Contrato de Casamento
10 Dez
Notas iniciais
"I'll bet she's beautiful, that girl he talks about."
(Teardrops On My Guitar)
OLIVIA
Eu iria cometer patricídio.
Abri minha maleta com certa brutalidade.
Iria matar meu pai lentamente.
Comecei a organizar meus produtos de higiene pessoal como de costume.
Ele era teimoso e impossível. Mas o velho era extremamente esperto.
Isso eu tinha de admitir.
Então me lembrei que estaria dividindo o meu quarto com mais uma pessoa.
Com Sebastian.
Acho que nem se eu grunhisse que nem uma besta descontrolada conseguiria expressar toda a minha frustração.
Uma vozinha fina e irritante no fundo da minha cabeça me dizer que eu havia cavado minha própria cova.
E pela primeira vez na vida, não era paranóia. Ela estava mais do que certa.
Pedro Sartori conhecia sua filha bem demais para saber que aquela história de noivado relâmpago era estranha demais para ser real.
Apesar disso, eu tinha de me manter firme. Ele não concordaria de jeito nenhum de eu estar fazendo aquilo só para tentar manter meu emprego.
Não ele, que dizia que eu teria trabalho sempre que quisesse cuidando e administrando as terras dele. Ele falaria, falaria e, como sempre, acabaria me convencendo que a melhor maneira era o que quer que ele sugerisse.
Meu pai era assim.
Para ele, nossa cidadezinha era um pedaço de céu na terra. Para mim, hoje em dia, era mais próximo de um pesadelo.
A cada esquina havia um conhecido com uma foto constrangedora sua no celular, da época que você usava aparelho.
A cada loja havia alguém tentando te contar como a vida do filho estava muito melhor do que a sua.
E o pior, a cada rua havia uma lembrança de um passado não tão distante que ainda era doloroso de lembrar.
Então contar a verdade para meu pai não era uma opção.
E, felizmente ou infelizmente, ele faria questão de ouvir a verdade da minha boca e para isso ele iria me testar de todas as formas para que eu chegasse no meu limite.
Meu pai estava muito bem familiarizado com as minhas ressalvas a respeito de Sebastian e estava forçando minha convivência com meu "futuro marido".
Contudo, eu era determinada.
E iria com aquilo até o fim.
Ele havia me criado uma Sartori, afinal.
Só precisava pedir a Deus uma dose extra de paciência para lidar com Sebastian.
Coloquei um vestido florido que havia colocado na bolsa de emergência que não usava há meses apenas porque o ar ali naquela época do ano era quase uma live experience do inferno.
— Você vai querer que eu te acompanhe até o hotel onde seus pais estão? — gritei contra a porta do banheiro.
— Com certeza, tenho medo de dar um passo para fora dessa casa sozinho e descobrir que não estou mais no Kansas.
— Sério, você é um otário. — comentei, passando protetor solar no meu rosto. Era bem capaz de eu acabar ficando com milhares de pintas na cara se não o fizesse.
Então passei o protetor labial.
— Por que seu pai não gosta de mim, hein? O que você andou falando de mim? — Sebastian perguntou, mas eu não percebi o quanto sua voz estava próxima. Ao abrir a porta do banheiro, percebi um momento atrasada que ele estava apoiado nela.
Ferrante se desequilibrou e me desequilibrou com ele.
Uma de suas mãos segurou rápido no batente e a outra se espalmou na base da minha coluna me segurando com firmeza.
Ficamos uns cinco segundos nos olhando com os olhos arregalados.
Então a porta do quarto foi aberta bruscamente.
Meu pai nos encarou e estreitou os olhos para a cena.
Eu não conseguia me mover, Sebastian muito menos.
— Só vim checar para ver se estavam precisando de alguma coisa para buscar os pais do garoto. — Quando nenhum de nós dois respondemos, ele assentiu com a cabeça, fazendo menção que iria sair, mas então...— Não é porque eu deixei vocês dois no mesmo quarto que vou permitir indecências sob meu teto, está bem?
E com isso ele finalmente bateu a porta.
O corpo de Sebastian começou a tremer contra o meu enquanto eu encarava a porta, chocada.
Foi só quando voltei a olhar para ele que percebi que ele estava rindo. Rindo.
— Eu não acredito. — murmurei, ultrajada e Sebastian começou a gargalhar, apoiando sua testa em meu ombro, sua mão me apertando ainda mais contra seu corpo.
— Do que você está rindo, infeliz? Me solta, Sebastian. — Me remexi em seu aperto e ele começou a buscar por ar enquanto ria.
— Eu estou muito feliz...que não somos...um casal de verdade. — Arqueei uma sobrancelha, Sebastian me olhou. — Se ele já soubesse quantas indecências já fiz na casa dos pais das minhas namoradas...Ele iria me odiar.
— E você acha que isso é uma conquista legal para sair por aí se gabando? — perguntei com desgosto.
— Desculpe, pequena Miss Sunshine. — sua mão escorregou das minhas costas e ele deu um passo para trás. — Esqueci que as conquistas de verdade para você é ser a primeira da classe por...cinco anos consecutivos?
Ele apontou para a parede do meu quarto que estava com diversos certificados, medalhas e alguns troféus.
— Vai se foder.
Ele levantou o dedo indicador e antes mesmo de Sebastian abrir a boca, eu já sabia o que sairia.
— Eu iria, mas você ouviu seu pai, nada de indecências sob o teto dele.
SEBASTIAN
Quando Olivia passou por mim para sair do banheiro me inclinei e cheirei o ar pelo do seu cabelo.
Ela me olhou como se eu fosse louco.
Eu franzi a testa:
— Você não usava shampoo de morango?
— Troquei. — ela disse, simplesmente caminhando até a mala maior e se preparando para desfazê-la. Continuei olhando-a, como se tentasse entender a visão à minha frente.
Ainda era meio desconcertante vê-la sem as roupas sérias do trabalho. O vestido florido chegava no meio de suas coxas e subia perigosamente alguns centímetros quando ela se movia.
— O que foi agora? Você não disse que era alérgico a shampoo com aroma forte ou algo assim? — ela respondeu se inclinando para pegar alguma coisa no canto mais afastado da mala e eu virei o rosto.
— E você trocou por isso? — questionei, confuso.
— Preferiria que eu continuasse usando para você ter uma crise alérgica toda vez que eu chegasse perto?
Não sabia o que eu poderia responder.
Olivia também não estava usando nenhum perfume sobressalente e se eu pudesse confiar em minha memória, ela também não tinha usado no dia anterior.
Não sabia o que fazer com aquele fragmento de informação, não queria confundir a escolha de Sartori como um gesto atencioso em vez de algo para seus interesses pessoais, então apenas peguei minhas roupas e entrei no banheiro.
•
Depois de tudo pronto, eu mandei uma mensagem para Hunter e meus pais dizendo que estávamos a caminho do hotel.
Olivia disse que aproveitaria enquanto eu recebia meus pais para encontrar a melhor amiga dela, Felícia, ou algo do tipo.
Entramos em um consenso de que precisaríamos conversar sobre as pessoas importantes na nossa vida o quanto antes, para evitar futuras dores de cabeça.
— Seus pais devem estar se coçando com o ar de pobre da cidade, não? — Olivia perguntou quando entramos na rua principal.
Ela estava tamborilando incessantemente os dedos no apoio da porta do carro.
Dei de ombros:
— O rico nojento é só eu. Meus pais não se importam com nada disso. Na verdade, meu pai deve estar em êxtase por estar aqui. O sonho dele é jogar tudo para o ar e morar numa cidade do interior. Ele diz que não aguenta mais ter pensamentos homicidas cada vez que enfrenta um trânsito.
Olivia balançou a cabeça.
— Não posso dizer que não entendo ele, se essa cidade não fosse a minha cidade, seria sem dúvidas um lugar bom para os anos de descanso.
Chequei o número do prédio que minha mãe havia me mandado, e Sartori me confirmou que era ali mesmo, então estacionei.
— Você quer...que eu...vá com você? — ela perguntou, meio hesitante.
— Não é a razão de você estar aqui?
— Eu vim para ajudar no caminho. Estou perguntando se é para eu entrar, apenas por educação.
Rolei os olhos:
— Você me jogou no meio da sua família sem nenhuma preparação, hora de retribuir o favor.
Olivia respirou fundo e estalou o pescoço, coisa que ela fazia quando estava mais nervosa do que queria demonstrar.
Tirei o cinto de segurança e saí do carro, dando a volta para abrir sua porta.
—Estou esperando o momento que você vai deixar sua ceninha de lado e esquecer de abrir a porta do carro para mim. — ela disse forçando um sorriso confiante, apoiando um pé no degrau da caminhonete e tomando cuidado com a barra do vestido.
— Melhor esperar sentadinha então, — retruquei, estendendo uma mão para ajudá-la a descer. — De preferência em um lugar confortável. — Olivia estreitou os olhos na minha direção e eu só percebi depois de alguns segundos que eu estava distraído...
...
Que se dane, eu estava distraído pelas pernas de Sartori, que Deus me perdoe.
Eu falei mesmo para ela sentar em um lugar "confortável"?
Vergonhoso e barato.
Até para mim.
— Fale qualquer coisa de duplo sentido na frente do meu pai e ele vai fazer da sua vida um inferno.
Bufei.
— Agora eu entendi com quem você tomou aulas e...
— SEB!!!! — uma voz conhecida berrou e eu me virei na direção bem a tempo de ver a última pessoa que eu esperava estar presenciando aquele circo.
— Julie?! — Foi o que tive tempo de dizer antes que ela pulasse em cima de mim. — O que você está fazendo aqui?
— Quis fazer uma surpresa. — ela explicou, passando os braços pelo meu pescoço. Tomei cuidado de não inspirar muito perto dos seus cabelos. — Faz tanto tempo que a gente não se vê.
— Tenho andado muito ocupado ultimamente e...— Olivia limpou a garganta atrás de mim. Coloquei Julie no chão. — Olivia, essa é Julie, minha melhor amiga de infância. Julie, essa é Olivia, minha... noiva.
Sartori estendeu a mão para cumprimentar, mas foi atacada do mesmo jeito que a irmã dela me atacou uma hora atrás.
— Muito prazer! — Era a cena mais bizarra que eu poderia ter imaginado. Julie e Olivia se abraçando no meio da rua. — Olha, você é muito boa. Não achei que iria vir um dia que Sebastian fosse pensar em casamento de novo. Parecia comprometido demais com a vida de solteiro.
Numa análise rápida, Julie havia falado naturalmente, mas eu era capaz de perceber o tom afiado por trás de suas palavras.
— Mas estou muito feliz que ele tenha superado.
O sorriso dela era enorme. Enorme demais.
E meu coração se quebrou um pouco, se recordando de alguns muitos anos antes quando eu havia dito que nós dois nunca daríamos certo porque eu não me via em um relacionamento com ninguém. Não depois de Eloise.
Julie estava exatamente como eu lembrava dela pela última vez que nós vimos numa festa de família, quando trocamos duas palavras porque ela teve uma emergência no trabalho. A única diferença é que seus cabelos castanhos claros agora estavam cortados na altura do ombro e com algumas mechas mais claras. Sua cabeça batia quase no meu peito e eu não conseguia lembrar o dia que Julie tinha sido mais alta do que eu.
O que tinha vindo bem a calhar quando eu a carreguei em meus braços e nós...
— Cadê meus pais e Hunter? — Cortei minha linha de pensamento para meu próprio bem.
Julie enumerou nos dedos:
— Hunter está atrasado como sempre. E seus pais já estão descendo. Eu aconselharia esperar aqui, o corredor inteiro está cheio de bagagens. — ela disse com os olhos arregalados. — E por falar em bagagens, será que você pode ajudar a pôr a minha no carro?
OLIVIA
A coisa mais notável de Julie Mancini era que ela estava apaixonada por Sebastian.
E se eu pudesse apostar, ela estava assim há um bom tempo.
Talvez, desde sempre.
Porém, eu tinha que também lhe dar o crédito que ela estava fazendo o possível para não deixar isso transparecer para mim e talvez nem para ele. Julie tentava parecer feliz pela gente, mas era impossível manter aquela alegria o tempo todo.
E, quando achava que ninguém estava prestando atenção, ela deixava a fachada cair só um pouco.
Era triste ter de lutar contra seus próprios sentimentos.
Se Sebastian percebia, não deixava transparecer. Ou talvez eles já tivessem conversado sobre aquilo, e Julie apenas não sabia como lidar.
Enfim, não era da minha conta.
Não demorou muito para os pais de Sebastian aparecerem, fazendo com que eu me sentisse a pessoa mais mal vestida do mundo.
Embora eu tenha pensado que eles apareceriam com roupas sociais e formais completamente destoantes da cidade onde estávamos, a senhora Ferrante usava um lindo vestido florido que ia até os pés, calçados com sandálias de dedo. O senhor Ferrante estava bem parecido com o filho: com uma camiseta enrolada até os cotovelos e uma calça jeans.
Nenhum dos dois aparentavam ter idade para ter um filho como Sebastian.
— Essa é nossa Olivia? — a voz suave da mãe de Sebastian me cumprimentou e meu coração deu um pulinho ao ouvir a pergunta.
— Muito prazer, senhor e senhora Ferrante. — me inclinei trocando beijos com a mãe de Sebastian e estendi a mão para o seu pai que a beijou assim como o filho fazia.
—Por favor, nada de senhor ou senhora estamos prestes a fazer parte da mesma família. Mesmo que tenha sido muito repentino. — Eu me chamo Cecília e ele se chama Caleb.
— O prazer é todo nosso. — comentou Caleb.
— Você é ainda mais bonita pessoalmente. — Cecília elogiou e eu senti minha bochecha esquentar quando Caleb concordou.
Um dos casais mais bonitos que eu já tinha visto me chamando de bonita. Era brincadeira, né? Principalmente com a melhor amiga de Ferrante logo ali do lado que parecia ter saído de uma sessão de fotos.
— Cadê o Hunter?
— A atração principal da festa acaba de chegar! — uma voz grossa veio da entrada do hotel e eu me virei para ver um dos caras mais bonitos que eu já havia conhecido.
O tal do Hunter tinha o porte físico de um jogador de futebol americano. Sua pele era mais clara do que a de Sebastian, mas ele claramente havia passado os últimos dias sob o sol de algum lugar.
Seus olhos eram castanhos quase pretos, seus cabelos tinham a mesma tonalidade e chegava praticamente na altura dos seus ombros largos.
Era facilmente um dos homens mais lindos que eu encontrara.
Hunter e Sebastian deveriam fazer um estrago tremendo quando saiam juntos.
Ele certamente percebeu que eu o analisava e quando nossos olhos se encontraram e não foram só as minhas bochechas que ficou quente, mas o meu corpo inteiro.
Um segundo depois o Sebastian estava ao meu lado e deu um tapa na cabeça de Hunter.
— Seja educado uma vez na vida e cumprimente minha noiva direito.
Eu poderia jurar que o "minha noiva" sutil de Sebastian tinham um tom de aviso bem claro.
Hunter piscou e um sorriso ainda mais largo preencheu o seu rosto.
— Mademoiselle. — Ele beijou as costas da minha mão.
— Pelo amor de Deus, pare de ser incorrigível. — Julie reclamou rolando os olhos.
Sebastian abraçou seus pais e seu amigo, e eles engataram uma conversa enquanto eu falava com Patricia no celular.
Minha melhor amiga estava lívida. Ela odiava ser a última a saber as novidades ou, nesse caso, ser apresentada.
No entanto, como ela estava numa semana bem corrida no trabalho da loja de seu pai, eu prometi que a deixaria por dentro de todas as interações que aconteceram entre minha família e a família de Sebastian.
Avisei a Ferrante que ele poderia levá-los para casa de meus pais sem mim, pois eu ainda tinha que visitar uma amiga.
Meu pseudo noivo, que estava numa conversa entretida com Julie e Hunter, não ligou muito para o que eu disse e apenas me dispensou com gesto displicente da mão.
O que era relativamente bom porque eu ainda não tinha divagado sobre como deveria agir com meus supostos futuros sogros, nem com o círculo de amizades de Sebastian.
Quer dizer, da última vez que estive naquela situação de... "noivado", eu estava noivando com Max e eu já conhecia a família dele desde quando eu usava fraldas. Seus amigos eram majoritariamente meus amigos.
Com aquele plano com Ferrante, era tudo diferente, tudo novo e eu precisava me adaptar aquilo o mais rápido possível.
•
Quando cheguei à loja da família de Patrícia as luzes estavam apagadas e a porta fechada, o que era estranho, não dizer suspeito. Eles faziam qualquer coisas com madeira e, para o desespero dos pais de Patty, ela era mais chegada a fazer objetos artísticos do que práticos. O que não fazia muita diferença — a não ser pelo "orgulho" da família — já que seus trabalhos era um dos mais famosos da cidade.
Cada casa tinha pelo menos um objeto de decoração feito pela Pattie.
Por isso, para quem tinha uma clientela fiel e quase obcecada, era estranho ver a loja fechada no meio da tarde. Principalmente depois de Patty ter me mandado uma mensagem quinze minutos atrás garantindo que estava me esperando ali.
Dei duas batidinhas na porta e tentei enxergar através da vitrine, mas o interior estava escuro demais.
Resolvi fazer uma tentativa de ver se a porta estava destrancada e, para minha sorte, estava.
Porém, para o meu azar, minha amiga era uma doida, descontrolada.
Assim que dei o primeiro passo para dentro do estabelecimento, senti duas mãos firmes, colocar meus braços para trás enquanto fechava a porta com um chute.
Eu literalmente não conseguia enxergar um palmo à minha frente, nem fazer nada além de me debater e tentar gritar socorro quando a pessoa simplesmente me carregou e me jogou em uma cadeira de madeira.
Num minuto de sorte, consegui chutar a canela do desconhecido e ele uivou de dor.
— Sério, por que eu ainda me sujeito a esse tipo de maluquice? — o desconhecido, não tão desconhecido assim, murmurou.
— Júlio!!
— Oi, Olivia. — Eu ainda estava em um estado de choque tão grande que nem reagi enquanto Júlio amarrava meus braços na cadeira.
Uma lâmpada foi acesa do outro lado da sala.
— PATRICIA! Que merda é essa?
A mulher louca deu alguns passos na minha direção.
— Esse é um espaço seguro, Olivia.
Olhei para meus braços presos e forcei um sorriso.
— Claro. Estou me sentindo extremamente segura.
Patty ignorou meu comentário e continuou:
— Aqui você pode dizer toda a verdade e abrir seu coração. Estou aqui para te libertar de toda loucura ou hipnose que você possa estar sob o efeito.
— Por tudo que é mais sagrado, eu sou o único normal dessa família. —Júlio cochichou do meu lado.
E só depois do seu comentário que eu fui perceber que Patricia estava vestindo uma túnica que ia até os seus pés, uma coroa de flores na cabeça e umas pulseiras enormes e fora de moda nos braços.
Ah sim, a túnica era, na verdade, uma cortina velha.
— Você pode se confidenciar em mim.
— Eu até pensaria nisso se você não fosse uma maluca. Me solta daqui, Patrícia.
— Me diga, — Patty se aproximou até ficarmos cara a cara. — É dívida de jogo?
— Não, eu...
— Ele enfeitiçou você?
— Patricia, pelo amor...
— Ele achou fotos peladas suas e agora está te chantageando?
Virei para encarar seu irmão:
— Tem como você fazer sua irmã calar a boca?
— Peço esse poder para Deus todas as noites antes de dormir.
— Patty, por favor, deixa de loucura e vamos conversar. Ninguém está me enfeitiçando, me chantageando ou nada do tipo. Eu e Sebastian vamos mesmo nos casar.
Ela suspirou resignada.
Tirou a coroa de flores da cabeça, as pulseiras e a cortina empoeirada que me fez tossir.
— Ok, Júlio. Pode ir embora. Vou ter que apelar pelo tratamento de choque.
Júlio nem se demorou muito.
—Desculpa, Oli. — ele deu um beijo na minha bochecha antes de se afastar. — Só você é capaz de ser forte às insanidades da minha irmã.
E com isso ele sumiu na penumbra.
— Tem como você virar uma pessoa normal, ligar uma luz e me desamarrar?
Ela cedeu e ligou a luz mais forte do lugar.
— Não vou te desamarrar antes de me contar como isso aconteceu. Estava pensando em técnicas de tortura para extrair a verdade.
— E eu não vou contar nada enquanto estiver presa aqui.
Nós nos encaramos por alguns segundos. Eu apelei para meu olhar mais furioso que conseguia conjurar.
Nem Patrícia era páreo para mim.
— Você é uma filha da mãe. Sabe que não resisto a essas pernocas de fora e por isso pôs esse vestidinho.
Rolei os olhos, mas não podia negar o quanto estava feliz por vê-la ali na minha frente. Mesmo enquanto ela me desamarrava de uma cadeira.
Patricia sabia de todos os meus perrengues e dificuldades. Ela tinha estado ao meu lado ainda quando não poderia estar fisicamente. Minha amiga tinha visto meu melhor e pior lado e nunca cansava de dizer o quanto estava orgulhosa de mim ou o quanto ficava feliz quando percebia que eu estava bem.
Claro, eu ainda não estava cem por cento bem, principalmente naquela semana, mas ela apreciava cada esforço meu.
Quando estava livre, me levantei da cadeira tomando meu tempo para encará-la cheia de saudade.
Os seus braços me envolveram e ficamos abraçadas por uns bons cinco minutos até o pai de Patricia gritar dos aposentos do fundo questionando porque metade das luzes estavam apagadas e a loja estava fechada.
—Agora que você está aqui pode abrir esse bico e ir me contando tudo nos mínimos detalhes.
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