Contrato de Casamento
49 Quarenta e Sete
Notas iniciais
"But you know what they say,
You can't help who you fall for."
(I Bet You Think About Me)
OLIVIA
Eu estava com Liz procurando por onde Sebastian poderia ter se metido com Lucy quando vimos uma aglomeração em volta da barraca de "Atire no Alvo".
Primeiro vi os gritinhos de alegria de Lucy e depois o topo da cabeça de Sebastian, olhei para Liz que também tentava analisar qual era o motivo daquela quantidade de pessoas em volta, e ela apontou para a segunda pessoa em destaque que eu não havia visto.
Max.
Antes que minha irmã pudesse falar qualquer coisa me enfiei no meio da multidão e observei Sebastian e Max batendo boca entre os tiros.
Encontrei Lucy em um instante.
— O que está acontecendo aqui, Lulu?
— Pedi para o tio Sebastian ganhar um ursão para mim e o tio Max ofereceu o urso e um milkshake de graça.
Bufei.
Aham, de graça para ele. Provavelmente eu pagaria com a minha saúde mental.
E o que Sebastian estava pensando ao entrar naquela competição idiota com Max, ele deveria saber que meu ex-noivo era a pessoa mais competitiva que pisou na face da Terra e que provavelmente aquilo não acabaria com um simples jogo de "Atire no Alvo".
Que Deus me ajudasse!
— Ele não tem uma filha para impressionar? — Liz murmurou, apoiando o queixo no meu ombro para espiar o torneio que se desenrolava à nossa frente.
A torcida tinha se dividido entre os fiéis puxadores de saco do Max e os tímidos novos fãs do forasteiro Sebastian.
— Eu vou lá tirar o Sebastian dessa.
— Nós amamos ver uma dama tirando o cavaleiro de armadura do perigo. — Liz deu um tapinha na minha bunda e eu a encarei para ela com uma expressão reprovadora.
Acotovelei o restante da multidão e me aproximei das costas de Ferrante.
Ele se preparava para atirar. Passei um braço por seus ombros:
— Que merda você está fazendo, Ferrante? — sussurrei ao pé do ouvido dele.
Sebastian virou a cabeça para me encarar e nossos narizes se encostaram.
— Gatinha! Veio me assistir ganhar?
—Vim te tirar desse circo, vamos.
Ele me olhou ultrajado.
— Melhor escutar, Ferrante. Deus sabe que Olivia não suporta que a desobedeçam. — Max disse com um tom de escárnio e as pessoas em volta nos acompanhavam como numa partida de tênis.
— Está vendo só? — Sebastian murmurou entredentes para que só eu ouvisse. — Ele continua te atacando. Eu tenho duas opções: acabar com ele nesse jogo ou dar um soco na cara dele. A escolha é toda sua.
Olhei por cima do seu braço e vi o risinho amarelo que Max lançava para nós dois, fiquei tentada a escolher a segunda opção por um momento.
Mas, no fim:
— Pelo menos, segure essa arma direito.
Sebastian deu um beijo na minha bochecha.
E errou nas duas rodadas seguintes.
— Isso é castigo, sabe. — O dono da barraca me chamou de canto. — Seu novo namorado chamou nossos jogos de trambique, trapaça...
Respirei fundo...
Claro que chamou...
— Pode me fazer um favor...? — me inclinei e fiz um pedido para o homem.
SEBASTIAN
— Sabe, Ferrante? Seria muito mais bonito para você desistir agora. Eu ganho o urso e serei caridoso o suficiente para deixar você comprar o milkshake para a pequena Lucy.
Faltavam três rodadas de seis.
Maximus já havia derrubado mais latas do que eu nas duas rodadas anteriores e eu havia ganhado a primeira rodada no que ele chamou de "sorte de principiante".
O que, para ser honesto, eu não duvidava que fosse mesmo o caso.
Acontece que derrubar aquelas latas pareciam uma tarefa muito mais difícil do que parecia ao longe.
— Sabe o que seria realmente caridoso e sensato, Max? Se fosse parasse de tentar forçar a ideia de que de alguma maneira ainda faz parte da família Sartori. Já pensou sobre isso?
Max riu.
— Eu estou aqui todos os meses do ano, Ferrante. Bem ao lado da família Sartori, desde que me lembro por gente. Acha mesmo que um visitante que eles acabaram de conhecer vai ter mesmo algum privilégio sobre mim? O que eu e Olivia tivemos pode ter acabado, mas acho que você não seria ingênuo para pensar que está realmente tomando meu lugar, seria?
Ele levantou uma sobrancelha para mim.
— Não faço questão de ficar na mesma posição de traidor, Maximus. — Me inclinei em sua direção. — Acha mesmo que se a família de Olivia soubesse toda a verdade você ainda teria algum lugar entre eles? Aproveite o tempo que ainda resta.
O ex de Olivia abriu e fechou a boca algumas vezes, antes de sussurrar:
— Isso foi uma ameaça?
— Não, mas fiz você sentir que foi?
— Rapazes, temos outras pessoas querendo jogar... — o dono da atração chamou nossa atenção, mas eu e Max demoramos para parar de nos encarar.
Ele colocou um sorriso descontraído no rosto e apontou para o canto da barraca onde tinha um ranking.
— Fale o quanto quiser, Ferrante. Mas seu nome nunca estará acima do meu.
Ele tinha razão, meu nome não tiraria o dele do primeiro lugar naquele dia. E Max teve sorte ao se afastar de mim depois que a última palavra saiu da sua boca porque dois segundos depois ouviram-se 11 disparos. Um atrás do outro.
As 10 latas comuns haviam sido derrubadas juntamente com a lata dourada que se movia freneticamente acima das outras, praticamente impossível de ser alvejada, mas que acabaria com a partida assim que isso acontecesse.
Todo mundo olhou para o corredor de pessoas que havia se aberto e no fim dele estava Olivia Sartori, a uns 7 metros de distância de nós, com a arma de mentira perfeitamente posicionada em seus braços.
Ela me encarou.
— Acabamos? — disse se aproximando.
Bem, depois daquilo, ela poderia ter me perguntado qualquer coisa e minha resposta seria exatamente o que ela queria ouvir. Nem que fosse a coisa mais absurda do mundo.
— Sim? — O que quer que Olivia tivesse visto no meu rosto, fez com que ela soltasse um risinho.
— Falei para você ajeitar o braço. E feche a boca, esqueci seu babador em casa. — A multidão que havia se aglomerado tinha começado a bater palmas e o dono da barraca falou algo com Sartori. — Isso, o ursão. E conserte seu ranking. Coloque Olivia & Sebastian. Tenho certeza que ficaremos ali por um tempo.
De alguma maneira, Max virou um plano de fundo desinteressante como deveria ser e Liz apareceu com a mini Olivia do lado, que admirava a tia como se ela fosse uma super-heroína enquanto ela lhe entregava o tal do "ursão".
Eu compartilhava do sentimento.
A irmã de Olivia deu duas batidinhas no meu ombro:
— Espero que tenha a precisão da mira dela em mente se algum dia pensar em fazer alguma coisa errada. E lembre-se de quem a ensinou foi o seu sogro.
— Pode ter certeza que isso é algo que não vai sair da minha cabeça enquanto eu viver.
•
— Você viu a cara de Max? — perguntei depois que Olivia entregou o milkshake de Lucy que parecia muito mais interessada em enforcar seu novo bichinho de pelúcia do que ingerir não sei quantas calorias com sabor de chocolate.
Olivia me guiou até uma das mesinhas altas e sentamos como dois adolescentes naqueles filmes de épocas dividindo o mesmo copo com canudos diferentes.
— Espero que esteja preparado. — Olivia comentou antes de sugar um pouco da bebida. — O quê? Acha que acabou? Que Max vai deixar por isso mesmo não ter conseguido provar que é melhor do que você? Me peguei pensando que talvez fosse melhor eu ter deixado você perder de uma vez.
Fiz uma cara feia.
— Ei! Eu não ia perder.
Ela me lançou um sorrisinho e limpou o canto da minha boca.
— Claro que não.
— Acredita tão pouco assim em mim?
— Digamos que acredito mais na minha mira. E não leve para o pessoal, tenho certeza que você é bom em outras coisas. Elas só não envolvem armas e mira.
Tirei meu canudo do copo e sujei a ponta do seu nariz.
— Tem razão, sou muito melhor em outras coisas.
Olivia riu.
— Por que 80% das coisas que você fala tem uma conotação sugestiva?
— A maldade está na sua cabeça, Sartori. — rebati, mas apoiei a mão no seu joelho descoberto sob a mesa. Acariciei sua pele.
— Ah, claro. Na minha cabeça.
— A propósito...— abaixei minha voz. — É demais dizer que achei muito sexy o que você fez?
— Mulheres e armas, quem imaginaria que isso poderia excitar um homem? — ela disse, jogando o cabelo para trás do ombro.
— A questão é que tudo em você me excita. — minha mão subiu alguns centímetros e Olivia pareceu perder as palavras por alguns segundos.
Sua mão pousou sobre a minha. Como se para me parar ou para me incentivar a ir além, eu não sabia.
E nunca cheguei a descobrir porque um segundo depois alguém parou na nossa mesa e falou "oi".
Porque esse alguém fez meu coração vacilar um pouquinho e fez a cor do rosto de Olivia sumir.
E porque esse alguém era Julie.
OLIVIA
— Julie. Julie! Oi... — minha voz soou estranha até para os meus próprios ouvidos.
Da lista de momentos em que eu havia sido pega desprevenida aquele estava no topo.
Primeiro, porque o cara ao meu lado, o cara que estava fazendo com que cada poro do meu corpo se arrepiasse havia dito que eu o excitava com tanta naturalidade quanto alguém que diz que o dia está ensolarado.
Segundo, porque a sensação ao ver Julie e ouvir sua voz me fazia imaginar que era como eu imaginava que um traidor sentia ao ser pego.
— Oi. — ela repetiu. Seus olhos digeriam a cena à sua frente. Eu e Sebastian, sentados lado a lado, dividindo o mesmo milkshake e eu não tinha certeza se o meu olhar desejo tinha sumido completamente no momento em que percebi sua presença.
Sebastian não parecia prestes a tirar a mão da minha perna, então fiz com que ele tirasse usando a minha.
Isso me rendeu um olhar dele, mas ignorei.
— A feira está belísisma. — Julie continuou, parecendo alheia ao mesmo desejo interno de entrar em autocombustão e virar pó. — Achei bem legal que todos da cidade ajudam todos os anos. É um trabalho muito bem feito. Sinto muito por não ter podido ajudar mais. Tive uns contratempos no trabalho e... — Ela deu uma olhada longa na direção de Sebastian. — E achei que atrapalharia menos ficando dentro do quarto.
— Você nunca atrapalha, Julie. — Sebastian comentou.
— Não? — ela inclinou a cabeça e qualquer um poderia ver que aquele "não" significava muito mais.
Minha mente me bombardeava com acusações.
O quão melhor que Rebecca eu era?
Me aproximei de Julie, lhe dei esperança e agora era eu sentada dividindo bebidas com o cara que ela amava e trocando flertes.
Senti minha garganta começar a fechar e tentei em vão controlar minha respiração.
Você é apenas uma hipócrita desleal.
— Olivia? — a voz de Sebastian soava ao longe.
Me virei para Julie:
— Por que não faz companhia para Sebastian? Lembrei que preciso trocar de turno com PJ na barraca de pescaria. — falei, levantando e quase me desequilibrei um pouco.
— Olivia. — Sebastian me estabilizou colocando uma mão nas minhas costas.
Ele me encarou e eu o encarei de volta.
Durante três segundos era apenas eu e ele ali novamente.
Pisquei:
— Preciso ir. — disse para ninguém em particular, mas Ferrante me soltou.
Antes de sair, fui para a mesa ao lado e dei um beijo na minha sobrinha, Liz me olhava como se quisesse começar a fazer perguntas — o que nunca era uma coisa boa —, mas a cortei dizendo que iria cobrir PJ.
Ao chegar na barraca de PJ, encontrei meu irmão conversando com ninguém mais, ninguém menos que Rebecca.
Limpei a garganta e Rebecca me olhou como se eu fosse um fantasma. Meu irmão não parecia nem um pingo abalado por me ver atrapalhar qualquer que fosse a conversa que eles estivessem tendo, o que fez com que eu ficasse mais aliviada.
Não sabia o porquê exatamente, mas o alívio estava ali.
— Olivia.
— Rebecca.
Ela me cumprimentou com a cabeça inclinada para o lado direito, além disso ela também usava um penteado estranho para aquele mesmo lado.
— Tá tudo bem?
Ela sorriu. Um sorriso puramente falso e forçado, mas que tentava a todo custo parecer feminino.
— Tá tudo sim! Preciso pegar Jude com a minha mãe. Se vocês me derem licença.
— O que foi isso? — perguntei para PJ depois que Rebecca já estava a muitos passos de distância.
Meu irmão apenas deu de ombros, mas pude perceber que não foi de uma maneira tão despreocupada assim.
— Vim aqui te liberar por alguns minutos.
Ele olhou para mim e depois para o relógio de pulso.
— Faltam ainda vinte minutos para seu turno.
— Considere um presente. — disse, empurrando-o.
— Soube que esmagou seu ex no "Atire no Alvo". Olivia e Sebastian em primeiro lugar. Romântico.
— As fofocas correm mais rápido do que um tiro, meu Deus. Agora caia fora daqui.
— Odeio ficar em dívida com você, sabia disso?
— Então acho bom já ir pensando em como vai me pagar.
PJ respirou fundo, mas deu a volta na barraca e eu pude ficar sozinha — pelo menos até o primeiro turista aparecer — e ter minha crise em paz.
SEBASTIAN
— Precisa avisar a ela que não precisa fugir ao me ver. — Julie disse, sentando no banquinho onde Olivia estava. — E você não precisa me olhar como se eu fosse uma assombração. Não vou causar nenhum barraco, se é disso que vocês têm medo. — ela se inclinou e pegou um canudo no balcão que estava próximo de nós. Deu um gole no milkshake. — Não é como se fosse uma surpresa ver os dois juntos. Pelo menos, não precisavam ficar naquela mentirinha de fingir que tudo isso é apenas pelo bem do acordo.
— Julie...
Ela me olhou com as sobrancelhas arqueadas.
— O quê, Sebastian?
— Não teve nada a ver com ela. — Abaixei a voz. — Quando nós... quando eu falei que nós não daríamos certo. Olivia não teve nada a ver com isso.
Julie riu, mas era uma risada sem humor.
— Não? Está certo. Você quer que eu acredite nisso. Mas para quê? Eu certamente não vou até ela para tirar satisfações. É para que eu não me sinta mal? Não precisa se preocupar com isso. Os sentimentos são meus e eu cuido dele.. Afinal, quando você decidiu que não daríamos certo, foi uma decisão bem unilateral, não foi? Meus sentimentos não foram levados em consideração.
— Um lado não pode sozinho fazer um relacionamento dar certo, Julie. — minha voz era calma e contida.
Vi pelo canto do olho Liz levantar com a filha e deixar a lanchonete — não antes de lançar um olhar de aviso para mim.
Agora só havia eu, Julie, um casal de idosos e o atendente atrás do balcão no estabelecimento.
— Você nem tentou, Sebastian. — Mesmo sem ninguém por perto, ela abaixou a voz. — Nós ficamos juntos, o quê? Metade de uma semana? Uma metade de semana que você nem mesmo se dava o trabalho de querer encostar em mim.
— Não seria justo com você.
Ela riu novamente.
— Porque é bastante justo você terminar comigo e cinco segundos depois estar agindo como se realmente namorasse Olivia pelos últimos cinco anos.
Passei as mão pelo rosto.
— Toda essa situação é uma merda, Ju. Eu machuquei e continuo machucando você, quando tudo o que mais queria era fazer o oposto. Eu estava confuso, você sempre esteve ali para mim, nos meus piores momentos. Achei que talvez fosse um sinal e...
— Você só queria fugir. Eu era sua válvula de escape. Não queria encarar o que sentia por ela embora insista em dizer que Olivia não tem nada a ver com o que se passou entre nós. Mas você está fazendo aquilo de novo.
Respirei fundo.
— Fazendo o quê?
— Colocando uma mulher como centro do seu mundo. E quando tudo começar a ruir, vai ser você que vai sofrer o maior impacto de novo. E vai ser eu que vou estar aqui. De novo.
Julie se levantou.
— Pode me dizer que não daríamos certo, Sebastian. Pode dizer que não sente o mesmo que eu sinto por você. Só não olhe nos meus olhos e minta, dizendo que ela não tem nada a ver com isso.
Ela jogou algo em cima da mesa.
Um pequeno caderno com capa de couro.
— Como você...?
Tentei pegar, mas Julie o puxou e abriu em uma página aleatória.
— E esses nem são os mais antigos. Tem alguns que datam de cinco anos atrás, não é? Eles costumavam ficar espalhados no seu apartamento. Eu achei o rosto dela conhecido assim que a vi pessoalmente pela primeira vez.— ela disse passando as folhas para que eu visualizasse os fragmentos de desenho que eu sabia de cor. — Já vi esse mesmo filme antes, Sebastian. E nós dois sabemos como ele acaba.
Julie fechou o caderno e só então me entregou.
Sem mais nenhuma palavra, ela me deu as costas e saiu da lanchonete.
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