Contra o Reino da Babilônia
1 Os Eleitos
Notas iniciais

Reino de Éfeso, campo de treinamento – 13:00 hrs
O reino de Éfeso, conhecido também como a 1ª Igreja, possuía apenas algumas semelhanças com o seu paradeiro na Terra. Desassociado a muito tempo do mundo, este Éfeso não se trata da atual região turca, mas de uma nação sobrevivente que está em constante batalha para que as vontades do seu Rei se sobressaiam às vontades do seu Inimigo. Éfeso é um reino de guerra espiritual.
Não está localizado em algum lugar específico, e isso realmente pouco importa, pois os seus habitantes não buscam ser encontrados. Naquele dia, um lindo sol se revelava no céu, aquecendo as árvores verdejantes da floresta de Jônia com os seus raios de sol iluminados. As árvores pareciam felizes, pareciam cantar uma música alegre com o som reverberante do chacoalho de suas folhas, e as flores desabrochavam uma a uma, revelando as cores vibrantes de suas pétalas. Nesse ínterim de paz e harmonia, não muito longe dali, próximo à ágora principal, havia um contraste desconfortável entre as cores da natureza e o início de um ambiente de morticínio. Uma fileira de soldados de traje de couro, bronze e ouro, exibindo suas espadas na bainha, estufavam o peito e enrijeciam os ombros diante de seu general. O homem, alto e de belo porte, acompanhado pelo sacerdote religioso, conduzia a moral e a ética de seus soldados perante a guerra que travariam em poucos dias. Assim que ele deu a permissão, o sacerdote falou.
— Não se esqueçam de quem vocês são. Vocês são Eleitos, e isso é mais do que um título, é uma honraria. Ser um Eleito é como ser um primogênito e possuir os direitos de filho mais velho, como a vantagem sobre as terras e o gado de seus genitores. Vocês podem perder o direito, então sejam prudentes como a serpente.
Ele dizia, com calma e seriedade, enquanto caminhava com as mãos por trás das costas, olhando nos olhos de cada um daqueles soldados.
— Nosso reino tem enfrentado um único inimigo durante todos esses anos, e, um dia, nós os derrotaremos, pois é o que está escrito na nossa profecia. Não sabemos quando será o dia, nem a hora, e por isso devemos persistir. Eles sabem que vão perder, mas não vão ceder até lá. São orgulhosos, pretensiosos, imorais, trapaceiros e ardilosos. Estas não são palavras jogadas ao vento, não subestimem o poder que essas pessoas têm, contudo, os destruam e destruam as suas maldades.
Ao chegar próximo do fim da fila, notou uma diferença discrepante entre a altura dos soldados, pois, entre um e outro brutamontes de 2 metros de altura, havia um jovem rapaz de cabelos negros e ondulados a cair pouco abaixo dos ombros, pele clara e olhos azuis. Não era magro, até tinha um porte robusto suficiente que fizesse crer que ele não cairia no primeiro golpe, mas sua estatura média pouco amedrontava. O sacerdote o olhou por um tempo.
— Qual o seu nome?
— Salatiel, senhor.
— Salatiel… — murmurou o general, dessa vez, fazendo com que o sacerdote o encarasse de soslaio — Davi deveria ser o seu nome, pois você só está aqui porque o Rei não me permite te exonerar! Menino inútil…
— Acalme-se, general. O que o menino fez?
Salatiel permaneceu impassível, olhando para frente como se sua vida dependesse disso, indiferente às palavras do mais velho, que prosseguiu.
— Vá ver o histórico dele! Diz que o Rei se comunica pela sua mente e passa mensagens que os nossos mensageiros não recebem, como se ele tivesse algum crédito para se comunicar com o Rei. Ele já se envolveu com os babilônios, quase perdeu o seu título, como ele poderia falar com o Rei com esse histórico tão imundo? Esse menino é louco e só não foi punido porque pediu um perdão público.
O sacerdote o encarou.
— É verdade, isso?
Salatiel suspirou discretamente e assentiu sem dizer uma palavra ou alterar uma sobrancelha em sua expressão apática.
— Se o Rei lhe deu uma chance, não serei eu que anularei isso. Mas tenha cuidado e honre o seu perdão, porque, talvez, não terás outra chance para pedir um segundo.
O moreno escolheu o silêncio. O sacerdote o olhou por alguns instantes antes de retornar a caminhar, ainda não satisfeito, pois queria ter lhe aconselhado melhor, mas o tempo não estava a favor deles.
— O vinho da Babilônia já embriagou as nações ao nosso redor, e poucas realmente resistiram a esse elixir. Perdemos alguns de nossos soldados, não podemos mais aceitar isso. Tenham cuidado com o vinho da Babilônia.
As palavras do sacerdote uma vez finalizadas, o general apontou sua espada para o alto e deu continuidade ao discurso motivador.
— Aprontem suas armaduras, desembainhem suas espadas e preparem-se para lutar!
Os soldados repetiram o gesto, seguido de um grito de guerra e do cântico de batalha.
— "Eu sou geração eleita!
Coração inconformado!
Não me calo e não cedo
Ao reino da Babilônia!
Eu sou geração eleita!
Coração inconformado!
Me levanto neste tempo
Contra o reino da Babilônia!"
Salatiel, todavia, estava pouco animado para entoar.
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Floresta de Jônia – 14:21 hrs
Cansado de mais um dia de treinamento, Salatiel resolveu descansar próximo ao lago, na floresta de Jônia.
Era uma floresta de campos abertos, copas altas e verde para tudo quanto é lado. As flores coloridas ficavam mais ao norte, os animais próximos dos vilarejos não eram maiores que alguns marsupiais, e havia um belo e cristalino rio que fazia a divisa entre o reino de Éfeso e o tão falado reino da Babilônia.
Salatiel pensou: se fosse fazer uma analogia, Jônia seria como o Éden, com os seus mistérios e sua beleza. Era um lugar lindo demais, até mesmo o longínquo horizonte da floresta, já no território inimigo, era verde e brilhoso como se até mesmo os babilônios se preocupassem em preservar aquele espaço. Ele não conseguia compreender como um pedaço de terra lindo como aquele poderia pertencer e ao mesmo tempo separar duas nações rivais e completamente diferentes.
Por um segundo ele fechou os olhos e deixou a brisa suave que se iniciou acariciar os seus cabelos escuros, mas o momento de paz não durou muito, pois sentiu uma segunda presença, o que o fez ficar em estado de alerta.
Lá, do outro lado do rio, a sua mais antiga “aminimiga”.
— Oi, Sal…
Ele suspirou, os seus problemas começaram quando aquela garota entrou na sua vida. Safira sorriu ao ver que ele a havia notado, em seguida atravessou o caminho de pedras, sobre as águas, até pisar no território inimigo, no ponto onde ele estava descansando.
— O que você quer?
— Ué, estou aqui, vulnerável, para que você me ataque. Não vai tirar a espada do seu livrinho e arrancar minha cabeça?
Ela sorriu com malícia, mas Salatiel continuou a olhando como se nada daquelas palavras realmente importasse. Safira balançou sua cabeça por alguns segundos, chacoalhando seus cabelos loiros e curtos, em seguida se acomodou ao seu lado, no gramado. Ele a olhou de soslaio por alguns instantes, viu que ela usava, além de uma blusa vermelha de mangas longas e ombros nus, uma calça justa e botas de couro marrom e cano longo, o que era diferente da moda do seu lugar, porém não era necessariamente algo errado. Ele tentava, mas não conseguia desprezar absolutamente tudo que vinha da Babilônia, não podia negar que eles ganhavam sua atenção em algumas coisas.
— O que foi?
Ele balançou a cabeça negativamente e voltou a olhar o rio. Safira gargalhou.
— Isso tudo é pra não dizer que eu tô bonita? Vamos, pode elogiar, eu não conto pra ninguém.
Ela provocou mais uma vez e viu quando ele sorriu de canto, não resistindo às investidas bobas dela.
— O que você veio fazer aqui? Não vai ganhar nada me provocando, só vai perder seu tempo.
— Não vim te provocar, vim passar um tempo com você. Pensei que você gostasse de mim. A gente era amigo…
— Você quase me deserdou, Safi…
— É, eu sei… mas, se fosse o caso, teria um lugar te esperando lá onde eu moro, você não ficaria sozinho — ela mordeu os lábios, em seguida deixou um sorriso bobo escapar —, hum… gosto de ver que você não deixou de usar o meu apelido.
Ele não respondeu, sua mente se prendeu às palavras dela, o horizonte que observava se tornou uma mera imagem diante dos pensamentos que sobrecarregavam o seu cérebro. Safira viu como ele parecia inerte e se aproximou, beijando a bochecha dele com os seus lábios vermelhos. Por fim, deitou a cabeça em seu ombro, mas Salatiel lentamente se afastou e se levantou.
— Eu não quero nada com a Babilônia. Nem pense que vai me tirar daqui…
Aquilo fez a expressão de Safira se fechar lentamente em frustração. Ela se levantou e levou as mãos à cintura.
— Não acredito que você ainda pensa desse jeito… — ela suspirou — Sal, que se dane essa coisa toda da guerra. Para de pensar nisso. Eu nem ligo pra isso, mas você teima em buscar alguma rivalidade entre a gente. Eu não quero fazer mal a você, não somos inimigos…
— Nós somos, Safira! Só coloque isso na sua cabeça e pare de vir aqui me ver!
Ela o olhou com certo espanto, não esperava que viveria para vê-lo gritar consigo alguma vez na vida. Mesmo muito reservado, Salatiel jamais havia elevado a voz para alguém antes, e somente aquilo foi suficiente para fazer os olhos escuros dela lacrimejarem. Safira engoliu o choro, era orgulhosa demais para se permitir sofrer na sua frente, em seguida olhou para o livro que ainda se encontrava no chão e deu-lhe um chute, fazendo com que o moreno se inclinasse para pegá-lo logo em seguida.
— Pega aí o seu livro… seu idiota.
Por fim, se retirou. Salatiel suspirou e também se afastou, em silêncio, retornando para o seu acampamento.
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Quarto 07 – 15:14 hrs
Assim que chegou, viu o seu colega de quarto deitado na cama, lendo um livro. Ele tinha os cabelos pretos e curtos, a pele escura e os olhos pequenos e incisivos.
— Urias…
— Salatiel… — o homem fechou o livro e encarou o moreno — O que aconteceu com a sua bainha?
Ele olhou para o próprio livro e relembrou tudo o que havia dito à Safira; detestava aquela recordação.
— É melhor cuidar dela.
— Eu sei… — Salatiel abriu o livro e, de lá, retirou uma espada de ouro — e você, o que tá fazendo?
— O que você acha? Não é só o ferreiro que sabe afiar uma espada — ele disse, com um sorriso afirmativo no rosto, levantando discretamente o seu livro. — Estou lendo. Ler e compreender o que está nesse livro é muito mais importante que usá-lo contra os nossos inimigos.
— Aham…
Salatiel não estava muito animado com aquela conversa. Foi até as suas coisas e buscou um lenço para limpar a lâmina de sua espada. Urias olhou mais um pouco para o rapaz, tentando disfarçar como podia.
— Já vi que você não tá bem… — ele murmurou — acho que você devia orar, ou ir em um templo, ou quem sabe se aconselhar com o sacerdote…
— Eu sei o que eu tenho que fazer, Urias, eu conheço as minhas obrigações!
Salatiel estava impaciente. Guardou sua espada novamente e colocou o livro na primeira gaveta da mesa de cabeceira ao lado, em seguida deitou-se na própria cama e virou-se de costas. Urias não se ofendeu, na verdade estava preocupado, mas conseguiu se conter.
— Eu espero que você conheça mesmo…
Ele fechou o livro e pegou uma camisa para sair e tomar um ar. Assim que se retirou, Salatiel pôde enfim pensar sobre tudo o que havia acontecido naquele dia e as palavras que havia recebido das pessoas. Sim, ele conhecia as suas obrigações, e, por conhecê-las, ele não se perdoaria se desagradasse o seu Rei ou os seus superiores ao manter a amizade com a garota do outro lado do rio, mesmo que o seu coração a amasse verdadeiramente.
E como amava. Por isso, ali, em silêncio, apenas para que o seu Rei ouvisse, seu coração chorou; porque sabia, sabia que eles eram inimigos, e que um dia ela seria destruída.
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