Notas iniciais
Então. Eu já havia postado esse fiction aqui, mas uma época eu deletei e tudo. Então estou repostando. Just so you know.

Contradição

A dor, a angústia, a decepção.

L falhara. Falhara em derrotar Kira, falhara em destruir o Death Note, falhara em salvar o mundo das garras do “novo Deus”. Mas acima de tudo, falhara em cumprir a promessa que fizera a si mesmo. A promessa de não seguir seu coração.

E por conta destas falhas, ele estava ali, as mãos apoiadas nos ombros de Yagami Raito, deixando todo seu peso no local, com um punhal cravado violentamente em seu estômago. Ele sentia cada gota de seu sangue escorrer, o deixando cada vez mais fraco, necessitando de cuidados. Sentia ódio de Raito, obviamente, mas sentia mais ódio de si mesmo por ter se permitido acreditar que tudo ia ficar bem. Por acreditar que Kira não estava próximo de si. Não tão próximo quanto Raito estava.

Ele queria que ficasse tudo bem. Mas não estava nada bem, e era por isso que estava ali, morrendo aos poucos, sentindo cada partícula de seu ser deixando de existir, lenta e dolorosamente.

Ingênuo. Malditamente ingênuo.

O coração partido em mil pedaços, o nó preso na garganta. L cerrou os olhos e tentou respirar fundo, mas a dor física não lhe permitiu. Sua pele ia sendo tomada por uma palidez crescente, e suas olheiras, que um dia chegaram a completar seu visual charmoso, agora estavam mais fundas, mais escuras, mais dispensáveis do que nunca. As veias do pescoço tornando-se visíveis por conta da vontade de falar. Entretanto, nenhuma palavra do mundo poderia transmitir o que estava sentindo naquele momento. Os fatos apenas lhe ocorriam no pensamento, todos de uma vez só, em um amontoado que L não conseguia distinguir corretamente.

Raito era Kira. Ele estava certo desde o princípio.

Como pôde não ter enxergado? Estava tudo ali na sua frente. Kira esteve ao seu lado o tempo inteiro. Contudo, L despendera de tanto tempo tentando encontrá-lo, que não percebera.

Ou talvez não quisesse enxergar. Talvez o amor que sentia pelo de cabelos castanhos, vendara seus olhos.

Talvez fosse tudo um pesadelo.

L abriu os olhos. Era real. Ele estava de fato morrendo. Entreabriu os lábios e ofegou, cansado. Sua expressão era indecifrável, assim como fora na maior parte de sua vida. Estava atônito, mas ao mesmo tempo assustado. Tão assustado quanto uma criancinha medrosa que acabara de ser largada sozinha no escuro. Ainda assim, L tentava manter-se calmo. Não podia se desesperar. Ah, não. Não daria esse gostinho ao rapaz que ainda segurava o cabo do punhal que lhe perfurara.

Yagami Raito, por outro lado, estava confuso. Era algo que podia ser facilmente ser lido em sua expressão facial. Ainda não havia digerido o que ele próprio havia feito. Não sabia o porquê de ter feito. Se sentia simplesmente repugnante.

Amava L. Amava L mais do que podia suportar, mas a sede de poder fora maior. A voz e os instintos assassinos de Kira, dono de um exército, falaram mais alto do que seus sentimentos reprimidos, que lutavam para se libertar. Mas pra quê agora, não é verdade? Seria inútil. Não sabia se estava arrependido ou vitorioso.Um pouco de ambos, bem verdade. Aquele momento parecia não ter fim, e doía-lhe a alma ver L sofrendo.

- Ry-Ryuuzaki. – chamou com a voz falha, mas ainda assim, firme. Arregalou os olhos ao ver os de L semicerrarem. O último sendo domado pela fraqueza, deixou que um pouco mais de seu peso caísse sobre os ombros de Kira – Agüente firme. – pediu, e sem aviso prévio, Raito simplesmente puxou o punhal da forma mais rápida e ágil que pôde.

Um grito soou pelo galpão grande e abafado, ecoando lentamente por todo o local. Um grito de socorro. Um grito desesperado. E não tardou para que outro grito fosse ouvido, se misturando ao primeiro. Raito clamava por ajuda, ainda que soubesse que não adiantaria. Não havia ninguém por perto. Nem mesmo o sempre tão fiel seguidor e companheiro de L, Watari.

L levou a mão ao ferimento – que a essa altura já era gravíssimo -, e tentou não se focar na dor, apenas se sentiu impelido a aproximar seu rosto do de Raito e colar seus lábios.

Um último desejo.

Um último beijo.

Raito arregalou os olhos levemente, assustado com a reação do outro, mas logo os fechou, desejando que aquele momento congelasse. Só assim seria eterno. Só assim teria L para sempre.

Sentiu os lábios macios de L encostarem-se aos seus, e em seguida, a mão fria – e suja de sangue – do mesmo pousar em seu rosto. Os poucos segundos que o beijo durou, foram os segundos que Yagami sentiu como se estivesse no paraíso, tocando os lábios de um deus, ponderando como pudera fazer aquilo. Como poderia viver sem aquele beijo? Como? Parecia impossível.

- Kira... – a voz saíra rouca e baixa da garganta do detetive. Até falar doía. L não parecia ter mais forças. Ele cravou as unhas levemente nos ombros de Raito, como se não quisesse partir. Uma gota brilhou, rolando por sua bochecha e fazendo seu trajeto lentamente até a mão de Raito, que tremia, mas ainda segurava o punhal firmemente. A lâmina brilhante, agora estava coberta do vermelho forte do sangue.

É tudo tão irônico, que a última palavra que L pronunciara, soara como um pedido de ajuda desesperado ao seu maior inimigo. E então ele fechou os olhos, e a força de Raito não foi o suficiente para impedir que caísse no chão. As costas de L colidiram fortemente contra a cerâmica escura e fria, mas não era de grande importância. O corpo já estava sem vida.

L estava morto.

O que isso significava? Kira vencera? Aquilo significava o começo de uma nova era? De um mundo totalmente livre de criminosos, comandado pelo “Deus do novo mundo”? Talvez.

Raito permaneceu imóvel. O corpo completamente inerte, a respiração presa e os olhos arregalados, presos ao corpo do amado. Era como se o mundo tivesse parado naquele momento. Entretanto, após alguns minutos, não pôde evitar uma risada diabólica, embora baixa. Era como se tivesse dupla personalidade, como seu corpo jovem fosse dominado por duas pessoas diferentes. Observou o garoto pálido de cabelos negros e olhos grandes caído no chão, dormindo eternamente. A camisa branca que sempre usara, agora estava manchada de vermelho. E Raito achou mais bonito assim.

Contradição, a palavra que define a história de ambos.

Raito e Lawliet.

Kira e L.

Yagami e Ryuuzaki.

Água e óleo.

Unha e carne.

Amor e ódio.

Travou-se uma batalha de sentimentos dentro do rapaz que observava a pessoa mais inteligente que já conhecera, estirada no chão, sem vida. Era tudo tão confuso. Sempre fora assim. E continuaria sendo... Se ele não tivesse acabado com tudo naquele momento.

Finalmente, ele soltou o punhal, ouvindo atentamente o barulho agudo que o metal fez ao chegar no chão. Um sorriso amargo desenhou-se em seus belos lábios. Ele começou a andar para fora dali.

Um pouco mais atrás, o shinigami que observava tudo comendo uma maçã, apressou-se para alcançar o rapaz esguio.

- Hey, Raito. – a voz monstruosa e rouca invadiu os ouvidos de Yagami. — O que pretende fazer agora? – Ryuuku perguntou empolgado. Mordeu o último pedaço de sua tão doce e adorada maçã, e se pôs a voar atrás do mestre.

Raito estreitou os olhos e cerrou as mãos em punho, ainda com um sorrisinho sarcástico despontado nos lábios. – Dominar o mundo, Ryuuku. – respondeu indiferente, seguido de um suspiro.

O Shinigami soltou a risadinha costumeira e jogou o talo da maçã terminada para trás, limpando a boca com a manga da roupa. – Humanos são tão... Interessantes.

-

“L-kun, I love you. Forgive me for I was blinded by my own evil angelic disaster. I am your immortal. Love me in heaven when I’m not there.”

“Raito-kun, I love you too. Even though you deceived my heart and tore my trust into shreds. I will miss you in heaven.”

FIM

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