Contradições
17 Feriado
Notas iniciais
Contradições
by Amanur
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Capítulo 17
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Os feriados não só eram uma desculpa comercial para venderem produtos, ou uma manipulação de sentidos de uma massa descontrolada, sedenta por uma esperança de um dia melhor e vazio (afinal, por que não podemos trabalhar durante feriados?), como eram uma dia cheio de hipocrisias, de gente que não acredita em nada comemorando a mesma coisa que os que acreditam, e se reunindo em volta de uma mesa para fazerem fofocas, falarem asneiras, e perderem tempo com coisas inúteis que não agregam nada. Agrega apenas uns quilos a mais na barriga.
Meu rosto latejava tanto de raiva, do mesmo modo que latejaria se eu tivesse ganhado um tabefe na cara. Por que era exatamente como eu me sentia: como se tivesse levado um tapa na cara, um daqueles bem dado. Quem manda ser idiota? Quem manda querer bancar a durona, a boazuda que não liga para nada, quando é uma manteiga derretida, apenas congelada, esquecida no fundo do frízer?
Quando cheguei em casa, Sasuke já dormia, de costas com o rosto virado para a parede. Estava todo esparramado pelo sofá, sem camisa e cueca samba canção, com os cabelos espalhados pelo travesseiro que ele abraçava. Parecia uma criança. Uma criança crescida.
Custei a dormir, sentindo raiva de mim, raiva do Itachi. Principalmente do Itachi por ter me feito passar por idiota.
Na manhã seguinte, ele deixou o café da manhã preparado sobre a mesa, e um bilhete dizendo que passaria o Natal com os pais, e que daria a desculpa de que havíamos combinado de passar os feriados cada um com sua respectiva família.
Bom, eu não iria, por que os meus pais já estava com hora marcada para voltar para casa antes da noite. Então, só por que minha mãe praticamente me obrigou, fui me despedir deles no aeroporto.
Eles já estavam com as malas no portão de desembarque, com seus tíquetes nas mãos, me esperando, quando cheguei. Para variar, minha mãe, impaciente, batia o pé como uma menininha impaciente para ganhar o seu doce.
— Até que enfim! — ela disse, quando me viu me aproximar — Achei que nem para vir se despedir do seu pai, você viria.
— É claro que eu viria para me despedir dele! — disse eu.
Ela revirou os olhos, enquanto eu o abraçava, a ignorando.
— Sakura, sei que é difícil de segurar as pontas no inicio do casamento. Haverão mais gastos do que você imagina. A conta de luz multiplica, a de gás multiplica, a de telefone, a alimentação... Tudo multiplica. — ele dizia, tirando um envelope do bolso do paletó — E sei que seu marido não ganha lá muito bem...
— Como o senhor sabe?
— Bom, conversei um pouco com ele, enquanto você se preparava para o casamento. Mas como eu ia dizendo, sua mãe e eu resolvemos juntar um dinheirinho para ajudar com as despesas inicias.
— Principalmente se aquela pirua da sua sogra abrir o bico para reclamar alguma coisa sobre não ter pago nada pelo casamento! — minha mãe resmungou, virando o rosto, como se não quisesse se meter na conversa.
Peguei o envelope. Havia quinze mil pratas. Eu poderia pagar a porcaria do combinado com o Sasuke, e ainda sobraria alguns trocados. Mas eu sabia que meus pais deveriam ter se esforçado muito para conseguir juntar todo aquele dinheiro em tão pouco tempo.
— Pai, eu não posso aceitar o dinheiro. — eu disse, devolvendo o envelope.
— É claro que pode, deixe de bobagem. É só enfiar o envelope na bolsa e levá-lo para casa, ora essa. — ele me disse.
— Mas isso é muito dinheiro. Você deve ter limpado todo o seu bolso!
— Não se preocupe com isso. Além disso, a maior parte desse dinheiro veio da sua mãe. Ela tirou o que estava juntando para aquela viagem que ela queria fazer.
Há anos, ela falava em fazer um tour pela Grécia, e ir até o Egito para conhecer a Esfinge e as pirâmides. Ela era tão fascinada pelo lugar que mantinha uma coleção de miniaturas das pirâmides e da Esfinge.
— Eu te disse para não contar nada a ela! — minha mãe o cutucou, e me olhou de soslaio — Aceite logo esse dinheiro, Sakura. É o mínimo que posso fazer por ter arruinado o seu dia... — murmurou.
Ora essa, se aquilo não era algo que eu pudesse chamar de “situação rara dos diabos”, não sei mais o que seria.
Então, sem dizer nada, apenas enfiei o envelope na bolsa. Abracei meu pai, abracei minha mãe, e ainda resmunguei um “obrigado” para ela, enquanto ela resmungava de volta um “desculpa por tudo”. Eu não usaria aquele dinheiro, com certeza. Daria um jeito de devolvê-lo. E enquanto eu pensava nisso, os vi passar pelo portão de embarque, para, então, voltar para casa e curtir o meu feriado.
Mas eu estava tão entediada, tão sem nada para fazer, que achei que enlouqueceria. O que era um absurdo, por que o tal feriado seria um dia só, mas o meu apartamento vazio parecia estar numa outra dimensão, por que havia se tornado insuportavelmente vazio.
Então, cometi a burrice de ligar para a Karin.
— O que você vai fazer nesse feriado? — perguntei, quando atendeu.
— Ora essa, vou comer muito! — como se fosse a coisa mais óbvia.
— O que você vai comer?
— O meu marido, o que você acha?
— Posso ficar com vocês?
— Hein?
— Meus pais se foram e o Sasuke foi passar o dia com os pais dele... Então, estou sozinha.
— Mas veja só que gracinha, e eu achando que você não se importasse com Natal.—ela diz, zombeteira.
— Que se dane o Natal! Só não quero ficar sozinha e casa. Além disso, o que ele vai pensar de mim? Que sou uma pobre coitada que não tem com quem passar o Natal?
— E você tem com quem passar o Natal, Sakura?
— Vocês!
—...
— Não me faça ligar para o Naruto, por favor.
— Traga presentes, e você será bem-vinda!
— Chantagista. — revirei os olhos.
E desliguei o telefone.
Me arrumei, fui para as ruas bater perna até achar alguma loja-filha-da-puta que trabalha até a noite querendo lucrar até o ultimo minuto, e comprei um par de brincos para ela e uma gravata para ele — me sentindo muito usada, devo acrescentar!
Já era noite, o meu relógio de pulso marcava dezenove horas e cinquenta e cinco minutos quando cheguei no apartamento deles. O cheiro de comida se alastrava, me fazendo ficar grata por estar ali, e entreguei os presentes a eles os agradecendo pela falta de convite.
— Presente, para mim???— a idiota da Karin diz, se fazendo de surpresa, arrancando a embalagem do negócio sem dó nem piedade, enquanto Suigetsu olhava para a sua gravata como se não soubesse o que era aquilo.
— Ah, poxa, Sakura, muito obrigada pela gravata de bolinhas... Agora só preciso ganhar um evento que exija uma.
— Que tal meu próximo casamento? — eu disse.
— Por quê? Você acabou de se casar e já está falando em outro? — ele perguntou, confuso.
Olhei para ela.
— Você não contou para ele? — perguntei, enquanto ela tirava os brincos que usava para experimentar os que lhe dei.
Aí, nesse momento, ouvimos a descarga do banheiro, e Naruto aparecer puxando o zíper da sua calça.
— Contou o quê? — indagou, alheio ao assunto.
Olhei novamente para ela.
Karin deu de ombros.
— Os pais deles estão na cova, e eu, infelizmente, sou a única família viva que ele tem. Ele não cozinha e passa fome, então, sempre come conosco no Natal! — tentou se justificar.
— E você não acha que deveria ter me dito isso antes?
— Você não perguntou! Ai, eu amei esses brincos, amiga! Espere aqui que eu tenho presentes para você também! — e saiu correndo para dentro do seu quarto, se safando da minha fúria, enquanto o loiro se aproximava de mim com aquelas mãos imundas.
— Sakura, fica fria, ok? Eu não te amo mais! Não quero mais saber de você, tá legal? — disse como se estivesse me fazendo um grande favor.
— Ainda com a história de virar gay?— perguntei, cruzando os braços.
— É claro que isso não iria dar certo, por favor, né, Sakura. Eu vou é virar padre, e jurar o meu amor a Deus.
— Ele diz isso em todos os Natais. — Suigetsu diz, arrumando a mesa redonda na sala. A cozinha e a sala de estar eram conjuntas, e eles já tinham preparado uma toalha bonita para cobrí-la com talheres, taças e os pratos.
— Mas este ano será para valer. — o loiro disse, categórico.
Então, a Karin surgiu com um embrulho.
O papel era uma folha de caderno com estampas de florzinhas, cheia de fita adesiva Durex — muito mal colocados, devo acrescentar.
Abri ele, pacientemente. Eram os brincos que ela estava usando antes de colocar os que eu dei. Eles não eram nem o tipo de brincos que eu usava.
— Surpreeeesa! — ela ainda diz, toda empolgada, me abraçando — Te desejo tudo do bom e do melhor, amiga!
— E o que eu ganho de presente? — Naruto resmungou, afanando uma rodela de tomate da tigela de salada que eles haviam preparado.
— Mas credo, Naruto! Todo ano você vem comer aqui em casa, de graça, e ainda quer presentes? — a ruiva indagou.
— A Sakura veio comer de graça! — e ele ainda apontou para mim, como se não soubessem quem a Sakura era.
— A Sakura trouxe presentes! — a ruiva me defendeu.
— A minha presença deveria ser considerada um presente, isso sim! — ele resmungou, meio contrariado. — Afinal, eu fui um presente de Deus para os meus pais!
— Para mim, você não passa de um castigo de Deus. — Karin murmurou.
Sentamo-nos em volta da mesa. Suigetsu fez questão de servir cada um com o pedaço de peru e a salada, e serviu as taças com vinho tinto. A carne estava muito saborosa e suculenta, mas a salada tinha coisas não identificadas, que me obrigaram a separar no canto do prato.
— Sakura, por favor, você não é mais criança para isso! — Karin resmungou de boca cheia, reparando no meu prato.
— Que coisa deselegante, ficar de olho no prato dos outros! — eu disse — Só estou de dieta, por isso estou separando as ervilhas, a abobrinha, a azeitona...
— A batata tem dezessete gramas de carboidratos, se quiser, pode mandar para mim. — o loiro disse, colocando seu garfo em posição de ataque.
— Não, senhor, as batatas ficam! — respondi, defendendo o que era meu. Principalmente a batata que tinha um formato que lembrava um coração, e quase me fez chorar achando que fosse alguma mensagem do além.
Aí, todos eles me olharam, com pena.
— Calma, Sakura, é só uma batata, credo! — Naruto resmungou — Pode ficar com a minha, se faz tanta questão assim.
— Não é isso, seu idiota. Estou chorando por que levei o maior fora da historia da humanidade! — resmunguei, fungando o nariz.
— O Sasuke te deu um pé na bunda? — ele indagou, feliz.
— Não, seu retardado! Aposto que ela está falando do Itachi! — a Karin disse — Conte-nos o que aconteceu, querida.
— Aconteceu que eu nasci burra! — eu disse, inconformada.
— Ahhh! Eu sei como você se sente. Isso não tem cura! — o loiro disse.
Isso era para me confortar?
— Ele disse que mulheres como eu, que traem, não valem nada! Dá pra acreditar nisso? Dá, dá? — eu disse, indignada, tentando engolir as minhas lágrimas.
— Mas que filho da puta! — a Karin disse, espetando o seu pedaço de peru com o garfo, com toda a sua compaixão pela minha dor.
— Como assim? — Suigetsu perguntou para ela — Você não concorda com ele, por quê?
— É claro que eu concordo, querido! Só estou indignada por ele ter dito isso na cara dela, oras! — ela respondeu — Olha só o estado da coitadinha!
Eu e Naruto trocamos olhares cúmplices, revirando os olhos.
— Enfim — ela continuou, mais para desviar do assunto, com certeza —, eu estive pensando naquela desculpa que você poderia dar para se divorciar do Sasuke.
— Ótimo, até que enfim, por que acho que estou ficando doente! — resmunguei, espetando um pedaço de carne como se tivesse matando o animal.
— Como assim? — ela perguntou.
— Não sei, ando pensando demais naquele infeliz. E enquanto o Itachi metia em mim, fiquei imaginando o Sasuke no lugar dele, vê se pode uma coisa dessas! Isso só pode ser doença!
— Eu não quero ouvir isso! — Naruto até cobriu os olhos com as mãos.
— E eu não sei se deveria ouvir isso, também... — Suigetsu comentou, bebendo um gole do seu vinho.
Aí, a Karin trocou olhares com o Naruto. Ela, com alguma maldade estampada, e ele com aborrecimento na cara. Não entendi o que eles estavam insinuando, e algo me dizia que era melhor não entender.
— Mas como você ia dizendo, Karin... — a incentivei a continuar com a palavra.
— Ah, sim. Bem, veja só... Vocês poderiam marcar um dia para um almoço, junto com a família dele, e, lá... — fiquei ouvindo sua ideia, enquanto Naruto tentava afanar minhas batatas.
Depois do jantar, ficamos vendo filmes natalinos idiotas, comendo brigadeiro caseiro até não nos aguentarmos mais, e cairmos no sono na sala. Acordei no dia seguinte deitada por cima do fedorento do Naruto, no sofá, e quis esganar a Karin por ter permitido aquilo.
— O coitado só quer aproveitar a vida! — me disse, enquanto fazia um café com leite para nós.
— E eu só quero distância dele. É um desejo bem mais humilde que o dele!
Ela bocejou.
— Ainda bem que não precisamos trabalhar hoje. O que pretende fazer?
— Vou para casa, tomar um banho e me desinfetar do Naruto. Depois, eu não sei. O Sasuke provavelmente já deve estar em casa.
— E você, louca para correr para os braços dele, não?
— Não! — retruquei — Ficou louca? Aquela historia de imaginar o Sasuke no lugar do Itachi deve ter sido um desvio de algum neurônio meu. Eles são irmãos! São parecidos! Só pode ser isso. Meus neurônios estavam alcoolizados e confundiram um pelo outro. Foi só isso! — esclareci.
— Claro, claro...
As pessoas têm o péssimo costume de fazer julgamentos precipitados sobre as coisas que não são do seu conhecimento. E o engraçado é como se acham superiores e espertos por isso.
Depois de engolir o café com leite que ela fez, peguei um taxi e fui para casa. Eram oito horas da manhã, e o Sasuke ainda não havia voltado da casa dos pais. Tomei um demorado banho, lavando até mesmo embaixo da unha para tirar aquele odor horrível de cigarros e outras substâncias do Naruto. Eu estava realmente relaxada, embora ainda me sentisse meio abalada pelo golpe do Itachi. E para compensar o espirito de porco que me dominava, pensava até mesmo em plantar alguma coisa nova no apartamento. Embora plantas continuassem sendo apenas plantas, eu gostava do ato de cultivá-las. É um bom exercício, que já havia praticado com as outras plantas que tinha na sala (dois vasos de plantas).
Eu pensava nas sementes que ainda tinha guardado em algum armário, enquanto saia do banho enrolada numa toalha, como eu costumava a fazer antes de morar com o Sasuke, sabe? Bem, acontece que às vezes, eu até mesmo andava nua da sala para o quarto por que gostava da leve sensação de liberdade e leveza que sentia no corpo sem as roupas. Me sentia mais dona do próprio nariz quando fazia isso... E eu estava com toda a certeza (de que eu não tinha) de que o Sasuke ainda se demoraria para voltar, por que estava bravo comigo, quando resolvi soltar a toalha no chão e erguer os braços para o alto como um prisioneiro que sai da cadeira depois de muito tempo vendo o sol nascer quadrado sentindo a liberdade.
Ou, pelo menos, eu tentava desfrutar um pouco da liberdade, tentava trazer de volta o meu “eu” que apreciava a solidão do apartamento.
Um pigarro, no entanto, fez com que toda a minha curta e medíocre felicidade fosse pelos ares, por que o Sasuke estava atrás de mim, saindo do cantinho cozinha, onde ficava a geladeira e eu não tinha visão de onde eu estava.
Rapidamente, peguei minha toalha do chão e me enrolei de volta nela, com o rosto tão vermelho quanto o inferno deve ser.
— Fique sabendo que eu não estava abrindo os braços para você! — e ainda apontei o dedo no nariz dele, para que ele entendesse bem com quem estava falando. Seja lá o que isso signifique.
— Em momento algum eu disse que você estava... — ele disse num tom divertido, com um sorriso torto de debochado, mordendo uma maçã verde que pegou da cesta de frutas que havia sobre a mesa.
— E eu não disse que você disse!
— Então por que disse?
— Eu estou proibida de dizer alguma coisa na minha própria casa?
— Eu não disse que você estava proibida de fazer alguma coisa!
— Então por que perguntou?
— Estou proibido de perguntar alguma coisa?
— Eu não disse que você estava proibido de fazer alguma coisa!
Ele abriu o sorriso, com uma casca da maçã no dente.
— Touché! — ele diz, triunfante.
— Eu te odeio! E, tecnicamente, o touché é meu!
— Tudo bem, por que não te amo também. — ele me ignorou, passando por mim, até o sofá — Aliás, pensei numa ideia para conseguirmos arranjar o divórcio, se quer saber!
— Oh. — não sei por que, mas aquilo me pegou de surpresa, me deixando meio sem jeito — É mesmo? — e sem saber o que mais eu poderia dizer, ou fazer, pus uma mão na cintura e a outra na parede para me apoiar, e quase deixei a toalha cair outra vez.
— Uhum. É muito simples, na verdade. Veja só... Nós marcamos um dia para um almoço, junto com a minha família e, lá... — fiquei ouvindo sua ideia, notando as similaridades com a ideia da Karin. A diferença é que na ideia dela, eu me saía bem. Na ideia dele, ele se saía bem, como o mocinho da história — É só esperarmos que o Itachi te entregue todos os documentos que você precisa, e pronto! Colocamos o plano em prática, tudo fica bem, e cada um segue o seu caminho.
— Uhum, sim, claro... — um nervinho saltava na minha testa.
Aquilo só poderia ter outro dedo podre da Karin.
Eu ia interrogá-lo para saber quando ele andou falando com a ruiva de araque, mas, de repente, ele se levanta, como quem não quer nada (mas planeja tudo), e me encara de frente.
— Mas é claro que, antes, eu gostaria que você me pagasse o que havia prometido. — e estendeu sua mãozinha para mim, esperando que o dinheiro aparecesse magicamente em sua palma.
— Mas... Mas, mas... Você não se lembra daquela aposta? Você venceu! Eu não preciso pagar nada! — retruquei em meu frágil desespero.
— Aham... — e então, ele me lançou um olhar cheio de segundas intenções, dos pés a cabeça. Ou melhor, dos pés, até meus peitos, e se aproximou ainda mais de mim, me fazendo me encolher e me imprensar contra a parede. Aí, ele se inclinou meio por cima de mim, até o pé do meu ouvido — Queridinha, eu me lembro de exatamente tudo sobre aquela noite!
E aí, assim, bem filho da mãe mesmo, ele se afasta de novo, sorrindo daquele jeito meio malandro, meio filho da puta (do tipo que adora fazer os outros de palhaço). E continuando com a sequência de putaria, ele tira o seu chaveiro com a sua cópia das chaves do apartamento, fazendo-a girar nos dedos (se achando a ultima gota de coca-cola do mundo), e me dá as costas.
— Vou fazer uma visita ao meu irmão. Não devo demorar mais que uma hora! Quando eu voltar, eu gostaria de ver o meu dinheiro. — e bateu a porta.
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