Notas iniciais
AQUI ESTAMOS NÓS!!!! ACHO QUE VCS VÃO GOSTAR DESSE CAP

"I told you I'm not bulletproof,

Now you know."

(Tell Me Why)

SEBASTIAN

Eu lembro de ter piscado mais uma, duas e três vezes tentando assimilar suas palavras.

Tentando entender porque suas mãos estavam segurando meu rosto.

O que ela queria dizer.

Hunter tinha razão.

Havia alguma coisa sobre o olhar dela que te atraía e hipnotizava. Mesmo com aquele toque de desespero por causa de algo que eu não fazia a menor ideia.

Ela estava mesmo sugerindo que eu a beijasse?

A resposta deveria ser sim e meu corpo deve ter concordado com aquilo antes que minha consciência pudesse, porque o que quer que ela tivesse visto na minha expressão a fez fechar os olhos e se inclinar na minha direção.

Puuuta merda.

No último segundo da minha hesitação, eu vi uma mulher pelo canto do olho se aproximando. Ela parecia prestes a me chamar ou, considerando toda aquela situação, ela estivesse prestes a chamar Olivia.

No momento seguinte, eu não vi mais nada porque fechei os olhos e beijei Sartori.

Suas duas mãos ainda estavam no meu rosto, mas em vez do aperto quase esmagador com que ela me segurou no começo, suas palmas eram suaves contra as minhas bochechas.

Passei meus dois braços ao redor de sua cintura, tomando cuidado com o arranjo que ainda estava dentro da sacola na minha mão.

A boca de Olivia tinha gosto de manteiga de cacau, proveniente do protetor que ela havia passado mais cedo, mas também tinha um gosto que parecia ser só dela.

Nossos lábios deslizaram uns contra os outros e quase foi engraçado quando nossos corpos tremeram quase que ao mesmo tempo.

Olivia suspirou e eu guardei aquela informação para sem dúvidas usá-la para atazanar a vida dela depois.

Quando minha respiração começou a ficar ofegante, Sartori e eu nos desprendemos um pouco.

Eu ainda levei alguns segundos a mais porque meu corpo não estava entendendo muito bem que ali era Sartori e que de maneira nenhuma ele deveria estar...aproveitando aquele momento.

Nossos rostos ainda estavam a poucos centímetros de distância quando abri os olhos e encontrei os de Olivia me encarando. Minha atenção desceu para sua boca de novo, levemente inchada e rosa.

Pisquei rápido antes mesmo que minha mente pudesse contemplar a ideia de beijá-la de novo.

Antes que eu pudesse fazer uma besteira maior do que já estávamos fazendo.

Ela olhou para os lados discretamente e a mulher que estava prestes a passar por nós agora estava no fim da rua, olhando para trás — para Olivia — a cada dois passos.

Em volta de nós, eu poderia ver várias pessoas quase camufladas na frente de suas lojas observando a cena.

Olivia fez um esforço de se afastar gentilmente, com um falso sorriso envergonhado, como se não fizesse a mínima ideia de que tínhamos uma plateia antes de me beijar e pegou minha mão.

Ela murmurou:

— Agora, seja bem-vindo à central de fofocas da cidade.

OLIVIA

Se aquilo não funcionasse nada mais funcionaria.

Entrelacei os dedos com os de Sebastian e ele encarou nossas mãos em silêncio por uns dois segundos antes de começarmos a andar em direção ao carro.

Aparentemente não era apenas eu que ficava perturbada com nossa proximidade recente.

Algumas pessoas acenavam para mim e eu até ponderei sobre apresentar Ferrante a elas, mas não.

Iria parecer muito forçado logo depois daquela demonstração pública de afeto, o que era quase inédito para todos ali quando o assunto era eu. Ou pelo menos, era o boato pela cidade.

Sebastian ficou estranhamente em silêncio até entrarmos no carro.

Ele entregou minha sacola com o arranjo.

— Qual o problema? — perguntei, colocando o cinto.

Ferrante me encarou como se só lembrasse que eu estava ali naquele momento.

— Nada. — ele chacoalhou a cabeça e deu partida no carro.

— Como foi que você me disse mesmo: — tentei fazer graça, embora minhas mãos estivessem suando. —Se você agir assim toda vez que...

— Quem era a mulher que passou por nós? — Sebastian me cortou.

Respirei fundo.

— Tecnicamente minha ex-sogra. A madrasta de Max.

— Ah. — foi tudo que Sebastian disse.

Então eu me vi na obrigação de continuar:

— Ela acabou comigo quando eu e seu enteado terminamos. Apareceu na porta do meu apartamento falando um monte de merda. — Minha voz falhou um pouco, eu ainda conseguia lembrar da cena perfeitamente.

Estava de folga, aquele dia era meu recorde sem chorar desde que Max havia ido embora.

Ela subiu sem anunciar porque até aquele instante eu não havia desautorizado ninguém da laia do meu ex-noivo de subir para me visitar.

Quando fui atender a porta, lá estava ela, me olhando como se eu fosse um dos seres mais ridículos que ela já vira.

A Senhora Fontana não esperou que eu a convidasse para entrar — o que eu certamente não faria — e passou por mim como uma tempestade.

E a primeira coisa que ela me disse foi:

"Quando meu filho disse que vocês estavam se relacionando de verdade, eu já sabia que você não era mulher suficiente para ele."

Ela disse que eu nunca seria capaz de fazer Max feliz ou qualquer homem que prestasse.

Gritou aos quatro cantos que eu era incapaz de demonstrar amor e afeto, tal qual uma máquina que vivia só para o trabalho e alheia a tudo e todos à minha volta.

Que um dia eu olharia ao meu redor e me veria sozinha.

Que definitivamente nem Deus poderia julgar Max por querer um pouco de calor humano, um que eu não era capaz de dar.

A última coisa que ela me disse foi:

"Estou feliz que tudo isso tenha acabado. Estou feliz que finalmente meu filho vai poder ficar com uma mulher de verdade. E eu tenho pena do próximo homem que pense que essa mulher de verdade poderá ser você."

Eu lembrava que havia ficado lá parada, abrindo e fechando a boca. Tentando assimilar o que aquela vadia estava falando. Lembro que minha vontade era de esbofetear a cara dela, mas as últimas semanas tinham arrancado minhas forças e se eu tentasse fazer qualquer coisa mais enérgica, eu iria acabar desabando no chão.

Quando ela viu que eu não tinha nada a dizer, simplesmente deu as costas e saiu.

Como se ela não tivesse despejado um dos tipos mais sórdidos de venenos sobre mim, uma garota de 23 anos.

Eu continuei parada no meio da minha sala por pelo menos mais uns dez minutos.

Até eu perceber que eu estava chorando.

Lembro que depois de mais um tempo eu peguei o celular e liguei para o trabalho e disse que eu precisava de metade de uma semana para me recompôs e que levaria o atestado quando eu voltasse.

Lembro de ter apagado todas as luzes que tinha em casa e de ter deitado no tapete do meu quarto.

Lembro que passei todos os dias do atestado chorando.

Contei as partes principais para Sebastian mas não tudo.

Não era relevante que eu tivesse ficado dias humilhada no meu quarto.

Ou como Patty teve que ir até a capital para me fazer voltar à realidade.

Ele não tinha nada a ver com isso. E, pelo pouco que me conhecia, não sabia que a pior coisa que ele poderia fazer por mim era ter pena.

Apesar da falsa sensação de intimidade que eu havia forçado minutos atrás quando nos beijamos, aquilo era um acordo.

Um acordo com uma pessoa que eu mal conhecia e que mal me conhecia de volta.

Não esperava que Sebastian me desse nem um pingo a mais do que foi combinado entre nós.

Estávamos juntos em troca de um objetivo comum, mas não éramos amigos.

Não importava tanto assim o que acontecia com o outro.

Éramos temporariamente aliados e apenas isso.

Ainda assim — ainda assim — Sebastian franziu a testa ao me olhar e disse:

— Eu só não entendi por que você deu ouvidos ao que essa velha amargurada disse. Por que importa o que ela acha ou deixa de achar de você?

Dei risada, me ajeitei no banco e olhei para frente, dando àquela sessão estranha de conversa um fim.

Na minha mente, eu o respondi.

Porque tudo o que ela falou foi coisas que eu mesma já achava. Coisas que eu mesma desconfiava que eram verdade.

SEBASTIAN

Uma onda de raiva estava percorrendo o meu corpo e eu não era capaz de controlar.

Está bem, admito, eu mesmo já havia pensado e provocado várias vezes Olivia sobre achar que ela era metade humana e metade robô. Que seu coração era feito de gelo. Que ela era workaholic ao extremo.

Mas a pessoa tinha que ser muito filha de uma puta para aparecer na porta de alguém que acabou de passar por um término e fazer aquilo.

Era maldoso e cruel.

Pelo olhar no rosto de Sartori e a hesitação vez ou outra na hora de falar, eu tinha certeza que a sua ex-sogra tinha a ofendido muito mais.

Provavelmente, ela não estava me contando e eu não a julgava por isso.

Porém, o pior era a expressão sem esperança no seu rosto, como se ela pensasse que tudo aquilo era verdade, como se ela fosse um caso perdido.

Eu era capaz de decifrar aquilo no rosto dela porque via a mesma coisa no meu, às vezes, quando me olhava no espelho.

Olivia e eu tínhamos nossas desavenças, era verdade. Muitas vezes ela exigia muito mais da equipe do que todo mundo achava necessário, mas também era um dos motivos porque éramos uma das melhores do país e me deixava pensando: se ela colocava os padrões tão altos para nós, o quanto ela não elevava para si mesma?

—Você quer que eu dirija? — A voz de Sartori interrompeu meus pensamentos e eu percebi que estava encarando o volante a não sei quanto tempo, apertando-o como se minha vida dependesse disso. — Não precisa ficar com pena de mim, sério.

Olhei para ela como se estivesse louca.

— Não estou com pena de você. Estou com ódio. Da sua ex-sogra, no caso.

Olivia não respondeu de imediato, apenas virou o rosto para sua janela.

— Está tudo bem, faz quase dois anos.

Nós dois ficamos em silêncio pelo resto do percurso.

Eu não queria apontar que fazia quase dois anos, mas para ela ter cogitado me beijar no meio da rua em plena luz do dia, talvez não estivesse tudo bem.

Ao parar na frente da casa dos pais dela, Sartori voltou a olhar para mim.

— Veja, sobre o beijo... Deveríamos ter resolvido isso antes. — ela passou as mãos na saia do vestido e meu olhar foi instantaneamente para suas pernas. Sério, elas eram uma visão e tanto. — Se houver necessidade de ter esse...contato novamente, podemos combinar de avisar antes. Sinto muito mesmo. E não se preocupe, aquela situação foi um caso isolado e não vai acontecer de novo.

Assenti com a cabeça e sai do carro, dando a volta para abrir sua porta.

Ela estava realmente envergonhada e quase não conseguia me encarar.

— Não se preocupe. — eu disse, ajudando-a a descer e tentando quebrar o clima. — Foi gostosinho.

Olivia me encarou incrédula, mas eu pude ver que ela estava segurando uma risada.

Beeeem lá no fundo.

— Gostosinho? — ela repetiu.

— Isso, o beijo. Foi bem gostosinho, você não acha? — dei um sorriso aberto para ela.

— Você faz piada com tudo? — Sartori perguntou soltando minha mão, embora o seu tom fosse mais leve.

—Era mais fácil perguntar com o que eu não faço piada.

OLIVIA

Foi uma surpresa entrar em casa e encontrar todo mundo vivo.

E com todo mundo, eu queria dizer todo mundo mesmo.

A casa dos meus pais não era pequena, mas, com aquela quantidade de pessoas, estava parecendo uma feira.

Todos os meus irmãos agora estavam presentes: Liz, Lucas, Otávio e PJ.

Como acompanhantes estavam: O marido de Liz e Lucy, filha dos dois. A namorada de Lucas e o cachorro deles. O noivo de Otávio e os dois bebezinhos gêmeos, filhos deles.

PJ, Pedro Jr., o mais velho, ainda estava se encontrando na área romântica e provavelmente não se acharia tão cedo se continuasse se matando para assumir os negócios de nosso pai.

Não preciso dizer que entre os irmãos, nós éramos os dois que se pareciam mais nesse quesito.

Julie, Hunter e os pais de Sebastian estavam sentados juntos no sofá enquanto o restante da minha família falava como se tivessem engolido gralhas. E alto-falantes.

— Tem certeza que sua família não quer ficar no hotel? Como podemos ver, ninguém respeitou o meu pedido de deixar a casa o mais vazia possível para acomodar seus pais.

Senti um braço de Sebastian deslizando pelo meu ombro.

— Sartori, relaxe. Eu estou amando ver meus pais sem saber onde colocar as mãos pelo menos um vez na vida.

— Sebastian Ferrante. Falei certo? — PJ apareceu com sua altura de gigante e a expressão bem séria.

— Certíssimo, e você é o Pedro Júnior. — Olhei surpresa para meu falso noivo. Eu havia ignorado a necessidade de contarmos um ao outro pelo menos o básico sobre nossas famílias, então era surpreendente que ele soubesse quem era o PJ.

— Muita energia de irmão mais velho, né? — Meu irmão comentou e Sebastian assentiu com a cabeça, ganhando um sorriso do primogênito. — Sabe, foi uma algazarra quando Oli avisou que estava noiva do nada. Mas agora vendo-o pessoalmente você parece ser um cara decente o suficiente. — Deu para ouvir claramente eu e meu pai bufando ao mesmo tempo, embora por razões diferentes.

E claro, meu pai fez isso de uma forma tão agressiva que o senhor Ferrante se virou para encará-lo.

Tenso.

— E, claro, Deus me livre de me intrometer em alguma decisão que a minha irmãzinha toma, não é?

Dei um sorriso amarelo para PJ, que me tirou dos braços de Sebastian e me deu um abraço apertado, bagunçando meu cabelo como se eu tivesse sete anos.

— Estava com saudades, maninha. — PJ sussurrou dando um beijo no topo da minha cabeça.

Então ele apertou a mão de Sebastian e pude perceber claramente que perguntas estavam prestes a serem feitas pelo meu irmão, então interrompi:

— Já estão apresentados. Agora licença porque ele precisa conhecer o restante da família.

Eu estava puxando Sebastian pela mão quando PJ o parou novamente

— Gostei de você. Se machucar ela, seus órgãos vão parar na deep web. — Senti Ferrante estremecer ao meu lado, mas ele respondeu:

— Entendido.

Apresentar Sebastian para o restante foi mais tranquilo. Todo mundo parecia gostar dele de cara e ele sempre sabia o que dizer para agradar e entreter todos. Seu feitiço não funcionava com meu pai, mas era só porque, mesmo depois de todo o tempo que se passou, ele ainda preferia que fosse Max no lugar de Sebastian.

Patricia apareceu um pouco antes do jantar ser servido e passou uns cinco minutos, nada discretos encarando Sebastian.

— Por que de todas as ameaças que recebi da sua família, até mesmo do seu pai, — Sebastian se inclinou para falar perto do meu ouvido. — O olhar da sua amiga é o que parece mais perigoso.

Dei uma risadinha:

— Porque provavelmente é mesmo.

— Olá, noivo da minha melhor amiga. — ela disse se aproximando de nós.

Patty estendeu a mão e, como fez com todas as mulheres, Sebastian beijou as costas em vez de apertar normalmente.

— Olá, melhor amiga da minha noiva.

Patty arqueou uma sobrancelha.

— Apesar de já termos nos visto algumas vezes, agora eu realmente posso perceber o que Oli me disse. — ela olhou Ferrante de cima a baixo. — Você não é tão mau assim.

Engasguei com minha própria saliva e Sebastian apertou meu ombro, indicando que eu ouviria sobre isso mais tarde.

Ela não disse isso para Sebastian, não pode ser.

—Ele é um príncipe, tia Patty! — Lucy gritou se agarrando com a minha perna. — E a tia Liv é uma princesa.

— Tem razão, querida. — Patricia se inclinou e carregou Lucy. — Eles combinam certinho, não é?

Minha sobrinha assentiu com veemência.

Eu e Sebastian nos contivemos para não deixar uma careta de desgosto em nossos rostos. Aquele tipo de comentário era ótimo porque significava que estávamos pelo menos convencendo alguém que gostávamos de verdade um do outro.

— E sabe o que o príncipe e a princesa fazem quando estão juntos? — Lucy perguntou com um sorrisinho esperto enquanto escondia parte do rosto no pescoço de Patricia por um instante

Arqueei a sobrancelha e Lucy mordeu o lábio para então olhar de Sebastian para mim, fazendo barulhos de beijo.

Todos riram. Exceto eu e Sebastian que tínhamos simplesmente congelado no lugar.

— Lucy! — Liz repreendeu do outro lado da sala.

— Lucy está certíssima. — Patricia disse, solene e eu a olhei com uma cara feia.

Sebastian se virou para mim como quem dizia que o veredito era meu.

Não era possível.

Como se beijar pessoas em quem ele não estava interessado acontecesse a todo tempo na vida dele.

Se bem que conhecendo Sebastian, aquilo não parecia tão absurdo.

Minha cota de beijos havia sido batida, mas isso não parecia importar muito para ninguém ali.

— Por que crianças sempre tornam as coisas difíceis? — murmurei para que apenas Sebastian ouvisse.

— Há uma razão para eu gostar de crianças a no mínimo dois quilômetros de mim. — ele retrucou por trás do seu sorriso falso, passando o braço por minha cintura me puxando para perto com uma naturalidade impressionante. Como se fizesse aquilo o tempo todo. — Além disso, não precisa fingir que não se anima com a ideia de me beijar, ou acha que eu não percebi seu suspiro mais cedo.

Que minha alma fosse queimada nas profundezas do inferno. Eu odiava aquele homem.

Um sorriso aberto preenchia seu rosto quando ele colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha.

— Aposto que é isso que você vai tentar se convencer que eu penso a partir de hoje. Uma pena que a realidade é diferente. — Nossos rostos estavam a pouquíssimos centímetros de distância. Eu conseguia ver as duas pintinhas que ele tinha no canto do olho direito. — Você parece ter muita prática com esse negócio de namoro de mentira. Muitas mulheres usam você como álibi, Ferrante?

Sebastian soltou uma risadinha pelo nariz.

— Claro e eu poderia tornar as coisas muito mais indecentes, mas estou numa missão de fazer seu pai gostar de mim.

— Pelo amor de Deus, é um beijo, ok, não preliminares em público. Tem crianças aqui na sala. — Lucas falou, e eu virei o rosto apenas o suficiente para ver que todos nos observavam com expressões que variavam entre a surpresa, a incredulidade e confusão por estarmos demorando tanto.

— O que é prelimiares, tio Lucas? — Lucy perguntou e meu amado pai se engasgou no canto.

Patricia só faltava cair de tanto rir.

Pelo canto do olho, eu também pude ver o melhor amigo de Sebastian rindo.

— Eu vou te matar, Lucas. — Liz ameaçou.

Até eu comecei a rir um pouco.

Quando me virei para encarar Sebastian, ele já me observava com a testa levemente franzida.

Meu sorriso sumiu.

— O que foi?

Ferrante sacudiu a cabeça e sussurrou simplesmente.

— Nada. Vamos tirar logo isso do caminho.

Ele me apertou um pouco mais contra o seu corpo, nossos narizes se tocaram e eu inspirei, como se estivesse me preparando para mergulhar num tanque sem fundo.

Eu já conseguia sentir a respiração no meu rosto de Sebastian quando um apito disparou.

Sebastian e eu nos sobressaltamos.

— É o timer, perdão. — minha mãe anunciou. — O jantar está pronto.

Salvos pelo gongo.

SEBASTIAN

Eu não sabia porque estava sendo tão fácil.

E eu também não queria divagar tanto sobre aquilo.

A família de Olivia era simpática e prestativa. Todos eles tratavam eu, minha família e meus amigos com muita educação e cortesia.

Até mesmo o pai mal humorado de Olivia, com quem eu havia aceitado um desafio que ele ainda não sabia sobre.

Tudo bem que a minha relação com a filha dele não era real, mas eu havia prometido para mim mesmo que ele viraria um grande fã meu até as duas semanas acabarem.

Meus pais pareciam adorar a Olivia, embora o fato de trazer Julie claramente ter sido com segundas intenções, parecia que eles em poucas horas estavam se apegando mais a minha futura esposa.

O jantar estava delicioso, porém todos ainda pareciam estar assimilando a ideia de que a caçula dos Sartori tinha trazido um novo namorado para casa, então o assunto raramente caía em algo sobre nós dois e eu não sabia se era porque eles não estavam tentando ser invasivos ou se Olivia havia pedido para que eles deixassem eu e meus "convidados" respirarmos um pouco.

Meus pais também estavam um pouco cansados da viagem, assim como Julie e Hunter.

Olivia percebendo isso ou, pelo menos tentando evitar que sua família lembrasse que deveria fazer perguntas para nós, se ofereceu para designar os quartos para cada um.

Ela primeiro acompanhou meus pais para um quarto no segundo andar e então se ofereceu para ajudar Julie enquanto eu acompanhava Hunter.

— Se eu não soubesse que é tudo armação, acharia que vocês formam um casal bem bonitinho mesmo.

Hunter disse enquanto eu fechava a porta do quarto.

— Shhh. Alguém pode acabar ouvindo você.

Meu amigo bateu as juntas dos dedos na parede, testando.

— Tem razão, essa parede aqui é fina como papel. Perdão. — Hunter jogou sua mala na cama abrindo para desfazê-la. — Você já conversou com a Julie?

Respirei fundo.

— Conversar sobre o quê?

— Sobre o fato que ela precisa te superar. Ou então conversar com seus pais que trouxeram ela para cá sem nem mesmo você saber.

Caminhei até seu lado para ajudar com as roupas.

— Ela já superou. Não tem nada que precisamos falar.

— A menina está apaixonada por você desde sempre, Seb. É só você reparar no jeito que ela olha para você quando está junto com Olívia. — Hunter baixou a voz — Isso porque é um relacionamento de mentira. Imagine se fosse de verdade. Acha que uma Olivia da vida não perceberia o jeito que Julie olha para você?

— Eu estou cansado, Hunter. — Passei uma mão no cabelo e entreguei uma pilha de camisetas para ele guardar no armário. — Não quero pensar nisso agora. Não quero pensar no fato de que mesmo sendo tudo um plano, meus pais trouxeram a garota que eles acham que é perfeita para mim quando teoricamente eu estou prestes a me casar.

— Desculpa, cara. Eu não queria pesar na sua cabeça. É só que essa situação não é boa nem para você nem para Julie. Quer dizer, você não sente mais nada por ela, né?

Eu não respondi imediatamente.

Julie era minha amiga desde quando eu me lembrava, assim como Hunter. Meus pais sempre deram forças para ficarmos juntos e acabou acontecendo algumas vezes.

A primeira foi uma semana antes de eu conhecer Eloise.

Conversei com Julie e entramos num consenso de que o que aconteceu entre nós tinha sido uma coisa de momento, mas enquanto meu relacionamento com Eloise progredia eu comecei a perceber que não era bem assim. Pelo menos não para ela.

Nós nos afastamos por um tempo, toda a situação com minha ex aconteceu e Jullie foi uma das pessoas que mais me deu forças na época.

Foi num período que ela estava terminando com um cara maluco.

Ela pediu para eu ajudá-la a dispensar o garoto de vez, fingimos que estávamos namorando.

Numa noite uma coisa levou a outra e dormimos juntos. E na próxima. E na próxima.

Até ela de maneira correta presumir que estávamos em um relacionamento.

Mas eu não queria estar.

A ferida de Eloise ainda estava extremamente aberta. Ficar com Julie era legal porque ela era uma mulher incrível. Carinhosa, atenciosa e, antes de tudo, minha melhor amiga. Mas eu tinha medo de machucá-la.

Medo de ser todas as coisas que minha ex tinha dito que eu era e acabar magoando profundamente uma das pessoas com que eu mais me importava no mundo.

E isso era uma pressão toda vez que eu estava com ela.

Nós nos afastamos de novo, por iniciativa minha.

E agora, Julie estava ali na minha frente, ainda mais linda do que antes, assistindo enquanto eu fingia que estava apaixonado por outra mulher. Dando a outra mulher um compromisso, uma aliança, uma promessa.

Machucando-a do jeito que eu tinha tentado de tudo para não fazer.

— Puta merda, Sebastian. Você ainda gosta dela, mas ainda tem essa cabeça de merda achando que não é o suficiente para ela, né?

Não respondi de novo.

Não tinha necessidade.

Hunter me conhecia bem demais para eu tentar pensar em mentir para ele.

— Conte para ela. — meu amigo disse.

— O quê?

— Conte para ela que tudo isso aqui é uma baboseira. Que quem você quer é ela, se ela puder esperar até seu combinado com Olivia acabar.

Uma risada amarga saiu da minha boca.

— Não posso fazer isso.

— Por que não?

Abri a boca para responder, mas não veio nenhuma palavra.

Balancei a cabeça tentando organizar meus pensamentos.

Por que não?

Porque eu não podia focar naquilo agora. Não podia pensar em Julie, eu tinha um contrato para cumprir.

Tinha que encontrar um jeito de fazer aquilo dar certo com a Olivia e quando tudo aquilo acabasse, quando estivéssemos vivendo nossas vidas de verdade novamente, eu pensaria em Julie e ajeitaria as coisas entre a gente.

Era isso.

Parecia um bom plano.

OLIVIA

O quarto de hóspedes para Jullie ficava no outro lado do corredor.

— Queria oferecer um quarto maior, mas minha família toda resolveu aparecer com filho e papagaio.

Julie riu graciosamente.

— Não tem problema, minha vinda também não estava planejada. Além disso, sua família deve estar bem feliz com a sua união com Sebastian.

Quase engasguei.

— Feliz? Acho que a palavra certa seria mais surpresa. Ainda estão tentando assimilar a notícia.

A amiga de Sebastian se ajoelhou para abrir a mala.

— Para mim não foi tanta surpresa assim.

— Não?

Julie negou com a cabeça:

— Claro que vocês dois foram bem discretos quanto ao relacionamento, mas Sebastian sempre falava de você. — Arqueei uma sobrancelha. — Mesmo que a maior parte fosse reclamando, dava para entender porque se formou uma...tensão entre vocês dois.

— Tensão... é acho que dá para chamar disso.

Julie olhou por cima do ombro com um sorriso no rosto.

— Bem, estou feliz por vocês dois. Imagino que não tomariam uma decisão séria como se casar levianamente.

E alguma coisa na voz dela e no jeito que ela falou deixou óbvio que ela não acreditava que eu seria a pessoa certa para Ferrante.

O que não me incomodava nem um pouco.

Era bom que algumas pessoas já percebessem desde o começo que eu e Sebastian nunca daríamos certo.

Dei duas batidas na porta do quarto antes de abri-la.

Sebastian estava na frente da minha penteadeira analisando todos os rótulos dos meus produtos.

— Procurando algo de seu agrado? — perguntei, e ele se virou para me encarar enquanto cheirava o conteúdo de um dos frascos.

— Sério, é tão fácil arrancar dinheiro de mulher.

— Pensando em entrar para o ramo?

Sebastian riu.

— Não preciso disso. Aliás, gosto de arrancar outras coisas delas, não dinheiro.

Fiz uma careta.

— Você é nojento. — comentei enquanto ele se jogava de costas no colchão. — Tem algum lado preferido na cama?

— Tanto faz, mas acho que preciso avisar que durmo de cueca.

Rolei os olhos.

— Ficando do seu lado da cama e não encostando em nenhum centímetro de pele meu, você pode dormir até pelado se quiser.

— Isso foi uma oferta?

Não respondi e peguei minha camisola, andando em direção ao banheiro.

— Acha que todo mundo acredita que estamos juntos? — Sebastian perguntou quando eu abri o chuveiro.

— Se você falar um pouco mais alto, acho que a casa toda vai conseguir te escutar.

— Bem que seus pais poderiam ter colocado paredes mais reforçadas. — Ferrante disse num muxoxo.

— Se você se comprometer a pagar, eles folheam toda e qualquer superfície com ouro.

— Engraçadinha. — Sebastian fez uma pausa. — Apesar de tudo, sua família parece ser legal.

Soltei uma risada nasalada.

— Que bom! Fico muito aliviada que minha família é de seu agrado. Se não fosse, eu certamente teria que achar outra.

— Nossa, mas você é tão grossa. Estou puxando assunto com você, sabe? Se vamos fingir que somos um casal nas próximas semanas, precisamos diminuir essa animosidade entre nós.

Entrei debaixo da ducha pensando que os mares pegariam fogo antes que nossa "animosidade" diminuísse.

Quando terminei e me vesti, abri a porta do banheiro apenas para encontrar Sebastian do outro lado dela. Sem camisa e com uma boxer.

— Você poderia ter a decência de me dar privacidade e de colocar uma daquelas suas cuecas horrorosas samba canção quando for dormir na mesma cama que eu.

— E perder a chance de ver você corar? Está muito além da minha boa vontade.

Passei por ele, sentando na penteadeira. Suas costas estavam visíveis para mim através do espelho, e me peguei observando.

Apesar de já ter visto-o seminu no meio da sala do seu apartamento, naquele momento eu não estava tomada pelo ódio de ele estar atrasando todo o meu cronograma.

Prendi meu cabelo enquanto analisava todo o mecanismo de seus músculos enquanto ele escovava os dentes.

Sua pele parda na luz fraca do banheiro parecia fazer cada elevação e depressão ficar ainda mais acentuada. Na base de sua coluna estavam as duas covinhas e... eu pisquei.

Por Deus, eu não estava secando Sebastian Ferrante voluntariamente.

Era apenas a estranheza de ter um homem seminu no meu quarto depois de tanto tempo.

Sebastian se virou e antes que meus olhos se pusessem analisar a parte da frente — que era bem mais perigosa — do seu corpo, eu tentei me concentrar em achar meu creme de hidratação noturno.

— Não precisa fingir que não estava olhando para minha bunda pelo espelho da penteadeira.

— Você tem uma opinião muito elevada sobre si mesmo. — rebati, terminando de passar o creme no meu rosto e pegando outro para as pernas.

— Seria falsa modéstia fingir que meu corpo não é algo a se apreciar.

Me inclinei para ligar a luz da penteadeira e desligar a do quarto.

— Vá dormir, Sebastian.

SEBASTIAN

Foi uma péssima ideia aquela história que eu só dormia de boxer.

No começo era só para irritar Sartori — e eu sabia que estava funcionando pelo menos um pouquinho — que estava provavelmente se amaldiçoando a cada cinco segundos por ter me escolhido para fazer aquele esquema com ela.

Mas o feitiço não demorou muito a virar contra o feiticeiro.

Todo mundo estava ciente o quanto analisar figuras femininas era uma atividade que eu gostava muito de exercer.

Fingir que Olivia não era atraente era extremamente difícil. Prova disso era que só as pernas longas e linheiras dela eram dignas de pelo menos uma hora de observação.

Engoli em seco quando ela apoiou uma das pernas no puff vago que estava ao seu lado, a barra da camisola subindo perigosamente por sua coxa.

Conseguia ouvir meu coração ficando um pouquinho acelerado com a visão e a realização que em poucos segundos eu provavelmente veria mais do que era esperado que eu visse.

Então tive um vislumbre do shorts por baixo.

Minha respiração saiu como um suspiro decepcionado e eu decidi deitar de uma vez.

— Quem convidou sua amiga para vir? — Olivia comentou alheia aquele momento vergonhoso.

Me virei para encará-la enquanto fazia uma barreira idêntica a que havia colocado entre nós no hotel.

— Meus pais. Foi uma surpresa encontrá-la aqui.

— E ela não sabia de nós dois? — As mãos de Olivia deslizavam preguiçosamente por sua pele de aparência macia enquanto ela contemplava o que eu disse.

Enfiei a metade inferior do meu corpo embaixo do lençol antes que acabasse nos colocando numa situação desconfortável.

— Eu não tinha chegado a contar... mas por que a pergunta?

— Seus pais queriam que fosse ela, não é? — Olivia disse trocando de perna. Ela olhou para mim. — Sua noiva. Eles a trouxeram como um último lembrete para você.

Eu já havia contemplado aquela possibilidade também, mas...

— Isso seria maldoso.

— Pais desesperados fazem coisas que você nem imagina. Eles acreditam sempre que idade é experiência e agem em nome do "meu filho não consegue enxergar isso porque não viu o suficiente da vida, então preciso fazer enxergar a burrada que ele ou ela pode estar fazendo."

— Ainda continuaria sendo maldoso considerando que eles não sabem que estamos fingindo. — pontuei.

— Depende. Não é como se eles estivessem me ignorando ou me tratando mal e deixando óbvio que queriam você com ela. É apenas um lembrete sutil para você. Ainda é você que decide se resolve ouvi-los ou não. — Ela se levantou e fechou o pote de hidratante. — Eu só percebi porque sou observadora e porque não tenho absolutamente nenhum interesse em você. Uma pessoa apaixonada não perceberia tão fácil.

Olivia caminhou em direção ao seu lado da cama enquanto eu ligava o abajur.

— E o que você espera que eu faça com todo esse seu insight, ó brilhante Olivia Sartori? — perguntei quando ela deitou por cima do lençol.

Na pouca luz, pude perceber ela dando de ombros.

— O que você quiser... Aproveitar que isso aqui não é real e talvez dar uma chance para a mulher que parece se importar com você de verdade e que você por algum motivo, provavelmente idiota, está fingindo que não vê.

Não respondi e Sartori bocejou.

— Pode chegar um dia que perceba que dormir com várias pessoas diferentes é capaz de amenizar a dor de algo do passado. Te dar prazer enquanto você ignora a ferida. Contudo só uma pessoa, uma que te compreenda de verdade e que vai estar ali para você, vai te ajudar a catar os caquinhos e a cicatrizar o estrago.

— E por que você acha que eu tenho algum machucado que precisa ser curado se não sabe nada sobre mim?

Olivia deu de ombros.

— Não sei. Nunca disse para considerar o que eu estou falando. Só estou...como foi que você disse?...puxando papo. — sua voz foi ficando mais lenta a cada palavra até que ela se virou de costas para mim e disse. — Boa noite, Sebastian.

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Notas finais
Heeyyy, meus amores! TROUXE O PRIMEIRO BEIJO PRA VCS E MAIS COISINHAS RSRSRS O QUE ACHARAM? dei um capítulo grandão pra vcs ein!!!!!! corre pra ler o próximo PQ HJ É ATT DUPLA - rsrsrs não me matem com o próximo suhusahuahuhu!! ( não esquece de dizer oq achou desse ;) ) xx