Contrato de Casamento
45 Quarenta e Cinco pt. 1
Notas iniciais
"Would he please you?
Would he kiss you?
Would he treat you like I would?"
(I Would)
SEBASTIAN
Olivia sorriu. E sorriu.
Sorriu mais um pouco.
E, pelo visto, eu tinha dito a coisa certa porque ela inclinou a cabeça e apoiou no meu ombro.
Era engraçado que "a coisa certa a se dizer" não era nada ensaiado ou premeditado.
Era apenas a verdade.
Sua respiração batia no meu pescoço e eu me concentrava para não fazer nada idiota, me preocupava com a velocidade alucinante que meu coração batia no peito e se ela poderia ouvir.
— Alguma garota já lhe disse não? — Olivia perguntou baixinho. — Quando você tenta conquistá-las?
Ri um pouco, mas a memória que veio na minha mente não era nada engraçada.
Afinal, queria que Eloise tivesse me dito não.
Mas eu não arruinaria a noite de Olivia trazendo um fantasma para o nosso meio.
— Eu te faria a mesma pergunta, mas seria desnecessário. — provoquei e ela levantou a cabeça para me olhar com uma sobrancelha arqueada. Me inclinei para dizer ao pé do seu ouvido e pude jurar que Olivia estremeceu um pouquinho em meus braços. —Ninguém aqui consegue tirar os olhos de você.
Olivia virou a cabeça só um milímetro, a distância de nossos rostos era quase insignificante.
Meus olhos foram para os seus lábios e eles se moveram dizendo suavemente:
— Me julgando. Todos estão me julgando, Ferrante.
Eu não sabia como estava acompanhando o ritmo da música, minha atenção era monopolizada por Sartori.
O que não era algo novo.
Patricia estava certa: já havia passado da hora de admitir aquilo.
Pelo menos, para mim mesmo.
Eu sabia que aquilo era perigoso. A razão de eu me esforçar para ignorar.
Era um sentimento egoísta, sobretudo naquele momento.
Mesmo assim, por um ínfimo minuto de insanidade, deslizei a lateral do meu rosto no dela e inspirei:
— Nem todo mundo. — rebati baixinho.
Esperei que ela se afastasse, mas o que senti foram suas mãos apertando um pouco mais os meus ombros.
— Não preciso conquistar você, bobinho— comentou. — Já me disse sim ou não estaríamos aqui hoje.
Isso me fez rir um pouco e eu dei um beijo na sua bochecha.
— Tem razão. — Fiz menção de pôr de volta algum espaço entre nós, mas Olivia segurou o meu queixo, me forçando a encará-la.
Observei enquanto ela reparava meu rosto, como nunca havia feito antes.
— O que estamos fazendo, Sebastian?
Eu a encarei.
— O que estamos...
— Fazendo, isso. O que estamos fazendo?
Não havia nenhum traço de irritação no rosto dela, a pergunta de Olívia era genuína.
— Eu...eu não sei.
Olivia me lançou um sorriso triste.
— Esperava que você tivesse a resposta.
— Essa função geralmente é sua. Eu só trago os problemas, você os resolve.
— E que grande causador de problemas você é. — comentou em tom de brincadeira e voltou a apoiar a mão em meu ombro. — Sei que não é justo da minha parte fazer essa pergunta tão depois de você e Julie... — ela respirou fundo. — Nem é justo quando eu estou prestes a sair com outro cara...
Coloquei uma mecha de cabelo atrás da sua orelha.
— Vá para seu encontro, Olivia. — Sartori olhou bem dentro dos meus olhos. — Mathias parece ser um cara legal, o cara certo. Consigo ver que ele se importa com você. Não posso ser egoísta ao ponto de te privar disso, quando nem uma resposta decente eu sou capaz de te dar. — Deslizei o polegar por sua bochecha pairando por um instante sobre seus lábios.
— E se ele não for a escolha certa? O que eu faço então?
Dei de ombros e respondi:
— Já te disse sim uma vez, não foi?
•
Não lembro quantas danças eu e Olivia participamos. Saindo de uma música e entrando em outra.
Não teve nenhuma outra conversa significativa depois da minha declaração vergonhosa e carente.
Olivia apenas sorriu para mim como se eu tivesse lhe dado o maior dos presentes e eu não aguentava mais aquela merda toda.
Uma semana havia se passado.
Praticamente uma semana desde o dia em que nos beijamos pela primeira vez.
Como tudo tinha saído dos trilhos tão rapidamente?
E por que sair dos trilhos parecia tanto com entrar nos eixos?
Não puxei mais assunto nenhum, em parte por medo de qual outra coisa sairia da minha boca se eu continuasse falando e Sartori parecia contente o suficiente para apenas deitar a cabeça em meu ombro novamente e deixar que eu a guiasse dança após dança.
Quando finalmente resolvemos parar de dançar, Olivia disse que precisava ir ao banheiro e eu estava preste a voltar para a mesa onde estávamos quando vi Patricia e Hunter me olhando como se eu fosse algo que eles adorariam destroçar com perguntas, então dei meia volta.
Apenas para dar de cara com o irmão mais velho de Olivia, PJ.
Ele sugeriu pegarmos algo para beber — pelo visto, todo mundo parecia disposto a pegar bebidas naquela noite, — mas eu avisei que não beberia mais nada. Minha cota já havia acabado.
Não poderia me dar o luxo de beber e sair falando um monte de merda por aí.
Ou pior, sair fazendo um monte de merda por aí.
Então enquanto ele aguardava na fila da bebida, eu fui pegar alguma coisa para comer.
Nós nos encontramos em uma das paredes vazias. Parte da cidade já tinha achado seu caminho para pista de dança ou um lugar confortável para se acomodar.
— Daqui a uma semana é o casamento de vocês. — PJ disse como iniciação para aquela conversa que eu não estava nenhum pouco a fim de ter.
— Pois é. — Não sabia o porquê, mas minha mente estava tentando esquecer esse fato.
Esquecer que muito em breve eu estaria na frente de um altar, tentando não imaginar como Olivia ficaria vestida de branco, como seria dizer meus votos, como seria fingir para todos que estava tudo maravilhoso quando definitivamente não estava.
E não era por causa do que eu achei que seria.
Olivia Sartori seria minha esposa.
A linha entre verdade e mentira se estreitava cada dia mais e só sabia que estava chegando muito perto do meu limite.
Queria esfregar minhas mãos no rosto e gritar de frustração, mas meu cunhado me observava atentamente. Não seria uma reação que seria muito apreciada por ele.
— Você não parece muito animado. — ele comentou.
— O dia foi cansativo e, para ser honesto, por mim o casamento poderia ser hoje. — Para que pudéssemos seguir nossas vidas cada um no seu canto, sem precisar daquele contato todo, até que chegasse o fim do nosso contrato. Seria o melhor para Olivia e para minha sanidade.
Eu estragaria tudo. Já sabia disso.
Era um canalha e foi um erro dar esperanças para ela daquela forma, mas meu coração parecia disposto a assumir o controle naquela noite,
Observei Olivia saindo do banheiro e vi o exato momento em que sua testa se franziu em confusão ao não me ver na mesa com Hunter e Patricia. Meu amigo apontou para onde eu estava com o irmão dela e ela acenou na nossa direção.
Acenei de volta antes de enfiar um pedaço de bolo na boca impedindo que um sorriso bobo ocupasse meu rosto.
— O quê? — perguntei com a boca meio cheia para um PJ que me encarava com uma expressão de divertimento.
Ele deu de ombros.
— Nada. — Eu o encarei e o irmão de Olivia suspirou. — É só que... Tem momento que parece estranho vocês dois estarem juntos, mas quando se analisa direitinho, faz todo o sentido.
— É mesmo?
— Você não acha?
— Eu vou casar com sua irmã, acho que para mim faz todo sentido. Se não fizesse seria meio preocupante, não?
PJ deu um risinho e fez seu pedido.
— Ela está radiante. Por sua causa. Fico feliz por isso. Faz um tempo que não a vemos assim.
PJ agradeceu a mulher atrás do balcão e deu uma piscadela para ela, que corou intensamente.
Eu continuava enfiando comida na minha boca para ter uma desculpa para não falar.
— Olivia amava Max, você sabe disso. Mas nunca foi assim, como vocês dois. — ele deu um gole na sua bebida. — Max não encorajava muitas demonstrações de afeto em público e todo mundo assumia que Olivia era que não tinha iniciativa. Acho que nunca ouvi aquele cara dizer que amava minha irmã e sempre quando eu a via sussurrando as três palavras para ele, Max reagia como se ela estivesse simplesmente recitando uma lista de compras para ele.
Poucas vezes eu havia visto Olivia junto com o ex dela, vide que eu não lembrava nem mesmo qual era sua aparência quando chegamos ali na cidade. Sempre que tínhamos uma festa corporativa e ela o levava, não ficavam muito tempo e ele parecia tão alegre de estar ali quanto ela.
O que queria dizer: nem um pouco.
Na verdade, quando nos conhecemos e ainda conversávamos decentemente, sempre que Olivia tinha uma oportunidade de falar sobre seu noivo, ela era o mais breve possível.
Quando sabia que Max estava esperando ou procurando por ela na empresa, toda sua postura mudava.
— Espero que você continue fazendo nossa caçula muito feliz.
Esperei um minuto.
— É isso? Nenhuma ameaça a tirar minha vida e me impalar no centro da cidade?
PJ deu um sorriso afiado que era quase uma cópia do de Olivia e do pai deles:
— Acho que nós dois sabemos que não é preciso falar as ameaças em voz alta para saber que elas estão lá.
Eu não duvidava nem por um instante.
— Ah, e Max é incansável. Vi que ele foi até a mesa de vocês hoje. Se precisar de ajuda para colocá-lo no lugar dele, não hesite em me chamar. Sonho com isso há anos. — Olhei para ele com uma sobrancelha erguida. — O quê? Diferente do resto da minha família, eu não tenho dúvidas ou ilusões sobre o que aconteceu entre ele e minha irmã. Deixar que todo mundo acredite que o término aconteceu da parte dela porque ela "queria dar prioridade ao trabalho" enquanto muito provavelmente ele estava transando com Rebecca pelas costas de Liv não é algo que um homem com um pingo de vergonha na cara faria. Não quando minha irmã faria ou sacrificaria praticamente qualquer coisa para ficar com aquele traste.
Tentei não deixar minha concordância tão clara no meu rosto para que PJ não visse que aquela era mesmo a versão verdadeira da história, porém ele continuou:
— Não precisa fingir que não sabe de nada. Tenho certeza que estou certo e que Olivia contou tudo a você. Aliás, isso significa que ela confia muito em você.
Meus olhos estavam percorrendo o salão sem saber o que procuravam até encontrá-la novamente.
Hunter falava alguma coisa para ela e para Patricia e ambas riam sem parar.
Tão diferente do que eu costumava ver da Olivia da empresa.
Sempre séria, sempre impecável, sem vulnerabilidade.
A Olivia do Max.
Aquela Olivia que eu achava que conhecia como a palma da minha mão.
Porém, era a Olivia de verdade que eu queria conhecer.
OLIVIA
Ok, talvez fosse hora de dar uma segurada na bebida.
Eu estava um pouco altinha e embora Mathias estivesse sendo extremamente respeitoso, também conseguia perceber que estava mais para cá do que para lá.
Ele estava bebendo por diversão, eu estava bebendo por puro nervosismo.
Ainda não sabia como Patty havia conseguido enfiar nós cinco em um carro e em meia hora estávamos na cidade vizinha em um clube meio underground com músicas questionáveis, mas uma bebida excelente.
Excelente até demais.
Quando chegamos, minha amiga direcionou eu e Mathias para uma área reservada com uma mesinha bem ajeitada.
Conversamos um pouco e comemos uns petiscos já que estávamos cheios de tudo que havíamos comido na festa de abertura.
Eu estava tentando me distrair, dar minha atenção total para Mathias, o cara lindo e gentil que estava na minha frente, mas meus olhos sempre acabavam caindo sobre Sebastian.
— Já te disse sim uma vez, não foi?
Sabia que não era a real intenção de Sebastian ao conversar comigo naquela noite, mas eu fiquei ainda mais nervosa para o fim dela do que para o andamento.
Eu entendia Ferrante. Não poderia querer alguma certeza dele quando eu mesma não tinha certeza do que queria.
Já tinha sido difícil o suficiente abrir a brecha naquela noite. Tentando convencer a mim mesma que não estava sendo patética, de que não estava vendo coisa onde não havia nada.
Mas havia, certo? Sebastian havia confirmado aquilo.
— Já te disse sim uma vez, não foi?
Era difícil convencer a mim mesma que não era coisa da minha cabeça. Esperava que a qualquer momento Sebastian me puxaria de canto e me diria:
"Então, o que eu falei mais cedo, você sabe que era brincadeira, certo?"
Que droga! Parte de mim — uma parte bem minúscula, mas ainda assim — torcia por isso. Para que eu pudesse alimentar minha autocomiseração e minhas paranóias. Para que eu pudesse zombar a mim mesma e dizer: "Você não acreditou por um minuto que isso daria certo, não é?"
Tentei calar minha mente.
Sebastian me disse para aproveitar o máximo daquela noite. Para focar em Mathias e o que eu pudesse estar sentindo ou pudesse vir a sentir por ele.
Era uma tarefa difícil quando o próprio Sebastian não saía da minha mente.
Ele, no entanto, estava mantendo sua distância, como esperado. Me dando o espaço que eu precisava.
Desde o momento que saímos da festa, em que eu troquei de vestido e havíamos entrado no carro, Ferrante não havia proferido uma palavra sequer. Apenas me encarava vez ou outra, com o maxilar travado.
Conseguia ver em seu rosto que achava aquele esquema o incomodava mais do que ele queria deixar transparecer, mas eu estava tentando seriamente esquecer de tudo naquela noite, como ele pedira.
Assim que chegamos no clube, Patricia desapareceu, Hunter também e Sebastian se dirigiu ao bar.
Do "camarote" onde estávamos, eu tinha uma visão excelente dele, embora a pista de dança estivesse cheia e vez ou outra um corpo dançante —ou vários — ficasse entre nós.
— Como está se sentindo ao saber que daqui a poucos dias vai se casar? — Mathias chamou minha atenção de volta para o seu rosto.
Naquela noite ele usava uma camiseta polo azul o cabelo estava cortado curto, mas não rente a cabeça. Sentia falta dos cachinhos que ele usava na adolescência.
Seus olhos, realçados por sua camiseta, também estavam mais afiados e atentos. Ainda lindos e gentis.
— Bem, considerando que já estive noiva de verdade uma vez e não deu muito certo, espero que agora corra tudo sem surpresas.
Patty havia contado por cima para Mathias sobre minha situação com Sebastian, embora eu achasse uma péssima ideia, mas também sabia que se não fosse assim, ele não estaria ali. Mathias tinha caráter, algo que eu deveria ter apreciado mais há alguns anos.
— Ah, — ele continuou e eu dei um mais gole na bebida. — Mas pelo menos você conseguiu alguém com quem se dá bem para esse acordo.
Quase me engasguei.
— Perdão...— disse, tossindo. — É exatamente o contrário. Eu e Sebastian sempre tivemos uma relação um tanto...complicada.
— Sério? Eu não consigo acreditar. Vocês dois parecem ter...hm, bastante entrosamento.
— Melhoramos bastante nesses últimos dias, mas antes desse acordo...poderíamos matar um ao outro num piscar de olhos. Na verdade, acho que dependendo da situação é capaz de fazermos isso até hoje.
Mathias inclinou a cabeça, assimilando minhas palavras:
— Vocês dois já ficaram?
Arregalei os olhos.
— Não, não! Meu Deus, não. — Dei uma risada que saiu estridente demais. — Nós nunca... nunca ficamos juntos.
E dependendo de como aquela noite se desenrolasse, nós provavelmente nunca ficaríamos.
Era uma pontinha de desapontamento que eu estava sentindo?
Meu olhar caiu sobre Sebastian no bar, agora tinha uma garota de cabelos coloridos quase se empoleirado em seu ombro.
— Bem, isso é surpreendente para dizer o mínimo.
Olhei para Mathias, alarmada.
— O que quer dizer? — minha voz soou muito mais defensiva do que deveria.
Para minha sorte, ele apenas riu um pouco antes de falar:
— Só quero dizer que vocês estão fazendo um ótimo trabalho. Têm uma cumplicidade e sincronia no jeito que vocês agem que muitos casais que estão juntos de verdade há anos não conseguem replicar.
— Provavelmente isso se deve a trabalharmos juntos há muito tempo e...
Mathias balançou a cabeça e eu parei de falar.
— Não, não é isso. Mas enfim, essa habilidade de vocês veio a calhar no fim. Embora eu ainda deseje um pouquinho que tivesse me ligado, eu ficaria mais do que contente em ser seu noivo de mentira. — Ele piscou para mim.
— Foi tudo muito rápido. Nem eu sabia o que estava fazendo.
Mathias voltou a falar um pouco sobre sua vida. A faculdade de Medicina estava quase terminando. A residência que, a princípio parecia assustadora, mas que agora era um dos lugares onde ele se sentia mais à vontade.
Eu estava ouvindo-o. De verdade.
No entanto, parte da minha atenção tinha voltado para Sebastian e sua nova amiga no bar.
Um leve calor de irritação subia pelos meus braços.
O que era ridículo.
Você está em um encontro com outro cara, controle-se!
— Olivia? — O tom de voz de Mathias indicava que não era a primeira vez que ele estava me chamando e eu cobri o rosto com as mãos.
— Mil desculpas, — eu falei, as palavras abafadas pelas minhas mãos. — Estava realmente ouvindo o que falou, mas me distraí.
Esperei uma expressão emburrada, uma gesticulação brusca, algum comentário que me colocaria para baixo ou que iniciaria uma discussão sem fim.
Mas aquele não era Max, então Mathias riu.
— Eu não consigo nem imaginar o quanto de coisa deve estar na sua cabeça por causa disso tudo. — Ele estendeu o braço e tirou com gentileza minhas mãos do meu rosto.
Quando abri os olhos Sebastian nos observava de longe, seu rosto sério até a menina falar algo em seu ouvido. Então ele riu.
— Prometo que falaremos sobre rotina depois. — Mathias disse quando me virei totalmente para ele, de forma que no meu campo de visão só entrasse Sebastian se eu me esforçasse. — Patty me disse que você precisava de uma companhia para relaxar não para te deixar entediada até a morte, então...vamos dançar?
Encarei Mathias. Havia um brilho de esperança que eu reconhecia de anos atrás em seus olhos, mas havia outra coisa. Algo como um ar de alguém que estava achando algo engraçado.
Não poderia usar isso contra ele, eu realmente estava sendo uma piada naquela noite.
Tinha que me esforçar. Por ele.
A música se alternava entre eletrônica e baladas românticas e eu não sabia qual seria a pior opção que estaria tocando quando eu e Mathias chegássemos na pista.
Fazia tanto tempo que eu não dançava em algo como balada.
Embora tenha sido extremamente divertido, Sebastian e eu havíamos dançado na festa de abertura músicas fáceis, dois para cá e dois para lá, um rodopio ali e um outro ali.
A melodia e a atmosfera naquele ambiente era mais carregada de tensão, mais sensual, mais cativante.
Mathias me guiou com uma mão na cintura, não antes de eu virar mais um copo de um drinque bem docinho.
Que geralmente era o tipo mais perigoso.
Seu toque era firme e seguro de si quando chegamos em um ponto com espaço suficiente para nossos corpos. O que não significava que era espaço suficiente para eles ficarem a uma distância aceitável.
Já estava arrependida da troca de vestido. Com o ambiente quase sufocante, ele parecia curto demais, apertado demais.
Eu e Mathias começamos a pegar o ritmo da música juntos sorrindo um para o outro.
Um braço seu enlaçou minha cintura.
Ele se inclinou para que eu ouvisse e falou:
— Você está linda. Sempre esteve. — Mal tinha percebido que minhas mãos alisavam o vestido como se tivessem incomodadas com algo.
Dei um sorriso desconcertado para ele.
Não foi a voz de Mathias que ecoou na minha mente um segundo depois.
Eu estava pensando que você era a mulher mais linda que havia encontrado.
Levantei a cabeça e me forcei a dar meu melhor sorriso para o homem na minha frente.
Minha cabeça, no entanto, não parou.
Você não é impossível de amar, sabe disso, certo?
Aquilo não poderia acontecer de novo. Eu tinha um homem incrível, disponível e aberto na minha frente. Um homem que não parecia lutar contra o que quer que sentisse por mim.
Não posso ser egoísta ao ponto de te privar disso, quando nem uma resposta decente eu sou capaz de te dar.
Mathias e eu começamos a seguir o ritmo da música, grudados um no outro.
Quando olhei por cima do seu ombro, na direção do bar, Sebastian e a menina de cabelo colorido tinham desaparecido.
Senti meu corpo vacilar um pouco, mas Mathias me segurava tão firme que foi quase imperceptível,
Engoli em seco.
Não seja uma hipócrita do cacete, Olivia.
Mathias era bem melhor naquilo do que eu e disse isso a ele.
— Algumas festas na faculdade me fizeram melhorar com a prática.
— Muitas garotas?
— Nenhuma delas tão memorável quanto você. — Mathias disse me encarando e deslizando a mão pela lateral do meu corpo e depois fazendo o caminho inverso. Passeei com meus dedos por seu peito e seu pescoço.
Na pouca luz e nos feixes piscantes, eu quase conseguia fingir que era Sebastian. Se eu fechasse os olhos, poderia imaginar que a mão que passava por meu corpo era a dele, que o corpo colado ao meu era o dele.
Não.
Esse não é o combinado.
Embora as palavras não fossem de Sebastian, era voz dele que dizia:
O combinado é que você se atenha ao momento. Ao homem à sua frente. Às coisas que ele te faz sentir. Porque elas não se comparam às coisas que eu posso te fazer sentir. Ou, pelo menos, assim espero.
Meus quadris pegaram o ritmo da música e se mexiam junto com os movimentos de Mathias.
Puxei-o para mais perto tentando fazer meu coração acelerar tanto quanto tinha acelerado enquanto eu deitava a cabeça no ombro de Sebastian e deixava que ele me guiasse.
Não adiantava.
O que eu sentia era o mesmo de todos os outros caras com quem eu tinha dormido sem compromisso nos últimos meses.
Meu corpo respondia aos estímulos naturais, um arrepio breve, um frio na barriga pelo que poderia estar por vir.
Não parecia que eu estava prestes a pular do trigésimo andar de um arranha-céu, nem como se minha pele tivesse encolhido e eu não coubesse mais nela. Nem como se eu tivesse entrando lentamente em combustão e ao mesmo tempo que me inflamava, não me consumia.
Mathias deu um beijo no meu ombro e me olhou sob os longos cílios.
Uma pergunta.
Precisava de uma resposta.
Muito bem, Sebastian Ferrante, algumas coisas nunca mudam: Isso aqui é culpa sua.
Falei alto o suficiente para ser ouvida no meio da música:
— Preciso que me beije, Mathias.
E então, claro, ele me beijou.
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