Contraposição
15 Capítulo XV
Notas iniciais
'Vem, Maura. São só mais alguns metros.' Jane segurava a mão da médica para lhe incentivar a subida — que nem era assim tão íngreme — na trilha em que estavam andando agora. Se a princípio Maura parecia disposta a enfrentar uma caminhada matinal, e empolgada porque iriam fazer a trilha até a lagoa, pequenos eventos começaram a fazê-la acreditar que sair da cama tinha sido uma péssima escolha naquele dia. Depois de derramar o café em sua calça no café da manhã, levar uma galhada no pescoço porque simplesmente não tinha sido capaz de afastar o galho a tempo, e cair, literalmente, em cima de Jane por escorregar em uma pedra solta, ela estava convencida de que seria melhor voltar para casa. Talvez não sozinha, porque se com tamanha sorte ela se matasse acidentalmente, alguém pelo menos saberia.
Amanda riu de seu resmungo mal humorado ao mesmo tempo em que afastava um galho com a mão e sinalizava para que as duas passassem em sua frente. Agora, claro, a morena também fazia questão de provocá-la sobre os infortúnios aos quais estava enfrentando.
'Você sabe, eu não tenho três anos de idade.' Ela reclamou para Jane que continuava segurando sua mão porque aparentemente ninguém queria perdê-la de vista.
Jane chacoalhou os ombros ao rir uma risada sem som e nem sequer olhou para ela — apenas porque queria evitar o olhar gélido que Maura provavelmente estava lhe lançando agora.
'Certo, Indiana Jones. Tenho certeza que você consegue chegar até lá sozinha. É apenas precaução, você sabe. Não é mesmo, Amanda?' A detetive agora deixava Maura passar na sua frente. Havia uma parede de pedras a ser escala. Não era alta e mais parecia que a natureza tinha modelado uma escada — um tanto quanto íngreme, dessa vez — para facilitar a passagem para o outro lado.
Amanda, por sua vez, decidiu deixar o comentário passar sem acrescentar nada. Ela sabia que Maura estava genuinamente irritada, mais pelo fato de quase ter se machucado do que pelo fato de que Jane estava cuidando dela. Ela apontou o dedo para cima e disse com entusiasmo. 'Ok, aqui é o desafio maior, mas tem a vista mais bonita. Não é muito alto. Vamos subir. Marley encontra com a gente do outro lado, certo Marley?'
O cachorro latiu para ela e continuou andando, despreocupado. Obviamente ele não se importava em passear solto por aí. Jane colocou as mãos na cintura de Maura e ajudou a subir o primeiro degrau, e ela seguiu depois, e logo Amanda. Depois de alcançarem o topo, Jane seguiu até a ponta da rocha e abriu a boca em admiração. 'Isso é quase um penhasco!' Ela disse apontando para baixo. A vegetação caía de tal forma que a única possibilidade de descer até lá era escorregando — bem cuidadosamente para não se machucar.
'Não se preocupe, nós não vamos descer. Olha!' Amanda disse e apontou o dedo para a lagoa que se estendia mais a frente. A água era de um azul transparente, e de lá elas conseguiam até mesmo ver o fundo. Pedras claras eram abraçadas por algas verdes, mas o chão tão branco revelava até mesmo pequenos cardumes de peixes. Alguns patos nadavam tranquilamente na superfície.
'Você tá brincando!' Jane exclamou, empolgada. 'Como é possível um lugar desse bem aqui, no meio do nada?'
Amanda riu e se sentou na pedra. As duas seguiram o exemplo e se sentaram lado a lado. 'Não sei, não. Descobri logo que comprei a casa e Marley, para variar, correu para cá.'
'Seu cachorro é um gênio.' Jane murmurou com um sorriso que denunciava toda a sua admiração pelo lugar. 'O que você acha?' Ela laçou a cintura de Maura e a apertou de leve. Ela também parecia encantada pela visão, distraída a tal ponto de não ter se manifestado ainda.
'É lindo! Nós podemos descer até a margem depois?' Ela olhou para Amanda, esperançosa.
'É claro, mas se dermos a volta é melhor. Aqui é meio escorregadio.' A morena ofereceu com um sorriso.
'Oh, sim. E escorregadio e Maura na mesma frase não é uma combinação muito boa.' Jane provocou e levou uma cotovelada de leve nas costelas, mas riu em seguida. Ela soltou a médica e apoiou as mãos na rocha, inclinando o corpo levemente para trás.
Durante os minutos seguintes nada mais se ouvia — elas passaram a contemplar a vista. O azul delicado do céu combinava com o do lago, os patos nadavam silenciosamente e lentamente na água, como se dividissem a mesma serenidade que elas experimentavam agora. Ir para aquele lugar e se relacionar com Amanda tinha, sem dúvidas, sido o que ambas precisavam para restaurar o equilíbrio da vida novamente.
Maura piscou os olhos e sentiu a brisa fresca abraçar-lhe o rosto, o corpo. Ela sorriu genuinamente e acreditou que naquele momento grande parte de suas preocupações, seus medos, tinham sido levados embora com o sopro do vento. Ela inclinou-se ligeiramente para o lado de Jane, e os olhos da outra nunca foram tão transparentes em relação ao que ela estava sentindo. Ela estava feliz, e se havia um tanto de fragilidade em seus olhos era apenas por estar relacionada àquele desejo e esperança de que o momento durasse por mais tempo. Maura depositou sua mão em cima da dela e voltou a encarar o horizonte.
Instantes depois, ao longe, o latido de Marley era ouvido lá do alto. O cachorro parecia contente em explorar o ambiente em volta do lago, lá em baixo, e corria de um lado para o outro, sem se decidir onde especular primeiro. Maura riu com a imagem brincalhona dele e endireitou-se para estudá-lo. Elétrico, sua atenção foi pega por um pato na beira do lago. Ele latiu uma vez para a ave, e foi respondido com um abrir de asas e uma investida contra si.
'Ah, não.' Amanda murmurou. 'Ele vai arrumar confusão.' Ela disse já se levantando, colocando as mãos em volta da boca em formato de concha. 'Marley, volte aqui e deixe o pobre animal em paz.'
O cão parou apenas por um minuto, erguendo as orelhas e prestando atenção nela. Desinteressado, ela voltou a atentar o bicho. Maura riu divertida com a situação, mas alertou Amanda. 'Acho que não é muito seguro. Patos podem ser agressivos por vezes.'
'É, eu sei.' A morena disse, parecendo preocupada. 'Eu vou buscá-lo, está bem?'
'Precisa de ajuda?' Jane ofereceu, se empertigando e limpando as mãos.
'Não, obrigada. Vocês podem ficar aqui se quiserem, ainda temos tempos suficiente até o entardecer.' Ela disse dispensando a ajuda com a mão e dando meia volta na rocha. 'E se vocês quiserem ir até a margem, aconselho a descer por aqui, não se esqueçam.'
'Ok.' Jane disse simplesmente e Maura concordou com a cabeça.
A detetive se certificou de que Amanda tinha chego seguramente ao chão e voltou a se sentar ao lado de Maura. O ar soprava suavemente e Marley lá na margem continuava a incomodar o pato, que na verdade tinha agora novos aliados. Amanda poderia ter um problema em tirá-lo de lá. Maura riu mais uma vez com o cão que pulava de um lado para outro, de certo achando curioso os animais.
'Eu gosto quando você ri assim.' Jane disse, batendo seu ombro no dela. 'Melhor do que aquele bico mal-humorado.' Ela provocou e Maura revirou os olhos.
Dessa vez a detetive riu, passou uma perna em volta do corpo da médica e segurou sua cintura. 'Jane!' Ela protestou, segurando as mãos da morena. 'Você me prometeu ontem à noite que não iria mais fazer cócegas em mim. Minha barriga ainda tá doendo de tanto rir.'
'Eu não vou.' A morena disse com seriedade, e abraçando o corpo dela colou-o junto com o seu. 'Mas é bom saber que eu tenho pelo menos um método eficaz caso você precise de umas boas gargalhadas.'
Maura encostou suas costas no peito da mulher e relaxou. Aquele momento era apenas construído por ela e Jane, e o resto do mundo era apenas resto. A morena apoiou o queixo em seu ombro e a voz rouca alcançou-lhe os ouvidos.
'É realmente bonito, não é?' Ela disse e seus olhos se fixaram nos de Maura, que agora virara a cabeça para estudá-la.
'É. Transmite a paz que precisamos.' Ela murmurou, perdida nos olhos escuros da outra.
Jane concordou com a cabeça e ficou pensativa por um momento. Seus olhos vaguearam sobre o pescoço de Maura, um risco vermelho claro se destacava por conta do encontro com o galho, e mais acima dele a fina cicatriz branca deixada por Hoyt. Seus dedos roçaram o lugar, acariciando levemente para tentar desfazer a marca dali. Enquanto uma era inofensiva, a outra poderia ter custado a vida dela. O pensamento incomodou Jane, e ela suspirou e abraçou o corpo dela mais uma vez. O desejo de protegê-la e livrá-la de qualquer infelicidade era ferido pelas petulâncias da vida em denunciar sua incapacidade de mantê-la a todo tempo segura. E, embora ela fosse falha, ela queria que a médica soubesse que seu bem-estar era prioridade.
Ela beijou o ombro da outra, chamando-lhe atenção. Quando Maura virou o rosto para observá-la, ela sorriu e ignorou a insegurança que de repente a invadira. 'Quer saber? É isso que eu quero... quero te oferecer quando temos tempo livre, Maur. Eu sei que é tua escolha e teu trabalho, mas droga, não venha me dizer que ficar do meu lado não te acrescenta perigo extra.'
'Jane.' Ela disse duramente, mas a detetive balançou a cabeça e a abraçou com um pouco mais de força, como se só o pensamento pudesse levá-la para longe de si.
'Eu sei o que você vai falar. E eu entendo. É tua escolha, assim como a minha também me coloca em certo perigo. Eu só quero dizer que...' Ela suspirou, apenas para ganhar tempo e organizar as palavras. 'Não é o que eu quero oferecer para você. Isso,' ela pontou para a frente, significando a tarde calma e serena que tinham agora, 'é o que eu quero que você tenha. É o que quero te dar.'
Maura riu levemente, um tanto de admiração em seus olhos. 'Jane, eu sei.' A voz suave combinou com a mão macia que acariciou a bochecha da morena. 'Você pode me levar para onde quiser.'
'Eu amo você.' Jane não sabia o que tinha dado nela, mas as palavras saíram com fluidez e sinceridade. Seguras.
Maura balançou a cabeça em compreensão e sorriu-lhe carinhosamente antes de responder-lhe. 'Eu amo você de volta.'
A morena sorriu e encostou seu rosto no dela num gesto doce. Seus lábios roçaram a bochecha da médica, tão perto dos lábios da outra que para beijar-lhe faltava apenas uma grama de coragem, outra de ousadia. Maura pareceu inclinar-se ainda mais contra ela, e quando seu braços apertaram a cintura da outra, Jane tinha certeza de que um sorriso completo — aquele com covinhas que ela tanto amava — estava estampado no rosto da loira. Foi ali que ela decidiu entregar um beijo. Era sútil, mas insinuante o suficiente para não perder o real significado.
O momento entre elas foi quebrado pelo grito apavorado de Amanda. Ambas se viraram rapidamente para encontrar sua figura lá em baixo — os braços nunca soltando os corpos — e elas gargalharam ao ver a mulher mais nova correndo em fuga de um pato furioso avançando atrás dela.
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