Contraposição
19 Capítulo XIX
Ela mexeu os pés preguiçosamente sobre o lençol frio da cama. Ao acordar ela notara que a coberta esquentava apenas metade de seu corpo — do quadril até os seios — provavelmente porque em certo ponto da noite ela sentira calor e se remexera demais, de modo que as pernas e os braços estavam de fora.
Não. Ela sentira calor porque dormira com o corpo colado ao de Jane, sendo esse a fonte que precisava para se manter aquecida durante a noite fria. Agora que acordara ela se lembrava exatamente do que tinha acontecido na noite anterior. Ela e Jane tinham feito amor, duas vezes. Tinha sido doce, lento, carinhoso. Ela e Jane combinavam ao tratar aquela primeira experiência como uma de descobrimento, sem pressa, uma entrega lenta e cheia de tortura — a mais deliciosa de todas. Ela sorriu com a lembrança e jogou a mão para o lado na esperança de encontrar a morena ainda na cama, mas suas mãos nada tocaram. Decepcionada, ela se virou e constatou que estava mesmo sozinha. A casa estava silenciosa, e de repente ela sentiu um leve desespero.
Para onde Jane teria ido? Por que ela estava ali sozinha — nua na cama — depois de compartilharem um momento tão íntimo? Um medo inexplicável tomou conta de si. Ela pensou em chamar pela morena, mas um nó na garganta a impedia de falar. É claro que ela não tinha razão para acreditar que Jane a abandonaria ali, mas a simples possibilidade de ter sido deixada sozinha por um tempo, ainda que a morena tivesse apenas saído para comprar o café da manhã, a apavorava. Ela não tinha acordado sozinha nenhum dia depois que chegaram ali. Por que esse teria que ser o primeiro?
Ela deslizou para a beirada da cama e colocou a primeira peça de roupa que viu, o que acabou sendo uma camiseta de Jane, uma calcinha, e estava determinada a encontrá-la. Prestes a deixar o quarto ela quase esbarrou com a presença repentina de Jane se materializando através da porta. Sobressaltada, a morena deu um passo para trás e equilibrou a bandeja que tinha em mãos, antes de lhe dar atenção.
'Ei, você já levantou.' Ela disse e ofereceu um sorriso, entrando de uma vez no quarto e colocando a bandeja em cima da mesa de cabeceira. Os olhos de Maura vagaram de Jane para o café da manhã que fora preparado para ela, aparentemente.
'Eu não tinha certeza de onde você estava.' Ela murmurou, incapaz de pensar em algo mais senão a única coisa que lhe ocorrera antes de se encontrar com ela.
Jane esticou o braço e puxou gentilmente sua mão, até que se sentasse na cama. 'Eu não quis te acordar, você estava dormindo profundamente, mas não queria que você acordasse sozinha também.' Ela encolheu o ombro num pedido de desculpa. 'Achei que fosse voltar antes disso.'
Maura piscou os olhos para ela e sorriu timidamente. Seus olhos recaíram sobre a mão da morena que continuava segurar a sua. Caia bem. Parecia o encontro perfeito entre o que ela mais desejava e a sensação de tê-lo ali, em suas próprias mãos. 'Então você decidiu fazer café?' Ela disse, apontando com a cabeça a bandeja.
'Isso.' Jane confirmou e sentou-se na cama de modo que apoiava as costas na cabeceira, e bateu com a mão ao seu lado para que Maura fizesse o mesmo. Uma vez pronta, ela ajustou com cuidado a bandeja em cima da cama e ofereceu um copo de suco para Maura, apropriando-se de um também.
'Obrigada.' A loira disse, bebericando o líquido. As torradas com geleia foram consumidas em silêncio, e quando Maura encontrou-se finalmente satisfeita, ela depositou o copo na superfície de madeira e olhou para Jane. 'Você quebrou alguma coisa da cozinha nessa sua aventura matinal? Ou encomendou o café por telefone?' Ela brincou e bateu o ombro levemente no da detetive.
'Ha ha. Muito engraçado.' Jane rebateu com um sorrisinho no rosto e descartou os objetos de cima da cama. 'Você nunca vai saber, de qualquer jeito. Nos dois casos, eu teria tempo suficiente para me livrar de qualquer evidência. Você dormiu pra caramba!' Ela disse e abraçou a cintura da médica, puxando-a para um abraço.
'Impossível.' A loira balançou a cabeça, mas depois franziu o cenho. Jane tinha levantado tão antes dela mesmo? Não seria nenhuma surpresa, considerando o hábito que só aparecera agora que estavam longe de Boston. 'Eu dormi tanto assim, de verdade?' Ela ergueu os olhos para a detetive que sorriu e balançou a cabeça em sim.
'Bastante, mas acho que você precisava.' Ela abriu um sorriso malicioso — brincalhão — e inclinou-se para plantar um beijo demorado nos lábios da médica. Um beijo que ela respondeu automaticamente. Nada parecia estranho ali. O fato de acordarem juntas, tecnicamente, na primeira manhã como amantes e não mais apenas amigas não era nem mesmo constrangedor. A cumplicidade que tinham na relação de amizade tinha claramente se desenvolvido e acompanhado a nova relação a qual acabavam de ingressar. O momento ainda era delicado, sem dúvidas, mas a cooperação por ambas as partes tornava a transição mais leve, descomplicada.
Maura sentiu as bochechas corarem e encostou o rosto no pescoço de Jane. Ela nunca fora tímida com nenhum parceiro, sendo Jane a exceção, provavelmente porque seus sentimentos em relação à ela eram fortes e nesse momento se encontravam a flor da pele. Ela deslizou a mão pelo abdômen da morena, o mesmo que ela havia beijado repetidas vezes na noite anterior, e suspirou feliz. 'Nós podemos passar o dia aqui? Eu e você?'
'Eu ainda tinha esperanças de pescar, mas se você insiste.' A morena brincou, ganhando um suspiro exasperado de Maura. Ela riu e beijou a cabeça da médica em seguida. 'Eu não consigo pensar em algo melhor do que ficar aqui com você.' E a última frase foi motivo para os lábios de Maura pressionarem contra seu pescoço. As mãos da médica passearam pela sua cintura, contornaram seus seios, enquanto ela traçava uma linha de beijos do pé do ouvido até sua boca. Jane precisou resistir à tentação de deitá-la na cama e tirar-lhe a roupa porque havia outro assunto importante a ser discutido — um que não podia esperar. 'Maur, antes de qualquer coisa', ela disse e beijou os lábios da médica, apenas para afirmar que a ação iniciada dela era bem-vinda, 'eu tenho notícias de Boston.'
A loira se afastou lentamente dela, sentou-se sobre as pernas e piscou os olhos, agora um tanto aflita. 'O que é?'
'Korsak me ligou enquanto você dormia.' Ela também se ajeitou na cama e segurou uma mão de Maura. 'Eles prenderam outro homem ontem, Maur, no final da tarde. Resumindo, o que você precisa saber é que ele... ele tava por trás daqueles lírios no hospital.' Ao ouvir a médica arfar — o medo ressurgindo nos olhos — Jane acariciou seu braço numa tentativa de acalmá-la. 'Nós ainda estamos bem. Ok?'
'Ok.' Ela murmurou sentindo o corpo tremer levemente, esperando pelo resto.
Jane passou a língua pelos lábios e correu a mão pelos cabelos. 'Maur, você se lembra do Daniel, aquele adolescente que matou o doutor Foley?'
A loira arregalou os olhos e balançou a cabeça em sim, sentindo o coração bater violentamente no peito. O olhar de Jane entregava quão sério aquela informação era, e somado com a informação extra que Maura já conhecia — a que ele tinha um grande potencial para ser um serial killer — ela se viu cruzando os braços na frente do peito, como se para proteger. 'Ele está envolvido nisso, não está?'
Jane confirmou com a cabeça apenas por educação — a pergunta era retórica. Não era a primeira vez que um psicopata se sentia inclinado a fazer de Jane seu alvo. Ela sabia que ela era um desafio grande, principalmente por possuir personalidade tão forte. 'Ele vai ser transferido de cadeia. Korsak tá lidando com isso, mas ele não pode me falar muito, você sabe, ainda mais por telefone.'
Com a última frase da morena, Maura só pôde concluir o óbvio. Agora que descobriram quem estava por trás disso e que tinham detido mais uma pessoa, isso significava que elas já não tinham motivos para se esconderem. 'Você quer voltar, não quer?' Ela perguntou com imenso desconforto.
'É mais do que isso. Nós precisamos.' Jane disse e acariciou seu braço. A loira se inclinou levemente em sua direção, mas não cedeu completamente ao toque. Ela se sentia um tanto vazia agora. Essa manhã era para ser sobre ela e Jane, e não sobre... nada do que lhe acontecera.
'Korsak precisa que você reconheça um dos suspeitos.' Jane murmurou para ela, como se as palavras ditas em voz baixa pudessem pesar menos do que significavam.
A médica arregalou mais uma vez os olhos e balançou a cabeça em não. 'Por que? Eu não vi o rosto de ninguém, eu não saberia dizer.'
'Talvez a voz? Korsak pode fazer com que ele fale, Maura. Ele não vai saber que você está lá.' Jane tocou-lhe o braço mas sentindo uma fúria de repente dentro de si, Maura se afastou e se levantou da cama.
'Não. Eu já disse que não vi.' Ela disse de novo, colocando as mãos na cintura e andando de um lado para o outro, sem saber ao certo o que fazer.
'Maura...' Jane tentou acalmá-la. Ela se levantou e correu uma mão pelo cabelo indomável, afastando-o do seu rosto. 'Você precisa confiar no trabalho de Frankie e Korsak agora. Nina foi pessoalmente até sua casa para vasculhar o lugar inteiro, não há nada lá. Você, você tá segura.'
Se a tentativa era acalmá-la, Jane se surpreendeu no resultado da escolhas de palavras que, sem nenhuma dúvida, serviram apenas como pavio para irritá-la ainda mais. Maura se virou para ela, dessa vez a raiva estampada no seu rosto. Ela balançou a cabeça em não lentamente, e agora soava muito mais ameaçador do que antes.
'Você não sabe. Aquele menino é um psicopata, Jane. Ele não tem limites, ele pode persuadir qualquer um a fazer o que ele queira.' Ela sentiu um nó na garganta. Deixar aquela casa, ela sentia, não era sábio. Não era seguro. Elas tinham ficado bem ali até agora, e mesmo que o culpado tenha sido encontrado — responsabilizado — ela se sentia vulnerável outra vez.
'Ele está atrás das grades, Maura, sendo transferido para outra prisão, uma que ele não conhece ninguém.' Jane deu um passo a frente mas a loira não parecia disposta a ser tocada. A detetive lambeu os lábios, esperando que alguma razão voltasse à médica, esperando que não tivesse que pressioná-la agora, num momento tão delicado e pessoal de suas vidas. Um suspiro tremido deixou seus lábios quando um pensamento atravessou sua mente — tivera sido um erro dormir com Maura na noite anterior, em um momento tão crítico pelo qual elas passavam? Nesse conflito de emoções, ela tinha medo que algo entre elas se quebrasse. 'Eu preciso que você confie em mim.' Ela fez uma última tentativa, sentindo o peito doer com a possibilidade de afastar Maura de si por conta da situação de agora que parecia invertida — antes sua obrigação era escondê-la do mundo, agora era levá-la para encarar um de seus medos.
'Você diz isso mas é você quem quer me levar de volta.' A voz saiu acusatória, magoada. Jane segurou o ar e sentiu os olhos arderem por conta de lágrimas que não poderiam ser derramadas.
Traição.
Ela se sentia uma traidora. Ela dissera para Maura na noite anterior o quão feliz estava por estar ali com ela, que cuidaria dela. Ela tinha tirado sua roupa — numa vontade que era mútua — e exposto o que ainda lhe era particular. Ela conhecera cada parte de si — não apenas de seu corpo, mas de sua alma. Ela engoliu o nó na garganta, sabendo que agora era um momento crucial. Só havia duas saídas: ou ela se aliava a Maura, ou ela a confrontava numa tentativa incerta de trazê-la de volta ao raciocínio cartesiano que sempre lhe pertencera. Ela não poderia arrastá-la da casa até a delegacia, mas Jane queria mais do que tudo colocar cada culpado atrás da grade por fazê-la sofrer. Por envolver Maura nisso tudo e colocar sua vida em risco. E era por isso que ela precisava da colaboração da médica.
'Maura, por favor. Eu preciso que você entenda que enfrentar isso agora é essencial para que a gente continue com nossas vidas.' Ela tentou com um apelo, os olhos carregando toda esperança e determinação que sentia no momento, esperando que o pedido surtisse efeito na médica.
Em câmera lenta, ela viu Maura erguer o queixo em desafio. Olhos afiados a fuzilavam e tudo desabou no segundo seguinte, rápido demais. 'Tudo o que você precisa é ficar longe de mim agora.' E virando as costas ela saiu do quarto num rápido movimento — deixando Jane para trás, de boca aberta.
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