Contradições
15 Lua de mel
Notas iniciais
Contradições
by Amanur
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Capítulo 15
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Eu estava com um desejo mortal, enlouquecedor. Queria me descabelar e sair correndo e urrando aos quatro ventos por causa desse desejo. Pois, veja bem a fatalidade da coisa: eu desejava perdida e apaixonadamente por um enorme sanduiche de atum cheio de azeitonas verdes, e de sobremesa teria uma enorme tigela de sorvete de baunilha com cobertura de chocolate e granulados. Desejava tanto abocanhar alguma comida, por causa do nervosismo, quanto arrancar a cabeça da Karin e entalhá-la na parede da minha sala como troféu por ter deixado um envelope contendo dez mil pratas em cima de uma escrivaninha, dando sopa, quase como se ela quisesse que aquilo acontecesse. Aliás, eu bem que poderia fazer uma bela sopa com as tripas e coração dela, para alimentar cães de rua!
E meu desejo era tão forte, que naquela noite sonhei com atuns latindo, tigela com uma bola de sorvete em formato da cabeça da Karin, com cobertura de azeitonas, e sanduiches de cachorro.
É claro que eu não estava frustrada apenas por causa dela. Que a culpa por todos os males que me ocorreram nesses últimos dias também fosse dividida com o Naruto, é claro. E ignoremos o fato de eu ter aceitado alguma coisa, como se tivesse o poder de ter evitado tudo aquilo, por que fui malignamente manipulada a dizer sim para toda aquela loucura.
E também não sejamos simplistas. Afinal de contas, não havia apenas a frustração de um plano mal sucedido. Havia a vergonha, o constrangimento de ter beijado o Sasuke também! Beijado o Sasuke quando ele sequer havia lavado aquela boca suja de vômito, como se ele fosse o ultimo homem da face da terra, em que mulher alguma deveria negar aquele beijo mesmo que estivesse todo lambuzado de lama, ou rolado em merda de cavalo, por que ele estava em extinção.
Eu não podia estar tão necessitada assim. Eu não podia estar com a minha autoestima lá embaixo, se arrastando como uma lesma (gosmenta e lentamente). Por que não beijei ele para satisfazer alguma necessidade (e acho que repetirei isso até o dia em que eu morra).
Mas seja lá onde ela estivesse, acordei no meio da noite com rios de suor escorrendo pelas têmporas, arfando, com o coração na boca, e lágrimas escorrendo pelo rosto, por que eu chorava no sonho com medo dos atum-cães. Tive que me levantar meio trôpega, zonza e me sentindo enjoada (mais do que eu já era sem bebida alguma, isto é), para ir até a cozinha pegar um copo de água fresca, por que a minha língua chegava a colar no céu da boca, tão seca estava.
Com um copo em mãos, andando nas pontas dos dedos para não acordar o marmanjo no sofá, com todo cuidado do mundo, abri a porta da geladeira e me servi. Bebi ali mesmo, com a porta aberta, e com a mesma voracidade que teria se estivesse no meio do deserto há quatro semanas sem uma gota de água na garganta.
Deixei o copo dentro da geladeira, fechei a porta, me virei de volta para retornar ao meu quarto, mas dou de cara com um monstro alto, de cara amassada, descabelado e cheio de remelas nos olhos, só de cueca samba-canção.
— Puta merda! O que está fazendo acordado? — resmunguei, tentando engolir de volta o coração.
— Você me acordou... — disse, após um bocejo, me fazendo bocejar em seguida também.
— Ah... Desculpa.
De repente, ele arregalou os olhos, me deixando alarmada.
— O que disse? — indagou.
— Nada ué! — dei um passo para trás, me colocando na defensiva, afinal, não fazia ideia do que aquele monstro descabelado poderia estar pensando.
— Disse, sim! Você disse uma coisa! — argumentou, como se tivesse prestes a descobrir a roda, mas só faltava uma pecinha para o negocio girar.
— Eu, hein, sai pra lá! Só pedi desculpas, ora. Por te acordar!
— Isso! Foi isso o que você disse! Você pediu desculpas! E aposto que foi a primeira vez na sua vida que você disse essa palavra, não foi? Eu deveria ter gravado isso! Deve ser o meu dia de sorte mesmo; primeiro me caso, e agora ouço isso...
Revirei os olhos. Até por que ele estava sendo sarcástico ao dizer que estava com sorte por ter se casado comigo!
— Volte a dormir... — eu disse, me encaminhando para o meu quarto.
— Não sei se vou conseguir... Agora perdi o sono — ele disse, abrindo a geladeira — Você tem alguma aspirina? Acho que minha cabeça vai explodir.
Apontei para uma gaveta, ao lado da pia.
Bom, pensando bem, depois daquele terrível pesadelo, acho que nem eu iria conseguir voltar a descansar a cabeça em paz no travesseiro.
— Quer ver um filme? — sugeri.
Ele deu de ombros, coçando os olhos como uma criança, depois de engolir a aspirina.
Ele estava ali, um corpo grande e largo, parado no escuro. Não sei se era resultado da penumbra em que o apartamento estava, não sei se era por que eu ainda estava com os olhos meio pesados por conta do sono, ou se ainda estava presa naquele sonho esdruxulo, ou se ainda havia álcool no meu sangue, mas o fato é que de repente fui tomada por uma estranha sensação. Como se uma gigantesca bigorna tivesse caído na minha cabeça, me dei conta pela primeira vez que eu não estava sozinha dentro de casa. Quero dizer, eu sabia que ele estava no meu apartamento, mas o que estranhei foi o fato de não sentir falta do silêncio, ou da solidão que, ok, confesso, mas negava em admitir. Pelo contrário, havia uma estranha sensação de preenchimento.
Talvez eu ainda estivesse bêbada e delirando.
Enfim, como eu não tinha um aparelho de televisão, tivemos que improvisar com meu notebook na sala. Eu havia baixado vários filmes que desejava ver antes de morrer, e fomos para o sofá.
— Que tal “Querida, encolhi as crianças”? — perguntei, enquanto ele ia até o microondas fazer pipocas.
— Cê tá brincando? “Duro de Matar”!
— Não tenho. “Procurando Nemo”?
— Você tem “Rambo”?
— Náh... “Rei Leão”?
— E “O Exterminador do Futuro”?
— “Toy Story”!
— “Karatê Kid”?
— “Encantada”!
— “Velozes e Furiosos”?
— “Lilo & Stitch”!
— “Aliens”?
— Ah, já sei, já sei! Desse você vai gostar! “101 Dalmatas”! Hum?
De repente, ele coloca a cabeça para fora da cozinha, me olhando com a aquela cara de bunda e cabelos desgrenhados.
— Por que estou com a forte sensação de que você só tem filmes para crianças aí? — indagou.
— São filmes de animações, com muita moral e ética para ensinar. — retruquei.
— Ensinar as crianças...
— Você vai querer ver, ou não?
Ele suspirou, dando de ombros. Trouxe uma vasilha com a pipoca de microondas, enquanto eu sincronizava a legenda do filme.
Ele se aboletou ao meu lado, bem à vontade, esticando as pernas peludas (na verdade, ele tinha poucos pelos nas coxas, em comparação com o seu irmão) sobre a cadeira estofada que eu tinha na sala, por que eu, na verdade, havia deitado onde ele dormia sem me dar conta.
Ao mesmo tempo em que fiquei com aquela urgência em sair dalí, eu pensava: “que se dane! O apartamento é meu, este sofá quente, que agora está infectada pelo o seu cheiro, também é meu!” Eu não tinha por que estar me sentindo inquieta só por estar no “lugar” dele (que nem era dele!). Mas aquela proximidade entre nós também era um tanto desconfortável. Estranha. Bem esquisita, para dizer a verdade.
Peguei um punhado de pipocas da tigela, enquanto começava o filme, tentando me concentrar nas imagens para não pensar em mais nada. Mas quanto mais eu olhava para a tela, mais eu tinha consciência de que ele estava ali, ao meu lado, com o braço encostando no meu.
— Você está fazendo barulho demais para comer essa pipoca! — resmunguei.
Ele me olhou de canto, com cara de tédio. Aí, só de pirraça, feito uma criança contrariada, ele encheu a mão de pipocas e enfiou tudo na boca, para mastiga-las de boca aberta, fazendo um monte de farelos cair em cima dele, me fazendo revirar os olhos.
— Às vezes tenho a impressão de que você não apanhou o suficiente quando era pequena. — disse, após conseguir engolir aquele mundaréu de pipocas — Por que você é tão implicante, hein?
— Me chama de implicante, mas quem começou ontem a encher o saco foi você!
— Hein?
Ele parecia não fazer a menor ideia do que eu estava falando.
— Vai me dizer que você não se lembra das coisas que me disse no pátio do salão!?
Aí, ele parou para pensar. Até cruzou os braços para refletir.
— Teve o casamento na igreja, depois fomos de carro até o salão... Teve o brinde da sua amiga; a discussão das nossas mães; o Itachi me puxando; a Hinata se oferecendo; eu enchendo a cara; eu enchendo mais um pouco a cara, enquanto a Hinata falava... E depois eu vomitei no seu banheiro.
Ele errou a ordem dos acontecimentos, mas parecia realmente estar com dificuldades para se lembrar dos fatos.
— Mais alguma coisa? — perguntei.
Ele me olhou, erguendo a sobrancelha.
— Não, por quê? Eu deveria me lembrar de alguma coisa?
E voltei a ficar séria.
— Bom... Você está esquecendo um pequeno detalhe. — disse eu, como quem não quer nada, pegando uma pipoca do vasilhame.
— Qual?
— Não, esquece. Não é nada demais. — me fiz de cu doce.
— Argh! Agora fale, desembucha!
— Bom, você não vai acreditar mesmo, do que adianta dizer?
— Diga logo!
— Acontece que você disse uma coisa.
— Que coisa?
— Tem certeza de que quer saber?
— Tenho certeza de que se você não contar logo, vou enfiar essa vasilha de pipocas na sua garganta!
— Ok, foi você quem pediu. Bom, acontece que você estava alegre demais com o casamento, se sentindo altruísta e generoso e bondoso e caridoso, como você sempre costuma ser... — resolvi jogar sujo, atacando o diabo pelo seu ponto fraco: os elogios.
— Claro, claro...
— E resolveu fazer uma aposta.
— Eu fiz uma aposta?
— Você queria comemorar, como fazia quando era adolescente, recém-ingressado na faculdade, que sempre saia para beber com os amigos, e disse que se conseguisse beber mais do que todos na festa, eu não precisaria te pagar aquela grana, sabe? Aquela, que eu prometi que lhe pagaria pelo nosso acordo?! — eu era um gênio!
Ele ficou me olhando de um jeito, meio sem jeito, sem expressão alguma. E eu não sabia se ele tinha caído ou não na minha armadilha.
— Eu disse isso? — perguntou, por fim.
— Eu disse que você não iria acreditar.
— Mais alguém ouviu essa promessa?
— Bom, se você considerar a Karin e o Naruto como seres humanos... — por que eu ainda podia ligar para eles, e exigir que confirmassem aquilo.
— Hum... E eu ganhei essa aposta em que tinha tudo para perder? — indagou.
— Você estava muito motivado. — dei de ombros.
— Sei, sei...
Ele não disse mais nada. Como se ainda estivesse meio confuso, voltou a prestar atenção no filme. Voltei a olhar para a tela também. E, ás vezes, olhava para ele com o rabo do olho, meio desconfiada. Olhava de volta para a tela, dava um pigarro, me ajeitava no sofá, e olhava novamente para ele.
Eu me sentia estranha. Apesar da oportunidade de me aproveitar da situação, eu estava, de algum modo, decepcionada por ele não se lembrar de mais nada. Talvez, “decepcionada” nem fosse a palavra certa. Mas com certeza, por algum motivo sobrenatural, eu queria que ele se lembrasse. Por que não se lembrar das coisas que dissemos um para o outro, ou mesmo do beijo que nem eu queria lembrar, me fazia me sentir uma insignificante. Não que eu me importasse com isso...
Mas se ele lembrasse...!
E como se não bastasse, o cretino se aproximava a cada segundo que passava para enxergar melhor, com aquele seu corpo, seu calor, seu perfume, aqueles cabelos... Eu me afastava um pouquinho mais para o lado, e lá vinha ele. Quando dei por mim, eu já estava imprensada entre a parede e ele, com a boca cheia de pipocas.
— Vai mais pra lá! Daqui a pouco vou virar tinta! — reclamei.
— Ah, desculpa. — e ele se afastou.
Cinco minutos depois, ele já estava me esmagando outra vez, e lhe dei outro cutucão. Ele se afastou. Dez minutos depois, cá estava ele, mais uma vez. Com o seu corpão, o seu cheiro, o seu calor, o seu cabelo, os seus músculos...
Eu ia reclamar de novo, mas, então, veio uma cena importante do filme. Acabamos escolhendo ver “Monstros S.A.” E a cena em questão foi quando o monstro verde resolve participar de uma competição idiota para mostrar que poderia vencer o monstro azul, enquanto uma sucessão de idiotices acontecia. Acabei me entretendo com a cena, enquanto comia pipoca, e não vi quando o diabo caiu no sono, encostando a cabeça no meu ombro e babando no meu braço.
— Sem sono, é? — resmunguei.
Eu estava muito a fim de joga-lo para o outro lado da sala, mas não fiz nada. Sabe como é, eu não queria perder o filme... Além disso, ele dormia tão pacificamente, de lábios entreabertos e baba escorrendo, que a única coisa que eu conseguia pensar, olhando para o seu rosto sereno, era lembrar que eu estava casada com aquele cara. Até olhei para a minha aliança no dedo, num gesto muito clichê, com suspiro e tudo mais, sabe?! Aquele cara faria parte da minha história, quer eu queira ou não. Estávamos casados, caramba! Seria impossível esquecer meu primeiro casamento, por mais falso e terrível que pudesse ter sido...
E o engraçado é que quando eu era pequena, costumava pensar que casamentos poderiam mudar tudo. Digo, mudar quem somos... Por que a partilha de vivencia, e a troca de experiências poderia abrir os horizontes, como uma janela que se abre pela primeira vez numa cela carcerária.
Mas isso deveria ser apenas um delírio infantil, de alguém que esperava encontrar alguma luz no fim desse grande túnel que é a vida.
E ainda assim, no final das contas, eu acabei dormindo antes de o filme terminar, também.
Acordei no dia seguinte, com um cobertor por cima de mim, e o cheiro de panquecas doces na frigideira, e uma dor de cabeça fenomenal.
Fui me arrastando até a mesa, me sentindo estranha. Estranha de um modo inscritível. Era um estranheza nem boa nem ruim. Apenas estranho.
Puxei uma cadeira, e sentei onde havia uma xicara de café com leite na minha frente. Sasuke estava usando o seu short de corridas, e vestia uma regata preta, enquanto preparava o café da manhã. Mas enquanto eu o observava ali, de costas para mim, ia me lembrando das coisas que ele havia dito para a minha mãe, naquele jantar inesquecível, além da festa de recepção do casamento. E apesar de todo o incomodo que teve, ele ainda estava ali, preparando café da manhã para nós dois...
Eu não queria ser ingrata. Eu não era uma pessoa ingrata. Pelo menos, gostava de pensar que não. Mas, por outro lado, tudo não passava de apenas um favor, como outro qualquer. Como trocar a lâmpada queimada do quarto, ou a resistência do chuveiro. Simples favores. E olha que eu sequer havia lhe pedido tudo aquilo, nem para fazer café da manhã para mim! Para mim, a única coisa pela qual eu realmente me sentia na obrigação de lhe dever alguma gratidão era por ter aceitado fazer parte dessa ideia maluca toda — e que ainda seria pago!
Mas as coisas que ele disse... Da boca para fora, ou não, ainda estavam martelando na minha cabeça.
Com o punho cerrado, bati na minha cabeça. Quem sabe, assim, eu fazia as coisas voltarem a funcionar como deveriam.
— Então, eu estava pensando... — de repente, eu resmungo — Que desculpa poderíamos dar para o divorcio sair logo? — peguei uma panqueca que ele despejou num prato.
Ele parou no meio do caminho, com aquela escumadeira, me olhando com uma interrogação na testa.
— Nos casamos ontem, e você já quer divórcio?
— Mas para quê você iria querer continuar casado? Ou por acaso isso vai virar um passatempo pra você?
— Nãaaao! É só que... — e então, ele resolveu que seria apropriado deixar sua frase inacabada.
Eu fiquei olhando para ele, sem entender o que ele queria dizer, ao mesmo tempo que ele me encarava como se estivesse com dor de barriga.
— Você está com dor de barriga, não está? — como ele continuava parado feito uma estátua, continuei meu discurso — Também não é como se fôssemos nos divorciar hoje! Eu não quero fazer parte da história, com o casamento mais curto da história da humanidade.
— Se essa for sua única preocupação, relaxa, por que já vi gente se divorciando uma hora depois do casamento! — ele resmungou, num tom meio azedo.
— Bom, que seja! Acho que devemos dar um tempo, de, pelo menos, uma ou duas semanas... Até eu conseguir o documento para a minha cidadania. Mas afinal, o que você queria dizer com “é só que...”? — perguntei curiosa. Temi que ele tivesse se lembrado de algo que não deveria.
Mas ele revirou os olhos, suspirou, e praticamente socou o restante das panquecas no prato. Puxou uma cadeira para si, e abocanhou seu café da manhã, enquanto eu ainda esperava pelo restante daquela frase. Mas o cretino secou sua xícara de café, lambeu o prato de panquecas, e saiu batendo a porta resmungando algo sobre sair para se exercitar, me deixando a ver navios.
Bom, para quem mais eu poderia ligar para pedir por uma ideia mirabolante para o bendito divórcio?
— Karin, preciso de outra ideia mirabolante sua. — eu disse, assim que ela atendeu minha chamada.
— Brilhante! Minhas ideias são brilhantes, queridinha. Mas, e aí, como foi a noite de núpcias? O pau dele é ou não é a versão melhorada do irmão mais velho?
— Vimos Monstros S.A., comendo pipoca.
— ... — ela ficou muda por tempo demais, para o meu gosto.
— Cê ainda tá aí? — indaguei.
— MAS QUE PORRA DO CARALHO VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO, SUA RETARDADA MENTAL? COM UM HOMEM LINDO, MARAVILHOSO E GOSTOSO DESSES AÍ, NA TUA CAMA, E VOCÊ ME SAI PARA VER FILME DE CRIANÇA COM ELE, NA SUA NOITE DE LUA DE MEL? VOCÊ É RETARDADA, DEBILÓIDE, ACEREBRADA?
— Terminou de dar piti? — perguntei, calmamente, enquanto a ouvia suspirar do outro lado da linha.
— Não sei, Sakura, vai depender muito para quê, e que tipo de ideia brilhante você quer de mim.
— É tudo muito simples, na verdade. Só preciso de uma boa desculpa para me divorciar dele, sabe?! Perante a lei, e tal. Isso também inclui os pais dele, e o Itachi...
—... — outra longa pausa.
— Er. Desembucha logo, Karin.
E, então, ela desliga a ligação.
Como se eu não tivesse motivos maiores para estar brava com ela! Tsc.
Bom, não seria por que eu estava com uma aliança a mais no dedo, que eu mudaria a minha rotina. Mais do que ela já havia sido alterada, é claro. Então, eu também vesti a minha roupa de corridas, peguei o meu ipod, e me fui para as ruas suar um pouco. E, assim, enquanto corria, eu tentava pensar em alguma coisa para o tal divórcio. Mas ao invés de suar um pouco, eu acabei suando bastante! Depois de quase duas horas correndo, sem ideia alguma, suei tanto que quando uma maldita gotinha de suor, cretinamente salgadinha, caiu no meu olho quase me cegando no meio da rua, e bati em algo que voou para o chão.
— Cacete! Isso é praga sua, só pode ser!!!! — Sasuke resmungou.
— O que está fazendo aí não chão? — eu perguntei, ainda coçando o olho.
— Você está mesmo me perguntando isso? — indagou, irritado.
— Bom, quem mandou cruzar o meu caminho? — resmunguei, cruzando os braços. Eu bem que precisava de um descanso, na verdade.
— Não sei, talvez Deus esteja conspirando com o diabo para colocar você no meu caminho!
— Não fique assim, marido. As coisas poderiam ser piores. — eu disse, estendendo a minha mão para ajuda-lo a se levantar.
Ele a pegou, e comecei a puxá-lo, mas meu celular vibrou no bolso do meu short e tive que soltá-lo para atender a chamada. Foi sem querer, juro que foi. Mas ele caiu de bunda outra vez.
— Alô? — atendi sem olhar para o visor.
— Espero não estar atrapalhando nada. — disse a voz do Itachi.
Então, discretamente, me virei de costas para o Sasuke, que só faltava decolar de tanta raiva.
— Não, tudo bem. Estou na rua correndo.
— Ah. Está tudo bem mesmo?
— Uhum.
— Não quero ser impertinente, mas você tem algum compromisso marcado para hoje? Quero dizer, sei que você deveria estar em lua de mel com o Sasuke, e tal...
— Não, nada marcado.
— Hum. Tem certeza de que está tudo bem mesmo?
— Tudo ótimo.
— Bom, eu estava aqui pensando, como ir para a sua casa está obviamente fora de cogitação, o que acha de você vir para a minha?
— Você está falando sério?
— Claro. — disse, num tom muito casual e despreocupado. Mais despreocupado do que deveria estar, na verdade.
Olhei com o rabo do olho para o Sasuke. Ele já estava de pé, com os braços cruzados sobre o peito que, a propósito, estava exposto por que ele tirou a camisa e a deixou enrolada na cabeça amparando o seu suor. Devo também acrescentar que parecia mais estufado do que o normal.
Como já disse, quando pequena, eu nutria essa doce ilusão de que vida de casado poderia, sim, ser diferente. Ter alguém ao seu lado o tempo todo, alguém que não fosse os seus pais, talvez fosse realmente algo significativo na vida de alguém. Mas, convenhamos, aquilo não poderia ser realmente verdade (e essa era o meu “eu” normal pensando comigo ). Ele era apenas outra pessoa na minha vida — dentre as tantas outras que vieram e se foram. Ele era apenas mais um cara comum, um infeliz que precisa sonhar com uma vida de feitos surreais, com idealizações que servem apenas para mascarar a verdade nua e crua da realidade em que vivia por que não consegue aceitar a verdade. E a verdade é que tudo não passa de uma grande ilusão, em que ele espera que os outros atendam às suas expectativas. Ele não era um herói, não era um salvador, não era um príncipe, não era um cavaleiro... Sasuke era apenas um homem, como outro qualquer, que teve a infelicidade de cruzar no meu caminho.
Eu tinha que aceitar isso também.
Não que eu esperasse algo dele, isto é.
— Ok. Que horas?
— Às 20 horas, pode ser?
— Tudo bem.
— Você acha que o Sasuke não vai suspeitar?
— Não. — e encerrei a ligação.
Eu não me senti muito bem por isso, e me amaldiçoei por isso.
Saco, saco, saco, mil vezes saco!
Por que não era para eu me sentir culpada por estar querendo aproveitar a minha vida, só por que estava casada com ele. Quero dizer, era um casamento falso! Um casamento por dinheiro, por troca de interesses.
Então, comecei a repetir isso para mim mesma como se fosse um mantra.
“Sakura, seu casamento não é verdadeiro! Ele está com você por quer algo de você, e você, dele.”
Mas isso não parecia estar funcionando como deveria! Por que, por mais que eu tentasse, o fato do Itachi estar envolvido na separação dele também martelava na minha cabeça. E não só isso! O modo como o Sasuke olhava para o irmão, num mistura de ressentimentos e mágoas, vinha à tona toda vez que eu pensava em ir até o Itachi. E não conseguia parar de pensar também no que ele poderia me dizer se soubesse que eu estava com ele, durante o nosso tempo de casados, mesmo ele sendo falso. Afinal, sendo um bocó todo sentimentalista, eu suspeitava de que não fosse gostar.
Não que eu me importe com isso...
Decidi que poria um ponto final nessa palhaçada com o Itachi. Não que eu me importasse. Mas o que acontece é que, por mais que eu gostasse de brincar com ele, eu não gostava de ser apenas uma boneca de plástico, para suas satisfações. Não que eu realmente me importasse com isso, na verdade... Mas também havia um diabinho na minha cabeça me dizendo que o Sasuke tinha razão.
Faltavam vinte minutos para me encontrar com o Itachi, quando saí do meu quarto, vestido uma saia, saltos e uma blusa devidamente decotada. Eu colocava o meu relógio no pulso, quando Sasuke, esparramado no meu sofá lendo um livro, me olhou da cabeça aos pés.
— Vai sair?
— Não, me vesti linda e maravilhosamente bem por que vou lá embaixo deixar o lixo na rua. O que acha?
— Eu acho que você exagerou na produção. Lixeiros não ligam para brincos de argola.
— Talvez eu encontre um que goste.
— Escuta, deixa eu te dizer uma coisa...
— Com essa não seriam duas?
— Eu não me importo com o que você faz com a sua vida, desde que isso não me envolva. Ok?
Cruzei os braços, e fiquei olhando para ele sem entender o que ele queria dizer com isso. Mas ele me encarava de volta, pacificamente, sem alterar sua expressão serena, naquela tranquilidade de quem ainda estava lendo um bom livro.
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