Contrato de Casamento
7 Sete
Notas iniciais
"If you knew what you put me through."
(I Want)
SEBASTIAN
Minhas mãos estavam suando e eu parecia um idiota.
"Respire fundo e fique calmo."
A caixinha pesava no bolso interno do meu blazer.
Pelo lado de fora do vidro do restaurante, eu podia ver seus cabelos pretos que estavam chegando até a cintura enquanto Eloise apoiava os cotovelos na mesa olhando para os lados.
Me procurando.
Meu coração começou a bater tão forte no peito que eu estava começando a ficar com falta de ar.
Era um dia incrível.
O último dia do semestre da faculdade, a empresa que eu estava de olho e que finalmente me chamou para uma entrevista, havia me ligado e disse que tinha um grande interesse em mim.
Como estagiário, mas ainda assim... Era um trabalho meu, um mérito meu.
Não iria precisar me matar entre as cafeterias do campus para conseguir um trocado ou pedir mesada para meu pai.
Poderia oferecer algo para Eloise. Um futuro.
Empurrei a porta de vidro com gentileza, mas ela me encontrou com os olhos em menos de um segundo.
Sempre tivemos essa conexão.
Um sorriso cobriu os meus lábios e o recepcionista falou alguma coisa que eu não ouvi.
Ela estava linda. Era linda.
E era minha.
Ou pelo menos, eu achei que era.
Foi um dos meus erros mais humilhantes:
Acreditar que era real.
O toque do meu celular me despertou das lembranças que o anel — que eu admirava em volta do meu dedo — desencadeou.
— Meu Deus, ela é uma gata. — Foi a primeira coisa que Hunter falou quando atendi sua ligação. Respirei fundo. — Posso dar em cima dela?
— Sério mesmo? — Abaixei minha mão, me levantando para analisar a bagunça do meu quarto.
— Quer dizer, o noivado de vocês é de mentira. Eu poderia ir preparando o terreno para quando vocês se sep...
— Pelo amor de Deus, cale a boca.
— Hmmmmm. — meu amigo disse com voz de desdém do outro lado da linha.
— Hmmm, o que, caralho? Quer dar em cima da Olivia? Fique à vontade, só não precisa me contar os detalhes.
Hunter começou a gargalhar do outro lado da linha.
— Só estava brincando com você, mas, depende. Ela é mesmo gata. Aquela expressão séria, os lábios desenhados, a postura impecável. Ela tem um charme meio mandão tipo Christian Grey.
Rolei os olhos.
— Christian Grey? Sério mesmo?
— Sério. Meio dominatrix... Será que ela curte BDSM?
Não consegui conter uma risada, mas ela sumiu bruscamente assim que a imagem — um tanto vívida demais — de Sartori usando uma roupa de látex e com chicote na mão preencheu a minha mente.
Engoli em seco e sacudi a cabeça.
— Você é doente. Não quero saber nada sobre suas fantasias sórdidas com a minha noiva de mentira, que além disso é minha colega de trabalho.
Meu amigo fez um barulho de decepção, mas deixou a provocação para lá.
E quando ele o fez eu quase desejei que voltasse para aquele papo indecente e perturbador sobre Sartori de novo.
— E aí como você está se virando nessa situação toda? — Hunter falou sério dessa vez. — Imagino que não esteja sendo fácil lembrar de todos os...planejamentos.
Dei de ombros, ainda que Hunter não conseguisse me ver. Tentei focar na minha mala quase estourando de roupa.
Qual era a roupa adequada para ir ao fim do mundo?
— Está melhor do que eu imaginava. Além disso, não é como se eu pudesse escapar disso. — comentei, sentando em cima da mala. — Olivia deu o primeiro passo, mas se não fosse com ela eu teria que arranjar outra pessoa.
— Conheço uma pessoa que adoraria ser a pessoa que você arranjaria. — Hunter pontuou.
— E por isso mesmo, ela seria a última da lista. — suspirei, forçando o zíper. Se aquilo explodisse e fosse parar na testa de alguém, era morte na certa. — Não quero machucar ninguém, por isso Olivia é a pessoa perfeita. Ela é prática, pragmática, lógica e, acima de tudo, tem tanto interesse em mim quanto eu tenho nela. Tudo vai dar certo e esse episódio vai servir para dar umas boas risadas no futuro.
— Amém.
OLIVIA
— Meu braço está doendo, mãe.
Minha mão estava estendida na frente da câmera do celular, o anel que Sebastian havia escolhido brilhava no meu dedo.
Algumas horas depois de eu chegar em casa, o porteiro anunciou que tinha uma encomenda para mim e desci para buscar.
Quase matei Sebastian quando notei que ele havia pagado tudo sem me consultar.
Tentei ligar, mas ele sabiamente não me atendeu.
Mandei uma mensagem desaforada para ele, que apenas respondeu um.
Relaxa, hoje estou no humor
de fazer caridade para pobres.
E depois você pode me pagar de outra maneira,
já disse.
Como por exemplo fazendo massagem
nos meus lindos pés durante a viagem.
Beijos de luz
Sério, que tipo de cara irritante e insuportável, mandava "beijos de luz" no final de uma mensagem?
Assim que testei o anel, que estava cabendo perfeitamente no meu dedo, tirei uma foto e mandei no grupo da família.
Naturalmente, dois segundos depois, meu celular começou a gritar anunciando uma chamada de vídeo.
— Ele é lindo, querida! — minha mãe disse, batendo palminhas. —Era do jeito que você imaginava?
Abaixei a mão, mas analisei meus dedos sobre o meu colo.
Claro, do jeitinho que eu imaginava que Sebastian imaginaria para mim.
Respondi à minha mãe apenas assentindo com a cabeça.
Apesar de tudo, não dava para negar que Sebastian tinha bom gosto.
— Pai, você está muito calado. — Observei ao voltar a olhar para a tela.
Ele deu de ombros.
— Eu gostava da época que os pais tinham uma opinião para dar sobre os companheiros dos filhos antes deles se comprometerem de verdade.
Ah, eu sabia que ele ficaria puto por isso. Éramos bem parecidos.
Suspirei:
— Era como eu também queria que tivesse acontecido, papai. Só que você sabe como minha rotina é corrida na empresa, a de Sebastian é exatamente igual. Além disso, foi tudo muito rápido para nós também.
Será que Deus um dia perdoaria minha capacidade de mentir com tanta facilidade?
Acho que era tarde demais para pensar sobre isso.
Meu pai lançou um olhar afiado do outro lado da tela:
— É, eu sei. Num mês você amaldiçoava até a sétima geração do garoto pela irresponsabilidade dele, agora estão noivos. É uma mudança bem significativa.
— Eu sei, eu sei. — E agora vinham mais mentiras. — Nos aproximamos muito nos últimos meses, descobrimos algumas coisas em comum e... Sebastian é legal, você vai ver. Nós...nos gostamos muito.
Minha mãe inclinou a cabeça um sorrisinho bobo.
— Claro que se gostam. Sabemos como você leva a sério relacionamentos. Não entraria em algo em que não acreditaria, em algo fadado ao fracasso.
Um riso nervoso saiu da minha boca, junto com um:
— Claro que não.
SEBASTIAN
Um som estridente soou na minha cabeça e definitivamente não era meu alarme.
Esfreguei os olhos enquanto a campainha mortal estourava as bolhas de vontade de viver dentro de mim.
Ouvi o som de uma chave sendo enfiada na porta do apartamento.
Fiquei alerta no mesmo instante.
— Mas que por...
— Eu não acredito! — uma voz que eu nunca esperei ouvir dentro da minha sala, berrou.
— Olivia?
— Sebastian! —falamos ao mesmo instante. — Você sabe que horas são?
Apertei os olhos tentando focar minha visão no ambiente obscurecido pelas cortinas.
Claro que Olivia foi em cada uma delas e abriu sem cerimônias, me deixando temporariamente cego.
— São. Dez. E. Meia. Da. Manhã. — ela disse pontualmente enquanto quase arrancava os tecidos do varal. — Estou te ligando desde as cinco horas! Horário que a gente deveria estar saindo daqui.
Meus olhos se acostumaram o suficiente para notar algo completamente bizarro:
Olivia sem suas roupas sociais.
O cabelo estava preso num rabo de cavalo e seu rosto não tinha quase maquiagem alguma, exceto pelo gloss.
Ela usava uma camiseta simples por baixo de um macacão estilo jardineira jeans que ia até seu calcanhar.
Deus, que sonho doido é esse?
Quando Olivia percebeu que eu estava parado no meio da sala, sem intenção de me mover, ela apertou o nariz.
— Você pretende colocar uma roupa no corpo para podermos sair hoje, ou daqui a dois meses tá bom para você?
Foi só então que eu reparei que estava usando apenas uma cueca samba canção — a primeira coisa que eu vi na minha frente depois de tomar banho para expurgar pensamentos do passado da minha mente, e cair na cama.
— Seu humor é péssimo de manhã.
— Você deixa meu humor péssimo. — Ela fez uma pausa e eu pude perceber que ela tentava olhar para qualquer canto da minha sala que não fosse para mim ou para o meu corpo. — Pelo menos, suas malas já estão arrumadas, né?
Dei um sorrisinho amarelo, apontando para o canto do cômodo onde uma mala estava explodindo e a outra aberta com metade das roupas dentro.
— Minha Nossa Senhora, Ferrante. Você tem 5 segundos para sair da minha frente e ir se arrumar.
Bati continência e estava quase me virando para voltar ao meu quarto quando algo me veio a mente.
— Como você conseguiu entrar aqui?
Ela me olhou incrédula:
— Você deixa sua chave reserva embaixo do seu tapetinho, o lugar mais óbvio e idiota que alguém poderia escolher, Sebastian. Eu conheço você.
Coloquei as mãos na cintura, ofendido.
Seu olhar a traiu e desceu um pouquinho além do meu pescoço.
— Deve ser por isso que você não tem um namorado. Você deveria invadir a casa de todos eles e roubar a vontade de viver de cada um.
— Vá. Se. Vestir. Ou invadir sua casa não vai ser o único crime que eu vou cometer essa manhã.
OLIVIA
Eu precisava admitir que estava curiosa para saber se tinha alguém no quarto com Sebastian, mas logo presumi que provavelmente não.
Não com ele vestindo aquela samba canção...broxante.
Pelo amor de Deus, aquelas duas semanas arrancariam duas décadas da minha vida, eu tinha certeza.
Respirei fundo e fui até suas malas.
Aquele pesadelo que ele chamava de bagagem. Abri a que estava "completa" e comecei a tirar tudo de dentro para arrumar novamente.
Sério, eu devia ter explodido a cruz com uma granada para ter que estar arrumando a mala de um marmanjo que não tinha nenhuma ligação real comigo.
Ele não dobrou as roupas, ele embolou tudo e socou dentro daquela maldita mala.
Por tudo que é mais sagrado.
Consegui acabar de arrumar a segunda mala quando Sebastian apareceu no corredor.
Vestindo uma camiseta com dois botões abertos, uma calça jean que já viu dias melhores e com o cabelo arrumadinho.
— Parece que você vai para aqueles shows hétero top ouvir sertanejo universitário.
— Não é isso que vocês do interior ouvem? — ele provocou.
— Vai se ferrar. Você deveria ser bonzinho e me agradecer por arrumar esse monte de lixo na sua mala.
— Obrigada, mamãe. — Ele piscou para mim.
— Por que você faz tudo soar inapropriado e malicioso? — questionei empurrando a mala de mão para cima dele. — Pegou tudo?
— Talvez sua mente que seja podre, Sartori. Talvez seja só seu desejo oculto de querer ouvir minha voz maravilhosa falando sacanagem para você. — Sebastian disse se inclinando na minha direção.
Fiz uma careta:
— Nojento! Pegou tudo? — repeti.
— Quase tudo, ainda não me devolveu minha vontade de viver.
— Cada vez que tento odiar você menos, meu ódio aumenta. — comentei, arrastando sua outra mala até a porta.
— Isso é bom. Não corre risco de você quebrar a cláusula do contrato que te impede de se apaixonar por mim.
— Você está tão apegado a essa cláusula que estou começando a pensar seriamente se não ela não é apenas para disfarçar que é mais provável você se apaixonar por mim.
Ele bufou.
— Aposto que isso seria mais aterrorizante para você do que para mim. Imagina só eu todo de frufru para o seu lado, gaguejando e com os olhinhos brilhando.
— Você tem o dom de criar fobias em mim. Por favor, não se apaixone. Talvez também devesse ter posto isso no contrato para me resguardar.
Passei pela soleira e peguei o capacete que tinha deixado na entrada.
— O que é isso? — Sebastian perguntou quando entramos no elevador.
— Um capacete. Jurava que seu intelecto era maior.
— Engraçadinha. Por que você está com um capacete?
— Porque eu vou te guiar pelo caminho.
— De moto?
— Não, dentro de um carro de fórmula 1. Claro que de moto, Sebastian.
Ele parecia chocado.
— Você dirige uma moto?
— Sério, onde você quer chegar?
— Você não parece o tipo de mulher que anda de moto.
— E é por causa disso que sua tentativa de tentar me entender é uma piada.
Sebastian bufou e as portas do elevador se abriram. Nós dois saímos na garagem.
— Para. Vai me dizer que tem uma tatuagem também? — Apenas olhei para ele, sem expressão. — Onde?
— Não é da sua conta.
—É em um lugar íntimo?
— Não é da sua conta.
— Uma pimentinha na virilha?
— Que brega.
— Uma marca de beijo no bumbum?
— Sério, que tipo de pornografia você anda assistindo?
— Uma cobra embaixo de um seio.
— Já acabou?
— Estou pensando em mais lugares escandaloso.
—Pois então pare.
—Está bem, está bem. Mas você vai ter que prometer que vai me contar antes das duas semanas acabarem, que tal?
Me virei para Sebastian com um sorriso falso.
— De jeito nenhum. Agora entre no carro e vamos embora.
SEBASTIAN
Quando Olivia disse que tinha uma moto, eu estava imaginando uma scooter ou algo do tipo. Não uma daquelas moto monstros que o pessoal usa na televisão.
— Não me diz que você usa aquelas roupas coladas para pilotar.
Sartori olhou para mim e, embora suas palavras fossem sarcásticas, suas feições eram sérias como sempre.
— Só em ocasiões especiais. — Ela olhou em volta. — Qual desses é o seu carro?
Apontei.
— Qual dos dois? O bonitinho ou a pick-up?
— Os dois?
Ela me deu um dos seus olhares sem expressão que de alguma forma conseguia expressar 84 tipos de ódio diferentes.
— Você anda desviando dinheiro da empresa, né?
Eu comecei a gargalhar.
— Vou te denunciar por calúnia.
Olivia deu de ombros.
— Que seja, já escolheu com qual você vai, burguês?
— A pick-up.
— Depois a caipira sou eu.
— Nunca te chamei de caipira. Ainda. Só de pobre.
Ela gesticulou para os dois veículos:
— E agora eu entendo o porquê. Vamos, coloque suas malas no carro que ainda temos que passar para pegar as minhas, já que você resolveu não aparecer para me buscá-las como combinamos ontem.
Abri o banco de trás e joguei as malas sem cuidado.
— Você sempre reclama tanto desse jeito? Anota cada erro cometido?
— Só com gente irresponsável que nem você.
— Sério, essa viagem vai ser a melhor das nossas vidas.— murmurei enquanto ela colocava o capacete e subia na moto.
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