Contrato de Amor
3 Ok, isso foi uma péssima ideia.
Notas iniciais
Seguimos pelo corredor até a sala da Dra. Stuart e eu fiquei meio surpresa quando Anthony entrou sem bater, ele parecia ser do tipo que seguia todas as regras. Nós entramos e mais uma vez fiquei surpresa em descobrir que a Dra. Stuart parecia pouco mais velha que eu, morena com olhos escuros, ela devia ter no máximo uns trinta anos, sorriu pra gente e fez sinal para que nos sentássemos.
— Anthony, que bom que veio — ela disse sorrindo. — Então essa é a garota de quem falou? — perguntou olhando pra mim.
Anthony assentiu.
— É essa mesma Dra. Stuart, seu nome é Elisa Banks, Srta. Banks essa é a doutora Marina Stuart.
— É um prazer Elisa — a doutora falou sorrindo e estendeu a mão, eu apertei sorrindo também, ela se virou para Anthony quando soltou a minha mão. — Já disse pra me chamar pelo meu nome Anthony, é Marina, sabe? Nós somos amigos ou não?
Anthony suspirou e eu segurei o riso, será que ele tem algum problema com pessoas e intimidade?
— Agora não é hora pra isso, você vai me ajudar ou não?
— Certo — ela deu de ombros. — Vou precisar de uma amostra de sangue da Elisa, algumas horas para o resultado e que ela responda a um questionário, tudo bem?
Ambos me olharam esperando uma resposta e eu assenti.
— Tudo bem, o que precisar.
— Certo — ela sorriu e ficou de pé. — Por favor, deite-se ali — apontou para a maca no fundo da sala.
Eu fui até lá e me deitei, ela prendeu um elástico um pouco acima do meu cotovelo direito e limpou o lugar onde pretendia tirar sangue, pegou uma agulha, mas parou com ela a centímetros do meu braço.
— Eu esqueci de dizer, mas você tinha que ficar de jejum Elisa — ela disse me olhando como quem se desculpava. — Você comeu alguma coisa hoje?
Neguei com a cabeça.
— Eu acordei atrasada, então não deu tempo de comer.
— Isso é ótimo! — ela falou sorrindo e enfiou a agulha em mim, fiz uma careta, mas não me mexi.
A coleta de sangue não durou muito, só alguns minutos e ela tinha três tubos cheios do meu sangue, eu tinha voltado ao meu lugar ao lado de Anthony enquanto a doutora entregava o sangue a uma enfermeira.
— Traga os resultados pra mim o mais rápido que conseguir Anna — ela pediu e a enfermeira assentiu. — E traga também um lanche para Elisa, ela precisa comer.
— Eu estou bem — garanti e a doutora suspirou mandando a enfermeira embora e se sentando na sua cadeira outra vez.
— Você acabou de tirar sangue e não foi pouco Elisa, precisa comer.
— Tudo bem — concordei por que eu realmente estava com fome.
— Certo, vamos começar com o questionário — ela disse sorrindo e tirando alguns papéis dá gaveta de sua mesa. Ela anotou alguma coisa no topo da primeira folha e me olhou. — Coisas como tipo sanguíneo e sua condição de saúde o exame de sangue vai mostrar, aqui eu só quero algumas respostas mais rápidas, OK?
Assenti.
— Pode começar.
— Tudo bem então, quando foi a última vez que bebeu?
— Deve ter mais de um ano — falei me lembrando da péssima ideia de Helena de beber até cair quando foi reprovada na prova de admissão do curso de agronomia.
— Isso é alguma exceção ou você não costuma beber? — perguntou depois de anotar alguma coisa nos papéis.
— Eu não costumo beber, nem gosto muito de bebida — esclareci.
— Certo — ela anotou mais alguma coisa. — Isso é ótimo, e quanto a cigarro, a senhorita fuma? Não que pareça, mas eu tenho que perguntar.
— Eu não fumo — garanti — Nem nunca fumei.
— Maravilha — sorriu. — Você é alérgica a alguma coisa?
— Pimenta — respondi e ambos me encararam. — O que? Tem algum problema eu ser alérgica a pimenta?
— Não — a doutora garantiu sorrindo — É só incomum, mas vamos continuar — disse e eu assenti. Ela continuou perguntando várias coisas pra mim, sobre meus hábitos alimentares e quantas horas de sono eu tinha, e no meio disso a enfermeira realmente voltou com um lanche que eu comi de boa vontade, estava faminta. Enquanto eu comia e continuava a responder as perguntas, Anthony apenas observava. — Certo, acho que isso é tudo — ela disse conferindo o questionário. — Espera, tem mais uma coisa, quando foi a sua última relação sexual?
Eu engasguei com o pãozinho que estava comendo.
— Como? — perguntei só pra ter certeza de que tinha ouvido direito.
— Quando foi a sua última relação sexual? — ela repetiu e eu corei.
— Preciso responder?
— Sim — ela garantiu e eu suspirei.
— Tem mais de um ano — murmurei — Foi junto com a bebida, tudo culpa de uma amiga minha.
— Maravilha, isso é tudo, vamos... — duas batidas na porta interromperam o que quer que a doutora fosse dizer.
— Doutora, desculpe interromper — a mesma enfermeira que tinha me traga o lanche e levado o meu sangue apareceu na porta com um envelope na mão. — São os resultados dos exames da Srta. Banks.
A doutora sorriu e fez sinal para que a enfermeira deixasse em sua mesa. Eu estava prestes a perguntar algo como, “Já?”, mas quando olhei para o relógio que tinha na parede fiquei surpresa em ver quem já eram onze e meia, quando tinha ficado tão tarde?
A doutora verificou os papéis que estavam dentro do envelope e sorriu.
— Isso é ótimo, sua saúde é muito boa Elisa, talvez devesse consumir um pouco mais de vitaminas, mas fora isso está ótima. Talvez com duas ou três tentativas vocês consigam ter o bebê.
Seu comentário me fez sentir meio desconfortável, mesmo que estivéssemos ali pra isso ainda era esquisito pensar que eu teria um bebê com um estranho.
— Podemos prosseguir? — ela perguntou — Isso é claro se estiver tudo bem pra você Anthony.
— Pode continuar — ele concordou.
— Agora? — quis saber surpresa.
— Claro — a doutora sorriu — Quanto antes fizemos à primeira tentativa, mas rápido saberemos se deu certo ou vamos precisar tentar outra vez, fora que o procedimento é bem rápido e simples.
— Tudo bem — suspirei — Vamos nessa.
Como a doutora prometeu o procedimento foi incrivelmente rápido, mais ou menos uma hora depois eu e Anthony estávamos nos preparando para ir embora, a doutora tinha pedido para que voltássemos amanhã para fazer o teste e ver se eu realmente tinha ficado grávida ou se precisaríamos de uma segunda tentativa, amanhã seria o dia da verdade.
Anthony me deixou em casa e depois de me trocar deitei na cama encarando o teto, começando a me perguntar realmente se isso tudo tinha sido uma boa ideia. Por que não importava mais por onde eu olhava, isso tudo parecia uma grande loucura, passei o meu resto de sábado trancada em meu apartamento queimando meus neurônios pensando na confusão em que tinha me metido. Quando o despertador tocou no dia seguinte eu levantei desejando que meu “plano” desse certo, não me importava mais com o dinheiro só queria sair dessa confusão antes dos meus amigos chegarem no final da tarde.
Anthony e eu não trocamos uma única palavra durante o caminho, hoje quando ele chegou eu estava pronta então não teve gritos nem invasão. Quando chegamos à clínica eu já estava suando frio, fomos ao mesmo balcão que da última vez e a atendente disse com a mesma voz melosa que a doutora iria nos atender, hoje não tinha ninguém aqui além de nós, isso não me fez sentir melhor.
Quando chegamos à sala da doutora ela estava sorrindo.
— É bom vê-los outra vez — disse animada, mas como nenhum de nós respondeu nada ela suspirou e pediu para que eu me sentasse na maca que havia em sua sala outra vez.
Ela tirou meu sangue e como da outra vez deu a uma enfermeira para levá-lo, mas como hoje não tínhamos mais nada o que fazer em sua sala, então ela pediu que esperássemos na lanchonete no térreo onde eu poderia comer alguma coisa, seguimos para lá e eu pedi um sanduíche de peito de peru e suco e Anthony apenas um café, nos ainda não tínhamos trocado nenhuma palavra, eu suspirei, precisava dizer a ele o que queria.
— Eu mudei de ideia — disse meio que do nada e ele me encarou.
— Como? — perguntou sem entender.
— Eu disse que mudei de ideia sobre esse nosso acordo.
— Mudou de ideia é?
— Desculpe, mas eu cheguei à conclusão de que isso tudo é muito louco e eu espero que não fique chateado comigo, eu só acho que é melhor eu arrumar um emprego mais normal.
— Entendo — Anthony disse calmamente tomando outro gole de café. — Você está basicamente se demitindo, e eu não posso nem falar nada uma vez que não assinamos nenhum contrato ou qualquer coisa assim, mas e se você estiver grávida? O que vai fazer?
— Se eu estiver grávida vamos continuar, afinal este bebê vai ser seu, mas se eu não estiver, por favor, entenda que eu não pretendo tentar uma segunda vez.
— Tudo bem — ele disse suspirando. — Eu imaginei que talvez você chegasse a alguma conclusão assim. Vamos fazer como você quer então.
— Você está mesmo bem com isso? — quis saber.
— Honestamente não, mas não possa obrigá-la a me ajudar, então vamos esperar pra ver o que vai acontecer agora.
Assenti sorrindo.
— Vamos — concordei.
Quando pegamos o elevador para voltar para a sala da doutora eu já estava suando frio.
— Se acalme — pediu Anthony. — Não te disse que dificilmente a mulher engravida na primeira tentativa?
— É, mas ainda existe uma chance e como eu sou azarada é bem capaz de acontecer, tudo bem que não é culpa sua, eu aceitei isso e...
— Apenas se acalme OK? — Anthony pediu me interrompendo. — Nós não chegamos a assinar nenhum contrato e você com certeza não está grávida, então depois que a doutora der os resultados nós podemos seguir caminhos diferentes. Simples assim.
Respirei fundo.
— Tudo bem — concordei e nós seguimos para a sala da doutora.
Quando chegamos lá ela já estava com dois envelopes nas mãos.
— Sentem-se — pediu e nós o fizemos. — Aqui está o resultado do exame de sangue da Srta. Elisa — ela disse entregando um envelope a cada um de nós.
Eu abri o envelope quase tremendo, Anthony tinha conseguido me acalmar um pouco, mas uma pequena parte de mim ainda achava que podia estar grávida. Com a minha sorte, eu não duvidava de nada.
Quando finalmente tomei coragem e peguei a folha de dentro do envelope Anthony já encarava o resultado no final da folha, corri os olhos pelos vários termos médicos dos quais eu não entendia nada e cheguei ao final onde havia uma única palavra em letras maiúsculas: NEGATIVO.
Eu suspirei com tanto alívio que quase caí da cadeira.
— Então é isso — ele suspirou.
— Como esperado — a doutora garantiu. — Nós podemos marcar a próxima tentativa.
— Não vai ter uma próxima — Anthony respondeu e a doutora o olhou com confusão.
— Como assim não vai ter uma próxima?
— A Srta. Banks mudou de ideia, não vai ter uma próxima tentativa. Acho que vou ter que encontrar outra pessoa ou outro jeito de fazer isso.
— Não tem outro jeito de fazer isso Anthony — A Dra. Stuart suspirou e se virou pra mim — Se é assim tudo bem, mas no fim é uma pena.
— Por quê? — perguntei.
— Por que quando o Anthony veio com essa ideia maluca eu realmente cogitei não ajudá-lo, mas aí ele apareceu com você e eu pensei “Talvez isso dê certo afinal”, você parecia realmente o tipo de pessoa que faria isso dar certo.
Suas palavras me pegaram de surpresa, porque eu tinha a leve impressão de que “isso” não se referia só ao bebê.
— Sinto muito — disse sinceramente. — Eu só cheguei à conclusão de que isso pode ser realmente uma péssima ideia.
— Tudo bem — Anthony garantiu ficando de pé. — Vamos, eu vou levá-la pra casa.
— Mas...
— Vamos Srta. Banks — ele chamou me interrompendo.
— Certo — suspirei ficando de pé. — Tchau doutora, foi um prazer conhecê-la.
— O prazer foi meu, Elisa — ela disse sorrindo e nós seguimos para a porta.
Nenhum de nós disse uma única palavra durante o caminho até o carro e quando nos sentamos nos bancos Anthony suspirou.
— Não se preocupe eu vou te pagar — ele disse e eu o olhei sem entender.
— Como assim me pagar?
— Você veio até aqui, então eu te devo — ele disse sério e eu fechei a cara.
— Nada disso, eu não fiz nada, na verdade no fim até desisti de continuar, então nem comece a dizer que vai me pagar.
— Mas...
— Eu até ganhei uns exames legais — foi a minha vez de interromper. — Então, por favor, não toque mais nesse assunto.
Ele fez menção eu dizer alguma coisa, mas mudou de ideia e sorriu assentindo.
— Como quiser.
Eu sorri também e o resto do caminho nós fizemos em silêncio, cada um preso em seus próprios pensamentos e quando o carro finalmente parou em frente ao meu prédio eu não sabia o que dizer.
— Acho que isso é um adeus — Anthony resolveu o dilema por mim e foi o primeiro a falar.
— Acho que sim — concordei — Foi um prazer conhecê-lo Anthony e tente evitar ficar atropelando as pessoas por aí.
— Eu não te atropelei — ele disse com um meio sorriso. — Mas pode deixar, vou fazer o possível para não atropelar ninguém. E foi um prazer também Srta. Banks — ele disse enquanto eu saia do carro, me verei na mesma hora e o olhei feio.
— É Elisa! — disse indignada e ele riu fechando a porta.
Enquanto eu via o carro ir embora eu tive a sensação que essa não ia ser a última vez.
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