Contraste
1 One-shot
Pare de me fazer sentir assim.
Pare de chegar perto de mim.
Pare de ser quem é.
Só pare... apenas pare...
Por favor, por favor, seja Kira para que eu possa me livrar de você, Yagami Raito.
Por favor.
— Ryuuzaki? – chamou meu nome aquela voz que me deixava claustrofóbico e indefeso toda vez que era pronunciada.
— Sim, Yagami-kun? – respondi, tentando ao máximo parecer impassível enquanto remexia na corrente longa, porém estupidamente curta para mim, que me prendia a ele.
— Parece pálido... está tudo bem?
E aqueles olhos castanhos e brilhantes me fitaram, lotados de preocupação e mais milhões de coisas que eu não conseguia distinguir. Fiquei por muito, muito tempo olhando seus olhos diretamente (devia estar com uma expressão bem ridícula), até que sua pupila dilatou e seu rosto se virou mais que rapidamente para o computador, onde ele fazia algo que eu imediatamente havia esquecido...
O que... estávamos mesmo fazendo?
Ah, sim. Caçando Kira.
Mas... você é Kira. Quem então estamos caçando?
De repente a vontade de urinar me fez levantar de súbito, quase arrastando o outro com a cadeira. Ele se levantou e me seguiu:
— O que houve, Ryuuzaki?! – indagou enquanto era “delicadamente” arrastado por mim escadas acima.
Nada respondi. Peguei o elevador, já naquele andar, e subi até o andar de Misa, que havia saído por conta de gravações, escoltada por Matsuda e Mori.
Os outros? Não lembrava onde estavam, eu estava em completo transe. Me faltava capacidade de lembrar até de meu nome.
...
Meu nome?
Meu nome... meu nome verdadeiro...
A vontade súbita e quase incontrolável de dizer a ele meu nome verdadeiro. Para que somente ele e eu soubéssemos de algo que ninguém no mundo sabia.
Só nós. Apenas nós.
Devaneei por muito tempo. Ele ainda me indagava sobre o que eu estava fazendo ou para onde estávamos indo e só o que eu pensava era chegar à sala de Misa e sentar no sofá. O fiz, então ele sentou ao meu lado, olhando para mim enquanto eu olhava para o nada.
— Ryuuzaki? Ryuuzaki! O que houve com você? – suspirou, tentando chamar minha atenção ao chacoalhar levemente meus ombros.
Ah, aquelas mãos quentes em meus ombros... me fazia perder completamente o rumo combinadas com aquele olhar de estranheza e aquela voz tão doce. Eu quase sorria quando o via tão feliz ao encontrar uma pista de algum suspeito. Supirei.
— Pare... – pedi. Ele então tirou as mãos de meus ombros, chacoalhando-as no ar e sinalizando que não me tocaria – não, não é isso... pare de me chamar de Ryuuzaki.
Ele me olhou completamente sem entender, dando-me uma brecha pra mergulhar fundo novamente em seus olhos. Naquela imensidão castanha e brilhante. Sorri um sorriso sincero e bobo, sentindo que me arrependeria do que eu iria fazer no segundo seguinte em que eu fizesse, mas ainda assim o fiz...
— Yag... Raito-kun pode me chamar de Lawliet.
Foi dito e feito, me arrependi. Mas me arrependi um arrependimento gostoso, daquelas vezes que você faz algo estupidamente errado, mas ainda assim está feliz, como rolar barranco abaixo de propósito pra depois dar risada com a boca e mãos sangrando.
Ele se espantou tanto que suas pupilas dilataram novamente – estava completamente passivo. Estranho. Ele não devia estar rindo e me julgando tolo? Ele não era Kira?
Ele tinha meu nome. Eu dei a faca ao psicopata, cabia ele usá-la.
Mas é incrível como ele consegue fazer todas as minhas espectativas se dissiparem. A única pessoa que eu não consigo prever nenhum movimento. Quando eu achei que ele me mataria, ele sorriu.
Sorriu amigavelmente, emocionalmente, me envolveu com os braços e afogou o rosto em meu ombro. Fechei os olhos, sentindo o calor do corpo dele.
Há quanto tempo eu não sinto o calor de um corpo sobre um meu?
Ah...
Eu nunca havia sentido.
E era tão bom. Tão aconchegante ser envolvido pelos braços de alguém, sentir a respiração de alguém em seu pescoço, sentir um corpo colado ao seu.
O corpo de alguém que te ama.
O corpo de alguém que eu amo.
Sorri solenemente, aproveitando cada segundo daquele momento tão bom. Ele se afastou um bocado e segurou minhas faces com as mãos, encostando sua testa na minha. Sorriu de um jeito tão infantil, tão feliz e tão emocionado que me fez sorrir junto.
De repente paramos de sorrir e nos fitamos por alguns segundos longos e incontáveis. Novamente me perdi na imensidão cor-de-cacau antes que ela se fechasse e antes que eu sentisse os lábios dele encostando nos meus tão levemente, tão carinhosamente.
Foi estranho. Era estranho.
Mas, ao mesmo tempo, era tão bom.
Eu dei ao meu maior inimigo a arma que ele precisava para me matar e, ainda assim, eu estava feliz?
Eu dei ao amor da minha vida a arma que ele precisava para me matar e, ainda assim, eu estava triste?
Estranho contraste.
Notas finais
Se não deixar reviews, o L vai dar um fora no Raito -NNN
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