Contra o Destino

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Olá, espero que gostem. Boa leitura! ^^ [obs: dialogos em itálico é como se estivessem a falar em francês]

« Tu não precisas de aceitar um destino que não queres »

— Uzumaki Naruto

Ela sabia que era ele, tinha a certeza. Tentou ao máximo apanha-lo, mas assim que cruzou a esquina, perdera-o de vista. Suspirou pesadamente e esfregou a cara com as mãos enquanto tentava normalizar a respiração. Não conseguia acalmar o coração, não depois de tantos anos sem o ver. Olhou mais uma vez para a rua tentando a todo o custo encontra a cabeleira clara dele. Nada, nem um único sinal. Era como se tivesse evaporado de um momento para o outro. Virou o corpo para a direção oposta e começou a caminhar para casa.

Mesmo que estivesse demasiado quente pelo que acontecera, não pode deixar, principalmente à medida que se afastava, de sentir o frio que se começava a fazer. Por mais que não quisesse acreditar, sabia que o natal estava à porta e com isso vinha o frio. Frio e a solidão a que se habituara desde que acabara o secundário. Quem pensaria que alguém como ela, que andara sempre rodeada de pessoas, acabaria por passar o Natal sozinha?

Estava numa cidade desconhecida, tanto pelos lugares como pelas pessoas. A única pessoa que conhecia era a sua vizinha da frente e mesmo assim é como se não conhecesse, uma vez que a senhora tem uma espécie de aversão por jovens adultos e tenta ao máximo expulsar a rapariga do prédio.

Quando reparou, percebera que se tivera engado no caminho, estando já perto do shopping. Decidiu então caminha até lá e deliciar-se com um hambúrguer do seu tão querido McDonald's, afinal era preferível ficar um pouco por ali do que aturar a sua vizinha bater-lhe constantemente à porta, ora porque a música estava alta, ora porque cheirava a comida. E de todas as vezes que fora lá, Elane não se encontra nem a cozinhar, muito menos a ouvir música. Nunca percebera o porquê da implicância, mas sabia que não valia a pena discutir, afinal trava-se de alguém já com alguma idade e sempre fora educada para respeitar os idosos.

☽☾

Deixou o seu corpo ir contra o sofá, pousando os sacos ao lado do mesmo. Estava tão cansada. Tinha tido um dia desgastante no trabalho e aquela corrida atrás dele também não lhe fizera nada bem. As pernas imploravam-lhe por descanso, e por mais que soubesse que amanhã não trabalharia, pressentia que a sua estimada vizinha não a deixaria dormir a partir das nove da manhã. Era provável que ligasse o seu rádio antigo na estação de música tradicional portuguesa e o colocasse na parede que ambas compartilhavam com o volume no máximo. Respirou fundo e levantou-se, caminhando até ao quarto. Lentamente, retirou a roupa quente que vestia e pegou na fina camisa com que dormia e colocou-se debaixo das mil cobertas da cama. De facto não faz muito sentido dormir com aquela peça de roupa de verão e com três cobertores, mas Elane nunca gostara de dormir com muita roupa, preferindo sempre aumentar o número de edredons. Deixou simplesmente o seu nariz de fora, para poder respirar de forma livre.

Pegou no seu telemóvel e pôs a sua playlist de músicas calmas a tocar. A primeira voz que se ouvira fora a de Ryan ao cantar o início da música “Can’t Stop”. Suspirou, tinha logo de dar uma música lhe fazia lembrar-se dele?

Muitas imagens invadiram a sua mente. Imagens do tempo do seu secundário, de todos os amigos que tinha, mas principalmente dele. Do seu cabelo loiro da altura e também dos momentos antes de tingir o mesmo. Sempre preferiu o tom natural, principalmente por causa do motivo que o levou a pô-lo escuro; Tudo por uma rapariga que acabara com ele, pois ele não era o tipo de homem que ela procurava, alegando que preferia morenos. E mesmo que negasse com todas as forças, Elane sempre lhe dissera que ele era uma pessoa muito dramática por mais que fingisse não ligar aos sentimentos e a todas as tretas que isso implicava. Pelo contrário, ela sempre defendera que era natural que ele se magoasse, fazia parte da vida. E se tal não acontecesse, o mais provável seria que o rapaz estivesse dentro de um sonho.

A música mudou, e os seus pensamentos também. Agora centrava-se numa única questão: O que fazia ele ali? É que de todas as pessoas que pudessem sair de França para vir para Portugal, ele seria a última, ou melhor, ele não viria sequer. Não depois de passar dias a tentar convence-la de que não devia sair de lá, não para um país “atrasado” com este. E durante muitos dias, Elane seguiu a sua opinião. Contudo, vários factos fizeram-na mudar de opinião. Um deles fora a proposta de emprego num bom escritório em Guimarães, e outro fora o próprio rapaz. Riu consigo própria. Quem diria que ela também acabaria por ser dramática em relação ao amor?

☽☾

Acordou ao som de Tony Carreira, um senhor muito popular entre as senhoras mais velhas. Elane já se divertira bastante a ver as figuras dessas mesmas mulheres quando fora obrigada a ir com a dona Gertrudes, a acolhedora vizinha, a um concerto. Não havia uma que não se comportasse como uma fangirl num concerto do Justin Bieber e a frase que mais ouvira por parte do público fora “Tony, faz-me um filho!”. Na altura, apesar dos seus dois cursos intensivos de português, ainda não consegui perceber muito bem o que as senhoras diziam, mas quando descobriu achou deveras estranho, uma vez que estas iam para o concerto acompanhadas pelo marido. Eles não achavam isso errado? Não ficavam com ciúmes? Aliás, que faziam eles ali se nem sequer gostavam da música? Elane nunca iria perceber, e de facto nem queria. Aquilo não lhe dizia respeito e provavelmente nem seria interessante o suficiente para que ela se dedicasse horas a tentar entender.

Saiu da cama e dirigiu-se para a cozinha, pondo duas fatias de pão de forma na torradeira e água a aquecer no microondas para o chá. Olhou pela janela, parecia estar um bom dia para ir ler para o parque mais abaixo da sua casa.

Acabou de comer e foi para o quarto vestir-se. Optou pela roupa mais quente do seu armário: uma camisola de lã azul-marinha e uma leggins cardadas juntamente com as suas botas que pareciam pantufas. Dirigiu-se ao quarto de banho para tratar da higiene pessoal. Pegou no telemóvel e na bolsa e saiu de casa.

Sentou-se no banco do costume assim que chegou ao parque. Pegou no livro e abriu-o com a ajuda do marcador. Trata-se de uma história de um casal de jovens que se conhecera por acaso num festa de verão portuguesa, ele era alemão e ela nascera na terra lusófona. O conto mostrava como o destino poderia unir duas pessoas que nunca pensaram que podiam conhecer-se e mesmo não sabendo o desfecho, Elane tinha a certeza que eles acabariam por passar o resto da vida juntos, nem que para isso fosse preciso o destino uni-los uma e outra vez. Klaus e Camila estavam destinados a ficar juntos, por mais que ambos não acreditassem nessas coisas.

Era estranho como tudo acontecera com ela ao contrário. Era amiga de Zac praticamente desde que nascera. Eram vizinhos e as suas mães amigas. Estudaram juntos, sempre na mesma turma e foram melhores amigos durante dezoito anos. Contudo, nos últimos três anos da sua amizade, ela nutrira por ele outro tipo de sentimento, algo mais complexo, amor.

E desde que se “descobrira” apaixonada por Zachary, soube que a sua amizade não seria mais a mesma; iria esperar sempre mais do rapaz e pensou em afastar-se dele várias vezes. E de todas as que tentou, ele não deixara, andando sempre atrás dele como um bebé atrás da mãe. Parecia que quanto mais o ignorasse, mais ele se lembraria dela. Acabou por desistir supondo que o sentimento acabaria por morrer. O problema foi que quanto mais tempo passara com ele, mas se apercebera que talvez ele fosse o destino dela e tentara de tudo para o que ele a observar-se com outros olhos. No entanto, no final do décimo segundo ano, percebera que afinal aquilo não passara de uma ilusão de adolescente, já que Zac se apaixonara por uma miúda vinda de outra escola e esquecera totalmente que Elane existia. Foram perdendo cada vez mais o contacto, até que tomou a decisão de vir para Portugal, achando que se o destino lhe arranjou aquela oportunidade, ela devia aceitar.

Passou uma semana a tentar falar com Zac para lhe contar a notícia, porém ele parecia nunca ter tempo para a ouvir, só tendo olhos para a namorada. Acabou por lhe mandar uma mensagem da véspera do voou, com o horário do mesmo e o nome do aeroporto. Pensou que ele viria despedir-se, todavia nem uma resposta recebeu.

Ainda hoje não consegue descrever a dor que sentiu quando percebeu que afinal todos aqueles anos de amizade não significaram nada, que afinal ela poderia ser substituída por qualquer uma que aparecesse. Decidiu então afastar-se definitivamente dele também. Apagou o seu contacto e todas as fotografias que tinha com ele no telemóvel. Desativou todas as suas redes socias e não falou com mais ninguém da sua antiga escola. Se era para esquecer, teria de faze-lo direito. Pelo menos, naquela altura achara que isso seria o bastante para esquece-lo. Mas agora, depois de ter observado a menos de duzentos metros de si, percebeu que não esquecera um único traço daquela face que várias vezes contemplou às escondidas.

Sentiu o frio fazer-se sentir, desconcentrando-a dos pensamentos e decidiu que já estava na hora de ir para casa. Tinha ficado cerca de uma hora ali e não queria congelar mais as mãos. Guardou o livro na bolsa e colocou as luvas. Caminhou em direção ao prédio com a estranha sensação de estar a ser observada. Olhou várias vezes para trás, mas só encontrou a rua vazia.

☽☾

Pousou o último prato na pia e voltou para a sala com a caneca de chá na mão. Colocou o computador sobre as pernas e pôs a sua serie favorita a dar. Era sexta à noite e isso só significava uma coisa: noite de séries, animes e filmes. Tudo digno da pessoa solitária que se tornara. Via neste momento o último episódio que saíra de Arrow. O episódio já estava disponível desde do dia anterior, porém encontrara-se a trabalhar até tarde, impossibilitando-a de ver o que quer que fosse. Isso só garantia uma maratona de séries para as sextas, seu dia de folga, uma vez que tinha uma série que saia à segunda, outra à quarta e duas à quinta.

Encontrava-se agora numa parte de luta entre Oliver e uns criminosos de outro país que tinham dados sobre a mulher do seu companheiro. Ela adorava este tipo de situação. Stephen Amell transmitia uma sensualidade maior que o costume sempre que protagonizava cenas de ação. Melhor ainda era quando se juntava o seu aprediz, Roy, interpretado por Colton Haynes.

Ouviu a campainha soar. Colocou o vídeo em pausa e pousou o computador no sofá.

— Já vai! — proferiu, enquanto pregava mil e uma pragas à senhora mentalmente. Nem se dera ao trabalho de espreitar para ver quem era – Diga lá o que quer, Dona Gertrudes? – murmurou, num tom irritado. Assim que abrira a porta totalmente, assustou-se com a figura masculina que lá encontrou. Deu um pequeno grito e fechou novamente a porta. Não era possível, seria uma alucinação? Espreitou pelo pequeno orifício que tinha a meio da porta e comprovou que não se trava da sua imaginação. Ele estava mesmo ali.

— Elane deixa-me entrar por favor! — gritou do outro lado. Céus! Como ela sentira falta daquela voz grave e daquele sotaque francês maravilhoso — Por favor Elane, deixa-me ao menos ver-te direito.

Respirou fundo várias vezes antes de tomar uma decisão. Aos poucos, abriu novamente a porta espreitando só com metade da face. Zac abriu um sorriso assim que a viu, mesmo que parcialmente. Ela também queria sorrir, mas o medo ainda a rodeava para que o pudesse fazer. Acabou por abrir a porta toda, fazendo o sorriso do rapaz aumentar, que rapidamente aproveitou a oportunidade para rodear a rapariga com os seus grandes e musculados braços.

— Elane — murmurou junto dos cabelos acobreados dela — Senti tanto a tua falta, minha doce Elane.

Apesar das saudades serem muitas, acabou por se afastar dele. Ele olhou-a confuso e Elane acabou por lhe fazer sinal para entrar. Não queria dar mais um motivo à vizinha para vir espreitar à porta.

— Podes sentar-te se quiseres. Vou só buscar chá — disse de forma rude enquanto se dirigia à cozinha. Soltou todo o ar que prendera e encostou-se à bancada à espera que a água fervesse. Sentia todo o seu corpo tremer e entrar em ebulição sempre que se lembrava que Zac se encontrava na sala. Colocou a água em duas canecas e levou para a sala, pousando na mesinha de centro.

Ao contrário de Zachary, que estava sentado de maneira descontraída, Elane tinha a sua postura tensa. Estiveram durante algum tempo a encarar-se em silêncio.

Achava impossível como ele podia ter ficado inda mais belo. O seu maxilar, que já antes era definido, encontrava-se ainda mais delineado e a sua pele um pouco mais morena. O seu cabelo estava agora no seu tom loiro natural. Possuía uma fina camada de barba e o seu olhar continuava escuro como sempre fora. Ele estava incrivelmente sexy, principalmente por baixo daquele sweater cinzento decorado com pequenas flores coloridas ao centro.

— Que fazes aqui, Zachary? — ele suspirou e passou as mãos pelo cabelo, tornado um ato banal num totalmente sensual aos olhos da ruiva.

— Ah, Elane… — colocou os cotovelos apoiados nos joelhos e pousou a cabeça na mão — Eu não sei o que te responder…

— E esperas que eu saiba? — respondeu, fria.

— Eu simplesmente tinha de te ver…

— Passados cinco anos? Poupa-me Zachary. Diz-me o que se passou, conheço-te desde que nasci, tu não sairias da França por um motivo tão simples, ou pelo menos não por mim.

— Que te leva a crer isso? — perguntou, erguendo o olhar.

— Tudo Zac, tudo. — ele pareceu baralhado e Elane suspirou. Seria uma conversa difícil — Porque não foste despedir-te de mim ao aeroporto? Ou melhor, porque começaste a ignorar-me depois de começares a namorar com a Lorena? E porquê só agora? Passaram cinco anos, Zachary! Cinco anos! — levantou-se e começou a andar pela divisão.

— Eu…

— Tu nada, Zachary! Tu fazes ideia do que eu passei? Fazes? Claro que não! Tu não imaginas o quanto eu chorei por te ter perdido. Ou o quanto eu chorei por me sentir sozinha ou por achar que não era boa o suficiente para ti!

— Eu… Desculpa-me eu-

— Não peças desculpa! Tudo menos isso! Tiveste demasiado tempo para me vir pedir desculpa… Eu só quero que vás embora!

— Eu não vou a lado nenhum, não até me ouvires! — assustou-se com o seu tom de voz autoritário.

Pronto, já não valia a pena discutir, Zac não sairia dali até que falasse o que queria, mesmo que um camião estivesse prestes a atropela-lo. Sem mais alternativas, fez-lhe sinal para que contasse tudo.

— Foi mais ou menos no início do décimo segundo ano… Eu comecei a sentir uma coisa esquisita, sabes? Uma espécie de contração no estomago sempre que te via. Começava a suar muito e o meu coração parecia que ia sair do meu peito. E eu não sabia o que fazer, por isso fui pedir conselhos ao meu irmão mais velho. Ele riu-se de mim e chamou-me estúpido por não perceber o que era óbvio. Disse que eu estava apaixonado por ti! — Elane sentiu o mundo parar assim que o rapaz proferiu a última palavra — Na altura, disse-lhe que estava maluco e que era impossível isso acontecer, já que nós fomos criados como irmãos. E então decidi que devia provar a toda a gente que não estava apaixonado e a Lorena foi a primeira opção que me apareceu. O único problema foi que mesmo com ela, eu continuava a sentir aquela confusão de coisas por ti, por isso decidi cortar aos poucos a nossa relação.

«Eu não queria que a nossa amizade fosse estragada por uma estúpida paixoneta. Logo aquilo acabaria e eu poderia voltar a aproximar-me ti. Só que quando eu reparei, já estávamos no final do ano e eu mal tinha estado contigo, era como se um muro tivesse sido construído à nossa volta e eu não sabia o que fazer, então deixei-o estar. Quando recebi a tua mensagem sobre o voou, fiquei sem reação. Percebi que afinal não devia ter deixado a conversa que tu tanto insistias ter para depois, afinal, não havia depois. »

«Eu quis muito ir ao aeroporto implorar para que ficasses, mas achei que fosse injusto. Que direito tinha eu de implorar o que quer que fosse depois de te abandonar? Também pensei em ir para me despedir, porém eu não o queria fazer. Parecia que se fosse lá e disse adeus, seria para sempre e eu não queria isso! Acabei por ir na mesma, mas não saí do carro. Sou um covarde no final das contas, nem coragem tive para me despedir da pessoa que mais amava… »

— Sai… — murmurou, com a voz fraca. Zac encarou a rapariga que chorava em silencio e implorou-lhe com o olhar para que lhe desse uma oportunidade — Sai, Zac. Sai! — gritou. Ele levantou-se e caminhou para a saída. Olhou mais uma vez para trás e sentiu o seu coração partir-se em mil pedaços ao ver o estado lastimável que se encontrava Elane.

— Desculpa — murmurou antes sair e fechar a porta.

☽☾

Elane chorara a noite toda, ou pelo menos, adormecera e acordara a chorar. As palavras de Zac ecoavam pela sua mente, fazendo-a querer bater com a cabeça até parar de ouvir a voz sedutora do francês. Só queria esquecer; esquece-lo a ele e a tudo o que tenha a ver com ele. Queria arrancar o peito fora para que a dor parasse.

Ele não tinha o direito de chegar lá, depois de cinco anos e dizer-lhe que a amava. Não podia destruir todas as barreiras que ela criara em cinco anos em menos de cinco segundos. Simplesmente não podia.

Soltou um grunhido e afastou as cobertas de um modo torto. Por mais que não tivesse a mínima vontade de trabalhar, sabia que lhe traria problemas simplesmente faltar. Aliás, nunca fora seu costume faltar por problemas pessoais. Trabalho era trabalho, a vida de Elane não interessava dentro daquelas quatro paredes que delimitavam o seu escritório pessoal.

Assim que reunira coragem suficiente, erguera-se da cama e caminhara até ao armário. Tirou de lá umas calças de cinta subida pretas e uma camisola branca simples. Elane nunca gostara de dar nas vistas, então o seu guarda-roupa também não dava. Aliás, ela já estava naquele escritório há cinco anos, mas a única pessoa que a conhecia era o seu o porteiro, e isto porque a via a passar todos os dias e tinha hábito de cumprimentar toda a gente.

Assim que acabou de se vestir, caminhou para o quarto de banho para fazer uma maquilhagem simples. Mesmo que ninguém desse por ela, tinha de estar decente no escritório para o caso de receber uma visita do seu chefe. Quando concluiu tudo, dirigiu-se para o hall de entrada, vestiu o casaco e pegou na bolsa, pondo-a sobre o ombro. Abriu a porta e começou o caminho até à pastelaria do costume.

O sino fora ouvido ao passo que abrira a porta do estabelecimento. Logo viu o sorriso do senhor Alberto, dono do local.

— Bom dia, Elane. Vai ser o de sempre? — assentira e o senhor começara a preparar o seu croissant de chocolate e o seu chá de camomila — Aqui está, menina — a menina respondeu com um aceno de cabeça e começou a comer o seu tão predilecto pastel — Pareces um pouco triste, está tudo bem? — perguntou, no seu tão conhecido tom amável.

— Só estou um pouco cansada, mas uma noite melhor dormida e ficarei como nova — disse com um sorriso, apesar de saber que não isso nunca ia ser suficiente. No entanto, para o senhor, aquilo fora mais que bastante, já que anuíra e fora por mais pão a cozer.

A jovem acabou de comer, pegou na carteira e tirou de lá o dinheiro ao certo para pagar. Acenou a Alberto e caminhou para fora do estabelecimento. Sentiu ar gélido tocar-lhe na face e apertou mais um pouco o casaco, mesmo sabendo que não serviria para nada. Caminhou pelas ruas, tentando ter cuidado com os turistas que se amontoavam para tirar uma foto por baixo da placa que dizia “Aqui nasceu Portugal”.

Uma das coisas que Elane nunca percebera era que, se a cidade de Guimarães fora tão importante para o país, por que motivo o país não a tratava como tal? Quer dizer, os vimaranenses eram completamente patriotas e defendiam a sua terra com unhas e dentes, mas o resto do país parecia ignorar completamente a cidade que muitos turistas trás ao país.

Avistou o prédio onde trabalha e suspirou, seria um longo dia à volta da contabilidade da empresa.

☽☾

A campainha tocou, fazendo Elane tremer. Ela sabia que era ele, tinha a certeza. Conduziu o seu corpo até à porta e espreitou para ver quem era. Um suspirou de alívio saiu pelos seus lábios assim que viu o corpo rechonchudo de Gertrudes. Nunca pensara que fosse sentir-se aliviada por estar a abrir a porta à senhora.

— Elsa, — revirou os olhos. Após cinco anos de vizinhança, a mulher ainda não conseguia dizer o seu nome direito — está aqui um rapaz bonito que fala francês, eu acho que ele se enganou na porta. Mocito anda cá. — a senhora disse, virando-se para Zac que logo apareceu — Vá, já fiz o que devia, agora sê uma boa rapariga e deixa o rapaz entrar. Ele é jeitozinho. Talvez consigas finalmente desencalhar. — Elane revirou os olhos mais uma vez e deu espaço para o jovem entrar — Só não façam muito barulho, se faz favor. Não quero ouvir a vida sexual de ninguém. — fechou-lhe a porta na cara, sem nem lhe responder.

Virou-se para Zachary e encarou-o seriamente. Como se atrevia ele a meter a vizinha nos assuntos deles? É certo que Elane não lhe abriria a porta, mas ele não tinha que o ter feito na mesma.

— Não olhes para mim dessa maneira, tu nunca abririas a porta se viesses que era eu.

— E meter a minha vizinha bisbilhoteira foi a melhor solução que encontraste? — respondeu, enervada.

— Resultou, não resultou? — perguntou-lhe, num tom divertido.

— Resultou mas foi numa semana de boatos sobre a minha vida sexual! — proferiu, ainda mais chateada. O rapaz não conseguiu controlar-se e começou a rir. Logo a sua risada contagiante fez os lábios da ruiva contraírem num pequeno sorriso. Mesmo que estivesse completamente aborrecida com ele, era impossível resistir aquele som melodioso. Zac parou de rir e encarou-a com um sorriso enorme. Ele olhava-a como se ela fosse uma espécie de deusa. E apesar de gostar disso, Elane sentiu-se envergonhar, já que ele parecia despi-la com o olhar. Caminhou em direção à rapariga, que foi fugindo até à parede e segurou-lhe pelos ombros, continuando a olha-la intensamente.

— Eu não consegui parar de pensar em ti um segundo que fosse, Elane — sussurrou num tom completamente rouco, levando Elane a desejar que ele a beijasse — Eu sempre imaginei como seria abraçar-te, ter o teu corpo junto ao meu. Sim, eu sei que já nos abraçamos, mas eu falo de sentir o teu corpo sem nenhum tipo de tecido a atrapalhar. — o corpo da jovem começou a ficar quente, e por mais que negasse, ela gostava disso — Sentir esses lábios finos nos meus. Sentir-te por completo. — e sem perder mais tempo, juntou as suas bocas, puxando-a para si. Elane ficara sem reação ao primeiro, mas assim que percebeu que aquilo que mais quisera estava a acontecer, deixou-se levar. Pôs os braços à volta do pescoço do jovem, deixando as suas mãos correm pelos fios loiros do seu cabelo. Logo as suas costas foram impulsionadas contra a parede e as suas pernas levantaram-se automaticamente, rodeando-lhe a cintura. Ele desceu as suas mãos até ao rabo da jovem e apertou-o levemente, fazendo-a suspirar contra os seus lábios. Zac aproveitou-se disso e enterrou a cabeça no pescoço da jovem, levando-a a soltar ainda mais suspiros com o contacto da sua boca no seu pescoço — Onde fica o quarto, meu doce? — sussurrou junto à sua pele e voltou logo de seguida a beija-la.

— Primeira porta à esquerda… — murmurou, entre gemidos. Ele agarrou-a com mais força e começou a caminhar até lá. Ao chegar perto da porta, bateram contra uma pequena estante, causando gargalhadas no casal. Quando finalmente conseguiram lá chegar, Zac abriu a porta com algum esforço, fechando-a com o pé assim que entraram. Logo Elane sentira o seu corpo ir contra a cama. O loiro aproveitou a oportunidade para tirar a camisa. A rapariga não conseguiu deixar de suspirar assim que vira o corpo definido do rapaz. Sem conseguir controlar, as suas mãos acariciam o seu abdómen musculado. Este arrepiou-se com o toque suave da jovem e baixou-se para lhe beijar os lábios. Rapidamente, os movimentos dos dois ficaram frenéticos, levando a que ambos acabassem sem camisola. Gentilmente, Zachary começou a fazer um caminho de beijos desde os lábios até ao peito da jovem, fazendo-a suspirar cada vez mais. Elane começou a puxar os cabelos dele, fazendo-o gemer também. Quando reparou, já se encontrava a erguer as ancas para conseguir alguma fricção. Ele suspirou e logo desceu a mão até ao botão das calças da jovem, desapertando o mesmo. A rapariga ergueu as pernas, para facilitar o trabalho e logo estava somente de roupa interior. Zac parou alguns segundos para observa-la.

— Linda, simplesmente linda. — murmurou. Antes de voltar a beijar todo o corpo da jovem.

☽☾

Abriu os olhos aos poucos tentando habituar-se com a claridade proveniente da janela. Ao contrário das outras pessoas, Elane deixava sempre o estore um pouco aberto, gostando da agradável sensação de ter a luz solar a entrar pelas pequenas aberturas do mesmo. Sentiu o seu corpo ser puxando e logo a suas costas colidiram com o peito másculo do jovem aloirado. Um sorriso brotou nos seus lábios ao lembrar-se na noite passada. Sim, ela sabia que tinha sido errado, porém, uma vez que o erro já fora cometido, o melhor era aprecia-lo.

Afinal, quantas vezes acordara a meio da noite, quente, por sonhar com Zac? Quantas vezes dera consigo a imaginar nos braços do seu melhor amigo, depois de um pedido de desculpas perfeito? Ah, tê-lo ali era aquilo que ela sempre desejara. E agora que finalmente ali estava, Elane não podia sentir-se mais feliz. Claro que assim que ele acordasse, ambos teriam de ter uma conversa séria sobre tudo.

Um beijo foi depositado no ombro despido da rapariga, fazendo-a sorrir.

— Bom dia, meu amor. — murmurou, com voz rouca.

— Bom dia. — respondeu, antes de vira-se para ele. Imediatamente, um sorriso rasgou a face de Zac e os seus olhos brilharam.

— Vamos tomar o pequeno-almoço? — a ruiva assentiu e preparou-se para vestir o seu pijama, que se encontra no chão perto da cama. Assim que percebera a intenção da rapariga, Zac puxou-a de volta para a cama, deixando-a de joelhos à sua frente. Levantou-se, vestiu os bóxeres e pegou na sua camisa que estava estendida pela secretária da jovem. Voltou para a cama e colocou-se na mesma posição que a miúda. Passou o tecido pelos ombros de Elane e esta esticou os braços para que ele passasse as mangas por eles. Ambos tinham o olhar preso um no outro. Zachary apertou a camisa botão por botão, lentamente, como se aquele gesto significasse tudo aquilo que ficara por dizer — Elane, eu sei que fui uma merda contigo, mas não houve um único dia durante estes cinco anos que eu não pensasse em ti, em nós. E eu sei, após estes cinco anos miseráveis e principalmente depois disto, que nem metade de um dia sobreviveria sem ti. Eu simplesmente não consigo habituar-me ao silêncio desde que foste. E pensar que nem um dia foi preciso para que eu percebesse que sem ti o universo parece estar destruído, como se tudo fosse embora contigo… — o olhar de Zac, que parecera ficar cada vez mais angustiado, ganhou um súbito brilho antes de continuar o seu discurso — Mas agora, depois de te ver, de te sentir, de te ter, eu consigo ver as estrelas outra vez. Consigo vê-las à tua volta e sei que podemos ser felizes juntos se não complicarmos as coisas e tu esqueceres essa treta de destino, afinal ele mais pareceu querer separa-nos. — fez uma pausa — Tu aceitarias ser feliz comigo? — Elane não sabia o que responder, mas não se deu ao trabalho de o fazer. Somente atirou-se para Zachary e beijou-o como se a sua vida dependesse disso.

De facto, ela não podia pedir mais nada. Durante cinco anos acreditou que o destino lhe traria aquilo que ela merecia, mas o que recebera fora a prova que o destino não importa quando há alguém disposto a lutar para que as coisas resultem. Afinal, se Zac simplesmente se conformasse que não iria ver mais Elane, nunca teria vindo atrás dela. Mas não, ele veio e mostrou-lhe que nada é certo se não quisermos. Seriam eles contra o destino e essa ideia agradou a ruiva mais que qualquer história cliché que ela lê-se.

Notas finais
Então, o que acharam? Gostaram? Comentem com a vossa opinião e façam-me feliz, mesmo que digam só "gosto", isso é muito importante para mim. Beijos e um bom 2015 para todos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!