Contrato de Casamento
33 Trinta e Três
Notas iniciais
“So I lied, and I cried,
and I watched a part of myself die.”
(You All Over Me)
OLIVIA
Por alguns poucos minutos, a conversa misericordiosamente saiu do foco do meu noivado com Sebastian para coisas mais banais como a feira que aconteceria na cidade dali a dois dias.
Minha mente havia apagado aquele fato.
Todos os anos a cidade fazia uma feira comemorativa da sua fundação e era uma festa que durava dias. Com brincadeiras, competições, comércio de coisas feitas pelos próprios moradores e festas à noite, a celebração sempre atraía alguns poucos turistas para aquele fim de semana.
A minha família e a de Max quase sempre eram responsáveis pela maior parte da organização, o que significava que meus dias de paz estavam contados. Tinha certeza que Max faria questão de forçar presença na casa dos meus pais enquanto infernizava a minha vida e a de Sebastian.
A calmaria do desvio da atenção do “assunto do momento” acabou bem rápido quando, enquanto eu estava no meio de uma garfada, Raul Fontana apontou:
— Temos que ver como ficará o comando da organização, o último ano foi uma bagunça. Antes, Max e Olivia cuidavam de tudo. — Foi sutil, mas eu percebi Rebecca se encolher com sua filha no colo. Desde que eu e Max nos separamos, eu fazia questão de não aparecer ali naquela época. Era presumível que Rebecca tivesse ocupado meu posto. O senhor Fontana, infelizmente, continuou: — Afinal, quem de nós imaginaria que Olivia Sartori se casaria com alguém que não fosse o meu Max.
Era incrível como toda a laia de Maximus insistia em me colocar numa posição ativa e ele em uma posição passiva.
Coitadinho do Max. Olivia escolheu se casar com alguém que não era ele.
— Planos mudam, senhor Fontana. — Eu rebati, minha voz firme. Olhei para Max. — E pessoas também.
Meu ex-noivo não se deixou intimidar com meu olhar, ainda que Sebastian estivesse entre nós, ele sustentou sua postura dizendo:
— Realmente, as pessoas mudam. E não temos nenhum controle sobre isso. — ele deu de ombros.
Embora eu sentisse um gelo de raiva começar a congelar minhas veias, ainda tive que conter a vontade de me encolher na minha cadeira.
— Só que geralmente espera-se que as pessoas mudem para melhor…evolução e tal. — Sebastian retrucou com um tom descompromissado, mas eu pude perceber seus ombros tensos.
— No caso, a questão é que às vezes descobrimos coisas que não esperávamos sobre elas também. Não temos culpa disso. — Max tirou o olhar de mim, para focar em Sebastian. — E por falar em evolução, pelo visto, você teve essa evolução para algumas pessoas, não é, Sebastian? — ele deu um sorrisinho. — Lembro que, não muito tempo atrás, você dava boas dores de cabeça para Olivia.
Rolei os olhos.
— Eu não sei porque ficamos dando voltas nesse assunto do passado. Se você tem algo a dizer, Max, a oportunidade está aí. Se você tem algum problema com Sebastian o que te impede de falar de uma vez?
Senti a mão de Sebastian sobre meu joelho, aparentemente não para me censurar, mas para me acalmar.
Max levantou as mãos na altura do ombro e voltou a comer:
— Não precisa se exaltar, Olivia. Eu não tenho nada a dizer, a história de vocês dois só é interessante.
— Eu não estou exaltada. Apenas te fiz uma oferta, se tem algo mais a dizer, esse momento é tão bom quanto qualquer outro.
Raul deu uma risadinha:
— Creio que você esteja tendo mais sorte em domar nossa pequena Olivia.
Minha mãe abriu a boca, mas Sebastian foi mais rápido:
— Olivia não é um potro selvagem para ser domado, senhor.
— É só um modo de falar, garoto.
— Com todo respeito, estou percebendo que você e sua família tem um modo de falar muito peculiar, especialmente quando se trata de Olivia.
Foi a minha vez de colocar a minha mão sobre a de Sebastian, mas ela estava trêmula. Senti Sebastian me encarar por um segundo, mas foquei minha atenção no prato parcialmente cheio na minha frente.
Raul, como sempre, não sabia ler o clima pesado e continuou:
— Não é como se estivéssemos insinuando nada. São fatos. Você e Olivia se conheceram na época em que ela e Max estavam noivos. É só juntar dois mais dois.
— Raul, pare. — a voz do meu pai era um som frio e cortante. — Pelo bem da nossa amizade, pare. Você está indo longe demais.
O pai de Max olhou em volta da mesa procurando alguém que concordasse com ele, que concordasse que ele não estava falando nenhum absurdo, mas parte dos presentes estavam envergonhados ou furiosos com seu comportamento.
Sebastian estava quase entortando o garfo entre os dedos.
Olhei para Max, com a esperança ridícula de que ele se posicionasse. Me defendesse. Eu não esperava que ele admitisse sua traição na frente de todo mundo, mas ele sabia a verdade. Ele sabia porque tínhamos terminado. Ele me conhecia, sabia que eu nunca o trairia, nunca cultivaria sentimentos por outro homem enquanto estava com ele.
Sabia que eu o amava. Usara aquilo contra mim em diversas ocasiões depois do nosso término, aliás.
Que droga! Era pedir demais que ele tivesse um pingo de decência, um fragmento de consideração não por mim, mas pela história que tivemos?
No entanto, ao observá-lo, não havia nem um sinal de que as palavras do seu pai o incomodavam, ele mastigava sem nenhuma preocupação, nenhum remorso ou culpa.
Quanto tempo precisaria passar para que eu entendesse que tipo de pessoa ele era?
Eu estava me sentindo uma porcaria.
Todas as minhas falhas e meus erros sentados comigo à mesa.
Max, meu ex-noivo traidor
Becca, minha ex-melhor amiga traidora
Minha família, a qual eu estava enganando.
A sala começou a parecer abafada demais e as paredes pareciam girar. Eu conseguia sentir a mão de Sebastian se entrelaçar na minha novamente, mas era como se fosse um toque distante. Sua voz perguntando se estava tudo certo também soava ao longe e eu só percebi que tinha levantado da mesa quando o aperto nos meus dedos sumiu.
— Com licença. — Por algum milagre minha voz não saiu trêmula e eu não caí imediatamente no chão no caminho até a porta dos fundos.
SEBASTIAN
Eu deveria ir atrás dela.
Mas minha mente divagava se questionando se talvez Olivia queria ficar sozinha e se a acompanhar não a deixaria irritada.
Só percebi que estava encarando a minha mão — agora vazia sem a dela — depois de alguns minutos.
Fechei os dedos, apertado. Tentando me conter em não voar sobre a mesa e tirar o sorriso daquele velho asqueroso.
Eu estava enojado com aquela família do ex de Olivia e com o próprio Max. Tudo o que Olivia me contou já era um absurdo, mas vê-lo pessoalmente, agindo daquela forma evasiva enquanto seu pai e a mulher atacavam a todo instante, era revoltante.
E, por falar nele, Max me observou atenciosamente durante todo o jantar. Se ele pensou que eu me intimidaria, teve uma grande surpresa, pois a cada minuto que ele me encarava, eu o encarava mais cinco.
Ali estava outra pessoa que eu daria um soco muito bem dado.
No fim, talvez eu devesse ter ficado com a opção de ir atrás de Sartori ou dar um soco em Max, porque mal se passaram três minutos, ele jogou o guardanapo na mesa e saiu em busca de Olivia.
OLIVIA
Passei pela porta tentando inspirar todo o ar possível dentro de 60 segundos.
Como eu poderia ter considerado Max o homem da minha vida quando ele nem mesmo era capaz de falar a verdade sobre sua traição? Como ele poderia ficar calado e alimentar insinuações de que eu que fui parte desleal em nossa relação?
Eu estava encostada na parede tentando recuperar meu fôlego, tentando amenizar o aperto em meu peito, quando ouvi a porta dos fundos ser aberta novamente.
Não sabia porque, mas parte de mim teve a pequena esperança de que seria Sebastian. De que ele olharia para mim e faria alguma piada sem graça sobre o clima de tensão naquela mesa, perguntaria se estava tudo bem. Me acalmaria.
Contudo, não foi Sebastian que eu vi ao levantar a cabeça, mas Max.
— Vá…
— Não estou aqui para brigar. — Max me interrompeu se apoiando ao meu lado na parede. — Quero conv…
— Não quero conversar com você. — praticamente rosnei.
Max respirou fundo.
— Então vamos ficar nessa mesmo?
Eu ajeitei minha postura e me virei para encará-lo.
— Sim, Max, vamos ficar nessa mesmo! Você colocou a gente nessa, lembra? Por Deus, há cinco minutos você estava deixando seu pai insinuar que eu andava te traindo. Pior você estava alimentando essa ideia.
— Sinto muito. — ele disse encarando as mãos.
Soltei o ar, incrédula.
— Sente muito? Que merda é essa de que você sente muito?
— Eu já sabia que você iria se casar e com quem você iria se casar, mas ver vocês dois juntos…foi diferente. Foi doloroso. Eu fiquei com ciúmes e reagi mal. Na verdade, não sabia como reagir. Sinto muito.
Olhei para sua posição. Os ombros curvados, a cabeça baixa, a postura humilde. Tudo aquilo me deu ainda mais raiva. Eu não estava acreditando nos meus ouvidos.
— Sentir muito é quando você esbarra em alguém sem querer na rua, Max. — Apontei o dedo para ele, minha respiração voltando a acelerar. Eu não poderia perder o controle na frente dele, não de novo. Passei a mão pelos cabelos. — Você não "sente muito" quando você ferra o emocional de uma pessoa que você sabia que já estava com o emocional em frangalhos. Nenhum dos seus "sinto muito" de merda conserta nada.
— Eu sei.
Parei na frente dele e ele ergueu o olhar para mim. Foi como se todo o fôlego do meu peito fosse tirado de uma só vez.
Eu conhecia cada detalhe daquele rosto, cada expressão. Eu tinha amado Max de uma forma que nunca achei que poderia amar alguém.
E agora o odiava como nunca achei que poderia odiar alguém.
Abaixei minha voz e disse entre dentes:
— Você não sabe de nada, Max. Se você soubesse não tinha causado aquela cena. Na frente do meu noivo, da minha família. Com a sua mulher e a sua filha à mesa!
— Já disse que agi por impulso. Estava com ciúmes. O jeito que ele olha para você, Olivia…Eu…Sabe que, não importa o quanto tente, nada se compara ao que sentimos um pelo outro, não sabe? — Ele deu um passo na minha direção, apenas centímetros nos separavam. — Você sabe que por mais que tente negar, ainda sente algo por mim. Consigo ver em seus olhos.
Ele pegou uma mecha do meu cabelo e colocou atrás da minha orelha, eu segurei seu pulso.
— Eu sinto algo por você mesmo, Max. Repulsa, raiva, ódio, rancor e eu sei que isso me mata cada dia um pouco mais. Mas eu não me importo. Não é como se você tivesse deixado muita coisa restante quando acabou comigo. — Empurrei sua mão para longe. — Da próxima vez que você encostar a mão em mim, você vai sentir meu toque em várias partes do seu corpo e não vai gostar de nenhum deles.
SEBASTIAN
Depois que nem Olivia nem Max estavam mais à mesa, o jantar seguiu em quase silêncio, com exceção do senhor Fontana que seguia tentando puxar assuntos levianos com Pedro, como se não tivesse trazido o caos para aquela noite.
Quanto a mim, eu tentei terminar meu jantar com o resto de dignidade que ainda me restava. Tentando lembrar a mim mesmo que o que eu e Olivia tínhamos era um acordo e não passava de um relacionamento de mentira.
Ela não precisa de você. Não quer você atrás dela. Você não pode oferecer nada de útil nesse momento.
Porém, essa voz na minha cabeça era refutada principalmente quando mais da metade dos olhares direcionados para mim era de pena. E os restantes eram de indignação. Esses vinham na sua maior intensidade do pai de Olivia (o que não era nada surpreendente) e PJ.
Eu sabia que meu papel era me levantar e ir atrás dela: minha noiva que estava provavelmente tendo uma DR com o ex no jardim — parte de mim estava pronta para fazer isso. Contudo, a outra parte se lembrava de Olivia dizendo que por pouco não havia perdoado Max, por pouco não havia voltado para ele… essa parte tinha medo do que iria encontrar se fosse atrás.
Olivia caindo na lábia daquele otário.
Olivia perdoando toda a merda que ele fez.
Maximus tentando algo contra a vontade dela e…
Minha visão foi tomada por um vermelho de raiva e eu me levantei, sem nem me preocupar em pedir licença.
Ao sair pela porta dos fundos, não me demorei em encontrá-los.
Meu coração acelerou numa velocidade inimaginável ao ver os dois a poucos centímetros de distância, Max pondo uma mecha do seu cabelo atrás da orelha dela.
Olivia segurou o seu pulso:
— Eu sinto algo por você mesmo, Max. — Ela fez uma pausa e foi como se o mundo inteiro estivesse prendendo a respiração, inclusive eu.
Não, não, não.
Mas o que minha mente estava negando?
Olivia era adulta, sabia o que fazia.
Se ela era louca o suficiente para aceitá-lo de volta porque eu deveria me incomodar.
Era ingenuidade minha achar que o amor que Olivia tinha descrito que sentia por ele, tinha evaporado tão facilmente.
Óbvio que ela ainda sentia…
Olivia continuou antes que meus pensamentos prosseguissem:
— Sinto repulsa, raiva, ódio, rancor e eu sei que isso me mata cada dia um pouco mais. — Sua voz falhou na última sílaba. Meu coração falhou junto com ela. — Mas…eu não me importo. — Seu tom embargado fez com que eu me sentisse um lixo pelos meus pensamentos de segundos atrás. — Não é como se você tivesse deixado muita coisa restante quando acabou comigo. — Ela empurrou a mão de Max como se fosse algo repugnante. — Da próxima vez que você encostar a mão em mim, você vai sentir meu toque em várias partes do seu corpo e não vai gostar de nenhum deles.
Maximus era desafiador porque não fez menção de se afastar nem mesmo um centímetro dela.
— Espero que você não esteja tentado a testar Olivia. — declarei de onde eu estava e ambos olharam para mim. — Acho que nós dois sabemos que ela não costuma quebrar suas promessas.
Max sorriu sem vontade enquanto eu me aproximava dos dois.
— Meus assuntos com Olivia não te competem. Eu estava aqui bem antes de você.
— Se tivesse se dado o trabalho de ser uma pessoa decente, eu não precisaria estar aqui não é? Creio que você sabe disso, que a culpa é sua. Embora tente incessantemente colocar para cima de Olivia.
Max se virou para mim, avançando como se quisesse me intimidar.
— Max. — Olivia chamou, mas ele parecia não ouvir nem parecia se retrair por ser uns bons centímetros mais baixo do que eu.
— Não fale sobre o que você não sabe, playboy. A história toda vai muito além do que você possa imaginar.
— Max. — Sartori chamou novamente, mas seu tom agora parecia ter um toque de repreensão. Aquilo fez Maximus sorrir.
— Sei o suficiente. — Rebati. — E acho que devo agradecer a você por ser otário o suficiente para liberar o caminho ao perder uma mulher como Olivia.
Percebi o momento exato que Max decidiu me atacar e Sartori também porque ela se enfiou no meio de nós dois.
— Parem! — Ela colocou a mão no peito de Maximus e o empurrou só para afastá-lo. — Max, chega! — Olivia se virou para mim e segurou meu rosto, me forçando a encará-la. Ela repetiu mais baixo: — Chega, está bem?
Contra todas as expectativas, o ex de Olivia que nos observava, começou a rir:
— Por quanto tempo você estava comendo ela pelas minhas costas? — Senti Olivia se atrapalhar com as pernas como se tivesse levado um golpe físico. — Era gostoso? Tenho certeza que sim. Deveria ser engraçado para caralho saber que ela chegaria em casa reclamando de você, para despistar, diria que estava cansada demais para dormir comigo depois que você tinha passado a tarde fodendo-a, não era?
— Você lave a sua boc… — Fiz menção que ia para cima dele, mas Olivia segurou minha camisa com força.
Max continuou, sua voz cada vez mais alta:
— Eu sabia! — Ele disse, segurando o próprio rosto com indignação. — Sempre notei os olhares que você lançava para ela nas festas de fim de ano, nos eventos abertos ao público… Mas você — ele apontou para Sartori que se encolhia em meus braços. — Você foi sempre muito boa em desviar atenção…”Ai, nós nos odiamos.”...
— Sabe que isso não é verdade! — Olivia falou por cima com indignação.
— …”Ai, não conseguimos ficar no mesmo cômodo sem brigar.” — Max continuou com uma voz afetada e então deu uma risada amarga. — Creio que brigar não era a única coisa que vocês faziam no mesmo cômodo.
Estava prestes a soltá-la quando Olivia foi mais rápida. Em uma velocidade impressionante ela caminhou até ele e deu um tapa tão forte no seu rosto que o som ecoou pelo espaço aberto e Max cambaleou um pouco.
Ele segurou a lateral do rosto, olhando para ela incrédulo. Os ombros de Olivia subiam e desciam numa velocidade alarmante.
— Você está fora de si. — Maximus disse.
A frase pareceu um tanto deslocada, mas quando olhei em volta entendi tudo:
Todos estavam do lado de fora observando aquela cena patética.
Todos.
E isso incluía a minha família, Hunter, Julie e o restante dos irmãos de Olivia que tinham acabado de voltar.
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