É um dia ensolarado, não há uma única nuvem no céu. Obviamente o meu primeiro dia de aula não poderia ser nenhum pouco distante da palavra “perfeito”. Para alguns, se mudar no último ano do ensino médio e ter que encarar uma escola nova, um sistema de ensino novo e colegas de sala novos é um pesadelo. Logicamente, para mim, nunca foi um grande problema.
Meu pai é militar, então sempre ficávamos nos mudando de cidade em cidade. Acho que, num total, passei por 18 ou 19 escolas ao longo da minha vida acadêmica. Foi assim que eu aprendi a ser como sou hoje: Sociável, popular e muito querida por todos. Mantenho amigos e contatos em todas as escolas pelas quais eu já passei, e me orgulho muito da minha capacidade de criar novos laços por todos os lugares que vivo.
Não satisfeita em ter um número extenso de amizades, tenho um namorado maravilhoso. Ele é Presidente do Conselho Estudantil da última escola em que estudei, além de ser capitão do time de basquete. Pode até ser um pensamento fútil e narcisista, mas eu não mereço menos do que o cara mais bonito e inteligente da escola. Sempre tenho as melhores notas e sou a mais bela dentre todas as garotas que me rodeiam. Sou sempre muito requisitada pelos rapazes, apesar de dispensar a maioria, ainda sou vista como a mais carismática por todo lugar em que passo. Tenho que ter alguém para andar sempre ao meu lado, nunca me fazendo sombra e nem se tornando a minha e, quer vocês acreditem ou não, Logan é o cara dos sonhos de qualquer garota.
Como estou no último ano, prometi ao meu pai que manteria a minha impecável média de notas na escola. Por mais que essa escola seja mais puxada, eu sinceramente não tenho o mínimo receio de não conseguir acompanhar os outros alunos. Afinal, nunca me envergonhei em precisar de ajuda, o que acabou me garantindo durante todos os anos anteriores as maiores médias do colégio e bolsa de estudos integral. Pretendo agora, também, juntar créditos em matérias extracurriculares para auxiliar no meu ingresso em alguma das melhores universidades.
Estou esperando no pátio até dez minutos antes de o sinal tocar. Não quero correr o risco de errar a sala onde estou no primeiro período. Enquanto isso, observo a infinidade de grupos que destoam uns dos outros. Parece bem coisa daqueles filmes de Hollywood que a gente assiste na TV. Do nada, vejo um aceno em minha direção. Uma garota de óculos redondos com uma mochila cheia de bottons nerds se aproxima de mim. Acho que notou que estou sozinha e quis vir conversar e, admito, que achei ela bem simpática e é sempre bom começar novas amizades o mais cedo possível.
— Bom dia! Você deve ser a aluna nova, certo?
Ela disse sorrindo pra mim e pude notar como ela era meiga. Mais próxima de mim, notei como ela era baixinha, mas tinha muitos outros pontos que a destacavam dentre a maioria das meninas. O cabelo colorido rosa e verde dela estava preso numa trança com uma presilha de gatinho. O que mais me chamou atenção foram os olhos dela. Uma cor verde com mel que eu nunca tinha visto antes. Além disso, acompanhavam de maneira sutil o sorriso dela, tornando-a mais expressiva ainda.
Respondi com animação a saudação dela.
— Sim! Muito prazer, meu nome é Melina! Não sei se você sabe muito sobre mim, acredito que meu pai tenha colocado muitas coisas na minha ficha. Você me parece ser legal, qual o seu nome?
—Ah, eu sou a Lana. Eu sou a guia do último ano, vou ajudar você a não se perder nesse caos aqui. Aliás, qual shampoo você usa? Seu cabelo é muito brilhante e macio, o meu anda meio judiado por conta das cores que usei.
Quando uma pessoa elogia meu cabelo, não consigo esconder minha cara de satisfação. Durante muito tempo eu tive o cabelo bem curto, mas só quando deixei ele crescer que vi como eu amava ele bem longo e com uma franjinha bem cortada. Também adoro usar um laço preto tanto como faixa como prendedor. Por mais que meu cabelo seja quase preto também, ele é um tom abaixo, então o lacinho ainda se destaca em meio aos meus fios.
Fiquei feliz em contar pra ela sobre como eu tratava meu cabelo, os motivos pelos quais eu tinha tanto carinho por ele e vi que tínhamos muito em comum nesse ponto. Na real, não somente nesse. Fomos conversando até a sala de aula depois de ela me mostrar meu armário e me ensinar a abrir aquele cadeado maldito. Conversamos sobre música, sobre séries e ela me indicou alguns animes pra assistir. Eu nunca fui muito de assistir esses desenhinhos, mas ela disse que eram os favoritos dela. Não ia morrer por ocupar algumas horinhas do meu dia assistindo um ou outro.
Ela me apresentou para toda a turma quando chegamos na sala. Fez questão que todos conversassem comigo e ficou contando tudo o que conversamos para o pessoal. Não foi muito diferente do que eu esperava, todos me adoraram e queriam saber mais sobre mim. Acrescentei alguns detalhes que ela não sabia, como minhas conquistas em olimpíadas de história, física e biologia e sobre ter sido a única caloura a ser convidada para o baile de formatura do ensino médio na minha outra escola.
Notei o encanto nos olhos dos rapazes, mas já os desiludi logo no primeiro dia. Contei de Logan a todos e sobre como somos o casal perfeito e sobre como nos completamos como seres humanos. Acho que foi bom já comentar sobre o fato de eu ter um namorado para não criar nenhuma falsa expectativa nos rapazes que eram tão doces e gentis. Recebi vários convites para ir a lanchonete no fim do dia e acabei aceitando o do grupo de Lana. Gostei muito dela e percebi que vamos ser muito próximas.
O sinal da primeira aula tocou e o Professor Lucio entrou em sala. Ele tinha uma didática excelente e me fez enxergar a geografia, uma das minhas piores disciplinas, como algo divertido e fácil de se aprender. Foi simples de notar que ele se interessou pelas minhas tentativas esforçadas de responder as questões e perguntar sobre todos os assuntos que eu tive dúvida. No fim da aula, vi que eu estava caminhando na estrada certa quando ele me passou o contato dele para tirar dúvidas sobre as lições de casa. Segundo Lana, era muito difícil um professor fazer isso, principalmente com alunos novos.
O sinal para o início da segunda aula estava prestes a tocar quando do nada um garoto meio mal encarado entrou na sala. Admito que estou bem assustada com esse olhar “psicótico” que ele me lançou. Do nada, ele vira a cara e vai sentar na última cadeira no fundo da sala. Não aguentei a curiosidade e chamei a Lana de canto:
—Lana, quem é?
Ela deu um tapa no meu dedo que apontava para o garoto que tinha acabado de entrar e tentou responder o mais baixo possível.
—Aquele é o Trent. É de longe, o pior aluno dessa escola. Ele não liga para nada, não tem amigos e não quer saber de estudar. O pai dele é militar, que nem o seu, mas ele chegou aqui tem 3 anos e nunca mais foi embora. Todo mundo tem medo dele, inclusive eu. Sai de mim, coisa ruim.
A aparência dele me lembra um pouco a de Logan. Ambos eram loiros de olhos azuis, a diferença é que Trent tem um sorriso nitidamente amarelado. Aposto em nicotina ou café... Ou nos dois. Logan também é muito mais sociável que Trent e não olhava pra todos com cara feia. Muito pelo contrário, sempre recebia todos com um sorriso imenso no rosto, absurdamente apaixonante.
Apesar de ter tido um leve pré-conceito sobre Trent, decidi que iria falar com ele no fim da aula. O que poderia dar errado, afinal? Todos gostam de mim e eu sempre consigo arrancar a simpatia das pessoas.
Aula vem, aula vai e bate o sinal para o intervalo. Observei Trent durante as aulas anteriores e notei que ele dormia em todas. Não era surpresa ele ser o pior aluno da turma, tinha uma postura zero perante aos professores e além de tudo era debochado. Odiei ele só pelo que pude analisar durante as aulas, mas eu seria muito horrível se não desse uma chance pra ele ser meu amigo.
Então, lá vou eu tentar contato com o suposto inimigo. Puxo uma cadeira e sento ao lado dele. Ele acorda com o ruído do atrito entre a cadeira e o chão.
—O que é?
Ok, abordagem um pouco assustadora por parte dele, mas não dói tentar conversar.
— Ah, vi que estava sozinho então decidi fazer o mesmo que Lana fez comigo mais cedo e vir conversar com você. Como é a escola? Você gosta daqui? O que gosta de fazer no tempo livre?
Ele me olhou do pior jeito que vocês podem imaginar. Parecia que eu tinha inventado o Holocausto só pela maneira como ele me fuzilou com o olhar.
— Miss Perfeição, a que isso te interessa?
Estou de mãos atadas. Não consigo responder ele por simplesmente estar pensando no quão idiota ele é. Mas tudo bem, talvez hoje não seja um bom dia.
—Anda, vaza daqui e me deixa voltar a dormir.
Realmente. Um idiota completo, além de rude e muito mal educado. Mas eu não sou tão impaciente assim, não sou de desistir. Peguei minha agenda assim que saí de perto dele e anotei como objetivo do semestre em letras garrafais para que eu não esquecesse.

*Fazer com que Trent goste de mim*


Eu estou determinada a concluir esse objetivo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.