Contradições

4 Churrascaria


Notas iniciais
Boa leitura!

Contradições

by Amanur

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Capítulo 4

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Já ouvi dizer que mudança é uma coisa boa, seja ela qual for. Mas eu gostaria de poder dar um belo tapa na cara do imbecil que inventou uma lorota idiota dessas. Talvez, as pessoas que têm mania de organização, ao final das contas, são as mais inteligentes. Por que no fim do dia, elas sabem exatamente onde suas coisas estão. É um mecanismo de defesa, de praticidade e, sim, de comodismo também. Afinal, qual é o problema em se acomodar com alguma coisa? Se ela está confortável ali, daquele jeito, qual o problema com isso? Deixe-as em paz! Por que as pessoas têm que botar defeito em coisas que funcionam bem? Por que elas têm que complicar tudo?

Mudanças são coisas chatas. É sinônimo de insegurança, de incerteza, de instabilidade e de caos. Apesar de todas as reclamações, eu gostava daquela rotina diária. De casa, para o trabalho; do trabalho, para casa. Eu sabia todos os dias onde eu estava, para onde eu iria, com quem falaria, quem veria... Não havia surpresas desagradáveis nenhuma.

Ah, sim, eu odeio surpresas também! Para quê diabos elas servem? Para nos desestabilizar? Para bagunçarem todas as suas estruturas físicas e emocionais, assim, de repente, sem aviso prévio, sem nos deixar nos prepararmos para o que pode vir a seguir? Por que diabos alguém iria gostar disso? Parece que tem alguém querendo nos enfiar alguma coisa em nossa goela a todo custo, de uma só vez. Por exemplo: “Surpresa!, toma essa festa que fizemos para você! Não estamos nem aí se você está com dor de cabeça, cansada, ou se quer ficar sozinha em casa! Fizemos essa festa, e agora você tem que aceitá-la.”

Eu gosto de deixar as coisas acontecerem ao seu tempo natural, sem pressa, sem sufoco, sem sustos. Talvez alguém possa dizer que eu era meio “marcha lenta”, mas e daí, todo mundo tem o seu próprio ritmo! Por que eu tinha que seguir os outros logo atrás?

Enfim, o que eu queria dizer é que eu estava profundamente chateada com essa historia de noivado, que caiu de pára-quedas em cima da minha cabeça. Eu já tinha a minha vida toda programada, tudo dentro do esquema, e, aí, me vem a Karin com essa, me fazendo mudar de planos, me fazendo desfazer as malas que ainda não estavam prontas, mas que poderiam já estar, assim, de repente. Bem do jeito que eu não gostava.

— Relaxa, Sakura, você pensa demais nas coisas. — a Karin me dizia, enquanto caminhávamos por um dos corredores daquele andar, carregando arquivos nas mãos para nossa mesa — Marque um encontro com o cara, ligue para ele perguntando se ele aceita almoçar ou jantar contigo, e lá você despeja toda a treta pra ele. É bem simples.

— Aahhhhh... Que pena que eu não tenho o número dele. — resmunguei, fingindo estar profundamente chateada com isso, quando o contrário era o verdadeiro.

— Não se preocupa, querida, eu peguei o numero dele depois que você fugiu da festa, ok? — aquilo era um alfineta por ter ido embora, mas não me importei.

— E se ele não concordar?

— Ele vai concordar.

— Suponhamos que não concorde! O que eu faço? — insisti.

— Entenda uma coisa, querida. Primeiro: ele vai concordar! Segundo: não tem como ele não concordar! E por ultimo: ele já concordou!

Parei no meio do corredor, me colocando na frente dela.

— Como é que é? Como assim? O que foi que você fez agora, Karin?

— Ele concordou em almoçar hoje com você! Por Cristo, Sakura, você anda muito estressada!

— A pergunta continua sendo a mesma, Karin, o que foi que você fez?

— Eu tinha certeza de que você não faria nada, por que é bundona demais! Relaxa, eu apenas liguei para o bonitinho dizendo que você queria saber se ele estava disponível para um almoço, e que você tinha me pedido para ligar para ele porque estava encabulada por todo aquele jogo de elogios que tiveram, mas que queria se redimir, pedir desculpas, e blábláblá. Aliás, que coisa mais infantil, hein.

Ótimo, e eu ainda era criticada!

— Espero que você saiba que eu apenas não pulei no seu pescoço agora, por estar carregando estes arquivos. — eu lhe disse.

— Vocês vão almoçar naquele restaurante vegetariano, que há atrás do nosso prédio, por que ele não come carnes. Por sorte, ele tinha uma seção de fotos de casamento por aqui perto, hoje. Ele é tão simpático...

— Não posso acreditar nisso. — resmunguei, de repente, sentindo dor de cabeça.

— Pois é, achei que essa modinha de vegetarianismo já tivesse acabado! — ela diz.

O que eu queria que tivesse sido acabada, era a raça dela.

— A propósito, Karin, antes que eu me esqueça, quanto vocês pretendem me emprestar para pagar o cara por essa lorota toda?

— Bom, eu já combinei tudo com o Naruto e...

— Sério? Ele concordou?

— Não, mas não se preocupe com isso! Nós vamos juntar pelo menos uns dez mil... Acho que dá para se contentar com isso, não dá? — ela indaga, mordendo a unha.

— Ele tem cara de ambicioso... Aposto que vai querer mais.

— Bom, aí você promete mais um ano de sexo, comida e cueca lavada.

— Você é tão engraçada, Karin, que QUASE me faz sorrir...

No meu horário de intervalo para o almoço, eu retocava meu batom, me olhando num espelhinho de bolso enquanto esperava o elevador, quando o Itachi-tudo-de-bom-e-gostoso pousa sua mão sobre o meu ombro.

— Indo almoçar? — ele pergunta.

— Aparentemente, com o meu noivo! — resmunguei entre os dentes.

— Oh, que bom. Vai tentar falar com ele sobre o adiantamento da data de casamento?

— Se eu não me engasgar com alguma ervilha...

— Haha... Está nervosa? Eu sei que esses são assuntos delicados mesmo. Mas se ele te ama, e tenho certeza de que sim, não fará nenhuma objeção. Afinal, deve ser do interesse dele em fazê-la ficar, não é mesmo?

— É, tenho certeza de que ele me quer bem do ladinho dele. — revirei os olhos.

Aí, o elevador abriu as portas e entramos. Ele apertou o botão para o térreo, e fomos descendo.

— Eu gostaria de conhecê-lo... — ele murmurou, de repente. Olhei de canto para ele, estranhando aquilo — Sabe, só por curiosidade, quem foi o sortudo que tirou a sorte grande na loteria. — e piscou o olho para mim.

Sorri nervosa, tentando imaginar o que ele diria se soubesse que o cara era o irmão dele.

Na verdade, eu não fazia a menor idéia de como era a relação entre eles. Mas algo me dizia que eu também não deveria querer saber. Se meter em briga de família nunca era uma boa ideia. Se meter na família dos outros, menos ainda.

— Então, Itachi, você tem família? Quero dizer, é claro que sim, mas você mora com os pais? — perguntei, como quem não quer nada. Na verdade, eu sabia que ele não era casado e que menos ainda tinha uma namorada, e fora o fato de que ele adorava ajudar mulheres a pular a cerca, de resto, eu não sabia mais nada sobre ele.

— Não, eu moro sozinho... — ele responde. Em seguida, se aproxima de mim, me lasca um baita beijo limpa-fossa, e ainda aperta a minha bunda.

— A gente ainda precisa transar no elevador...Sempre tive essa fantasia. — ele murmura ao pé do meu ouvido.

Aí, a porta se abriu, ele sorriu para mim outra vez, e foi andando na minha frente até sumir.

Suspirei resignada, pasma e completamente abobalhada. Deus do céu, aquele homem era o verdadeiro caminho para a perdição.

Mas tudo o que me restava era seguir em frente com aquele plano idiota, por que a cada dia que se passava, eu queria o Itachi ainda mais.

Bom, o tal restaurante vegetariano era buffet, e estava lotado de gente andando de um lado para o outro com seus pratos nas mãos, mas consegui um lugar para sentar aos fundos, por que o idiota ainda não havia chegado. Esperei o maldito por cinco minutos, e nada. Um dos atendentes se aproximou com uma comanda, me perguntando se eu aceitaria uma bebida, e pedi uma água mineral. Mais cinco minutos se passou, o cara trouxe minha água, mas nem sombra do Sasuke. Quinze minutos se passaram, constei em meu relógio de pulso. Vinte minutos. Meia hora se passou, e, vendo que meu horário de intervalo estava indos pelo ralo, me servi e comi sem ele. E, olha, eu ainda me dei ao trabalho de mastigar tudo muito bem de vagar, na esperança de que o cretino ainda pudesse chegar a qualquer instante... Quarenta minutos. Cinquenta minutos. Uma hora se passou, eu arrotei satisfeita com meu prato vazio, e o cretino ainda não havia aparecido. Foi quando me dei conta de que ele não apareceria.

Fula da vida por ter levado um “cano”, me levantei, juntei minha bolsa, e fui marchando de volta para o escritório. Eu estava com tanta raiva, que poderia explodir aquele prédio todo com apenas a força do pensamento.

Tsc, bem que eu queria!

— E aí, como foi? Tudo certo? — Karin mal me deixou sentar em minha cadeira, e já veio para cima de mim, sedenta por fofoca.

— O que deu certo? — Naruto indagou de sua mesa, espiando nós duas.

— GRRRRRR! — rosnei de raiva — Na verdade, sabia que o filho da puta me deixou plantada lá, e não apareceu? Ele teve a audácia de me fazer esperar! Dá pra acreditar numa coisa dessas? E ainda fui obrigada a comer rúcula na salada! Pra mim, isso é o fim da picada! — eu respondi, revoltadíssima com aquilo.

— Que filho da puta? — o loiro insistiu, confuso.

— Ué, que estranho. — a ruiva disse — Ele me garantiu que estaria lá. Tem certeza de que você foi ao restaurante certo?

— Que restaurante? — Naruto resmungou.

— Eu me nego a responder a essa difamação, Karin. — respondi entre os dentes.

— É que não faz sentido. — e então, como se sentisse confusa sobre um dos grandes mistérios da humanidade, ela deu a volta para sentar-se em sua mesa, e me deixar em paz.

— Sakuraaaa, me dá o número do seu celular para eu te ligar!

— Já é mais do que suficiente olhar para a sua cara aqui, Naruto.

— Mas não para mim.

O ignorei, voltando minha atenção para o meu trabalho. O Itachi havia deixado mais uma pilha de documentos para eu digitalizar. Mas não importava quantos papéis eu tivesse ali, minha concentração estava em outro lugar.

Eu não sabia se ficava com raiva pelo cretino não ter aparecido, ou aliviada por não ter que fazer papelão na frente dele fazendo aquele pedido absurdo. Mas eu também poderia ficar triste por ter que me conformar que deveria partir para o meu país. Se ao menos as coisas não fossem tão complicadas assim...

Não sei quanto tempo se passou, enquanto eu digitava sem parar no meu computador, até ouvir algo vibrar. Olhei para o lado, mexi na minha bolsa, e constei que era o meu celular.

— Que número é esse? — murmurei, sem conseguir identificar aqueles números estranhos que apareciam na tela.

Rapidinho, a Karin se levantou de sua mesa, se inclinou sobre a divisória que nos separava, e o tomou das minhas mãos. Olhou o numero que aparecia na minha tela, e sorriu, me devolvendo o aparelho.

— É o Sasuke! — ela disse — Eu dei o seu número a ele.

— Mas o quê? Como é que é, minha filha? — Naruto esbravejou, furioso, e até se levantou de sua cadeira para nos confrontar — Que história é essa? Mas era só o que me faltava! Aquele infeliz tem o seu numero e eu não?!

Revirei os olhos e atendi a chamada, saindo da minha mesa porque eu não queria que aqueles dois urubus ficassem me ouvindo ao telefone, embora eu soubesse que eles estariam me espiando onde quer que eu fosse.

— É bom que você tenha uma boa explicação para ter me deixado plantada naquele lugar fedorento, seu cretino, filho da mãe! — resmunguei.

— Hehehe... Estou começando a achar que isso faz parte do seu charme, hein. Olha, me desculpe, eu realmente não consegui sair antes da seção de fotos do casamento, em que eu estava trabalhando. O negócio durou mais do que eu havia planejado. Mas eu estou pronto para me redimir, se você estiver... — ele disse.

— Estou ouvindo...

— Um jantar. Hoje à noite, às 20 horas, onde você quiser. Por minha conta.

— Qualquer lugar que eu escolher?

— Qualquer lugar que você escolher.

Sorri diabolicamente.

— Uma churrascaria! A melhor da cidade! Aquela, localizada no centro. — sim, eu sabia que estava forçando a barra, mas, fazer o quê, se eu não me importava?

Ele ficou mudo por alguns segundos, e comecei a desconfiar de que não tivesse me ouvido.

— Está aí? — indaguei, por via das dúvidas.

A sua amiga mencionou que eu sou vegetariano? — ele acabou perguntando, como quem não quer nada.

— Uhum, disse sim.

— E você vai escolher uma churrascaria?

— Vou sim.

— Você sabe que churrascarias são aqueles lugares abomináveis em que servem carnes de animais mortos, não sabe?

— Sei, sim.

— Hummmmm. Para eu pagar? — ele parecia estar com dificuldades para fazer a equação.

— É isso aí.

— Pagar a conta toda?

— Foi você quem disse.

— Certo, certo... E você vai escolher jantarmos num lugar onde só tem comida que eu não como, para eu pagar para somente você comer?

— Que bom que você entendeu.

— Corrija-me se eu estiver errado, mas a melhor churrascaria da cidade é também a mais cara, né?

Né.

— Hehehe. Você não é mole mesmo, hein, garota. Ok, ok... Eu aceito o castigo.

— Ótimo.

— Até mais tarde... — resmungou, e achei o seu tom um tanto mal humorado.

— Espere aí! — interferi— Nem pense em me deixar plantada lá, outra vez, me ouviu?!

Não se preocupe, Sargento Mesquinha, sua filha da puta! —agora, sim, senti o tom de fúria na voz dele, mas sorri satisfeita mesmo assim.

Ele desligou antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, mas não me importei porque não havia mais nada a ser dito. Apenas a ser apreciado.

Assim, voltei para minha mesa com um sorriso de ponta a ponta, que não foi muito bem compreendido pelo meu chefe que passava por nós, carregando uma pasta com documentos nos braços. Como quem não quisesse mais nada, ele se aproximou da minha mesa, se pôs de costas para o Naruto, e se inclinou discretamente sobre mim.

— Tudo bem aí? — ele indaga, meio curioso. Pousando sua mão em meu ombro. Só então me dei conta do quanto ele gostava de me tocar. E sorri. Mas então, desconfiei que ele fizesse isso com todas as mulheres com que ele transou. E fiquei séria novamente.

— Tuuuuudo ótimo. — resmunguei entre os dentes.

— Hum. Não é o que parece... Como foi o almoço com seu noivo?

Nesse instante, Naruto, o idiota do Naruto, soltou uma risadinha sarcástica fazendo com que o Itachi o olhasse desconfiado. Imediatamente, o loiro desviou o olhar para o outro lado, e meu chefe me olhou novamente.

— Na verdade, não foi nada bom. Ele teve a petulância de me deixar lá, sozinha, esperando por ele. Odeio quando homens fazem isso.

— Tsc! Quantos anos ele tem? Não sabe que a regra número um é nunca deixar mulheres esperando? — Itachi disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. E, olha, eu concordava com em número, grau e gênero! Aquele Sasuke deveria aprender com o irmão!

— Ah, nós homens temos esperá-las por duas horas para se arrumarem, mas elas não podem nos esperar?! — Naruto resmungou, sarcasticamente.

— Algum problema, Naruto? — Itachi o encarou com um olhar sério, e eu achei muito bem feito por ser tão medito.

— Não, senhor.

— Enfim — eu resmunguei — Ele vai me levar para jantar hoje, e vou lhe dar o troco. Ele é vegetariano, mas exigi que me levasse a uma churrascaria!

— Hahaha, boa! É isso mesmo, são as mulheres que tem que mandar! É sério! Eu acredito que mulheres são deusas, sabe?! São criaturas iluminadas. São frágeis, são delicadas, são sensíveis, mas ao mesmo tempo são tão energéticas, possuem tanta resistência e força, e são capazes de fazer as mesmas coisas que os homens, e ainda dão à luz! Homem jamais poderá dar a luz!

— Elas não mijam de pé! — Naruto murmurou, embora que bem baixinho, foi o suficiente para o chefe ouvi-lo, e fuzilá-lo com seu olhar. E se fazendo de sonso, o loiro desviou o olhar, assoviando, mexendo em algumas folhas em sua mesa.

E então o cabeludo mais gostoso do planeta nos deu as costas, voltando para a sua sala. Não levou nem três segundos, para a Karin se levantar para cochichar entre nós.

— Eu hein, o Itachi fumou orégano com o quê? Chantili? Que merda foi essa que eu ouvi?!

— E não é?! Tsc. E dizer que mulheres são capazes de fazer as mesmas coisas que os homens? Elas não mijam de péééééé! — o loiro insistiu — Elas não conseguem mirar como nós miramos!

— Eu não sei, mas eu gostei... — comentei — É um bom ponto de vista, não acham? É poético.

— É chapado, isso sim! — a ruiva disse, revirando os olhos.

Não importa o que dissessem. Pelo menos, o Itachi parecia ser o tipo de homem que sabia valorizar a mulher... Ao seu estranho modo de pegar apenas mulheres comprometidas, isto é. Talvez isso fizesse parte de alguma outra crença maluca dele. Talvez ele apenas gostasse de viver perigosamente. Ou talvez ele fosse apenas mais um idiota que gostava de cobiçar o que os outros tinham...

Não voltei para casa, para trocar de roupa. Resolvi fazer hora extra ali, até o horário em que deveria sair com o Sasuke.

A churrascaria tinha um buffet de saladas (droga!) e rodízio de carnes. O ambiente era ultra sofisticado, com talheres de prata e pratos de porcelana, e eles ainda ofereciam musica ao vivo aos fregueses. Era também a mais cara da cidade, por ser a melhor — obviamente. E qualquer que seja o dia escolhido para visitá-la, com certeza ela estaria sempre lotada de bons fregueses — aquela pequena massa da sociedade que anda de nariz empinado por serem os mais bem sucedidos, os mais privilegiados, os mais bonitos, os mais bem vestidos, com os melhores empregos, com todas as comodidades, por serem os mais felizes. Enfim, aquela parte da população na qual eu não me enquadrava.

Uma vez me disseram que eu era uma invejosa. Não sei por que hoje em dia não se pode mais criticar ninguém, de forma genuína, com sinceridade, sem ser taxado de invejoso. Como se qualquer critica feita ao mundo eram feitas por pura leviandade, apenas para gastar saliva, como se as pessoas não pudessem realmente, no fundo do seu ser, não gostar de alguma coisa. Como se todo mundo fosse obrigado a aceitar tudo, a gostar de tudo. Então, eu mandei aquela pessoa tomar lá naquele buraquinho negro de suas costas, por estar subestimando minha capacidade de raciocínio.

Ora, qual o problema de não gostar de pessoas felizes? Por acaso eu era obrigada a ser feliz também, para fazer parte da sociedade? Por que as pessoas não aceitam que uma pessoa pode ser infeliz?

Odeio gente feliz.

Como aquele cara que vinha na minha direção, vestido num terno e gravata, com uma discreta sacola nas mãos, e todo sorridente senta-se à mesa em que eu estava.

— Por que algumas pessoas têm tanta obsessão com as horas? — ele resmungou, sentando na cadeira a minha frente.

— Por que tem gente que não gosta de esperar. Assim como eu. — ele estava três minutos atrasado.

E revirou os olhos.

— Que diferença faz? Você já nasceu numa fila de espera na maternidade. Depois foi para outra fila de prioridades dos seus pais. E entrou em outra fila quando, sei lá, foi fazer a primeira consulta num médico. Não se esqueça da fila para fazer a carteira de identidade, passaporte, visto, fila para ir ao caixa do banco, fila para pagar contas, fila para sacar dinheiro, fila para vaga de emprego, fila em estacionamento, fila em caixa de supermercado, fila para cagar no shopping... A vida é uma maldita e eterna fila!

— Talvez por isso mesmo eu não goste de esperar, ok?! — enquanto eu falava, ele tirava daquela sacola que havia trazido umas quatro vasilhas de plástico, e as colocava cuidadosamente sobre a mesa — A vida já é curta o suficiente para perdermos tempo esperando os outros... O que está fazendo? — me interrompi, sem querer acreditar no que ele pudesse estar fazendo. Quero dizer, não podia ser verdade uma coisa daquelas!

— Bom, mas a vida é assim, aprenda a lidar com isso. — e ele ainda tirou um frasco com um liquido meio esverdeado.

— Mas que merda é essa? — indaguei — O que está fazendo?

— Isto, minha cara? — ele aponta para suas coisas — É o meu jantar!

E então, ele desembrulhou os talheres que já estavam postos sobre todas as mesas, e foi tirando saldas e mais saladas dos vasilhames que havia trazido, colocando-as sobre seu prato. Em seguida, despejou aquele molho esverdeado sobre aquele monte de mato. Desenrolou um guardanapo de pano e o prendeu na gola de sua camisa, como toda gente jeca faz, deu um sorrisinho de merda para mim, e se atracou na comida.

Eu fiquei de boca aberta, olhando aquele sujeito sem noção, descaradamente, fazer aquilo. Quem diabos vai num restaurante e leva a própria comida? Eu queria me desmanchar ali, e escorrer para debaixo da mesa.

— Você está fodendo com a minha cara? — resmunguei entre os dentes, vendo que algumas pessoas já haviam notado o idiota e cochichavam entre si a respeito, obviamente, daquela cena ridícula que ele fazia — Guarde isso! Churrascarias também têm saladas, sabia?

— U-hum! Nada disso! — ele disse de boca cheia — As saladas dessas porcarias são horríveis! Parece que sempre vêem embutido com gosto de carne. Prefiro a minha salada!

— Não, você não está fazendo isso! Não está fazendo isso, não está fazendo isso, não está fazendo isso! — desviei o olhar, tentando sorrir para o garçom que se aproximava com um belo espeto de carne para nos oferecer.

Sasuke fez sinal da cruz para o cara passar bem longe dele, mas eu o acolhi ao meu lado. O rapaz apoiou o espeto em meu prato, enquanto fatiava o pedaço que eu lhe pedi. Enquanto a carne caia no prato, Sasuke mastigava seu capim de boca aberta, fazendo barulho, olhando para os lados, chamando a atenção do garçom.

— Pobre animal... — Sasuke ainda resmungou.

— Faça-me o favor! Ele já estava morto! Se eu não o comesse, outra pessoa o comeria. — respondi revirando os olhos.

— Eu me referia a você.

Mostrei-lhe meu dedo do meio, e ele sorriu cheio de sarcasmo.

— Mas olhe só para você, comendo um animal. Isso me dá náuseas! Aliás, toda essa gente, parece um bando de canibais! — ele diz, apontando dentro para todos os lados, sem um pingo de elegância e discrição.

— Queridinho, canibais são animais que comem animais da mesma ES-PÉ-CI-E. — eu lhe disse, tentando me esconder por trás do meu copo de suco, envergonhada e irritada ao mesmo tempo.

— Eu sei muito bem o que canibais são... Você quer dizer o quê, com isso? Para mim, vocês são todos da mesma espécie, sem inteligência alguma mesmo!

— Aham... Talvez eu devesse cortar a sua língua, ao invés de fatiar esse pobre pedaço de carne já morto. — resmunguei.

— A propósito, me lembre por que eu estou aqui mesmo?! — ele indagou, mastigando mais mato.

— Por que você me deu o cano no restaurante!

— E por que fui chamado ao restaurante, sua fofuxa?! Achei que você tivesse algo interessante a me falar...

Ele estava me provocando, e tudo aquilo era parte do seu show para me tirar do sério. Mas se eu estava mesmo determinada a levar aquela idéia adiante, eu precisava engolir o meu orgulho. Então, me acomodei melhor na cadeira, passei a mão nos cabelos, suspirei, e sorri.

— Você tem razão, me desculpe. — eu disse, por fim, num belo tom concedente.

— Hum. — ele estreitou os olhos, como se desconfiasse de algo.

— Eu lhe chamei por que queria me desculpar pelo meu comportamento. Admito que talvez eu tivesse sido um pouco indelicada para com sua pessoa. — lhe disse.

— E grossa. — ele fez questão de complementar.

— Ok, indelicada e grossa. — repeti, meio a contragosto.

— Eu diria que rude, também.

— Indelicada, grossa e rude. — resmunguei entre os dentes, louca para pular no pescoço dele e arrancar aquela veia artéria.

— E mal educada. Definitivamente você foi mal educada também.

— Aham.

— Eu diria que foi um pouco estúpida também.

— É.

— Sem falar que foi muito ingrata.

— Certo.

— Completamente insensível e arrogante.

— Hum.

— Você foi bem desagradável, né?

— Né.

— Cara, você foi muito mesquinha e egocêntrica!

— Terminou?

— Na verdade, você foi uma vaca! Mas o que eu queria dizer mesmo é que você foi insuportável. — ele diz, assim, bem sério — Insuportáaaaaaaavel. — repetiu.

Terminou? — comecei a fuzilar ele, já preparada para atirar aquela faca nas minhas mãos mirando o peito dele, para a próxima bobagem que ele dissesse.

— Aham. Ual! — e ele sorri, com um pedaço de alface preso nos dentes — A gente devia fazer esse tipo de coisa mais vezes, hein?! Me sinto muito mais leve!

— Que bom pra você, fofuxo.

E ele sorriu novamente.

E eu não iria dizer que ele estava com aquela coisa verde ali no meio da boca.

— Mas agora falando sério. — ele diz, voltando sua atenção para o seu prato — Mostre logo as suas cartas escondidas nas mangas...

— Hum? Como assim? — indaguei surpresa.

— Vamos cortar o papo furado, ok? Diga de uma vez por que você realmente queria falar comigo? Não acha que eu nasci ontem, acha? Vamos abrir logo o jogo, por que eu já estou bem acostumado com gente estranha me fazendo convites surpresas, para me apunhalar nas costas... E, sinceramente, eu não aprecio nem um pouco esse tipo de coisa, ok? Eu suporto qualquer coisa, menos mentiras! Então pare de me enrolar, e vamos direto ao assunto.

Nossa. Eu não esperava ver aquela outra face dele, tão séria, e ao mesmo tempo tão... Sei lá. irritada, talvez. Quero dizer, eu já o tinha visto irritado, mas daquela vez foi diferente. Ele estava realmente irritado, bravo, como se agora o problema fosse pra valer. Foi tão estranho e inesperado, que me pegou de jeito, desprevenida. Fiquei sem saber o que dizer. Quero dizer, eu sabia tudo o que tinha para falar, mas de repente aquilo tudo começou a soar como um monte de merda amontoada diante dessa situação. E praguejei pela minha falta de jeito para lidar com isso.

Notas finais
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