Contrato de Casamento
55 Cinquenta e Três pt. 1
Notas iniciais
"I wanna reach out for ya
I wanna break these walls"
(Diana)
OLIVIA
As pessoas diziam que era um passo de cada vez.
Embora eu me sentisse mais leve depois de ter me aberto com Sebastian, minha mente não me deu descanso, pensando em todas as formas de como aquilo poderia dar errado.
Começando comigo sendo patética e terminando com um meteoro caindo na Terra e estragando toda a esperança que eu ameaçava cultivar.
Ou seja, enquanto a respiração de Sebastian ficou pesada e ele acariciava parte do meu rosto até seus movimentos se resumirem ao subir e descer do peito, eu continuei acordada, guardando cada detalhe do seu rosto e dos seus movimentos durante o sono.
Pensando e pensando...até a primeira luz do dia começar a aparecer entre as cortinas do quarto e eu me sentir exausta.
Olhando a hora no relógio do celular, eu percebi que seria em vão tentar dormir logo quando a primeira ronda dos enfermeiros estava prestes a começar e, provavelmente, Sebastian receberia alta. Seria apenas o tempo de fechar os olhos e ser acordada por algum funcionário do hospital.
Decidi que tomaria um café, mas, na primeira tentativa de sair dos seus braços, Ferrante apertou ainda mais o braço que mantinha em volta do meu corpo.
Ele murmurou algo ininteligível e eu me perguntei se ele estaria sonhando comigo novamente. Como no outro dia.
Se seu sonho estava sendo tão...animado quanto naquela vez.
Lutei contra o impulso de pressionar ainda mais o meu corpo contra ele para tirar aquela dúvida e respirei fundo.
Eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Não sabia porque Sebastian me deixava tão no limite daquela forma.
Eu tentava me enganar e dizer que o motivo era porque fazia um bom tempo que eu havia estado em uma situação de intimidade com alguém, mas seria mentira.
Era clichê, mas era a verdade — uma verdade bastante preocupante por sinal: Nenhum homem tinha feito com que eu me sentisse da mesma maneira que Sebastian fazia.
No início do nosso relacionamento, Max chegava perto, mas ainda assim não era a mesma coisa.
Max me tocava e meu corpo respondia, mas com o homem deitado ao meu lado era diferente. Bastava um olhar seu, um sorriso. Às vezes, nem isso. Bastava ele entrar no mesmo cômodo que eu e meu corpo reconhecia sua presença.
Era vergonhoso admitir que não era uma coisa tão recente nem que havia apenas começado com o nosso contrato. Muitas vezes eu me pegava observando-o por segundos a mais do que a prudência aprovaria. O seu terno bem cortado, sua postura, os sorrisos absurdos que desarmariam qualquer um.
Antigamente aquilo costumava me enfurecer porque chamava minha atenção mais do que deveria. Naquele momento, me fazia com que eu agisse de formas impulsivas como na noite anterior.
Não me arrependia de nada que tinha dito, mas ainda me perguntava como deveria ter sido aos olhos dele.
Será que ele me achava emocionada demais? Estávamos juntos por apenas uma semana e meia e parte desse tempo nós nem mesmo tínhamos estado juntos de fato.
No entanto, Sebastian, me parecia agora bem categórico com seus sentimentos, ele não tinha interesse nem necessidade nenhuma de alimentar minhas ilusões — assim como ele dizia que não alimentava nenhuma expectativa das mulheres com quem passava a noite.
O que queria dizer algo, não é?
— Olivia Sartori, — a voz do doutor cortou meus pensamentos e eu quase senti meu coração parar. — Poderia me explicar o que está acontecendo?
Me ajeitei com um sobressalto, o movimento brusco despertando também Sebastian.
— Perdão. Eu sei que não deveria estar aqui...
— Nem no quarto, muito menos em cima da cama. — Ele me interrompeu e eu senti minhas bochechas esquentarem.
— Ela só estava atendendo o pedido de um moribundo, doutor. — A voz meio embargada de sono de Sebastian soou atrás de mim. — A culpa é completamente minha.
— Dificilmente consideraria seu estado como de um "moribundo", senhor Ferrante. — O médico tinha um ar cansado e eram no máximo oito da manhã. — Além disso, sua noiva ainda entrou sozinha no seu quarto fora do horário de visitas e aqui permaneceu.
Eu me levantei da cama com esforço — Sebastian fez força para continuar me segurando até eu olhá-lo com uma cara feia e ele me lançar um de seus sorrisos preguiçosos — e morta de vergonha.
— O doutor tem razão. Eu fiquei preocupada e não consegui dormir, então resolvi ver como ele estava. Foi um ato impensado, sinto muito. — O homem me olhou quase torcendo a boca, mas suspirou e deu um sorriso.
— Ah, os impulsos da juventude... Dessa vez passa, mas espero que não se repita, Sartori.
— Se tudo der certo manterei esse aqui fora de encrencas.
— Veja, doutor, ela fala como se eu tivesse me jogado do cavalo. Um absurdo.
— O que não seria uma surpresa para nenhum de nós. — rebati. — Mas agora vou deixar o senhor trabalhar e vou tomar uma xícara de café... ou quem sabe umas dez.
SEBASTIAN
Olivia saiu pela porta ainda envergonhada por ter sido chamada atenção. Se eu aprendi alguma coisa sobre ela era que odiava ser repreendida, mas eu estava surpreso por Olivia estar levando a situação muito mais na boa do que seria esperado da temível Olivia Sartori.
Desde que chegamos ali, essa versão de Olivia tinha aparecido muito pouco, o ponto mais crítico quando brigamos após nosso primeiro beijo, escondidos em um depósito.
Talvez a visão que eu estivesse tendo dela fosse diferente porque ali, na sua cidade natal, era quase impossível não ver os motivos de ela ser tão coração de gelo como costumava ser na empresa.
Seu ex era um babaca que a teve nas mãos e não deu o devido valor, sua família embora amorosa parecia sempre esperar um comportamento exemplar dela, e todo restante daquela merda de cidade que parecia ficar atenta a cada deslize que Olivia pensava em cometer.
Uma partezinha de mim, porém, sussurrava em meu ouvido dizendo que aquele relaxar no comportamento de Olivia era por minha causa, que aos poucos eu estava conseguindo fazer com que ela se abrisse para mim, derretese o gelo, abaixasse a muralha que parecia erguer entre ela e o resto do mundo.
Ainda estava fresca a sensação dos seus dedos acariciando meu rosto minutos atrás e durante toda a madrugada enquanto ela achava que eu estava dormindo.
Tinha que fazer um esforço enorme para continuar na mesma posição quando percebia seu toque sobre a minha pele: ela parecia desenhar meu rosto suavemente — tão suavemente que parecia um sonho — com a ponta do dedo.
As costas da mão acariciando minha bochecha, os dedos tirando fios do meu cabelo que caíam na testa.
— Senhor Ferrante. — O médico me tirou dos devaneios e então percebi que tinha passado os últimos minutos encarando o ponto exato em que Olivia havia sumido pela porta. — Então Olivia finalmente tirou a sorte grande.
Olhei para ele com uma expressão questionadora:
— O quê?
Ele balançou a cabeça.
— Fazia tempo que eu não presenciava por aqui um casal tão apaixonado quanto vocês dois.
Um sorriso preencheu os meus lábios e eu me recostei nos travesseiros enquanto o doutor conferia alguns dados no aparelho ao lado da minha cama.
— Acho que sou louco por ela.
O médico deu um risinho.
— E ela por você. Confie em mim, conheço Olivia desde pequena, sou o médico da família Sartori e fui o dela por anos. Poucas pessoas seriam capazes de fazê-la quebrar uma regra sequer, meu rapaz. Não que isso seja necessariamente algo bom. — Ele disse ainda rindo, se virou para mim e deu dois tapinhas no meu braço enquanto eu assimilava suas palavras. — Vamos fazer os últimos exames para conferir se está tudo certo para te dar alta?
OLIVIA
A lanchonete do hospital estava vazia e eu pude caminhar por ela toda enquanto bebericava o segundo copo de café. Só uma quantidade astronômica seria capaz de me fazer passar acordada por aquele dia. Eu não havia fechado os meus olhos por um momento sequer durante a noite, hipnotizada demais catalogando cada detalhe do rosto de Sebastian, inundada demais pela sensação de ter espalhado meus sentimentos todos na frente dele, aterrorizada com a possibilidade de ter ido longe demais.
Parte de mim sabia que eu tinha cruzado uma linha invisível na noite anterior. Revelar sentimentos que eu nem tinha admitido em voz alta para mim mesma foi um passo ousado.
Talvez ousado demais para alguém como eu e essa percepção fazia com que eu me sentisse sufocada em alguns momentos. No entanto, na maior parte do tempo, eu me sentia feliz de uma maneira que não conseguia explicar. Como se eu fosse uma represa e todas as comportas tivessem sido abertas depois de muito tempo.
Ou talvez pela primeira vez.
Eu havia amado Max não tinha dúvidas disso, mas não demorou para eu perceber que era um amor pesado que me deixava inquieta e não de um jeito bom. Com medo de pisar em falso. Com medo de não atingir expectativas altíssimas.
O que eu sentia por Sebastian me deixava inquieta, mas no quesito de que eu queria sair saltitando por aí. Sorrindo até minhas bochechas doerem. Era como se eu pudesse sair flutuando a qualquer instante.
Já com Max...
— Max?!
Parei tão bruscamente no meio do corredor que o líquido quente do copo escorreu pela minha mão.
— Merda!
Corri rápido para apoiar o copo em uma mesa próxima a mim e Max se apressou em pegar alguns guardanapos, apoiando ali também o enorme buquê que estava nas suas mãos.
— Aqui, aqui. — ele disse, pegando minha mão na sua, dando batidinhas de leve para enxugar o local. Seu toque em mim, porém, era muito mais doloroso e repelente do que qualquer café fervente.
Puxei minha mão de volta num sobressalto, segurando-a contra o peito. Uma posição no mínimo ridícula aos olhos de Maximus.
Ele levantou as mãos na altura do ombro.
— Só estava querendo ajudar, Olivia. Vim em paz.
Olhei dele para o buquê e então fiz o caminho inverso.
— O que quer aqui? — Minha voz era dura e inflexível, eu ainda não estava totalmente preparada para dividir o mesmo ambiente fechado com Max sem ter vontade de dar-lhe um tapa.
— O hospital é um local público, Olivia, e tenho meu direito de ir e vir. Por incrível que pareça, a maioria das pessoas não acha que eu sou o monstro que você criou na sua cabeça nem que eu deva permanecer enjaulado.
Pois deveria, as palavras ficaram na ponta da língua, mas eu segurei.
Em vez delas, eu disse:
— Tem razão, agora se me dá licença. — Fiz que ia passar por ele e ouvi o barulho do buquê sendo manuseado. Então senti sua mão no meu braço, me segurando no lugar.
— Liv. — ele disse num tom que não funcionava para mim faz um bom tempo.
Olhei bem no fundo dos olhos dele e então para sua mão na minha pele.
Seu aperto não machucava, mas era firme o suficiente para me manter ali.
— Me largue.
Max me soltou e respirou fundo, estendendo o buquê.
— O que é isso?
— Sei que não confia em mim e em nada do que eu digo, mas eu realmente não tive a intenção de causar nenhum acidente em Sebastian. Atrasá-lo um pouco, tudo bem. Mas não quis que ele caísse daquela forma nem que se machucasse. São para ele. Da minha família para ele.
— Você quer que eu realmente acredite...
— Sim, eu quero. — Ele me cortou. — Não posso te forçar a isso, mas, sim, eu quero que você acredite porque estou sendo sincero. É pedir demais? Sei que reagi mal no jantar, quando vi vocês juntos, porque caramba, Olivia, eu realmente nem cheguei perto de fazer você feliz?
Respirei fundo.
Eu não queria mesmo estar tendo aquela conversa.
— Chegou, Max. Você chegou perto. Perto demais, eu diria. Eu dei tudo de mim para você, tudo o que eu era capaz de dar, pelo menos. A questão principal não foi você me fazer feliz, mas sim foi que em um momento que eu estava precisando de apoio, você de certa forma tirou o chão que ainda restava sobre os meus pés. — Eu me aproximei dele. — Sabe por que não acredito em você, Max? Porque na primeira oportunidade que teve de deixar toda a nossa merda para trás e simplesmente ficar feliz de eu ter seguido em frente como você seguiu, você me pintou como se eu fosse uma vadia na frente da minha família, quando sabia muito bem que, de nós dois, a única pessoa sem caráter para cometer uma traição era e foi você mesmo.
Max abaixou a cabeça.
— Eu estava com raiva e te disse isso. Como acha que me senti quando vi você e ele vivendo o que nós deveríamos ter vivido? Como acha que foi sentar na mesa e ter que perceber que aquele cara estava se apaixonando por você a cada dia enquanto nossa relação se desgastava? — Abri a boca para rebater, mas ele continuou. — Nem tente dizer que não era nada disso. Você pode não ter dado nenhuma abertura e nem percebido o que estava debaixo do seu nariz, mas se ele mesmo já não confessou, é óbvio que Sebastian passou anos só esperando o momento certo.
Dei uma risada sem humor:
— Sério? Pelo menos ele esperou o momento certo, não é, Max? Qual foi mesmo a sua desculpa para dormir com outra mulher? Ah, sim, você tinha "necessidades" que eu não conseguia atender porque estava fodida demais com algo que você jogou em minhas costas. — Abaixei a voz e coloquei o máximo de nojo possível. — Então, incapaz de ficar alguns meses sem foder alguém, você foi atrás da única pessoa próxima que estava me mantendo de pé. Como você acha que eu fiquei ao encontrar os dois na minha cama? Ou quando soube que ela estava grávida? Ou que vocês iam se casar? Como acha que com tanta merda de nome no mundo você foi dar para sua filha, a menina que foi concebida provavelmente na minha cama com outra mulher, o mesmo nome que o meu? Quer me contar um pouco mais sobre a porra da vida que deveríamos ter vivido?
Eu poderia sentir todo o meu corpo tremer de raiva, exatamente como antes.
— Não vim aqui para brigar, Olivia.
Dei uma risada estrangulada:
— Claro que não. Eu sou a louca, não é? Você sempre me manipulou, Max. Sempre estava dois passos à frente de mim como se o nosso relacionamento fosse um jogo para você e o prêmio era eu fazer sua vontade sem nem mesmo perceber. Pode vir aqui e dizer que sente muito. Dizer que tem as melhores intenções, mas eu não consigo acreditar. Nada de grave aconteceu com Sebastian, graças a Deus, mas poderia ter acontecido e nada consegue tirar da minha cabeça a pontinha de desconfiança que acredita que era isso que você queria o tempo todo.
— Liv, eu nunca...
— Não diga que nunca me machucaria assim, Max. Nós dois sabemos que você me machucou de maneiras muito piores. — Peguei o buquê da sua mão. — Se essa é sua oferta de paz com Sebastian, eu agradeço. Se você quer tanto quanto eu que essa situação insuportável entre nós acabe de uma vez por todas, farei de tudo para colaborar. Mas não me peça para acreditar totalmente que suas intenções são boas. Não me peça para te perdoar ou colocar o passado no passado porque toda vez que olho para você ou para ela é como se tudo estivesse acontecendo de novo, no exato momento. Não te perdoo, Max. Não esqueci o que aconteceu. Ainda não. Então não aja como se fosse minha obrigação ou como se eu tivesse sendo cruel demais. Não perdi apenas um noivo ou um companheiro há dois anos, perdi duas amizades da vida toda e o pior é que acho que uma delas nunca existiu.
Max me deixou passar por ele, mas então eu parei a poucos metros e me virei, lançando-lhe um sorriso amarelo:
— Obrigada pelas flores.
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