Notas iniciais
Mil e setecentas, mas algo me diz que está bom assim =B

O jantar tinha sido inesperadamente agradável, para a surpresa de Maura. Depois de se sentarem na mesa e se servirem, a conversa tinha encaminhado para uma leve, carregadas de histórias corriqueiras e engraçadas, e durante toda a noite Maura esquecera os motivos que haviam trazido ela e Jane ali, para aquele lugar. Amanda era sem dúvidas inteligente e gentil, e a medida que a morena foi contando sobre sua própria vida, Maura se sentia cada vez mais a vontade perto dela.

Quando Jane pegava seu casaco para vestir, ao encerrar a noite, Maura se sentiu uma pontada de tristeza em seu coração. Depois de alguns dias, aquele tinha sido um feliz, e se a princípio ela temia qualquer ameaça que Amanda pudesse representar, agora ela se sentia apegada à ela, um laço que fora firmado entre empatia e gratidão. Logo, quando Jane encostou a mão em suas costas e Amanda abriu a porta sorrindo mais uma vez e agradecendo pela companhia das duas, Maura ouvi-se convidando-a para um segundo jantar. Ela e Jane cozinhariam, como uma forma de agradecimento. Amanda balançou a cabeça entusiasticamente em sim, dizendo que seria ótimo e que levaria o vinho — e as cervejas. Jane lançara um olhar espantado para Maura, um que ela decidiu ignorar. Ela não sabia dizer se era pelo fato de ter oferecido Jane para que cozinhasse também, ou apenas porque o convite tinha surpreendido pelo fato de que, algumas horas antes, Maura duvidava sobre o jantar oferecido mais cedo.

Compromisso agendado, as duas deixaram a casa e voltaram a pé para a residência onde estavam hospedadas. O vento frio da noite cortava entre árvores, balançando os galhos furiosamente, levantando folhas secas do chão. Uma tinha se inclinado na direção da outra, buscando por calor, aproveitando a caminhada silenciosa e, apesar do frio, agradável que conduziu ambas para casa.

Ao entrarem na sala, Jane fechou a porta e a trancou, tirou o casaco e o pendurou no gancho, depois se virou para Maura que ainda estava lutando com a manga de sua blusa e sorriu ao passo de que observava a loira.

'Jantar amanhã, hum?' Ela disse e dessa vez, incomodada com a demora, ajudou Maura a livrar a mão da manga da blusa.

'Não me venha com peixes de novo.' Ela disse com humor, lançando um olhar brincalhão para a detetive.

'Vou deixar que você escolha o cardápio, apenas porque confio no teu gosto. Mas peixe seria ótimo.' Ela provocou de volta e ganhou uma revirada de olhos por isso.

Maura não acrescentou mais nada. Apenas se dirigiu ao quarto, seguida por Jane, e ambas começaram o ritual da noite. Trocar a roupa por um pijama, lavar o rosto e escovar os dentes. Levaria apenas alguns minutos, e logo uma estaria esperando pela outra na cama. Diferente das outras noites, nenhuma palavra fora trocada. O dia tinha trazido consigo questões a serem pensadas, pesadas, medidas. Se Jane se entregara ao sono rapidamente, vencida pelo cansaço, Maura tinha se curvado ao seu lado e sua mente corria ao redor do mundo, voltava a encontrá-la e nenhuma resposta, confirmação, trazia de volta consigo.

Amanda tinha lhe espantado com a história da irmã mais nova. Era algo peculiar, tanto quanto o seu sequestro, e de alguma forma dizia tanto à seu respeito; ao seu medo. Eram duas situações diferentes, ainda assim com algo familiar. Ela se lembrou das fotos que vira e dos rostos sorridentes, e de repente se lembrou das fotos que ela tinha com Jane, fotos que registaram momentos singulares e também felizes. Algo doeu dentro de si quando, por pura inconveniência, lembrou-se que quase colocara esses momentos que ela estimava com Jane em xeque. Ela se remexeu e esticou o braço para tocar o rosto da morena que dormia profundamente. Os dedos dançaram na sua bochecha apenas por um breve momento, e Maura suspirou tentando se livrar da sensação incômoda que despertara em si. Perder Jane significaria perder a maior parte de si. Como ela sobreviveria, então?

Ela balançou a cabeça e piscou os olhos tentando dispensar o devaneio, e lembrou-se de Amanda dizendo que era exatamente isso que deveria fazer: deixar que o medo se apagasse. E depois visualizar o que tinha sobrado de bom. Essa parte, é claro, ainda era difícil. Ela ainda tinha pesadelos. Ela ainda escutava a si mesma implorar, e também a Jane... Geralmente as imagens eram confusas e distorcidas, e ela sentia mais do que via, e ela nunca saberia narrar o que acontecia, apenas o terror que experienciava.

Irritada como o rumo dos pensamentos, ela jogou a coberta para o lado e saiu da cama. Os pés descalços tocaram o chão e ela andou até a cozinha, encheu um copo de água fria e tomou-o por completo, de uma vez. Assim que terminou, dedicou-se a fazer o caminho de volta para o quarto, esperando que pudesse finalmente dormir, mas seus planos foram por água abaixo quando ela viu, pela janela da sala, um raio cortar o céu à distância. O trovão ressoou em seguida, mas não pareceu tão alto. Uma tempestade estava se formando no horizonte, e ao se aproximar do vidro da janela, ela notou que o vento lá fora também continuava forte. O lago se iluminava toda vez que um relâmpago surgia, e a médica cruzou os braços sobre o peito para observar o fenômeno. Perigoso, porém fascinante. Era a mistura do poder destrutivo da natureza e toda sua beleza. Ela sorriu quando um raio se dividiu e cortou dois dos cantos cardiais.

Distraída com o espetáculo, ela se sobressaltou e quase gritou quando alguém a abraçou por trás. 'Jane!' Ela exclamou mais alto do que o apropriado, sentindo agora as mãos da morena percorrerem por sua barriga numa tentativa de acalmá-la.

'Eu não quis te assustar.' A morena murmurou sonolenta, a voz rouca se perdendo na sua nuca ao passo de que seus lábios se aproximaram, os braços prendendo-a sua cintura.

'Bem, você quase me matou do coração!' Ela repreendeu dessa vez com um sussurro e Jane puxou-a contra si de modo que suas costas estava agora coladas na barriga da outra.

'Ora, doutora Isles, é possível morrer de susto?' Ela disse ainda com o rosto encostado no ombro da mulher, a boca roçando na pele macia do pescoço.

Maura se arrepiou com o toque. 'A não ser que a pessoa tenha uma doença -' Ela nem terminou a frase. Jane estava apertando sua cintura e soltando um longo 'uuuuuuhuuum' que deixava bem claro que ela não estava interessada na aula.

'Por que você tá acordada, e aqui?' Jane murmurou, parecendo mais uma sonâmbula.

'Vim beber água, a tempestade chamou minha atenção quando eu estava voltando para o quarto.' Ela explicou e apontou com um dedo para fora, depois pousou os braços sobre os da morena.

'É madrugada, Maura. Volta para cama. Você pode ver isso outro dia.' Ela disse sem parecer muito convencida do que estava falando, e Maura riu levemente.

'Ora, Jane... Eu só estava admirando. Você sabe... É a beleza no meio do caos.' Ela virou ligeiramente o rosto para o lado, para tentar encarar a outra.

'A única coisa bonita que vejo aqui é você. Volta pra cama porque eu quero dormir. E te abraçar.' Ela murmurou pela última vez e plantou um beijo demorado no pescoço da médica. Ela paralisou com o toque. Ela e a detetive sempre trocavam carícias, e se era algo que ultrapassa a linha de amizade, ela não saberia dizer. Mas esse beijo... Tinha sido diferente. Mais íntimo do que os outros, mais exigente. E ao mesmo tempo tão mais natural...

Ela se virou lentamente e piscou os olhos, apenas para ver uma Jane sonolenta esfregar os olhos ao mesmo tempo que andava as cegas pelo corredor, procurando pelo quarto. Maura riu levemente com a cena; Jane carregava uma pureza e infantilidade, por vezes, tão intrínseca que inflava seu coração. Ela tinha que resistir, toda vez, à tentação de alcançá-la, colocá-la nos braços e beijar-lhe o rosto. Ato que, Jane sendo Jane, censuraria imediatamente com uma cara feia e um resmungo mal humorado.

Compreendendo que Jane voltaria para procurá-la uma segunda vez se demorasse muito a segui-la, Maura caminhou com um sorriso no rosto de volta para a cama. Uma vez que Jane já tinha se deitado, ela ergueu a coberta para a médica e esperou, com toda paciência que poderia, para que a mulher se ajeitasse em seus braços.

Contrariada, apenas porque Maura estava deitada de frente para ela, e não de costas, ela franziu o cenho e sussurrou, 'Eu disse que quero abraçar você.'

O sorriso que abriu no rosto da médica foi causado pelo modo de como Jane parecia ainda mais mal humorada nessa noite, e entre a irritação dela aparecia o carinho dedicado a si.

'Por que você não me deixa te segurar essa noite?' Maura disse baixinho, acariciando o rosto da detetive com as potas dos dedos, na esperança de niná-la de volta ao sono.

'Não.' Jane resmungou de novo, mas não fez menção de movimentar, e tão pouco Maura. A loira continuou acariciando seu rosto, sua nuca, e depois de alguns minutos Jane já tinha se entregado num sono profundo novamente. O corpo completamente relaxado pressionava levemente contra o de Maura, a mão pousava sobre sua cintura num aperto leve. O rosto branco a pouco centímetros do seu, permanecia pacífico agora, destacado pelo cabelo preto e ondulado. Maura admitiu para si mesma, naquele momento, que entre todas as pessoas, sempre tinha sido Jane. Sempre tinha sido ela a melhor para dormir e acordar ao lado. E para segurá-la nas noites em claro. E seria sempre Jane a pessoa que ela procuraria depois de um dia exaustivo de trabalho na cafeteria da delegacia. Ou que seria sempre Jane que a acompanharia até em casa, tarde da noite. Por que, afinal de contas, não era ela o centro de sua vida? Se ela dissesse que não, estaria mentindo para si mesma.

Um tanto quanto trêmula, ela abraçou a cintura da mulher e estudou seu rosto mais uma vez. 'Jane?' Ela chamou baixinho, o sussurrou se perdendo no ar da noite escura. A morena não mostrou qualquer sinal de que tinha ouvido, e agora mais à vontade, ela sussurrou de novo. 'Você é a beleza no meio do meu caos.' E singelamente se inclinou para frente e plantou um leve beijo no canto dos lábios da detetive.