Contrato de Casamento
75 Setenta
Notas iniciais
"Time is irrelevant when I've not been seeing you"
(Olivia)
SEBASTIAN
Não sei por quanto tempo fiquei parado na chuva enquanto o ônibus em que Olivia tinha subido se afastava.
Uma senhorinha que passava tocou o meu braço:
— Precisa ir para um lugar coberto, querido, ou vai ficar doente. Está longe de casa?
Olhei para ela, ainda sem enxergar as coisas muito bem.
— Meu apartamento é na esquina. — respondi automaticamente.
A mulher chegou mais perto erguendo o guarda-chuva para ficar mais ou menos na minha altura.
—Então, venha. Te dou uma carona até lá.
Queria dizer que muito provavelmente não faria muita diferença agora que eu estava totalmente ensopado, mas ela estava apenas sendo simpática e solícita.
— Dia difícil? — ela perguntou me entregando o guarda-chuva enquanto caminhávamos.
Suspirei.
— Semana difícil e é possível que se torne um mês difícil também.
— Não se preocupe. No final, tudo vai dar certo.
Eu esperava que sim.
•
Quando voltei para o apartamento, Julie estava sentada na mesa de jantar.
— Eu tentei ligar para o seu celular... — ela começou de costas para mim. — mas você esqueceu... aqui.
Ela arregalou os olhos quando viu meu estado.
— Meu Deus! Você está ensopado. Foi para a chuva? — Ela veio em minha direção, porém eu dei um passo para trás.
— Vou tomar um banho, Julie.
Antes que ela pudesse responder, caminhei até o banheiro e fechei a porta.
Fiquei vários minutos debaixo da ducha quente, tentando organizar meus pensamentos e decidir meus próximos passos.
Permanecer longe de Olivia por tanto tempo seria uma prova de fogo. Mesmo nos momentos que eu acreditava nos últimos anos que não sentia nada demais por ela, eu ainda a via diariamente na empresa. Sabia como ela estava, o que estava fazendo... Agora teria que ficar no escuro. Seu apartamento era do outro lado da cidade, o que significava que era quase impossível que eu trombasse com ela em qualquer esquina. Não haveria mensagens nem ligações. Nada.
Hunter precisava desenvolver sua parte com Patricia — ela seria minha única porta para Olivia enquanto eu não resolvesse de uma vez por todas aquela situação.
Quando voltei para sala, Julie havia enxugado a trilha molhada que deixei pelo chão do apartamento.
— Estou fazendo chocolate quente! — ela anunciou da cozinha.
Caminhei até lá e parei na entrada, apoiando meu ombro no batente.
Julie me olhou com um sorriso enquanto separava as canecas.
— Por que nunca me contou que mantinha contato com Eloise?
Ela deu uma risada nervosa.
— O quê? Não falo com Eloise há anos, Sebastian.
— Não estou falando de agora, Ju. Estou falando de quando ela foi embora. Quando ela me deixou.
— Quem te disse isso?
— A própria Eloise.
Julie me olhou surpresa.
— Você foi atrás dela? Depois de tudo?
Cruzei os braços:
— Na verdade, nos encontramos por acaso essa semana.
Ela pegou a panela para encher os recipientes.
— E a primeira coisa que ela te disse foi que eu falei com ela umas duas, três vezes depois que vocês terminaram em vez de se desculpar pelo que fez? Por que não estou surpresa?
— Na verdade, ela se desculpou várias vezes pelo que causou em mim, mas por que Eloise deveria se desculpar por seguir seus sonhos? Não acha que ela estava certa?
Julie bufou.
— Claro, seguir os sonhos dela às custas do seu sofrimento. Ela estava certíssima.
Balancei a cabeça:
— Ponto interessante, visto que foi você que conseguiu que ela recebesse a vaga de volta para a seleção. — Julie paralisou. — Não foi?
Ela soltou o ar pelo nariz.
— Quase seis anos e Eloise ainda procura motivos para te colocar contra mim. E eu não faço a mínima ideia do porquê. — Eu analisava cada expressão do seu rosto, mas Julie parecia imperturbável. Ela entregou uma caneca para mim. — Eloise veio chorando para mim depois que recebeu o resultado negativo para a seleção. Implorou para ver se nenhum dos meus contatos conseguiria dar uma ajuda para ela. — Julie passou por mim, com sua caneca em mãos, e foi se sentar no sofá — Como você a seguia como uma cachorrinho não vi problema, nunca imaginaria que ela terminaria tudo. Agora, se ela está querendo me colocar como a vilã da história...
— Para ser sincero, Julie, ela não falou uma palavra ruim de você. Muito pelo contrário, disse que você a ajudou e pensou que depois que ela foi embora nós dois ficamos juntos até hoje. Que estaria feliz por nós.
Ela fez uma expressão de quem não estava nada convencida:
— Claro que estaria. — Julie bebericou o chocolate quente e então se virou, focando toda a sua atenção em mim. — Seb, você precisa entender que tudo o que eu faço é para te ver bem. E, eu sei, eu sei, você já me disse várias vezes que não tenho que ter essa responsabilidade, mas é mais forte do que eu. Nós não demos certo, já entendi, mas não vou parar de me preocupar com você. E te ver correndo que nem um bobo, no meio de um temporal por causa de uma mulher que te deixou no altar e só estava te usando para alcançar seus objetivos é bem preocupante.
Caminhei calmamente até o sofá e sentei ao seu lado.
— Fui atrás de Olivia para terminar tudo de uma vez por todas. — Julie olhou para mim com uma sobrancelha arqueada. Continuei: — Ela não podia simplesmente fazer o que fez e depois aparecer na minha porta do nada. Claro que fiquei abalado, o que eu sinto por Olivia não iria desaparecer do nada.
— E o que ela queria?
— Eu não quis escutar. Só disse que era para ela me esquecer.
Minha amiga fez uma cara de pena e tocou meu rosto.
— Sinto muito, Seb. De verdade. Ela nunca mereceu você, mas agora pode realmente seguir em frente. Sem aquela obsessão mal escondida que guardou dentro de si por anos. — ela quebrou o contato e voltou a beber seu chocolate. — E não se engane, quando ela descobrir que você está bem e feliz sem ela, vai se arrepender e vai inventar todo tipo de coisa para tentar te reconquistar.
Franzi a testa para seu comentário, mas Julie não percebeu. Na verdade, continuou dizendo:
— Se isso acontecer pode me falar e deixar comigo, vou dizer umas poucas e boas para ela.
De repente, algo se encaixou na minha mente, mas eu apenas respondi:
— Claro.
OLIVIA
algumas semanas depois
Eu mal conseguia acreditar que aquilo realmente estava acontecendo.
Nem quando obtive uma resposta através do e-mail, nem quando me ligaram para confirmar o horário da minha entrevista e muito menos enquanto eu me arrumava escolhendo a melhor roupa.
Era "apenas" a empresa número um do país. O sonho de muita gente, inclusive o meu.
Eles nem mesmo estavam com vagas abertas, eu apenas enchi o saco do porteiro do prédio para saber se ele conseguia um e-mail por onde recebiam currículos.
Apenas duas outras empresas tinham me chamado: uma com a entrevista marcada para o dia seguinte e a outra eu tinha descartado por ser não um estágio, mas um trabalho escravo.
Pelo espelho, vi Judith na porta do quarto me observando.
— Como estou? — Me virei fazendo graça.
Ela abriu um sorriso de orelha a orelha.
— Jude, não pode entrar aí e... — Ouvi os passos apressados de Rebecca e ela parou na porta ao me ver. — Desculpa, ela ainda não entendeu que seu quarto é território proibido, estamos assimilando que a privada não é piscina. — Ela disse carregando a filha: — Não é, gracinha?
Soltei o ar pelo nariz.
— Não tem problema.
Rebecca me olhou de cima a baixo e assoviou:
— Se eles forem idiotas o suficiente para não te contratarem por sua inteligência absurda, não vão resistir ao te verem assim.
Fiz uma careta e olhei de novo no espelho.
— Parece que está prestes a subir num palanque e dizer: "E é por isso que acredito que posso oferecer, como presidente, o futuro que esse país precisa."
Olhei séria para ela pelo reflexo, mas então começamos a rir.
O riso morreu aos poucos quando percebemos o quão estranho era tudo aquilo.
Embora eu conseguisse pelo menos olhar nos olhos de Rebecca, ainda tinha muita coisa entre nós para ser resolvida que eu não sabia se seria.
Estávamos ali a poucos metros uma da outra, como há quase seis anos atrás.
Eu me arrumando para uma entrevista de emprego, ela me dizendo a mesma piada sobre ser presidente, trocando risadas...mas não éramos as mesmas pessoas.
Percebendo a mudança na atmosfera, Rebecca limpou a garganta.
— Estou procurando alguns lugares para ir. Consegui resgatar algum dinheiro que tinha guardado e também estou vendo alguns trabalhos de meio-período.
Voltei a ajustar as mangas da minha camisa social.
— Sabe que não precisa sair daqui correndo. O aluguel da região não é barato e você ainda teria que pagar alguém para ficar com Judith. — Caminhei até a penteadeira pegando o batom. — Dependendo do horário do meu estágio, se eu conseguir um estágio, eu posso olhá-la.
— Obrigada, Liv. Sei que você não tinha que estar fazendo nada disso por mim. — ela trocou a neném de braço. — Mas primeiro: você vai ser contratada. Segundo: sei o quão duro trabalha, não vai poder estar sacrificando seus horários de descanso cuidando da minha responsabilidade. E terceiro: não quero que uma hora alguém bata na porta e você tenha que lidar com Max do outro lado ou com tudo que Judith representa.
Estava com o batom a meio caminho da boca, mas parei, me virando para encará-la.
— Sabe que eu não tenho nenhum ressentimento contra sua filha, não é? Ela não tem nada a ver com o que você e Max fizeram, não tem nada a ver com a minha situação. Nunca usaria nada do que aconteceu contra ela nem agora nem no futuro.
— Sei disso. Não estaria aqui se não soubesse. — Ela desviou o olhar. — Sempre foi uma pessoa melhor do que a maioria de nós, então não quero te causar mais dor do que já causei. Você era minha melhor amiga, minha única amiga. E eu joguei tudo isso no lixo. Não tem um dia que eu me arrependa do que aconteceu. Preciso que saiba disso.
Assenti com a cabeça porque havia um bolo na minha garganta.
Rebecca soltou uma respiração trêmula:
— Vou deixar você terminar de se arrumar. — Ela forçou um sorriso. — Mas saiba que antes que você possa abrir a boca, o possível velhote já vai estar babando no chão.
•
Rebecca estava errada.
Não só na parte que alguém ficaria babando por mim.
Mas porque meu entrevistador não era um velhote. Não era nem alguém insuportável do RH.
Era o próprio CEO da empresa e, meu Deus do céu, ele era o cara mais bonito que eu havia visto pessoalmente.
Meu coração se revoltou dizendo: Pare de gracinha, você já conheceu bem demais outro cara bonito assim, trabalhou ao lado dele por cinco anos. Tome vergonha na cara.
Ok, ok, aquele cara é um dos dois caras mais bonitos que eu já havia visto pessoalmente.
Ele simplesmente passou pelo corredor desejando boa tarde e lançou um sorriso de arrasar corações para mim e outros possíveis dois candidatos que também estavam esperando.
A menina, que aparentava ter uns 17 anos no máximo, estava hiperventilando e o garoto ajeitou sua postura quase que imediatamente.
A moça que nos recepcionou anunciou que ele iria nos entrevistar e eu tinha certeza que a menina acabaria desmaiando no meio da entrevista se ele sorrisse assim novamente.
— Vocês têm sorte. O senhor Marchand pode ser o CEO, mas é a melhor pessoa que poderia entrevistar vocês.
SEBASTIAN
Os jantares em família estavam sendo pura tortura.
Minha mãe ainda estava meio brava por não ter sido informada sobre o acordo entre mim e Olivia no começo de tudo e pela minha capacidade de mentir sobre um assunto tão sério na cara dura.
Meu pai tentava suavizar as coisas indicando que eu provavelmente já devia ter interesse em Olivia para aceitar um acordo daqueles, o que era um ponto assustadoramente certeiro.
Eu, por minha vez, não falava nada.
Estava me esforçando para entrar no mínimo de assuntos possíveis sobre ela. Porque quando Sartori aparecia na minha mente, era difícil tirá-la de lá.
A tentação de pegar seu celular e mandar uma mensagem era demais. Ou ligar de um número desconhecido apenas para ouvir a sua voz. Ou aparecer em sua porta.
O aniversário dela seria em algumas semanas e eu ainda não sabia se deveria mandar seu presente quando estivesse pronto ou se deveria esperar para quando tudo aquilo tivesse se resolvido.
Eu precisava me manter firme; ainda não tinha conseguido nada que me levasse em algum lugar sobre o meu caso e o de Olivia no sistema da empresa. Porém, encontrei algumas outras coisas bastante interessantes.
— Por que ainda está com esse anel no dedo?— meu pai questionou, dando uma garfada na comida.
— Está preso. — menti e minha mãe estreitou os olhos para mim. — O que foi?
Dona Cecília ajeitou a postura e disse para o meu pai:
— Ainda acho que tem algo muito estranho com Olivia cancelar a cerimônia. — Suspirei, me afundando na cadeira. Ela continuou: — Eloise era uma bomba relógio e além disso era imprevisível. — Minha mãe apontou para mim. — Eu lembro muito bem de te dizer isso quando me contou que vocês iam se casar.
— Obrigado por refrescar a memória de todos nós. — Assenti, murmurando.
— Estou falando sério. Olivia é uma mulher centrada, planeja as coisas muito bem, como eu. Não parece ser uma pessoa impulsiva. E quando conversei com ela, Caleb, antes de tudo acontecer... não acho que ela estava mentindo sobre amar Sebastian. Ninguém é uma atriz tão boa assim.
— Será que a gente pode, por favor, parar de falar sobre Olivia? — Fiz uma pausa. — Não é como se eu não tivesse tentado entender a situação, está bem? Tudo o que eu faço desde que voltei para casa é tentar entender o que aconteceu, mas cada vez que acho que estou perto de entender, descubro que não faço a mínima ideia. Então, sim, eu sei que nada disso faz sentido. Sei que pareço um idiota de coração partido, mas estou tentando entender. Ironicamente, o único momento em que acho que estou fazendo progresso é quando não passo vinte e quatro horas pensando nela. Se a gente puder sentar aqui, jantar e falar sobre qualquer outra coisa, eu agradeceria.
Meu pai colocou uma mão reconfortante no meu ombro e eu voltei a comer.
— Vai ficar tudo bem. — Ele olhou com carinho para a minha mãe. — Às vezes a gente só precisa ser paciente, o que é nosso, sempre volta. Não esqueça disso.
•
O amigo de Mia conseguiu ir nos confins mais longínquos e confidenciais da B&T, ou melhor, do senhor Boscher.
Na parte do sistema encontramos várias referências sobre acordos entre funcionárias que saíram da B&T sem mais nem menos. Apesar de estarem classificadas como demissões comuns, todas elas recebiam direitos como se tivessem sido demitidas ou até mais.
Era o caso de Olivia, aliás.
O que não fazia o menor sentido, considerando que aquela era uma empresa que nem mesmo se importava com uma bonificação de fim do ano para os funcionários, como Sartori havia me contado no início da nossa viagem.
Então resolvemos ir mais além, o amigo de Mia de alguma forma achou um caminho até o e-mail corporativo do meu chefe.
Ele disse que levaria alguns dias até achar algo que pudesse me interessar e que tivesse inclusive sido apagado recentemente.
Eu tinha certeza que estaria muito encrencado caso alguém descobrisse aquilo e deixei bem claro para Mia — que estava participando de todo o processo — que se ela quisesse manter seu emprego teria que parar de se envolver imediatamente, ao passo que ela apenas me olhou e falou:
— Não é como se fosse meu sonho continuar sendo sua assistente.
Sartori estaria orgulhosa.
OLIVIA
Quando foi a minha vez de entrar, minhas mãos não estavam mais suando.
Eu era uma boa profissional que tinha se formado como uma das melhores alunas e que tinha trabalhado com muito empenho nos últimos cinco anos em uma das empresas mais respeitadas do ramo.
Não tinha porque sentir medo. Daria o melhor melhor.
Entrei na sala pedindo licença e o homem levantou a cabeça para me olhar:
— Senhorita Sartori, certo? — Assenti e ele se levantou estendendo a mão para me cumprimentar. — Benjamim Marchand, prazer.
Seu aperto era firme e, claro, tinha uma aliança dourada e bem reluzente na mão esquerda.
— Fique à vontade. — Ele indicou a cadeira e eu sentei.
Os olhos castanhos dele tinham uma nuance dourada cativante. O senhor Marchand analisou meu currículo impresso por alguns minutos enquanto eu analisava seus porta-retratos.
Havia vários deles. A maioria das fotos ele estava acompanhado por uma mulher de cabelos ruivos que deveria ser sua esposa.
— Senhorita Sartori, nós dificilmente contratamos pessoal nessa época do ano. Os dois candidatos que estavam lá fora, apesar de serem para uma função diferente da sua, estão fazendo testes desde o semestre passado, essa foi a entrevista final de cada um. — ele começou, apoiando o papel na mesa novamente.
— Entendo. Para ser honesta eu não estava planejando estar sem um emprego à essa altura, mas algumas situações me fizeram... repensar se eu estava num lugar correto.
— Pelo que vi, aqui diz que o seu cargo era de supervisora do setor financeiro, mas depois de quatro anos e meio, você resolveu sair de uma empresa grande como a B&T, de um cargo consolidado, para voltar a ser uma estagiária, recebendo um terço do seu salário anterior?
Respirei fundo.
— Meu cargo se juntaria ao de supervisor criativo e iria para outro funcionário, eu seria realocada para outro setor mais abaixo e que eu não via perspectiva de crescimento. Pensei que tentar outros lugares seria a melhor escolha.
Benjamim assentiu, cruzando as mãos sobre a mesa.
— Não me leve a mal, mas como deve saber a B&T, querendo ou não, é uma rival comercial da Hensey Comunicações, então para mim é um pouco suspeito quando pego um currículo como o seu, com uma ótima formação, anos de empresa e resultados que, por sinal, ajudaram a B&T a continuar sendo nossa concorrente direta, querendo uma mísera vaga de estágio.
Entendi o que ele estava querendo dizer, parecia realmente ridícula toda aquela situação. Eu poderia muito bem estar querendo ser infiltrada na empresa concorrente.
Estava prestes a abrir a boca, mas o senhor Marchand continuou:
— Chegou a ler a carta de recomendação que o próprio Boscher escreveu? — Na verdade, eu não tinha lido. Tudo que me lembrava da existência daquele homem me enojava profundamente. — Ele tece elogios a você na maior parte, mas insiste em ignorar todos os seus resultados. Tem um tom quase passivo-agressivo. Vai perceber que sou muito envolvido em tudo o que acontece em cada canto dessa empresa, então como funcionária em potencial, fui atrás do seu desempenho nesses últimos anos e, ou ele realmente não estava nenhum pouco acompanhando seu trabalho ou se recusa a reconhecer suas conquistas. Se você enviou essa carta para outras empresas e não obteve respostas, é compreensível. Ela é bastante...ambígua na opinião dele sobre você e seu trabalho.
Aquele desgraçado...
— Eu... não sei nem o que dizer, senhor Marchand. Posso garantir que dei o meu sangue por aquela empresa e pretendo fazer o mesmo seja na Hensey ou em qualquer outra. — Juntei minhas mãos sobre o colo, tentando fazer com que elas não tremessem de raiva. — Ouvindo o senhor falar, não tem como não entender essa situação como sendo estranha, mas não deixei nada pendente na B&T, muito menos tenho laços vigentes com a empresa. Só preciso de uma oportunidade. Uma chance. Se precisar que eu faça diversos testes ou entrevistas, estou disposta.
Benjamim Marchand se recostou na cadeira, balançando a caneta que tinha em mãos.
Sua figura larga quase cobria todo o encosto.
— Está bem. Acho que eu já falei bastante para uma entrevista baseado no que pesquisei, é a hora de você me dizer quem é a profissional Olivia Sartori. Venda seu peixe. — Ele gesticulou.
Então eu vendi.
E vendi tão bem que fiquei orgulhosa de mim mesma por não gaguejar nem corar sob o olhar atento do meu, se Deus quisesse, futuro chefe.
O senhor Marchand falou que teria uma resposta na tarde seguinte e quando o telefone tocou com uma resposta afirmativa, Rebecca teve que segurar meu braço para que eu não tivesse um treco.
Olivia Sartori tinha acabado de entrar em uma das maiores empresas do país.
Olivia Sartori estava de volta
Minha vida estava voltando aos eixos.
E ainda assim, enquanto Rebecca disse que iria comprar uma bebida para comemorar, eu me peguei olhando para o meu celular.
Para o contato da única pessoa que eu daria tudo para que estivesse ali comigo naquele momento.
Para a única coisa que faltava na minha vida.
Sebastian.
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