Contra ventos e tempestades
1 Capitulo Único
Eles conseguiram.
É inacreditável. Fantástico. Um final digno de filme. Um começo.
É possível se perder no êxtase desse feito, no leque de possibilidades que se abrem com a porta daquele hangar. A ausência dos que foram perdidos de certa forma dormente ante a adrenalina que corre em suas veias.
É uma vitória agridoce, e ainda é cedo demais para que o retrogosto dos erros cometidos possa contaminar os sentimentos desencontrados proporcionados pelo que lhes parecia, até os últimos instantes, uma missão impossível, uma causa perdida.
Quando o grupo se despede, cada qual prestes a seguir o seu caminho, alguns acompanhados, outros sozinhos, as emoções transbordam em lágrimas quentes, abraços apertados, palavras murmuradas e sorrisos partidos.
E diante daqueles que Sergio considera sua família, ele se mantém firme e estoico, oferecendo a fortaleza que falta a Rio, a segurança que Denver e Monica buscam, o apoio que Helsinki necessita, a familiaridade que Palermo espera encontrar.
Até mesmo os mais novos, aqueles que não tiveram a oportunidade de conviver tão de perto com o Professor o seguem com olhos atentos, repletos de admiração e respeito.
Um pouco esgotado e abatido, com as marcas ainda visíveis em seu rosto, Sergio se mantem em pé, guiando os sobreviventes de sua banda a terra firme. Cumprindo o que lhes foi prometido. Mantendo sua palavra.
Olhando à sua volta e observando aquele grupo de personalidades tão distintas e incompatíveis, Raquel enxerga a esperança refletida em seus rostos, quando passada a tormenta, aquele que é e sempre será o seu líder, não se deixa vencer pelos golpes sofridos.
Mas Raquel sabe que as coisas não são assim tão simples.
Quando ele a busca com os olhos, ela não hesita em lhe oferecer um sorriso ainda que trêmulo, seu coração apertado toda vez que ela nota as marcas de exaustão em seu rosto, os hematomas ainda visíveis em sua pele, o tremeluzir de uma chama que tenta se manter acesa em condições completamente adversas por trás de seus olhos escuros.
Ele ainda está aqui, ela tenta lembrar a si mesma, buscando conforto no calor de sua presença. Carne e osso. Voz, lágrimas e riso. Uma mão que vai de encontro à sua naturalmente, porque lhes parece inconcebível estarem assim tão perto e não buscarem um ao outro.
Raquel fecha os olhos deixando-se ancorar pelo seu toque, o contato com a sua pele. A segurança que ela sente apenas por estar ao seu lado, algo que ela não seria capaz de explicar. Algo que ela nunca imaginou que existisse até encontrar Sergio e segurar a sua mão pela primeira vez sobre uma mesa em um pequeno café em Madrid, quando aquele homem tímido e distinto se ofereceu como seu escudo e espada.
Apertando de leve a mão dele com a sua, ela espera que Sergio sinta o mesmo. Que o contato com sua pele a e firmeza de seu toque seja o suficiente para ancorá-lo aqui e agora, não permitindo que ele seja arrebatado quando a realidade dos fatos se fizer concreta e inescapável.
Ela gostaria de poder acreditar que os momentos mais difíceis já passaram, que agora diante deles resta apenas o futuro que eles desejam construir juntos.
Que bonito seria. Mas a realidade não se deixa conduzir por sonhos.
Observando os tons alaranjados do pôr do sol pela janela do helicóptero, com a mão ainda enlaçada a sua, Sergio se encontra fisicamente ali, mas sua mente desde já começa a se desprender, enveredando-se por caminhos que Raquel desconhece. Em terras que não lhe é permitido pisar.
Traumas e fissuras provocadas por uma perda não são uma equação de soma exata.
Às vezes, elas estilhaçam cobrindo tudo a sua volta, como vidro exposto a altas temperaturas. Às vezes elas seguem dormentes, embaladas por um falso senso de segurança proporcionado pelo ritmo desenfreado de eventos que se desdobram fora ao seu controle.
Quando a maré sobe implacável, e tudo o que se pode fazer é tentar manter-se vivo, não há espaço para remoer ações e repercussões, palavras que foram ditas e despedidas que nunca acontecerão.
Mas depois, quando as águas se tornam mais uma vez plácidas e cristalinas, tampouco é possível escapar.
Quando Raquel encontrou Sergio em Palawan, um ano após o desfecho do roubo da Casa da Moeda, ele a recebeu com um sorriso aberto e uma leveza que lhe pareciam tão pouco usuais.
Nem Salva, nem professor, talvez aquele fosse apenas Sergio.
Ou então o efeito dos ares tropicais daquele lugar paradisíaco, a serenidade de alguém que havia conseguido realizar seu maior feito.
Talvez fosse o fato de que de forma tão improvável eles haviam conseguido se encontrar mais uma vez.
Mesmo Raquel, com todos os receios de alguém prestes a saltar de um precipício se deixou levar pela onda de sentimentos que a inundou quando ela ouviu aquela voz e se deparou com aquele sorriso.
A memória somente, ainda capaz de fazer seu coração saltar no peito.
Mas nos meses que se seguiram, quando aprendiam a navegar por uma vida nova juntos, se deparando com os percalços da convivência diária e se descobrindo enquanto mais do que uma paixão platônica, Raquel não pode deixar de notar as sombras que o seguiam, fosse na curva de seus ombros ou nas noites em que ela despertava com a cama fria e vazia, somente para encontrá-lo perdido em seus pensamentos, tão distante que lhe parecia quase impossível alcançá-lo.
Foi quando sob uma nova luz, ela pode enxergar as imperfeições naquela fachada. E pouco a pouco, juntando peças aparentemente desencontradas, colhendo as pequenas porções de informações e pistas que Sergio deixava escapar e tudo aquilo que pairava sobre os dois ainda não dito, foi que Raquel tomou conhecimento do preço que ele havia pagado. E do peso que ele arrastava consigo.
Seu grande plano, ambicioso e épico, havia lhe custado o irmão, seu melhor amigo, a única família que ainda lhe restava.
E afinal restara apenas Sergio.
Sozinho.
Sozinho e distante de tudo e todos que ele havia amado. Acompanhado apenas pelos seus fantasmas e toda aquela culpa por muito, muito tempo. Dias que se converteram em semanas, meses e o que eventualmente ele acreditou ser o restante de seus dias.
Raquel não gosta de pensar em como a solidão se enraizou em seu peito, se aproveitando dos cantos obscuros de seu coração partido. Ou de que forma Sergio conseguiu seguir se levantando todas as manhãs e como todos os seus dias naquele ano em que ele seguiu sozinho foram silenciosos e vazios até que seus caminhos tornassem a se cruzar.
Não que ela o houvesse proporcionado alguma cura milagrosa, um elixir que fizesse todas as suas feridas cicatrizarem ou qualquer coisa do tipo.
Ainda que fosse seu desejo possuir essas habilidades, o que Raquel pôde de fato lhe oferecer foi todo o seu afeto, seus beijos e caricias. O calor de sua pele em noites frescas, o peso de sua cabeça sobre o seu peito enquanto sentia os dedos dele deslizando pelas suas costas. O abrir das cortinas para que o sol voltasse a entrar. Uma casa cheia, com o cheiro do café que sua mãe passava toda manhã, ou o som do riso de Paula quando ela brincava com o gato que insistia em lhes visitar.
Ainda haveriam noites de insônia, silêncios longos e suspiros fraturados quando as memórias voltassem a visitá-lo. Mas cada dia menos. A dor da perda e o peso de suas escolhas, ao invés de uma constante, eventualmente apenas ecos, uma cicatriz que lateja quando o clima está prestes a virar.
Isso é, até Tokyo aparecer com a notícia de que Rio havia sido capturado.
Então toda a vida que eles haviam construído virou de cabeça para baixo.
E nada mais foi o mesmo.
Nem nunca voltaria a ser.
Raquel soube no instante em que seus olhos encontraram os de Sergio, ele pedindo que ela fosse para longe com sua mãe e filha, e ela deixando bem claro que não tinha qualquer intenção de deixá-lo. E que independente do que ele fosse enfrentar, ela jamais permitiria que ele o fizesse sozinho.
Nesse momento, cruzando os céus em direção ao seu destino, com os últimos resquícios dos raios amarelados do sol ainda se derramando sobre seus rostos antes que a noite caia sobre eles, Sergio celebra o que foi de fato uma vitória.
E Raquel se junta a ele, ainda que seu coração siga apertado, sabendo que a felicidade dele, essa que se converte em risos e lágrimas não pode ser nada além de breve, fugaz.
Sabendo que a perda de Agatha e Silene irão lhe custar mais noites em claro, lágrimas silenciosas e um coração roto. O peso de suas ações puxando-o para cada vez mais fundo em um mar de arrependimentos e recordações.
Mas Raquel também sabe que em cada uma dessas noites ela estará ao seu lado, cobrindo o corpo dele com o seu, sussurrando ao seu ouvido, acalmando as batidas descompassadas de seu coração, trazendo-o de volta a superfície de novo e de novo até que ele não se esqueça mais do caminho.
Porque com todo o amor que ela carrega por esse homem, não existe uma realidade em que ela possa fazer qualquer outra coisa que não seja estar ao seu lado para males e bens, ventos e tempestades, noites de tormenta ou mesmo um entardecer como esse de hoje, quando as possibilidades do amanhã ainda parecem maiores do que os eventos de ontem.
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fim.
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