Contrato de Casamento
4 Quatro
Notas iniciais
"You caught my attention,
You were looking at me first."
(Temporary Fix)
SEBASTIAN
Bati na porta de Sartori uma hora antes do expediente acabar.
Marco, teoricamente nosso assistente, parou ao meu lado tentando, sem sucesso, esconder o sorrisinho esperto que tinha no rosto.
— Pode falar, Marco. Se você mantiver tudo entalado na garganta pode se engasgar.
E, de fato, ele tossiu com minhas palavras.
— Desculpe, Sr. Ferrante. É só que eu acho que falo em nome de toda a equipe quando digo que o relacionamento de vocês foi uma surpresa bem grande para a gente. Ainda estamos desnorteados.
Marco deu outro sorrisinho.
Eu o encarei.
Ele remexeu um pouco os ombros, desconfortável.
Olivia deveria fazê-lo chorar todo dia no banho se um breve olhar meu o deixava incomodado.
— Não deveria ser uma surpresa porque, veja bem, não é da conta de vocês. — Voltei meu olhar para a porta e murmurei. — O que ela está fazendo?
Marco olhou para mim com expressão...estranha.
— Você já mexeu na maçaneta?
— Como assim mexeu na maçaneta? Não seria presunção tentar abrir a porta antes que ela confirme minha entrada?
O assistente balançou a cabeça.
— Não abrir a porta. Só mexer na maçaneta. — Quando franzi a testa sem entender, ele explicou. — Tem um chaveiro na maçaneta do lado de dentro que vai chamar a atenção da Srta. Sartori quando eu mexer. Ela gosta de ouvir audiobooks e podcasts, às vezes, e ninguém consegue fazê-la ouvir nada com aqueles fones. — Marco fez uma pausa e, era impressão minha ou ele colocou uma dose extra de sarcasmo na voz ao dizer: — Porém, com certeza, isso você já sabia, sendo namorado dela e tal.
Abri e fechei minha boca algumas vezes.
Queria dar uma resposta engraçadinha, mas Olivia poderia me fazer pagar por isso depois.
E quem eu tinha me tornado se já estava pensando no que Sartori acharia ou não do que eu falasse?
Dei um sorriso irônico para Marco, prestes a retrucar quando a porta se abriu.
— Ótimo, tenho seguranças na minha porta agora. — Sartori disse como cumprimento olhando de mim para Marco, mexendo no fone de ouvido sem fio na sua orelha e arrancando o café das mãos dele. — Obrigada.
Ela abriu a porta mais um pouco para que eu entrasse e então viu o assistente continuar parado na soleira.
Olivia lhe lançou um olhar frio e deu o toque final arqueando a sobrancelha.
Era o olhar que dizia, da forma mais hostil, "cai fora".
Eu sabia porque era o que ela geralmente me lançava.
Dei um tapinha empático no ombro de Marco, então ele deu um passo para trás e Olivia fechou a porta na sua cara, sem cerimônia.
Ai.
— Por que você é tão grossa? — eu disse, girando no lugar enquanto analisava o espaço minimalista que ela chamava de sala.
— Porque sou comprometida com meu trabalho e, como você não sabe o que é isso, acha que é grosseria. — Sartori explicou voltando a sentar atrás da sua mesa.
Sério, era praticamente impossível que nossas salas tivessem o mesmo tamanho.
Eu nem conseguia andar com os ombros retos na minha, ali se eu quisesse praticar ioga com mais 5 pessoas eu conseguiria.
Poucas vezes, eu entrei na sala de Olivia. E na maioria das vezes estava ocupado demais discutindo com ela para prestar atenção.
Naquele momento, no entanto, eu escolhi esperar para morder a isca da sua provocação.
Estávamos tecnicamente noivos, então eu deveria prestar atenção nas coisas sobre ela o quanto antes.
O que, depois de poucos segundos, se mostrou uma tarefa inútil, pelo menos naquela sala.
Nada de retratos, quotes motivacionais, souvenir de algum ex-namorado. Eu me perguntava o que tinha acontecido com o seu noivo...
A sala era num tom monocromático, sua mesa ficava no meio de tudo, com um computador, dois celulares, um tablet, um recipiente para canetas, um protetor de copo e a caixinha dos fones de ouvido.
Coisas que poderiam ser de qualquer pessoa, coisas que se ela tivesse que sair da empresa amanhã, não havia dúvidas que não seria muito difícil deixar tudo para trás e comprar exatamente os mesmos objetos básicos cinco segundos depois.
Franzi a testa.
Eu tinha a leve impressão que na última vez que estive ali, o que já fazia alguns meses, a sala não parecia tão impessoal.
Bem, nada daquilo interessava de verdade para mim então decidi não me importar em saber se minha memória estava certa.
— Sou muito comprometido com o meu trabalho se quer saber.
— Não quero. — ela retrucou sem emoção. — Aliás, se você realmente fosse, eu não estaria aqui tentando remanejar praticamente uma semana e meia de atraso que você conseguiu realizar nos quatro dias que eu fiquei fora. Não teria que fechar a porta na cara de um funcionário porque ele tem milhões de tarefas para fazer e prefere ficar xeretando minha vida e a sua.
Fiz um gesto displicente com a mão embora ela não estivesse nem olhando para mim.
— Você deveria estar pronta. O cartório vai fechar.
— Eu estou ciente. — Olivia disse sem tirar os olhos do monitor. Pela iluminação do rosto tela percebi que ela tinha desligado a máquina. — E estou pronta.
Ela pegou o copo de café e tomou um longo gole.
— Se você já ia sair, por que fez o garoto comprar um café para você?
— Porque ele estava me devendo um café e o lado da cidade onde fica o cartório, não vende do jeito que eu gosto.
—Café misturado com o sangue de cinco primogênitos?
Sartori me encarou por um mísero segundo, que depois eu pensaria se imaginei, e abriu um sorriso feroz.
—Exatamente.
OLIVIA
Sebastian tinha ido para o trabalho de transporte público, o que, apesar de ser uma surpresa, significava que eu teria que dar uma de motorista para ele.
Chegamos no estacionamento depois de enfrentar um pequeno público desejando felicitações para nós e eu poderia jurar que ouvi uma teoria de que íamos nos casar tão rápido porque eu estava grávida e estávamos saindo mais cedo para fazer uma ultrassom.
Honestamente, eu não sabia o que seria pior:
estar num relacionamento de mentira com Ferrante ou estar num de verdade.
—Esse carro não combina nenhum pouco com você. — Foi o primeiro comentário de Sebastian quando chegamos na garagem.
Sua testa estava franzida como se estivesse olhando para um quebra-cabeça que ele achou relativamente fácil, apenas para descobrir que faltava meia dúzia de peças no final.
— Esse não é o meu carro. Eu aluguei no aeroporto, se não ia acabar chegando atrasada. — expliquei. — Moro a dois quarteirões daqui, não preciso de um carro.
— Consciente.
— Lúcida. — corrigi.— Levaria o triplo do tempo para eu chegar aqui de carro considerando esse trânsito infernal.
Eu entrei no lado do motorista e Sebastian no carona, jogando sua maleta de qualquer jeito no banco de trás.
Fiz uma careta e liguei a ignição.
Que Deus me desse paciência.
SEBASTIAN
O silêncio dentro do carro tão impessoal quanto a sala de Olivia era confortável.
Sério, será que a personalidade dela era tão fechada quanto as expressões que ela punha no rosto?
Está bem que aquele carro estava na mão dela a menos de vinte e quatro horas já que Sartori disse que o alugou no aeroporto, mas mesmo assim.
Não havia uma balinha jogada no aparador, um salto alto espalhado no tapete do banco carona, nenhuma bugiganga enrolada no câmbio..
Talvez eu realmente fosse o bagunceiro que Hunter alegava que eu era.
Milagrosamente não demorou muito para estacionarmos no cartório e muito menos para autenticar as vias.
Quando entramos de novo no veículo, ambos encarávamos nossas folhas.
— Está feito. — murmurei e Olivia apenas franziu a testa para o papel.
— Agora vamos pegar esse anel, voltar para nossas casas e dar a notícia para nossas amadas famílias.
Olhei para ela com os olhos estreitos.
— Por que estou ouvindo sarcasmo e hostilidade na sua voz? Quer dizer, mais do que o de costume.
— Porque vai ser super normal nós dois aparecendo do nada para nossos parentes e dizendo que vamos nos casar. Veja bem, quem vai acreditar que você vai se casar com alguém e quem vai acreditar que eu vou me casar num impulso?
Meu celular apitou no bolso.
Uma mensagem.
Li duas vezes. Mas não porque eu não entendi da primeira vez, foi só para planejar como seria meu sorrisinho para Olivia.
De alguma forma, ela captou no ar.
— O que foi? — ela perguntou secamente.
— Talvez meus pais já saibam...
— Talvez?
— É, bem, com certeza. Falei com meu melhor amigo Hunter sobre nosso plano e pedi para que ele anunciasse que iríamos nos casar em breve e...
Os olhos de Sartori se arregalaram e eu agradeci a Deus por ainda não estarmos em movimento.
— Como assim você contou para alguém o nosso plano? Você ficou louco? Qual parte da PRIMEIRA cláusula do contrato você não entendeu?
Olhei para a folha na minha mão novamente.
— Você digitou essa porcaria, Ferrante. — Olivia bradou.
Encolhi os ombros.
— Você que estava ditando, não prestei atenção no que eu estava escrevendo.
— Menti para minha melhor amiga por causa disso. — ela comentou incrédula.
— E eu tenho culpa de você ser uma péssima amiga?
— Sério, o que me impede de te matar?
Fiz uma cara reflexiva como se estivesse realmente considerando a possibilidade de ser assassinado.
— Algumas coisas... principalmente leis. E que eu sou bonito demais para morrer.
Sartori rolou os olhos e deu partida no carro.
— Às vezes eu esqueço porque tento fazer minhas interações com você na empresa serem mais curtas o possível.
— E ainda assim você entrou em um noivado de mentira comigo sem nem pensar duas vezes. Eu estou lisonjeado com a preferência... — aproximei meu rosto do dela e estreitei os olhos. — Ou seria desespero?
Ela não reagiu como eu esperava, ficou em silêncio e eu poderia jurar que Olivia a partir daquele momento começou a dirigir no automático.
Como se os pensamentos dela estivessem bem longe dali.
OLIVIA
Ou seria desespero?
Com certeza, era desespero.
Mas Ferrante não precisava saber disso.
Sempre achei Sebastian um idiota que eu deveria me limitar a falar o essencial, mas se ele era um idiota perceptivo aquilo poderia se tornar um problema.
Ele parecia ser o tipo de cara que gostava de estar em vantagem em qualquer coisa e se ele soubesse o quanto eu estava desesperada no prospecto de voltar para minha cidade natal, eu estava certa que ele acharia um jeito de usar aquilo contra mim.
Quando paramos no semáforo, eu virei o rosto para encará-lo a poucos centímetros de mim.
— Se você chama de desespero estar preocupada com a possibilidade de perder meu emprego de anos, então sim, estou desesperada. — um sorrisinho brotou no canto dos meus lábios. — Nem todo mundo pode ter um papai rico para recomendar a gente nos nossos trabalhos.
Sebastian piscou lentamente e sua expressão ficou séria. Foi aí que percebi que tinha acertado algum alvo escondido.
Bem, pelo menos estávamos empatados.
Ele analisou todo o meu rosto por alguns instantes como se estivesse medindo um oponente. Eu fiz o mesmo.
Seus olhos eram um pouco caídos, sua íris, uma mistura de marrom e um verde terroso que parecia que se qualquer um tentasse analisar demais acabaria um pouco hipnotizado.
Meus olhos desceram, passando pelo seu nariz, suas bochechas e seus lábios bem desenhados que estavam começando a se curvar num sorriso e...
— O sinal está verde.
Pisquei voltando a perceber todas as outras coisas à minha volta.
Droga.
Sebastian 2 x Olivia 1.
Mesmo que eu insistisse para irmos numa joalheria acessível relativamente perto de onde já estávamos, era óbvio que Sebastian tinha que ser exagerado e encher o saco até irmos parar do outro lado da cidade, em frente a uma joalheria que tinha o tamanho de um hipermercado.
— Por Deus, qual a necessidade disso? É só comprar um anel de bijuteria, vamos usar por no máximo três semanas.
Sebastian arrumava seu terno enquanto eu dava a volta no carro para chegar até ele.
— Você disse que seus pais não acreditariam no nosso relacionamento se não tivéssemos um anel. — Ele se virou para mim enquanto eu alisava minha saia lápis. — Pois bem, meus pais não vão acreditar na gente se você estiver com um anel da lojinha da esquina na mão e, confie em mim, minha família é muito observadora.
Respirei fundo.
Estava prestes a dar o primeiro passo quando senti a mão de Ferrante se juntar à minha.
Foi como um choque, seguido de uma sensação de paralisia e pânico que tomou conta do meu corpo inteiro.
Sua mão era grande e firme, mas não era grosseira. Era o aperto de alguém ágil e confiante.
Eu já havia visto Sebastian trabalhando nos projetos da empresa usando uma delicadeza e destreza nas mãos de maneira impressionante.
Mal percebi que ele havia quebrado meu estado catatônico e tínhamos começado a andar em direção às portas do local.
Meu olhar se alternava entre olhar para Ferrante e para nossas mãos unidas.
— Se você for agir assim toda vez que eu pegar sua mão, não vai ter uma pessoa que acredite na nossa historinha.
Sebastian tinha razão — por mais que aquelas palavras soassem amargas até mesmo na minha mente. —, mas era uma situação tão absurda e inimaginável que eu não poderia evitar aquela resposta do meu corpo.
Claro que toda a situação também não ajudava. Fazia um ano e meio que eu havia rompido meu noivado e, embora no começo eu tivesse tentado me distrair com outras pessoas, fazia um tempo que eu não saía com ninguém.
O fato de estar prestes a entrar numa joalheria à procura de um anel de noivado era um pouco nostálgica.
Max não havia comprado um anel de noivado porque era o anel de família que ele me dera.
— Está tudo bem, né? — Sebastian perguntou enquanto esperávamos alguém abrir as portas para nós.
— Sim, claro. — Testei encará-lo, apenas para perceber que também havia algo estranho em sua postura. — Você não é um daqueles caras que tem pavor de casamento, é?
Uma risada irônica escapou dos seus lábios.
— Um pouco tarde para perguntar isso, certo, minha amada? — Apenas arqueei uma sobrancelha sem pegar sua isca. Ele neutralizou sua expressão sarcástica. — Não, Sartori, não tenho aversão a casamentos. Nem a nenhum tipo de relacionamento, para falar a verdade.
O ceticismo era nítido em minha voz:
— Não é o que parece.
Ele deu um sorriso aberto para mim, mas de alguma forma eu ainda conseguia ver algumas sombras no fundo do seu olhar.
— Acho que nesse tempo juntos nós vamos descobrir que nada é o que parece.
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