele não falava conosco.
Suspirei.
— Pois bem. Ele seguiu em frente. Eu demorei, mas segui também. Não devemos nada um ao outro.
E mesmo que eu forçasse a autoconfiança em minha voz, todo meu interior tremia pensando naquele jantar.
SEBASTIAN
— Para onde vocês estão indo? — perguntei para Julie, que estava sentada dentro do carro dos meus pais.
— Os irmãos de Olivia vão mostrar a cidade vizinha para nós. — Ela apontou para Hunter que vinha com uma mochila sobre o ombro. — Aparentemente vai ter um jantar importante essa noite e Lucinda precisa de todos fora de casa para limpar tudo.
— Sim, o ex-noivo de Sartori vai jantar aqui com a família.
Julie fez uma careta.
— Tenso. Vou tentar convencer Hunter a não voltar tão cedo. — Ela se apoiou na janela para seu rosto ficar mais próximo do meu. — Queria que você pudesse vir conosco...Imagino que fazer qualquer coisa embaixo do teto dos Sartori vai te deixar nervoso.
O sorrisinho no rosto dela esclarecia muito bem suas intenções.
— Infelizmente, eu vou ter que ficar. — Forcei as palavras a saírem da maneira mais natural possível. Preciso, você sabe, dar suporte para Olivia.
Julie olhou para os lados para ver se alguém, além de Hunter, estava em nosso campo de visão e roubou um selinho tão rápido que pareceu uma brisa.
— Ela é muito sortuda por ter feito esse contrato com alguém como você. — Julie suspirou e se afastou o suficiente para que ninguém tivesse a chance de nos surpreender. — Mas está bem, só mais alguns meses e você será todo meu, certo? Acho que posso esperar.
Abri a boca para dizer que precisávamos conversar — era a coisa certa a se fazer — mas o brilho esperançoso nos seus olhos me impediu.
Ela se ajeitou novamente no banco do passageiro.
— Aproveite a torta de climão essa noite.
Soltei o ar pelo nariz e me afastei da lateral do carro.
Encontrei Hunter na metade do caminho, me encarando.
— O que foi? — questionei.
Hunter balançou a cabeça.
— Nada. Absolutamente nada. — ele respondeu, querendo, sem dúvidas, dizer o contrário. — Seus pais mandaram avisar que estão dando uma olhada em umas terras à venda nas redondezas.
Ah, que ótimo. Era só o que faltava.
— Parece que eles se acostumaram com a ideia desse casamento bem rápido.
— Nem me fale, mas acho que a euforia é mais porque estão de férias como um casal em lua de mel.
Hunter soltou um risinho, mas, como se lembrasse de algo, ficou sério de novo.
— Soube que o famoso Max virá aqui essa noite.
— Pelo visto você já está bem familiarizado com a história.
— Sou bom e sutil em ouvir as coisas e obter informações.
Ignorei sua alfinetada, mas ele continuou:
— Cuide dela, está bem?
Soltei uma risada sem humor.
— Claro, tinha esquecido que você é o melhor amigo preocupado e eu sou o cara indiferente.
— Cuidado, Sebastian, se alguém acabar te vendo assim pode pensar que você está com ciúmes.
Fechei a cara e estava prestes a passar por ele, continuando meu caminho, meu caminho quando Hunter estendeu a mão me parando.
— Você deveria falar com ela antes que isso piore. — De alguma forma, eu sabia exatamente sobre qual "ela" estava se referindo. — Ela não é cega. E quando perceber que isso para você não é mais uma simples encenação, vai ser devastador.
Cerrei o maxilar.
— Não tem o que perceber. Eu e Olivia só estamos esperando esse contrato acabar para seguirmos com nossas vidas. Bem longe um do outro. Como sempre foi.
Meu amigo soltou uma risada irônica.
— Com certeza. — ele falou com sarcasmo. — Até mais tarde, Sebastian.
Ele seguiu seu caminho, colocou a mochila no banco de trás e entrou no carro.
Julie acenou. Um sorriso de orelha a orelha em seu rosto.
Quando me virei para entrar em casa, Olivia estava na varanda dos fundos.
Ao me ver, ela deu as costas e entrou em casa.
OLIVIA
Todo meu guarda-roupa estava jogado sobre a cama.
Eu estava sentada em um canto do quarto tentando controlar a respiração quando a porta do quarto se abriu e foi fechada segundos depois.
Era fim de tarde, depois de passar quase o dia inteiro ajudando minha mãe e ignorando Sebastian do mesmo jeito que ele estava me ignorando — o que era o melhor para nós dois — eu havia tomado banho e tentado escolher algo para vestir à noite, mas sem sucesso.
Não era a primeira vez que eu via Max depois de tudo, mas era a primeira vez que ele me veria com alguém. Ainda que fosse tudo mentira.
— Não sabia que estava acontecendo uma liquidação de roupas aqui no seu quarto.
Levantei a cabeça para encontrar Sebastian parado na minha frente. Ele arqueou uma sobrancelha.
— Interessado em alguma peça?
— Acho que tem um vestido tubinho ali que ficaria uma graça em mim.
Não pude conter a risada ao imaginá-lo com meu vestido de anos atrás que mal cabia no meu corpo hoje em dia.
Ele estendeu a mão para me ajudar a levantar.
Eu estava usando apenas um roupão e uma toalha enrolada na cabeça. Um calafrio passou pelo meu corpo.
— Há quanto tempo está aí? — Sebastian perguntou, tirando a toalha do meu cabelo.
Algumas mechas úmidas encostaram na minha pele e eu tremi.
Ele se pôs a secá-las com o tecido e eu não tinha forças nem para protestar.
— Minutos? Horas? Eu não faço a mínima ideia. — Sebastian continuou apertando a toalha nas extremidades, o que demandava que a distância entre nós fosse diminuída, uma vez que o meu cabelo solto quase chegava na cintura.
— Você só pode estar querendo ficar doente. — Ferrante inclinou a cabeça, esfregou minha nuca com cuidado e eu fechei os olhos.
— Ficar doente e morrer antes desse jantar parece um bom plano.
— Eu não daria um bom viúvo, então pensamentos suicidas devem ficar suspensos até o contrato acabar. E atitudes também, por favor. Sou bonito demais para aparecer no noticiário como possível suspeito, caso o suicídio fique ambíguo.
— Tarde demais. Você deveria ter feito uma cláusula para isso. — Respirei fundo e abri os olhos. Sebastian ainda me encarava. — Você iria me julgar muito se eu fugisse antes desse jantar começar?
— Nunca te julgaria, mas esse ciclo de nervosismo por causa do seu ex nunca acabaria. Melhor arrancar o band-aid de uma vez só, não acha? — Assenti com a cabeça. Sebastian tinha razão. Talvez Max finalmente esquecesse minha existência se eu aparecesse de uma vez com outro cara, então eu não precisaria mais ficar me escondendo toda vez que precisasse visitar minha família. — Além disso, pegaria meio mal para Olivia Sartori, a Rainha Má, fugir de um babaca.
— Você está certo.
— É a segunda vez que algo do tipo para mim e eu não estou com nenhum gravador por perto. Você orquestra muito bem esses momentos, tenho certeza.
Sua mão ainda trabalhava com firmeza e delicadeza.
Embora não conseguisse ficar cinco segundos sem soltar uma gracinha, o rosto de Sebastian continuava sério como pela manhã.
Era como se uma barreira tivesse sido erguida entre nós — e aquilo era tudo que eu teria desejado semanas atrás, mas agora...
— Não sei o que vestir. — comentei, apenas para quebrar o silêncio.
— Uma pena que não temos a disposição o vestido da vingança da Lady Di. Seria épico.
— Você não leva nada a sério?
— Dificilmente. — Ele ajeitou a divisão do meu cabelo. — Você já deveria saber. Aliás, você tem repetido isso para mim nos últimos cinco anos.
Havia um toque de mágoa em sua voz e uma sombra em seus olhos que não parecia estar exatamente relacionada a mim.
— Sebastian... — comecei, mas ele piscou e verificou a hora no relógio.
— Temos exatamente três horas e meia para o caos. Quais são suas últimas palavras?
Toda a compressão, que estava sentindo no meu peito antes de Ferrante entrar no quarto, voltou e eu arfei, quase me desequilibrando.
Três horas e meia e Max estaria ali.
Era como se eu estivesse em um sonho andando em uma corda bamba entre arranha-céus, apenas para em certo momento olhar para baixo, descobrir que não havia mais nada sob meus pés e que eu estava caindo.
Quando meu mundo se inclinou para o lado, os braços de Sebastian não hesitaram em me amparar, me apertando contra o seu peito.
— Desculpa...— comecei a dizer, mas ele já se apressava em me segurar com uma mão e, com a outra, jogar no chão boa parte das minhas roupas que estavam em cima da cama. — A minha pressão...
Meu corpo suava frio.
Eu precisava sentar...precisava me acalmar.
Sebastian não poderia me ver assim.
Era humilhante, principalmente depois de termos entrado em acordo de mantermos nossa distância um do outro.
Agora meu corpo inútil simplesmente ameaçava me deixar na mão — como sempre — forçando Ferrante a me auxiliar.
Com um impulso, ele nos colocou sentados na cama: suas costas inclinadas na cabeceira e as minhas apoiadas em seu peito.
— Consegue levantar o pé e apoiá-lo em cima daquele montinho de roupas? — ele perguntou baixinho enquanto ainda nos ajeitávamos. Eu estava mais como espectadora do meu próprio corpo, mas consegui fazer o que ele sugeriu.
Sebastian pegou uma garrafinha de água que estava na mesinha ao lado da cama, abriu e fez com que eu tomasse um gole devagar.
Percebi que sua mão tremia um pouco enquanto segurava a garrafa para mim e então coloquei a minha por cima para estabilizá-la.
— Fico nervoso nessas situações de prestar socorro, desculpa.
Sua voz soava estranha, um tom culpado e decepcionado consigo mesmo.
— Não tem problema. — Minha voz saiu um pouco sem fôlego. — Você está me ajudando, eu que deveria pedir perdão pelo trabalho.
— Isso acontece com frequência?
Sim.
— Não... Às vezes. Quando tenho uma crise de ansiedade. — Tomei mais um gole, minha mão ainda sobre a de Sebastian.
— Não consigo lembrar de uma única vez que te vi ansiosa.
— No trabalho...não acontece tanto. Eu me distraio, ponho um fone. Mia me ajuda. Ouço alguma música, algum audiobook. Vou reclamar com alguém ou revisar um trabalho que já está pronto.
— E isso é o que te acalma? — Sebastian perguntou, incrédulo.
— Procuro fazer meu trabalho da melhor forma possível, então sei que ele não vai me desapontar. É uma das poucas coisas em que posso confiar.
Sinalizei que era o suficiente de água e Ferrante quebrou o contato a fim de fechar a garrafa e pôr no lugar onde estava.
— E em casa? Quando não há ninguém?— Sebastian perguntou, sussurrando, como se o pensamento mal tivesse sido formado em sua cabeça e escapou por sua boca.
— Eu me viro.
SEBASTIAN
Ela respondeu sem rodeios:
— Eu me viro.
Olivia tentou se ajeitar para levantar, mas, ainda que sua respiração estivesse melhor, eu sabia que seu corpo ainda estava fora do seu total controle.
Num ato do qual eu poderia me arrepender depois, passei os braços por sua cintura e a impedi que se levantasse.
Se estava no inferno, o que restava era abraçar o capeta.
Se bem que se o capeta se comparasse a Sartori, eu bem que poderia repensar minha ideia de querer ir para o Céu.
Olivia me olhou por cima do ombro.
— Sebastian... — ela disse num tom de advertência.
— Olivia...— respondi.
Ali, naquele momento, com sua pele no mínimo dois tons mais pálida, os fios molhados de cabelo grudados na lateral do seu rosto, as pintinhas quase imperceptíveis salpicadas em suas bochechas, ela poderia ser uma das mulheres mais bonitas que eu já havia conhecido.
Mas então havia um evidente desespero em seus olhos que me fazia ser arrancado de volta para a situação ferrada em que estávamos.
Aquele infeliz estava vindo para jantar.
E mesmo que eu não soubesse muito sobre ele, só o estado que Olivia estava e ficava toda vez que ouvia o nome dele era o suficiente para que eu o odiasse.
Porém, eu queria saber.
Precisava ter um motivo claro para deformar seu rosto, se chegasse nesse estágio.
Queria que ela me contasse.
— Isso começou por causa de Max? — arrisquei.
Olivia suspirou e voltou a olhar para frente.
— Também, mas não só por causa dele. Outras...circunstâncias da minha vida colaboraram para isso. E elas definitivamente não são da sua conta.
A falsa rispidez dela foi tão forçada que eu achei graça.
— Já passamos desse ponto, mas você insiste em ser ríspida e evasiva comigo com a esperança de que eu vou me irritar e deixar o assunto para lá, mas, acho esquece o que me diz todo dia: que eu sou insuportável. E por ser insuportável, não vou deixar o assunto para lá. — Apertei meus braços ao redor dela, impedindo-a de se esquivar. — Então que tal pularmos todas essas etapas cansativas?
Sartori não respondeu.
Não vou deixar você ir para esse jantar sozinha, mas vou me sentir muito mais confortável se estiver a par do que aconteceu. Não quero ficar perdido que nem um idiota tentando decifrar as meias-palavras.
Olivia paralisou contra meu aperto.
— Confie em mim, é muito mais fácil não saber de nada. Trocaria qualquer coisa por isso.
Respirei fundo, ponderando entre insistir mais um pouco e deixar para lá.
Me peguei decidindo que Sartori já estava passando por coisas demais.
Só que então ela relaxou seu corpo no meu, e eu soube.
Ela tinha tomado uma decisão.
OLIVIA
Eu não estava acreditando no que iria fazer.
Porém, não era justo Sebastian encontrar Max estando no escuro sobre tudo.
Meu ex-noivo faria picadinho de Ferrante ao explorar cada uma das fraquezas do nosso falso relacionamento.
Perceber que eu não confiava o suficiente em Sebastian para contar o que havia acontecido entre nós, seria o presente perfeito.
Só percebi que tinha ficado muitos minutos em silêncio quando Sebastian apoiou o queixo em meu ombro e comentou:
— Pretende começar a falar? Ou, sei lá, a gente pode ficar aqui esperando uma conexão telepática acontecer entre eu e você.
Sabia que ele estava apenas me provocando, tentando amenizar o clima, mas mesmo assim dei um tapa em sua perna.
— Insuportável, de fato.
— Só tente relaxar. Inspire.
Eu não podia acreditar que eu estava fazendo o que Sebastian estava pedindo.
Inspirei.
— Isso, agora expire. — Seus braços ainda estavam em volta de mim e eu ainda estava ciente do seu peito colado em minhas costas subindo e descendo, conforme suas próprias instruções.
Expirei.
Inspirei.
Expirei.
— Melhor? — ele perguntou, depois de um tempo.
Incrivelmente aquilo havia ajudado um pouco, mas eu não admitiria aquilo para ele.
Estávamos novamente em território perigoso e qualquer passo em falso nos levaria para o olho do furacão novamente.
— A história é longa, então não vou conseguir contar tudo...apenas...o suficiente.
Sebastian não disse nada, apenas sincronizava sua respiração com a minha.
— Você sabe o básico sobre quem é Max. — comecei. — mas para propósitos de confirmação, ele era meu noivo. Até mais ou menos um ano e meio atrás. Nós começamos a namorar quando éramos pré-adolescentes, mas nossos pais, que são amigos, já planejavam nos juntar desde o berço. Como disse, a história de como ficamos juntos e por quanto tempo é meio longa e duvido que você esteja disposto a ouvir.
— Se você estiver disposta a falar, eu estarei disposto a ouvir.
O tom sério e genuíno de sua voz me fez virar o rosto para olhá-lo. Os olhos brilhando num tom de verde profundo, focado, concentrado no que eu tinha para dizer.
Voltei a olhar para frente.
— Quem sabe em outra hora... — Repassar meu término com Max não chegava a ser nem remotamente tão doloroso quanto repassar como nós nos apaixonamos. — Enfim, éramos namorados de infância. Nos separamos no final do ensino médio, mas no meu segundo ano de faculdade, nós decidimos reatar.
— Você nunca namorou ninguém além dele? — Sebastian perguntou surpreso.
— Oficialmente não. Quer dizer, quando tínhamos discussões bobas e aqueles términos sem sentido, às vezes eu ficava com alguém, mas de relacionamento só Max. Sempre só ele.
— Bem, isso explica porque sua métrica de relacionamentos é tão bem definida. Acredito que todas as relações românticas que pensa em ter, tem que passar pela agonizante comparação do seu namoro com ele. O que é preocupante já que todo relacionamento é diferente e...
— O que você está fazendo?
Sebastian olhava compenetradamente para um ponto na parede à nossa frente.
Sua atenção voltou para mim.
— Estou analisando o que você está me falando?
— Você está realmente analisando tudo? Ouvindo o que eu falo?
Sebastian suspirou:
— Sério, a imagem que você tem de mim é completamente horrorosa e teremos que mudar isso bem rápido. Não nasci para ter inimigos, nasci para ser adorado, gatinha. — Rolei os olhos com o apelido grotesco e pude captar um sorriso de canto em seus lábios. — Mas continue sua trágica história de amor.
Por mais que eu quisesse ficar irritada com ele pelas piadinhas insuportáveis, grande parte de mim estava feliz porque, pelo menos naquele instante, Sebastian estava agindo como o seu "normal" de novo.
Humor, em vez de palavras vazias.
Irritante, em vez de cada vez mais fora de alcance.
Fiz uma pausa e voltei a olhar para frente. Era mais fácil revisitar o passado sem o escrutínio do olhar de Ferrante. Eu raramente me deixava abalar, mas ser observada por ele, de verdade, era como estar num plano onde não houvesse barreiras entre uma pessoa e outra. Como se ele pudesse ver cada músculo, terminação nervosa e principalmente minha alma.
Era uma experiência totalmente desconcertante.
Aconteceu a mesma coisa no dia da varanda. O dia em que chorei em seus braços.
O dia em que ele me disse que Max não me machucaria.
O dia em que me senti tão vulnerável ao mesmo tempo que segura ali.
E talvez Sebastian soubesse disso, — como eu ficava mais confortável — por isso, insistia naquela posição ridícula em que nos encontrávamos: perto o suficiente para deixar claro que estava me acompanhando, mas sem que eu me sentisse intimidada ou julgada por seu olhar.
E foi ali, quase deitada sobre o peito de ninguém mais, ninguém menos que Sebastian Ferrante, que eu contei pela primeira vez o que aconteceu entre mim e Max para alguém além de Patty.
E Sebastian ouviu cada palavra.
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